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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 105 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 2 — Capítulo XX

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Livro 2 — Capítulo XX

Certo dia, Simon disse a Ulenspiegel:

— Escuta, irmão, tens coragem?

— Tenho — respondeu Ulenspiegel — a necessária para açoitar um espanhol até a morte, matar um assassino e destruir um homicida.

— Saberias — perguntou o impressor — permanecer pacientemente dentro de uma chaminé, para ouvir o que se diz num aposento?

Ulenspiegel respondeu:

— Tendo, pela graça de Deus, rins fortes e jarretes flexíveis, poderia permanecer por muito tempo onde quisesse, como um gato.

— Tens paciência e memória? — perguntou Simon.

— As cinzas de Claes batem sobre o meu peito — respondeu Ulenspiegel.

— Escuta, então — disse o impressor. — Tomarás esta carta de baralho, dobrada desta maneira, e irás a Dendermonde. Baterás duas vezes com força e uma vez suavemente à porta da casa cujo aspecto está desenhado aqui. Alguém abrirá e perguntará se és o limpador de chaminés. Responderás que és magro e que não perdeste a carta. Tu a mostrarás. Então, Thyl, farás o que deves.

Grandes desgraças pairam sobre a terra de Flandres. Será mostrada a ti uma chaminé preparada e previamente varrida. Nela encontrarás bons grampos para os pés e, para teu traseiro, uma pequena tábua de madeira firmemente sustentada. Quando aquele que te abriu mandar que subas pela chaminé, tu subirás e ali ficarás quieto.

Ilustres senhores se reunirão no aposento, diante da chaminé em que estarás. São Guilherme, o Taciturno, príncipe de Orange, os condes de Egmont, de Hornes e de Hoogstraeten, e Luís de Nassau, o valente irmão do Taciturno. Nós, reformados, queremos saber o que os senhores desejam e podem empreender para salvar os países.

No primeiro dia de abril, Ulenspiegel fez como lhe haviam ordenado e instalou-se na chaminé.

Ficou satisfeito ao ver que não ardia fogo algum e pensou que, não havendo fumaça, teria assim o ouvido mais apurado.

Pouco depois, a porta da sala abriu-se e uma corrente de ar atravessou-o de um lado a outro. Mas ele suportou o vento com paciência, dizendo que aquilo lhe refrescaria a atenção.

Então ouviu os senhores de Orange, de Egmont e os outros entrarem na sala. Começaram a falar dos temores que sentiam, da cólera do rei e da má administração dos dinheiros e das finanças.

Um deles falava em tom áspero, altivo e claro. Era d’Egmont. Ulenspiegel reconheceu-o, assim como reconheceu Hoogstraeten por sua voz rouca, Hornes por sua voz grossa, o conde Luís de Nassau por sua fala firme e guerreira, e o Taciturno porque pronunciava lentamente todas as palavras, como se pesasse cada uma numa balança.

O conde d’Egmont perguntou por que os reuniam pela segunda vez, quando em Hellegat haviam tido tempo suficiente para decidir o que desejavam fazer.

Hornes respondeu:

— As horas passam depressa, o rei se enfurece. Guardemo-nos de contemporizar.

O Taciturno disse então:

— Os países estão em perigo. É preciso defendê-los contra o ataque de um exército estrangeiro.

D’Egmont respondeu, exaltando-se, que achava espantoso que o rei ou senhor julgasse necessário enviar um exército, quando tudo fora pacificado pelos cuidados dos nobres, principalmente pelos seus.

Mas o Taciturno disse:

— Filipe possui nos Países Baixos catorze companhias de ordenança, cujos soldados são todos devotados àquele que comandou em Gravelines e Saint-Quentin.

— Não compreendo — disse d’Egmont.

O príncipe respondeu:

— Não direi mais nada, mas serão lidas diante de vós e dos senhores aqui reunidos algumas cartas, começando pelas do pobre prisioneiro Montigny.

Em suas cartas, o senhor de Montigny escrevia:

“O rei está extremamente furioso com o que aconteceu nos Países Baixos e, chegada a hora, punirá os causadores dos tumultos.”

Ao ouvir isso, o conde d’Egmont disse que estava com frio e que seria bom acender um grande fogo de lenha.

Assim se fez, enquanto os dois senhores conversavam sobre as cartas.

O fogo não pegou, por causa da grande rolha que havia na chaminé, e a sala ficou cheia de fumaça.

