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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 102 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo XVII

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Livro 2 — Capítulo XVII

Ulenspiegel e Lamme, montados cada qual num asno que lhes fora dado por Simon Simonsen, um dos fiéis do príncipe de Orange, iam por toda parte, advertindo os burgueses dos negros desígnios do rei sanguinário e sempre atentos às notícias que vinham da Espanha.

Vendiam legumes, vestiam-se como camponeses e percorriam todos os mercados.

Voltando do mercado de Bruxelas, viram, numa casa de pedra situada no cais dos Tijolos, dentro de uma sala baixa, uma bela dama vestida de cetim, de cores vivas, colo abundante e olhos faiscantes.

Ela dizia a uma cozinheira jovem e viçosa:

— Unge-me bem esta frigideira. Não gosto de molho com ferrugem.

Ulenspiegel enfiou o nariz pela janela.

— Eu — disse — gosto de todos, pois ventre faminto não escolhe muito entre os guisados.

A dama voltou-se.

— Quem é esse homenzinho — perguntou — que se intromete em minha sopa?

— Ai de mim, bela senhora — respondeu Ulenspiegel —, se quisésseis apenas preparar um pouco dela em minha companhia, eu vos ensinaria guisados de viajante desconhecidos das belas damas sedentárias.

Depois, estalando a língua, disse:

— Tenho sede.

— De quê? — perguntou ela.

— De ti — respondeu ele.

— É um belo rapaz — disse a cozinheira à dama. — Façamo-lo entrar, para que nos conte suas aventuras.

— Mas são dois — disse a dama.

— Eu cuidarei de um — respondeu a cozinheira.

— Madame — disse Ulenspiegel —, somos dois, é verdade: eu e meu pobre Lamme, que não consegue carregar cem libras sobre as costas, mas leva de boa vontade quinhentas no estômago, em carnes e bebidas.

— Meu filho — disse Lamme —, não zombes de mim, desgraçado homem a quem a pança custa tão caro para encher.

— Hoje ela não te custará um liard — disse a dama. — Entrai ambos.

— Mas — disse Lamme — há também os dois asnos em que estamos montados.

— Não faltam medidas de aveia — respondeu a dama — no estábulo do senhor conde de Meghem.

A cozinheira deixou a frigideira e conduziu ao pátio Ulenspiegel e Lamme com seus asnos, que imediatamente começaram a zurrar.

— Esta é — disse Ulenspiegel — a fanfarra do alimento que se aproxima. Os pobres asnos trombeteiam de alegria!

Depois que ambos desmontaram, Ulenspiegel disse à cozinheira:

— Se fosses uma asna, quererias um asno como eu?

— Se eu fosse mulher — respondeu ela —, desejaria um rapaz de rosto alegre.

— Então o que és, já que não és mulher nem asna? — perguntou Lamme.

— Sou virgem — respondeu ela. — Uma virgem não é mulher nem asna. Compreendes, grande pança?

Ulenspiegel disse a Lamme:

— Não acredites nela. É metade moça perdida e um quarto de duas diabas. Sua malícia carnal já lhe reservou no inferno um lugar sobre um colchão, para ali acariciar Belzebu.

— Malvado zombador — disse a cozinheira —, se teus cabelos fossem crina, eu não os quereria nem mesmo para pisar.

— Eu — disse Ulenspiegel — desejaria comer todos os teus cabelos.

— Língua dourada — disse-lhe a dama —, precisas tê-los todos?

— Não — respondeu Ulenspiegel. — Mil me bastariam, fundidos numa só como vós.

A dama disse-lhe:

— Bebe primeiro uma pinta de bruinbier, come um pedaço de presunto, corta diretamente deste pernil, abre-me esta torta e sorve-me esta salada.

Ulenspiegel juntou as mãos.

