Leia agora
A Lenda de Ulenspiegel

Universo da obra

A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 97 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo XII

98 de 182 ≈ 7 min de leitura

Livro 2 — Capítulo XII

Ulenspiegel e Lamme chegaram ao lugar chamado Minne-Water, Água do Amor, embora os grandes doutores e Wysneusen Sabichões afirmem que é Minre-Water, Água dos Mínimos.

Ulenspiegel e Lamme sentaram-se à margem e viram passar sob as árvores folhudas, cujos ramos se estendiam sobre suas cabeças como uma abóbada baixa, homens, mulheres, meninas e rapazes de mãos dadas, coroados de flores, caminhando quadril contra quadril e olhando-se ternamente nos olhos, sem ver neste mundo coisa alguma além de si mesmos.

Ulenspiegel, pensando em Nele, observava-os. Em sua melancólica lembrança, disse:

— Vamos beber.

Mas Lamme, sem ouvir Ulenspiegel, também contemplava os pares de enamorados.

— Antigamente, minha mulher e eu também passávamos assim, amando-nos diante do nariz daqueles que, como nós agora, se estendem à beira das valas, sem mulher e solitários.

— Vem beber — dizia Ulenspiegel. — Encontraremos os Sete no fundo de uma pinta.

— Conversa de bebedor — respondia Lamme. — Sabes que os Sete são gigantes que não poderiam ficar de pé sob a grande abóbada da igreja de São Salvador.

Ulenspiegel, pensando tristemente em Nele e também em que talvez encontrasse em alguma hospedaria bom alojamento, boa ceia e hospedeira agradável, disse novamente:

— Vamos beber!

Mas Lamme não ouvia e, olhando para a torre de Nossa Senhora, dizia:

— Senhora Santa Maria, padroeira dos amores legítimos, concedei-me tornar a ver seu colo branco, doce travesseiro.

— Vem beber — dizia Ulenspiegel. — Tu a encontrarás numa taverna, exibindo-o aos bebedores.

— Ousas pensar tão mal dela? — dizia Lamme.

— Vamos beber — disse Ulenspiegel. — Sem dúvida é baessinne em algum lugar.

— Conversa de sede — dizia Lamme.

Ulenspiegel prosseguiu:

— Talvez guarde para os pobres viajantes uma travessa de bela carne bovina ensopada, cujo aroma de especiarias perfuma o ar, não muito gordurosa, tenra, suculenta como pétalas de rosa, nadando como peixes de terça-feira gorda entre cravos, noz-moscada, cristas de galo, molejas de vitela e outras iguarias celestiais.

— Malvado! — disse Lamme. — Queres matar-me, sem dúvida. Ignoras que há dois dias só vivemos de pão seco e cerveja fraca?

— Conversa de fome — respondeu Ulenspiegel. — Choras de apetite. Vem comer e beber. Tenho aqui um belo meio florim que pagará as despesas de nossa comilança.

Lamme começou a rir. Foram buscar a carroça e percorreram assim a cidade, procurando a melhor hospedaria. Mas, vendo vários focinhos de baes carrancudos e baessinnes pouco compassivas, seguiram adiante, pensando que cara azeda é péssima tabuleta de cozinha hospitaleira.

Chegaram ao Mercado de Sábado e entraram na hospedaria chamada Blauwe-Lanteern, a Lanterna Azul. Ali havia um baes de boa aparência.

Guardaram a carroça e mandaram pôr o asno no estábulo, em companhia de uma medida de aveia. Fizeram servir a ceia, comeram até se fartar, dormiram bem e se levantaram para comer outra vez. Lamme, rebentando de satisfação, dizia:

— Ouço em meu estômago música celestial.

Quando chegou o momento de pagar, o baes foi até Lamme e lhe disse:

— Deveis-me dez patards.

— Ele os tem — disse Lamme, apontando para Ulenspiegel, que respondeu:

— Não os tenho.

— E o meio florim? — perguntou Lamme.

— Não o tenho — respondeu Ulenspiegel.

