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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 133 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XXIX

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Livro 3 — Capítulo XXIX

Ao cair da noite, tendo deixado os asnos em Stockem, entraram na cidade de Antuérpia.

E Ulenspiegel disse a Lamme:

— Eis a grande cidade. O mundo inteiro acumula aqui suas riquezas: ouro, prata, especiarias, couro dourado, tapeçarias de Gobelins, panos, tecidos de veludo, lã e seda; favas, ervilhas, grãos, carne e farinha; couros salgados; vinhos de Louvain, Namur, Luxemburgo e Liège; Landtwyn de Bruxelas e Aerschot; vinhos de Buley, cuja vinha fica perto da porta de La Plante, em Namur; vinhos do Reno, da Espanha e de Portugal; óleo de uva de Aerschot, chamado Landolium; vinhos da Borgonha, malvasia e tantos outros. E os cais estão abarrotados de mercadorias.

Essas riquezas da terra e do trabalho humano atraem para este lugar as mais belas moças de vida alegre que existem.

— Estás ficando pensativo — disse Lamme.

Ulenspiegel respondeu:

— Entre elas encontrarei os sete. Foi-me dito:

Na ruína, no sangue e nas lágrimas, procura.

Que coisa causa mais ruína que as moças de vida alegre? Não é junto delas que pobres homens enlouquecidos perdem seus belos carolus, brilhantes e tilintantes, suas joias, correntes, anéis, e tornam para casa sem gibão, esfarrapados e andrajosos, até mesmo sem roupa de baixo, enquanto elas engordam com seus despojos? Onde está o sangue vermelho e límpido que corria nas veias deles? Agora é suco de alho-poró. Ou, para desfrutarem de seus corpos doces e graciosos, não se batem eles a faca, adaga e espada, sem misericórdia? Os cadáveres levados embora, pálidos e ensanguentados, são cadáveres de pobres loucos de amor. Quando o pai ralha e permanece sombrio em sua cadeira, quando seus cabelos brancos parecem mais brancos e mais rígidos, quando de seus olhos secos, onde arde a tristeza pela perda do filho, as lágrimas não conseguem sair; quando a mãe, silenciosa e pálida como morta, chora como se já não visse diante de si senão todas as dores deste mundo, quem faz correr essas lágrimas? As moças de vida alegre, que só amam a si mesmas e ao dinheiro e mantêm o mundo que pensa, trabalha e filosofa preso à ponta de seus cintos dourados. Sim, é ali que estão os sete, e iremos, Lamme, às moças. Talvez tua mulher esteja entre elas. Será um duplo lance de rede.

— Quero ir — disse Lamme.

Era então junho, perto do fim do verão, quando o sol já avermelha as folhas dos castanheiros, os passarinhos cantam nas árvores e não há ácaro tão pequeno que não zumba de alegria por sentir tanto calor na relva.

Lamme vagava ao lado de Ulenspiegel pelas ruas de Antuérpia, de cabeça baixa e arrastando o corpo como uma casa.

— Lamme — disse Ulenspiegel —, estás remoendo melancolia. Não sabes que nada faz pior à pele? Se persistires em tua tristeza, ela cairá aos pedaços. E será bela a fala quando disserem de ti: Lamme, o Pelado.

— Tenho fome — disse Lamme.

— Vem comer — disse Ulenspiegel.

E foram juntos aos Vieux-Degrés, onde comeram choesels e beberam dubbel-kuit até não poderem carregar mais.

E Lamme deixou de chorar.

Ulenspiegel dizia:

— Bendita seja a boa cerveja que te faz a alma toda ensolarada! Ris e sacodes a pança. Como gosto de te ver, dança de tripas alegres!

— Meu filho — disse Lamme —, elas dançariam ainda mais se eu tivesse a felicidade de encontrar minha mulher.

— Vamos procurá-la — disse Ulenspiegel.

E chegaram assim ao bairro do Baixo Escalda.

— Olha — disse Ulenspiegel a Lamme — aquela pequena casa toda de madeira, com belas janelas bem trabalhadas e vidraças de pequenos quadrados. Considera aquelas cortinas amarelas e aquela lanterna vermelha. Ali, meu filho, atrás de quatro tonéis de bruinbier, uitzet, dobbel-kuit e vinho de Amboise, está sentada uma bela baesinne de cinquenta anos ou mais. Cada ano vivido acrescentou-lhe uma nova camada de toucinho. Sobre um dos tonéis brilha uma vela, e uma lanterna pende das vigas do teto. Ali é claro e escuro: escuro para o amor, claro para o pagamento.

