Universo da obra
Universo da obra
Entraram numa hospedaria, onde lhes deram a ceia numa sala alta.
Abrindo as janelas, Ulenspiegel viu dali um jardim onde passeava uma moça atraente, bem fornida, de seios redondos, cabelos dourados e vestida apenas com uma saia, um corpete de linho branco e um avental furado de tecido preto.
Camisas e outras roupas femininas branqueavam sobre cordas. A moça, voltando-se sempre para Ulenspiegel, tirava as camisas das cordas, tornava a colocá-las e, sorrindo e olhando continuamente para ele, sentava-se sobre faixas de linho, balançando-se nas duas pontas amarradas.
Na vizinhança, Ulenspiegel ouvia um galo cantar e via uma ama brincando com uma criança, cujo rosto ela voltava para um homem em pé, dizendo:
— Boelkin, faz olhinhos para papai.
A criança chorava.
E a moça graciosa continuava passeando no cercado, mudando e tornando a mudar as roupas de lugar.
— É uma espiã — disse Lamme.
A moça pôs as mãos sobre os olhos e, sorrindo por entre os dedos, olhou para Ulenspiegel.
Depois, erguendo os dois seios com as mãos, deixou-os cair novamente e tornou a balançar-se, sem que seus pés tocassem o chão. E as peças de linho, destorcendo-se, faziam-na girar como um pião, enquanto Ulenspiegel via seus braços nus até os ombros, brancos e redondos sob o sol pálido.
Girando e sorrindo, ela continuava a fitá-lo.
Ele saiu para ir ao seu encontro.
Lamme o seguiu.
Junto à cerca do jardim, procurou uma abertura por onde passar, mas não encontrou nenhuma.
A moça, vendo a manobra, tornou a olhar sorrindo por entre os dedos.
Ulenspiegel tentava passar através da cerca, enquanto Lamme, detendo-o, dizia:
— Não vás. É uma espiã. Seremos queimados.
Depois, a moça passeou pelo cercado, cobrindo o rosto com o avental e olhando pelos buracos para ver se seu amigo casual não viria logo.
Ulenspiegel ia saltar de uma vez por cima da cerca, mas Lamme o impediu. Agarrando-lhe a perna, fê-lo cair, dizendo:
— Corda, espada e forca! É uma espiã. Não vás.
Sentado no chão, Ulenspiegel debatia-se contra ele.
A moça gritou, erguendo a cabeça acima da cerca:
— Adeus, senhor. Que o Amor mantenha pendente Vossa Longanimidade.
E ele ouviu uma gargalhada zombeteira.
— Ah! — disse. — Isso entra em meu ouvido como um feixe de alfinetes!
Depois uma porta se fechou com estrondo.
E ele ficou melancólico.
Lamme, ainda o segurando, disse:
— Estás enumerando os doces tesouros de beleza assim perdidos, para tua vergonha. É uma espiã. Quando cais, cais muito bem. Vou arrebentar de tanto rir.
Ulenspiegel não respondeu, e os dois tornaram a montar nos asnos.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
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