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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 111 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo VII

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Livro 3 — Capítulo VII

Estando em Ypres, Ulenspiegel recrutava soldados para o príncipe. Perseguido pelos apanha-carne do duque, apresentou-se como sacristão ao preboste de Saint-Martin.

Teve por companheiro um sineiro chamado Pompilius Numan, covarde de alto coturno que, à noite, tomava a própria sombra pelo diabo e a camisa por um fantasma.

O preboste era gordo e roliço como uma franga cevada no ponto para o espeto. Ulenspiegel logo viu de que erva ele pastava para criar tamanho toucinho. Segundo soube pelo sineiro e viu com os próprios olhos, o preboste almoçava às nove horas e ceava às quatro. Ficava na cama até as oito e meia; depois, antes do almoço, ia passear pela igreja para verificar se os cofres dos pobres estavam bem cheios.

E metia a metade na própria bolsa.

Às nove horas, almoçava uma tigela de leite, meia perna de carneiro, uma pequena torta de garça e esvaziava cinco canecos de vinho de Bruxelas. Às dez, chupando algumas ameixas secas e regando-as com vinho de Orléans, pedia a Deus que nunca o induzisse à glutonaria. Ao meio-dia, para passar o tempo, mastigava uma asa e o traseiro de uma ave. À uma hora, pensando na ceia, bebia um grande trago de vinho da Espanha; depois, estendendo-se na cama, refrescava-se com um breve sono.

Ao despertar, comia um pouco de salmão salgado para aguçar o apetite e esvaziava um grande caneco de dobbel-knol de Antuérpia. Em seguida, descia à cozinha, sentava-se diante da lareira e do belo fogo de lenha que ali ardia. Ficava olhando assar e dourar, para os monges da abadia, uma grande peça de vitela ou um leitão bem escaldado, que teria comido com mais gosto que um pão inteiro. Mas faltava-lhe um pouco de apetite.

E contemplava o espeto que girava sozinho como por milagre. Era obra de Pieter van Steenkiste, ferreiro residente na castelania de Courtrai. O preboste pagara por um desses espetos quinze libras parisis.

Depois subia novamente à cama e, cochilando por causa do cansaço, despertava por volta das duas para engolir um pouco de geleia de porco regada com vinho da Romanha, a duzentos e quarenta florins a peça. Às três, comia um passarinho com açúcar da Madeira e esvaziava duas taças de malvasia, a dezessete florins o barrilete. Às três e meia, tomava metade de um pote de compota e a regava com hidromel. Bem desperto então, segurava um dos pés com as mãos e descansava pensativo.

Chegada a hora da ceia, o cura de Saint-Jean vinha muitas vezes visitá-lo naquele momento suculento. Por vezes disputavam para ver quem comeria mais peixe, aves, caça e carne. Aquele que se enchesse primeiro devia pagar ao outro um prato de carbonadas com três vinhos quentes, quatro especiarias e sete legumes.

Assim, bebendo e comendo, conversavam sobre os hereges, concordando, de resto, que nunca se podia destruir um número suficiente deles. Por isso jamais brigavam, exceto quando discutiam as trinta e nove maneiras de preparar boas sopas de cerveja.

Depois, inclinando as veneráveis cabeças sobre as panças sacerdotais, roncavam. Às vezes, despertando pela metade, um deles dizia que a vida era coisa muito doce neste mundo e que os pobres não tinham razão de se queixar.

Foi desse santo homem que Ulenspiegel se tornou sacristão. Servia-o muito bem durante a missa, não sem encher três vezes as galhetas, duas para si e uma para o preboste. O sineiro Pompilius Numan ajudava-o nisso quando havia ocasião.

Ulenspiegel, vendo Pompilius tão viçoso, balofo e rechonchudo, perguntou-lhe se fora no serviço do preboste que acumulara aquela saúde invejável.

— Sim, meu filho — respondeu Pompilius. — Mas fecha bem a porta, para que ninguém nos escute.

Depois, falando bem baixo:

— Sabes — disse ele — que nosso senhor preboste ama ternamente todos os vinhos e cervejas, todas as carnes e aves. Por isso guarda as carnes numa arca e os vinhos numa adega, cujas chaves leva sempre na bolsa. E adormece com as mãos sobre ela... À noite, quando dorme, vou tirar-lhe as chaves de cima da pança e depois as devolvo, não sem tremer, meu filho; pois, se soubesse de meu crime, mandaria ferver-me vivo.

— Pompilius — disse Ulenspiegel —, não deves ter tamanho trabalho. Basta pegar as chaves uma única vez; farei outras pelo modelo e deixaremos as originais sobre a pança do bom preboste.

— Faze-as, meu filho — disse Pompilius.

Ulenspiegel fez as chaves. Assim que ele e Pompilius julgavam, por volta das oito horas da noite, que o bom preboste dormia, desciam e escolhiam carnes e garrafas à vontade. Ulenspiegel carregava as garrafas, e Pompilius, as carnes, porque Pompilius tremia sempre como uma folha, e presuntos e pernas de carneiro não se quebram quando caem.

Por várias vezes se apoderaram de aves antes de serem cozidas, pelo que foram acusados diversos gatos da vizinhança, condenados à morte por esse delito.

Depois iam à Ketel-Straat, a rua das moças de vida alegre. Ali nada poupavam, dando generosamente às suas amadas carne bovina defumada e presunto, cervelas e aves, e fazendo-as beber vinho de Orléans e da Romanha, além de Ingelsche bier, que chamam ale do outro lado do mar e que vertiam aos borbotões nas frescas gargantas das belas.

E eram pagos em carícias.

Entretanto, certa manhã, depois do almoço, o preboste mandou chamar os dois. Tinha um aspecto terrível e chupava, não sem cólera, um osso com tutano mergulhado na sopa.

Pompilius tremia dentro das calças, e sua pança sacudia de medo. Ulenspiegel, mantendo-se calado, apalpava agradavelmente no bolso as chaves da adega.

Falando-lhe, disse o preboste:

— Bebem meu vinho e comem minhas aves. Foste tu, meu filho?

— Não — respondeu Ulenspiegel.

— E esse sineiro — disse o preboste, apontando Pompilius — não terá metido as mãos no crime? Pois está pálido como um agonizante, certamente porque o vinho roubado lhe serve de veneno.

— Ai, senhor! — respondeu Ulenspiegel. — Acusais injustamente vosso sineiro, pois, se ele está pálido, não é por ter bebido vinho, mas por não aspirar o bastante dele. Por isso se encontra tão frouxo que, se ninguém o detiver, sua alma lhe escorrerá em riachos pelas calças.

— Há pobres neste mundo — disse o preboste, bebendo um grande trago de vinho em seu caneco. — Mas dize-me, meu filho, tu que tens olhos de lince, não viste os ladrões?

— Ficarei bem atento, senhor preboste — respondeu Ulenspiegel.

— Que Deus vos conserve alegres, meus filhos — disse o preboste —, e vivei sobriamente, pois é da intemperança que nos vêm muitos males neste vale de lágrimas. Ide em paz.

E abençoou-os.

Depois chupou ainda outro osso com tutano na sopa e bebeu mais um grande trago de vinho.

Ulenspiegel e Pompilius saíram.

— Aquele sovina infame — disse Ulenspiegel — não teria dado nem sequer uma gota de vinho para beberes. Será obra santa roubar-lhe mais. Mas o que tens, que tremes assim?

— Minhas calças estão todas molhadas — disse Pompilius.

— A água seca depressa, meu filho — respondeu Ulenspiegel. — Mas alegra-te: esta noite haverá música de garrafas na Ketel-Straat. E embriagaremos os três guardas noturnos, que guardarão a cidade roncando.

E assim se fez.

Aproximava-se, entretanto, o dia de Saint-Martin. A igreja estava enfeitada para a festa.

Ulenspiegel e Pompilius entraram nela durante a noite, fecharam bem as portas, acenderam todas as velas, pegaram uma viola e uma gaita de foles e começaram a tocar o melhor que sabiam. E as velas ardiam como sóis.

Mas isso ainda não foi tudo.

Terminada a obra, foram procurar o preboste, a quem encontraram de pé, apesar da hora avançada, roendo um tordo, bebendo vinho do Reno e arregalando os olhos ao ver iluminados os vitrais da igreja.

— Senhor preboste — disse-lhe Ulenspiegel —, quereis saber quem come vossas carnes e bebe vossos vinhos?