— Mas — disse Lamme — isso é um convento de freiras do diabo, e aquela baesinne é a abadessa.

— Sim — disse Ulenspiegel. — É ela quem conduz, em nome do senhor Belzebu, pelo caminho do pecado, quinze belas moças de vida amorosa, que encontram junto dela abrigo e comida, mas não têm permissão de dormir ali.

— Conheces esse convento? — perguntou Lamme.

— Vou procurar tua mulher nele. Vem.

— Não — disse Lamme. — Pensei melhor e não entrarei.

— Deixarás teu amigo expor-se sozinho no meio dessas Astartes?

— Que não vá — disse Lamme.

— Mas e se ele precisa ir para encontrar os sete e tua mulher? — replicou Ulenspiegel.

— Preferia dormir — disse Lamme.

— Então vem — disse Ulenspiegel, abrindo a porta e empurrando Lamme à frente. — Vê, a baesinne está atrás dos tonéis, entre duas velas. A sala é grande, com teto de carvalho escurecido e vigas enfumaçadas. Por toda parte há bancos e mesas de pernas bambas, cobertas de copos, canecas, taças, canecos, jarras, frascos, garrafas e outros instrumentos de beber. No meio há ainda mesas e cadeiras, sobre as quais reinam heuques, que são capas de comadres, cintos dourados, tamancos de veludo, gaitas de foles, pífaros e charamelas. Num canto há uma escada que leva ao andar de cima. Um pequeno corcunda calvo toca um cravo montado sobre pés de vidro, que fazem ranger o som do instrumento. Dança, minha pança. Quinze belas moças de vida alegre estão sentadas, umas nas mesas, outras nas cadeiras, com uma perna de cada lado, inclinadas, endireitadas, apoiadas nos cotovelos, recostadas, deitadas de costas ou de lado, conforme a fantasia, vestidas de branco e vermelho, com os braços nus, assim como os ombros e o peito até a metade do corpo. Há de todas as espécies. Escolhe! Em algumas, a luz das velas acaricia os cabelos louros e deixa na sombra os olhos azuis, dos quais só se vê brilhar o fogo úmido. Outras, contemplando o teto, suspiram ao som da viola alguma balada da Alemanha. Algumas, redondas, morenas, gordas e desavergonhadas, bebem grandes canecos de vinho de Amboise, mostram os braços redondos e nus até os ombros, o vestido entreaberto, de onde saem as maçãs dos seios, e, sem vergonha, falam a plenos pulmões, uma depois da outra ou todas ao mesmo tempo. Escuta-as:

— Ao diabo o dinheiro hoje! É amor que queremos, amor à nossa escolha — diziam as belas moças —, amor de menino, de jovem e de quem mais nos agradar, sem pagar.

— Que aqueles em quem a Natureza pôs a força viril que faz os machos venham a nós, por amor de Deus e de nós.

— Ontem foi o dia em que se pagava; hoje é o dia em que se ama!

— Quem quer beber em nossos lábios? Ainda estão úmidos da garrafa. Vinho e beijos formam um banquete completo!

— Ao diabo as viúvas que dormem sozinhas!

— Somos moças! Hoje é dia de caridade. Aos jovens, aos fortes e aos belos abrimos os braços. Bebida!

— Minha querida, é para a batalha do amor que teu coração toca tambor dentro do peito? Que pêndulo! É o relógio dos beijos. Quando virão, com o coração cheio e a bolsa vazia? Não farejam as aventuras saborosas?

— Que diferença existe entre um jovem Mendigo e o senhor margrave? O senhor paga em florins, e o jovem Mendigo, em carícias. Viva o Mendigo!

— Quem quer ir acordar os cemitérios?

Assim falavam as boas, ardentes e alegres entre as moças de vida amorosa.

Mas havia outras de rosto estreito e ombros descarnados, que faziam de seus corpos uma loja de economia e, moeda por moeda, calculavam o preço de sua carne magra.

Essas resmungavam entre si:

— É grande tolice nossa dispensar pagamento neste ofício cansativo, por causa dessas fantasias extravagantes que passam pelo cérebro de mulheres loucas por homens. Se elas têm algum quarto de lua na cabeça, nós não temos e preferimos não arrastar, na velhice, nossos trapos pela sarjeta como elas. Queremos ser pagas, já que estamos à venda.