O conde de Hoogstraeten leu então, tossindo, as cartas interceptadas de Alava, embaixador da Espanha, dirigidas à Governadora.

— O embaixador — disse ele — escreve que todo o mal ocorrido nos Países Baixos aconteceu por obra dos três, a saber: os senhores de Orange, d’Egmont e de Hornes. É preciso, diz o embaixador, mostrar boa cara aos três senhores e dizer-lhes que o rei reconhece conservar aqueles países em obediência graças aos serviços deles. Quanto aos outros dois, Montigny e de Berghes, estão onde devem permanecer.

— Ah! — dizia Ulenspiegel consigo. — Prefiro uma chaminé fumacenta no país de Flandres a uma prisão fresca na Espanha, pois ali crescem garrotes entre as paredes úmidas.

O referido embaixador acrescentava que o rei dissera na cidade de Madri:

“Por tudo quanto aconteceu nos Países Baixos, nossa reputação real foi diminuída, o serviço de Deus foi aviltado, e exporemos todos os nossos outros países antes de deixar impune semelhante rebelião. Estamos decidido a ir pessoalmente aos Países Baixos e solicitar a assistência do papa e do imperador. Sob o mal presente encontra-se o bem futuro. Reduziremos os Países Baixos à nossa obediência absoluta e ali modificaremos, segundo nossa vontade, o Estado, a religião e o governo.”

— Ah, rei Filipe — dizia Ulenspiegel consigo —, se eu pudesse modificar-te à minha maneira, sofrerias sob meu bastão flamengo uma grande modificação nas coxas, nos braços e nas pernas. Eu te colocaria a cabeça no meio das costas, presa com dois pregos, para ver se, nesse estado, contemplando o cemitério que deixas atrás de ti, ainda cantarias a teu gosto tua canção de modificação tirânica.

Trouxeram vinho. Hoogstraeten levantou-se e disse:

— Bebo aos países!

Todos fizeram como ele. Depois de pousar sobre a mesa a taça vazia, acrescentou:

— A hora funesta soa para a nobreza belga. É preciso considerar os meios de nos defendermos.

Esperando resposta, olhou para d’Egmont, que não disse palavra.

Mas o Taciturno falou:

— Resistiremos, se d’Egmont, que em Saint-Quentin e Gravelines fez a França tremer duas vezes e possui inteira autoridade sobre os soldados flamengos, vier em nosso auxílio e impedir o espanhol de entrar em nossos países.

O senhor d’Egmont respondeu:

— Tenho opinião respeitosa demais do rei para acreditar que devamos armar-nos como rebeldes contra ele. Aqueles que temem sua cólera podem retirar-se. Eu permanecerei, pois não tenho meio algum de viver sem sua ajuda.

— Filipe pode vingar-se cruelmente — disse o Taciturno.

— Tenho confiança — respondeu d’Egmont.

— Incluindo a cabeça? — perguntou Luís de Nassau.

— Incluindo — respondeu d’Egmont — cabeça, corpo e devoção, que pertencem a ele.

— Amado e fiel, farei como tu — disse Hornes.

O Taciturno disse:

— É preciso prever e não esperar.

Então o senhor d’Egmont falou com violência:

— Mandei enforcar em Grammont vinte e dois reformados. Se as pregações cessarem e os destruidores de imagens forem castigados, a cólera do rei se acalmará.

O Taciturno respondeu:

— Há esperanças incertas.

— Armemo-nos de confiança — disse d’Egmont.

— Armemo-nos de confiança — disse Hornes.

— É de ferro que devemos armar-nos, e não de confiança — respondeu Hoogstraeten.

Ao ouvir isso, o Taciturno fez sinal de que desejava partir.

— Adeus, príncipe sem terra — disse d’Egmont.

— Adeus, conde sem cabeça — respondeu o Taciturno.

Luís de Nassau disse então:

— O açougueiro fica com o carneiro, e a glória, com o soldado que salva a terra dos pais!

— Não posso nem quero fazê-lo — disse d’Egmont.

— Que o sangue das vítimas — disse Ulenspiegel — recaia sobre a cabeça do cortesão!

Os senhores retiraram-se.

Ulenspiegel desceu então da chaminé e foi imediatamente levar as notícias a Praet. Este disse:

— D’Egmont é traidor. Deus está com o príncipe.

O duque! O duque em Bruxelas! Onde estão os cofres-fortes que possuem asas?

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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