— E aquela iluminação? — disse o preboste, apontando os vitrais da igreja. — Ah, Senhor Deus! Permitiríeis ao senhor Saint-Martin queimar assim, de noite e sem pagar, as velas dos pobres monges?

— Ele faz coisas muito piores, senhor preboste — disse Ulenspiegel. — Mas vinde.

O preboste pegou o báculo e os seguiu. Entraram na igreja.

Ali viu, no meio da grande nave, todos os santos descidos de seus nichos, dispostos em círculo e comandados, ao que parecia, por Saint-Martin, que os superava a todos pela cabeça e, no dedo indicador da mão estendida para abençoar, trazia um peru assado.

Os outros seguravam ou levavam à boca pedaços de frango ou de ganso, salsichões, presuntos, peixe cru e peixe cozido, entre os quais um lúcio que pesava umas catorze libras. E cada um tinha a seus pés uma garrafa de vinho.

Diante desse espetáculo, o preboste, fora de si de cólera, ficou tão vermelho e seu rosto se tornou tão inchado que Pompilius e Ulenspiegel pensaram que iria estourar. Mas o preboste, sem lhes dar atenção, caminhou diretamente para Saint-Martin, ameaçando-o como se quisesse imputar-lhe o crime dos demais; arrancou-lhe o peru do dedo e bateu nele com tanta força que lhe quebrou o braço, o nariz, o báculo e a mitra.

Quanto aos outros, não lhes poupou pancadas, e mais de um deixou sob seus golpes braços, mãos, mitra, báculo, foice, machado, grelha, serra e outros emblemas de dignidade e martírio.

Depois o preboste, sacudindo a pança, foi ele próprio apagar todas as velas com fúria e rapidez.

Carregou tudo o que pôde de presuntos, aves e salsichões e, curvado sob o fardo, voltou ao quarto, tão desgostoso e enfurecido que bebeu, um após outro, três grandes frascos de vinho.

Ulenspiegel, certificando-se de que ele dormia, levou para a Ketel-Straat tudo o que o preboste julgava ter salvado e também tudo o que restava na igreja, não sem antes cearem ali os melhores pedaços.

E colocaram os restos aos pés dos santos.

No dia seguinte, enquanto Pompilius tocava o sino das matinas, Ulenspiegel subiu ao dormitório do preboste e pediu-lhe que descesse outra vez à igreja.

Ali, mostrando-lhe os restos dos santos e das aves, disse:

— Senhor preboste, de nada vos adiantou. Eles comeram tudo assim mesmo.

— Sim — respondeu o preboste —, vieram até o dormitório, como ladrões, tomar aquilo que eu havia salvado. Ah, senhores santos, vou queixar-me de vós ao papa.

— Sim — respondeu Ulenspiegel —, mas depois de amanhã será a procissão. Os operários virão logo à igreja. Se virem todos esses pobres santos mutilados, não temeis ser acusado de iconoclastia?

— Ah, senhor Saint-Martin — disse o preboste —, poupai-me do fogo; eu não sabia o que fazia.

Depois, voltando-se para Ulenspiegel, enquanto o medroso sineiro se balançava nas cordas:

— Jamais conseguiremos consertar Saint-Martin até domingo — disse ele. — Que farei, e o que dirá o povo?

— Senhor — respondeu Ulenspiegel —, é preciso recorrer a um subterfúgio inocente. Colaremos uma barba no rosto de Pompilius, que já é bastante respeitável por andar sempre melancólico; vestiremos nele a mitra, a alva, a murça e o grande manto de tecido dourado do santo; recomendaremos que fique bem imóvel sobre o pedestal, e o povo o tomará pelo Saint-Martin de madeira.

O preboste dirigiu-se a Pompilius, que se balançava nas cordas:

— Para de tocar e escuta-me. Queres ganhar quinze ducados? No domingo, dia da procissão, serás Saint-Martin. Ulenspiegel te vestirá como convém. E se, enquanto fores carregado por teus quatro homens, fizeres um gesto ou disseres uma palavra, mandarei ferver-te vivo no óleo do grande caldeirão que o carrasco acaba de construir na praça dos Mercados.

— Monsenhor, agradeço-vos — disse Pompilius —, mas sabeis que tenho dificuldade em conter minhas águas.

— Deves obedecer — replicou o preboste.

— Obedecerei, monsenhor — disse Pompilius, muito lastimosamente.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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