— Ao diabo o gratuito! Os homens são feios, fedorentos, resmungões, glutões e bêbados. Somente eles fazem as pobres mulheres acabar mal.

Mas as jovens e belas não ouviam essas palavras. Entregues ao prazer e à bebida, diziam:

— Ouvis os sinos dos mortos tocando em Notre-Dame? Somos de fogo! Quem quer ir acordar os cemitérios?

Lamme, vendo tantas mulheres ao mesmo tempo, morenas e louras, frescas e murchas, ficou envergonhado. Baixando os olhos, gritou:

— Ulenspiegel, onde estás?

— Ele já passou há muito tempo, meu amigo — disse uma moça gorda, agarrando-o pelo braço.

— Passou há muito tempo? — perguntou Lamme.

— Sim — disse ela. — Há trezentos anos, na companhia de Jacobus de Coster van Maerlandt.

— Deixai-me — disse Lamme — e não me belisqueis. Ulenspiegel, onde estás? Vem salvar teu amigo! Vou embora imediatamente se não me deixardes.

— Não partirás — disseram elas.

— Ulenspiegel — tornou Lamme, lastimosamente —, onde estás, meu filho? Senhora, não me puxeis assim pelos cabelos. Não são peruca, garanto. Socorro! Não achais minhas orelhas já bastante vermelhas sem fazerdes ainda o sangue subir até elas? Eis outra que não para de me dar piparotes. Estais me machucando! Ai! Com que esfregam agora meu rosto? Um espelho? Estou negro como a boca de um forno. Daqui a pouco me zangarei, se não terminardes. É errado maltratar assim um pobre homem. Deixai-me! Quando me tiverdes puxado pelas calças à direita, à esquerda, por todos os lados, fazendo-me andar como uma lançadeira, estareis mais gordas por isso? Sim, sem dúvida me zangarei.

— Ele vai zangar-se — diziam elas, zombando. — Vai zangar-se, o bom homem. Ri antes e canta-nos uma canção de amor.

— Cantarei uma de pancadas, se quiserdes. Mas deixai-me.

— Quem amas aqui?

— Ninguém. Nem tu, nem as outras. Vou queixar-me ao magistrado, e ele mandará açoitá-las.

— É mesmo? — disseram elas. — Açoitar-nos? E se te beijássemos à força antes desse açoite?

— A mim? — disse Lamme.

— A ti! — disseram todas.

E eis as belas e as feias, as frescas e as murchas, as morenas e as louras lançando-se sobre Lamme, jogando seu gorro ao ar, depois o manto, e acariciando-o, beijando-lhe as faces, o nariz, o estômago e as costas, com toda a força.

A baesinne ria entre suas velas.

— Socorro! — gritava Lamme. — Socorro, Ulenspiegel! Varre para longe de mim toda essa canalha. Deixai-me! Não quero vossos beijos. Sou casado, sangue de Deus, e guardo tudo para minha mulher.

— Casado? — disseram elas. — Mas tua mulher tem demais: um homem de tua corpulência. Dá-nos um pouco. Mulher fiel é coisa boa; homem fiel é capão. Deus te guarde! É preciso escolher, ou te açoitaremos por nossa vez.

— Não escolherei — disse Lamme.

— Escolhe — disseram elas.

— Não — respondeu.

— Queres a mim? — perguntou uma bela moça loura. — Vê, sou doce e amo quem me ama.

— Deixa-me — disse Lamme.

— Queres a mim? — disse uma moça graciosa de cabelos negros, olhos e tez morena, e que, de resto, parecia torneada pelos anjos.

— Não gosto de pão de especiarias — disse Lamme.

— E a mim, não me escolherias? — perguntou uma moça alta, que tinha a testa quase toda coberta pelos cabelos, sobrancelhas grossas que se encontravam, grandes olhos úmidos, lábios grossos e vermelhos como enguias, e também o rosto, o pescoço e os ombros vermelhos.

— Não gosto de tijolos em chamas — disse Lamme.

— Escolhe-me — disse uma menina de dezesseis anos, com focinho de esquilo.

— Não gosto de quebra-nozes — disse Lamme.