— Bela resposta — disse o baes. — Vou tirar de ambos o gibão e a camisa.

Subitamente, Lamme, tomando coragem da garrafa, exclamou:

— E se eu quiser comer e beber, eu, comer e beber, sim, beber por vinte e sete florins e ainda mais, eu o farei. Pensas que não há um vintém válido dentro desta pança? Viva Deus! Até hoje ela só foi alimentada com hortulanos. Nunca trouxeste coisa semelhante sob teu cinto de couro engordurado, pois tens tua miserável gordura no colarinho do gibão, e não, como eu, três polegadas de toucinho saboroso sobre a pança!

O baes caíra em êxtase de fúria. Gago por natureza, queria falar depressa. Quanto mais se apressava, mais espirrava como cachorro saído da água. Ulenspiegel atirava-lhe bolinhas de pão no nariz.

Lamme, animando-se ainda mais, continuou:

— Sim, tenho aqui o bastante para pagar tuas três galinhas magras, teus quatro frangos sarnentos e aquele grande pavão idiota que arrasta a cauda enlameada pelo galinheiro. E, se tua pele não fosse mais seca que a de um galo velho, se teus ossos não estivessem prestes a virar pó dentro do peito, ainda teria o bastante para comer a ti, teu criado ranhoso, tua criada caolha e teu cozinheiro que, se tivesse sarna, teria os braços curtos demais para se coçar.

Vede, prosseguiu ele, vede este belo pássaro que, por meio florim, quer tirar-nos o gibão e a camisa. Dize-me quanto vale teu guarda-roupa, esfarrapado insolente, e eu te darei três liards por ele.

Mas o baes, enfurecendo-se cada vez mais, também soprava cada vez mais.

Ulenspiegel continuava a lançar-lhe bolinhas no rosto.

Lamme, como um leão, dizia:

— Quanto julgas, focinho magro, que vale um belo asno, de focinho fino, orelhas compridas, peito largo e jarretes de ferro? Dezoito florins, pelo menos, não é verdade, baes de panela? Quantos pregos velhos tens em teus cofres para pagar animal tão belo?

O baes soprava ainda mais, mas não ousava mexer-se.

Lamme dizia:

— Quanto julgas que vale uma bela carroça de madeira de freixo pintada de púrpura, inteiramente coberta por cima com lona de Courtrai contra o sol e as chuvas? Vinte e quatro florins, pelo menos, hein? E quanto somam vinte e quatro florins e dezoito florins? Responde, avarento que não sabe calcular. E, como hoje é dia de mercado e há camponeses em tua miserável hospedaria, vou vendê-los imediatamente.

E assim foi feito, pois todos conheciam Lamme. De fato, recebeu por seu asno e sua carroça quarenta e quatro florins e dez patards. Então, fazendo o ouro tilintar sob o nariz do baes, dizia-lhe:

— Farejas o aroma das futuras comilanças?

— Sim — respondeu o hospedeiro.

E dizia baixinho:

“Quando venderes tua pele, comprarei por um liard para fazer dela um amuleto contra a prodigalidade.”

Entretanto, uma linda e graciosa comadre que permanecia no pátio escuro viera muitas vezes olhar Lamme pela janela e se retirava sempre que ele podia ver-lhe o belo rosto.

À noite, na escada, enquanto subia sem luz, tropeçando por causa do vinho que bebera, Lamme sentiu uma mulher enlaçá-lo e beijá-lo na face, na boca e até mesmo no nariz, com avidez, molhando-lhe o rosto com lágrimas amorosas. Depois ela o deixou.

Lamme, sonolento por causa da bebida, deitou-se, dormiu e, no dia seguinte, partiu para Gante com Ulenspiegel.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

A Lenda de Ulenspiegel

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Lenda de Ulenspiegel

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Lenda de Ulenspiegel

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Lenda de Ulenspiegel Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 97 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Lenda de Ulenspiegel

Capa de A Lenda de Ulenspiegel
Continue a leitura Livro 2 — Capítulo XII Capítulo 97 · 98 de 182 · ≈ 7 min
Todos os capítulos 182 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir