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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 116 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XII

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Livro 3 — Capítulo XII

Encontrando-se nos arredores de Liège, o Taciturno, antes de atravessar o Mosa, fazia marchas e contramarchas, confundindo assim a vigilância do duque.

Ulenspiegel, ocupado em seus deveres de soldado, manejava habilmente o arcabuz de roda e mantinha bem abertos os olhos e os ouvidos.

Naquele tempo chegaram ao acampamento fidalgos flamengos e brabanções, que conviviam amigavelmente com os senhores, coronéis e capitães da comitiva do Taciturno.

Logo se formaram no acampamento dois partidos, que não cessavam de brigar entre si. Uns diziam:

— O príncipe é traidor.

Os outros respondiam que os acusadores haviam mentido pela garganta e que os fariam engolir a mentira.

A desconfiança crescia como uma mancha de óleo. Chegaram às vias de fato em grupos de seis, oito e doze homens, combatendo uns contra os outros com todas as armas próprias do duelo, até mesmo arcabuzes.

Certo dia, o príncipe acorreu ao ruído, caminhando entre os dois partidos. Uma bala arrancou-lhe a espada do flanco. Ele fez cessar o combate e percorreu todo o acampamento para se mostrar, a fim de que não se dissesse:

“Morto o Taciturno, morta a guerra.”

No dia seguinte, por volta da meia-noite, sob um tempo de neblina, Ulenspiegel, prestes a sair de uma casa onde fora cantar uma canção de amor flamenga para uma moça valã, ouviu junto à porta da choupana vizinha o crocitar de um corvo repetido três vezes.

Outros crocitares responderam ao longe, três vezes por três vezes.

Um camponês apareceu à entrada da choupana. Ulenspiegel ouviu passos no caminho.

Dois homens, falando espanhol, aproximaram-se do camponês, que lhes perguntou na mesma língua:

— Que fizestes?

— Bom trabalho — responderam eles —, mentindo em favor do rei. Graças a nós, capitães e soldados desconfiados dizem uns aos outros:

“É por vil ambição que o príncipe resiste ao rei; espera assim ser temido e receber, como garantia de paz, cidades e senhorios. Por quinhentos mil florins, abandonará os valentes senhores que combatem pelas terras. O duque mandou oferecer-lhe anistia completa, com promessa e juramento de devolver seus bens a ele e a todos os altos chefes do exército, caso se submetam novamente à obediência do rei. Orange tratará sozinho com ele.”

Os fiéis do Taciturno nos respondiam:

“As ofertas do duque são armadilha traiçoeira. Ele não cairá nela, lembrando-se dos senhores de Egmont e Hoorn. Sabem muito bem que o cardeal de Granvelle, estando em Roma, disse, por ocasião da prisão dos condes: Apanharam-se os dois gobiões, mas deixou-se escapar o lúcio; nada se apanhou, pois ainda falta prender o Taciturno.”

— É grande a divisão no acampamento? — perguntou o camponês.

— Grande é a divisão — responderam eles —, e maior a cada dia.

— Onde estão as cartas?

Entraram na choupana, onde se acendeu uma lanterna. Olhando através de uma pequena lucarna, Ulenspiegel os viu romper o selo de duas missivas, alegrar-se com a leitura, beber hidromel e finalmente sair, dizendo ao camponês, em língua espanhola:

— Acampamento dividido, Orange preso. Será boa limonada.

— Esses não podem continuar vivos — disse Ulenspiegel consigo mesmo.

Eles saíram em meio à densa neblina. Ulenspiegel viu o camponês entregar-lhes uma lanterna, que levaram consigo.

Como a luz da lanterna era frequentemente interceptada por uma forma negra, supôs que caminhavam um atrás do outro. Preparou o arcabuz e disparou contra a forma escura.

Viu então a lanterna baixar e erguer-se várias vezes e julgou que, tendo um dos dois caído, o outro procurava ver a natureza do ferimento.

Preparou de novo o arcabuz.

Depois, como a lanterna seguia sozinha, rápida e oscilante na direção do acampamento, disparou novamente. A lanterna vacilou, caiu, apagou-se, e fez-se a escuridão.

Correndo então em direção ao acampamento, viu o preboste saindo com uma multidão de soldados despertados pelos tiros de arcabuz.

Ulenspiegel, aproximando-se deles, disse:

— Eu sou o caçador; ide recolher a caça.

— Flamengo alegre — disse o preboste —, falas de maneira diferente da língua.

— Palavras da língua são vento — respondeu Ulenspiegel. — Palavras de chumbo permanecem no corpo dos traidores. Mas segui-me.

Conduziu-os, munidos de lanternas, ao lugar onde os dois haviam caído.

De fato, viram-nos estendidos no chão, um morto, o outro agonizante e segurando a mão contra o peito, onde se encontrava uma carta amarrotada num último esforço de vida.

Carregaram os corpos, que pelas roupas reconheceram como corpos de fidalgos, e chegaram com suas lanternas diante do príncipe, então ocupado em conselho com Frédéric de Hollenhausen, o margrave de Hesse e outros senhores.

Seguidos por lansquenetes, reiters e soldados de casacas verdes e amarelas, chegaram diante da tenda do Taciturno, pedindo aos gritos que ele os recebesse.

Ele saiu.

Então, cortando a palavra ao preboste, que tossia e se preparava para acusá-lo, Ulenspiegel disse:

— Monsenhor, matei, em lugar de corvos, dois nobres traidores de vossa comitiva.

Depois contou o que vira, ouvira e fizera.

O Taciturno não disse palavra.

Os dois corpos foram revistados na presença dele, Guilherme de Orange, o Taciturno; de Friedrich de Hollenhausen; do margrave de Hesse; de Dieterich de Schoonenbergh; do conde Albert de Nassau; do conde de Hoogstraete; de Antoine de Lalaing, governador de Malines; dos soldados e de Lamme Goedzak, que tremia em sua pança.

Foram encontradas sobre os fidalgos cartas seladas de Granvelle e Noircarmes, nas quais eram instigados a semear a divisão na comitiva do príncipe, para assim diminuir suas forças, obrigá-lo a ceder e entregá-lo ao duque, a fim de ser decapitado conforme seus merecimentos.

“Era preciso”, diziam as cartas, “proceder com sutileza e por palavras encobertas, para que os homens do exército acreditassem que o Taciturno já havia feito, em benefício próprio, um acordo particular com o duque. Seus capitães e soldados, enfurecidos, fariam dele prisioneiro. Como recompensa, enviava-se a cada um deles uma ordem de pagamento de quinhentos ducados sobre os Függer de Antuérpia. Receberiam mil assim que chegassem da Espanha à Zelândia os quatrocentos mil que eram esperados.”

Descoberto o complô, o príncipe, sem falar, voltou-se para os fidalgos, senhores e soldados, entre os quais havia muitos que desconfiavam dele. Mostrou-lhes os dois corpos em silêncio, querendo com esse gesto censurar-lhes a desconfiança.

Todos exclamaram em grande tumulto:

— Longa vida a Orange! Orange é fiel às terras!

Quiseram, por desprezo, lançar os cadáveres aos cães, mas o Taciturno disse:

— Não são os corpos que se devem lançar aos cães, mas a fraqueza de espírito que faz duvidar das intenções puras.

E os senhores e soldados gritaram:

— Viva o príncipe! Viva Orange, amigo das terras!

E suas vozes foram como um trovão ameaçando a injustiça.

E o príncipe, mostrando os corpos, disse:

— Enterrai-os cristãmente.

— E eu? — perguntou Ulenspiegel. — Que se fará de minha carcaça fiel? Se agi mal, que me deem pancadas; se agi bem, que me concedam recompensa.

O Taciturno então falou e disse:

— Este arcabuzeiro receberá, em minha presença, cinquenta golpes de madeira verde, por haver matado sem ordem dois fidalgos, em grande desprezo de toda disciplina. Receberá também trinta florins por ter visto e ouvido bem.

— Monsenhor — respondeu Ulenspiegel —, se primeiro me dessem os trinta florins, eu suportaria com paciência os golpes de madeira verde.

— Sim, sim — gemia Lamme Goedzak. — Dai-lhe primeiro os trinta florins; ele suportará o resto com paciência.

— Além disso — dizia Ulenspiegel —, tendo a alma limpa, não preciso ser lavado com carvalho nem enxaguado com corniso.

— Sim — gemia novamente Lamme Goedzak —, Ulenspiegel não precisa ser lavado nem enxaguado. Tem a alma limpa. Não o laveis, meus senhores, não o laveis.

Depois de Ulenspiegel receber os trinta florins, o preboste ordenou ao stockmeester, ajudante do mestre do bastão, que se apoderasse dele.

— Vede, meus senhores — dizia Lamme —, como está lastimosa a expressão dele. Meu amigo Ulenspiegel não gosta nada de madeira.

— Gosto — respondeu Ulenspiegel — de ver um belo freixo frondoso crescendo ao sol em seu verdor natural; mas odeio mortalmente esses feios bastões de madeira que ainda sangram seiva, cortados dos galhos, sem folhas nem raminhos, de aspecto feroz e trato rude.

— Estás pronto? — perguntou o preboste.

— Pronto? — repetiu Ulenspiegel. — Pronto para quê? Para ser espancado? Não, não estou e não quero estar, senhor stockmeester. Vossa barba é ruiva e vosso aspecto, temível; mas tenho certeza de que tendes o coração bondoso e não gostais de quebrar as costas de um pobre homem como eu. Devo dizer-vos que não gosto de fazer isso nem de assistir a isso, pois as costas de um cristão são um templo sagrado que, assim como o peito, encerra os pulmões por meio dos quais respiramos o ar do bom Deus. Que remorsos abrasadores não vos roeriam se um golpe brutal de bastão viesse a despedaçá-los!

— Depressa — disse o stockmeester.

— Monsenhor — disse Ulenspiegel, falando ao príncipe —, não há pressa, crede-me. Seria preciso primeiro deixar secar esse bastão, pois dizem que a madeira verde, entrando na carne viva, transmite-lhe um veneno mortal. Vossa Alteza desejaria ver-me morrer dessa morte horrível? Monsenhor, conservo minhas costas fiéis ao serviço de Vossa Alteza. Mandai golpeá-las com varas, açoitá-las com chicote; mas, se não quiserdes ver-me morto, poupai-me, por favor, da madeira verde.

— Príncipe, concedei-lhe graça — disseram juntos o senhor de Hoogstraeten e Diederich de Schoonenbergh.

Os demais sorriam misericordiosamente.

Lamme também dizia:

— Monsenhor, monsenhor, concedei-lhe graça; madeira verde é puro veneno.

O príncipe então disse:

— Concedo-lhe graça.

Ulenspiegel, saltando várias vezes no ar, bateu na pança de Lamme e, forçando-o a dançar, disse:

— Louva comigo monsenhor, que me salvou da madeira verde.

E Lamme tentava dançar, mas não conseguia por causa da pança.

E Ulenspiegel pagou-lhe comida e bebida.

A Lenda de Ulenspiegel — Glossá…

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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