— O presunto — disse — é boa carne; a bruinbier, cerveja celestial; o pernil, carne divina; uma torta aberta faz a língua estremecer de prazer dentro da boca; uma salada bem temperada é iguaria digna de príncipe. Mas bendito será aquele a quem derdes por ceia vossa beleza.

— Vede como discursa — disse ela. — Come primeiro, malandro.

Ulenspiegel respondeu:

— Não diremos o benedicite antes das graças?

— Não — disse ela.

Então Lamme, gemendo, disse:

— Tenho fome.

— Comerás — disse a bela dama —, já que não tens outra preocupação além da carne cozida.

— E fresca também, como era minha mulher — disse Lamme.

A cozinheira tornou-se carrancuda ao ouvir aquilo. Ainda assim, comeram em grande abundância e beberam a cântaros. Naquela noite, a dama ainda deu a Ulenspiegel outra ceia, e assim fez no dia seguinte e nos dias posteriores.

Os asnos recebiam porção dupla de aveia, e Lamme, ração dupla. Durante uma semana, ele não deixou a cozinha e brincou com os pratos, mas não com a cozinheira, pois pensava em sua mulher.

Isso irritava a jovem, que dizia não valer a pena atravancar o pobre mundo para pensar somente no próprio ventre.

Enquanto isso, Ulenspiegel e a dama viviam amigavelmente. Certo dia, ela lhe disse:

— Thyl, não tens costumes. Quem és?

— Sou — respondeu ele — um filho que o Feliz Acaso teve um dia com a Boa Fortuna.

— Não falas mal de ti mesmo — disse ela.

— É para impedir que os outros me elogiem — respondeu Ulenspiegel.

— Defenderias teus irmãos perseguidos?

— As cinzas de Claes batem sobre o meu peito — respondeu Ulenspiegel.

— Como estás belo! — disse ela. — Quem é esse Claes?

Ulenspiegel respondeu:

— Meu pai, queimado por causa da fé.

— O conde de Meghem não se parece contigo — disse ela. — Quer fazer sangrar a pátria que amo, pois nasci em Antuérpia, a cidade gloriosa. Fica sabendo que entrou em acordo com o conselheiro de Brabante, Scheyf, para fazer entrar em Antuérpia suas dez companhias de infantaria.

— Eu o denunciarei aos burgueses — disse Ulenspiegel — e partirei agora mesmo, ligeiro como um fantasma.

Foi para lá, e no dia seguinte os burgueses estavam armados.

Contudo, depois de deixarem seus asnos na casa de um seleiro de Simon Simonsen, Ulenspiegel e Lamme tiveram de esconder-se por medo do conde de Meghem, que os mandava procurar por toda parte para enforcá-los, pois lhe haviam dito que dois hereges tinham bebido seu vinho e comido sua carne.

Ficou enciumado e falou disso à bela dama, que rangeu os dentes de raiva, chorou e desmaiou dezessete vezes. A cozinheira fez o mesmo, embora não tantas vezes, e declarou, por sua parte no Paraíso e pela salvação eterna de sua alma, que nem ela nem sua senhora haviam feito outra coisa senão dar os restos do jantar a dois pobres peregrinos que, montados em asnos miseráveis, tinham parado diante da janela da cozinha.

Naquele dia foram derramadas tantas lágrimas que o assoalho ficou inteiramente molhado. Ao ver isso, o senhor de Meghem teve certeza de que elas não mentiam.

Lamme já não ousou mostrar-se na casa do senhor de Meghem, pois a cozinheira sempre o chamava:

— Minha mulher!

Ele ficou muito aflito, pensando na comida, mas Ulenspiegel sempre lhe levava algum bom prato, pois entrava na casa pela rua de Santa Catarina e se escondia no sótão.

No dia seguinte, à hora das vésperas, o conde de Meghem confessou à bela comadre que resolvera fazer entrar em Bois-le-Duc, antes do amanhecer, a soldadesca que comandava. Depois adormeceu. A bela comadre foi ao sótão contar o fato a Ulenspiegel.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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