— Será preciso açoitá-lo — disseram elas. — Com quê? Com belos chicotes de ponta de couro seco. Belo açoite. A pele mais dura não resiste. Tragam dez. Chicotes de carroceiros e de condutores de asnos.

— Socorro, Ulenspiegel! — gritava Lamme.

Mas Ulenspiegel não respondia.

— Tens mau coração — dizia Lamme, procurando o amigo por todos os lados.

Trouxeram os chicotes. Duas moças começaram a tirar o gibão de Lamme.

— Ai! — dizia ele. — Minha pobre gordura, que me deu tanto trabalho formar, certamente arrancarão junto com a pele usando esses chicotes cortantes. Mas, fêmeas sem piedade, minha gordura não vos servirá de nada, nem sequer para colocar nos molhos.

Elas responderam:

— Faremos velas com ela. Não é grande coisa ver com clareza sem pagar? Aquela que disser no futuro que do chicote sai vela parecerá louca a todos. Nós sustentaremos isso até a morte e ganharemos mais de uma aposta. Mergulhai as varas no vinagre. Eis que teu gibão foi retirado. A hora toca em Saint-Jacques. Nove horas. Ao último toque, se não tiveres escolhido, bateremos.

Lamme, tremendo de frio, dizia:

— Tende piedade e misericórdia de mim. Jurei fidelidade à minha pobre mulher e a conservarei, embora ela me tenha abandonado de maneira tão vil. Ulenspiegel, socorro, meu querido!

Mas Ulenspiegel não aparecia.

— Olhai-me — dizia Lamme às moças —, vede-me de joelhos diante de vós. Existe postura mais humilde? Isso não é bastante para dizer que honro como santas vossas grandes belezas? Bem-aventurado aquele que, não sendo casado, pode desfrutar de vossos encantos! Sem dúvida é o paraíso. Mas não me batais, por favor.

De repente, a baesinne, que estava entre as duas velas, falou com voz forte e ameaçadora:

— Comadres e meninas, juro por meu grande diabo que, se dentro de um instante não conduzirdes este homem a bom termo, pelo riso e pela doçura, isto é, até vossa cama, irei buscar os guardas noturnos e mandarei açoitá-las todas aqui no lugar dele. Não mereceis o nome de moças de vida amorosa se tendes em vão a boca ágil, a mão libertina e olhos flamejantes para atiçar os machos, como fazem as fêmeas dos vaga-lumes, que só possuem lanterna para esse uso. E sereis açoitadas sem misericórdia por vossa estupidez.

Ao ouvir isso, as moças tremeram, e Lamme ficou alegre.

— Ora — disse ele —, comadres, que notícias trazeis da terra das correias cortantes? Eu mesmo irei buscar a guarda. Ela cumprirá seu dever, e eu a ajudarei. Será grande prazer para mim.

Mas eis que uma graciosa menina de quinze anos se lançou aos joelhos de Lamme:

— Senhor — disse ela —, vede-me aqui diante de vós, humildemente resignada. Se não vos dignardes escolher uma de nós, deverei ser espancada por vossa causa. E a baesinne que está ali me meterá numa horrível adega sob o Escalda, onde a água escorre pelas paredes e só terei pão preto para comer.

— Ela será realmente espancada por minha causa, senhora baesinne? — perguntou Lamme.

— Até sangrar — respondeu ela.

Lamme então contemplou a menina e disse:

— Vejo-te fresca e perfumada, com o ombro saindo do vestido como uma grande pétala de rosa branca. Não quero que essa bela pele, sob a qual corre sangue tão jovem, sofra sob o chicote; nem que esses olhos claros com o fogo da juventude chorem pela dor dos golpes; nem que o frio da prisão faça estremecer teu corpo de fada do amor. Portanto, prefiro escolher-te a saber que serás espancada.

A menina levou-o consigo.

Assim pecou ele, como faria por toda a vida, por bondade de alma.

Enquanto isso, Ulenspiegel e uma grande e bela moça morena de cabelos crespos permaneciam de pé um diante do outro.

Sem dizer palavra, ela olhava Ulenspiegel com coqueteria e parecia não desejá-lo.

— Ama-me — dizia ele.

— Amar-te? — disse ela. — Amigo louco, que só deseja amor quando lhe apraz?

Ulenspiegel respondeu:

— O pássaro que passa sobre tua cabeça canta sua canção e voa. Assim sou eu, doce coração. Queres que cantemos juntos?

— Sim — disse ela. — Canção de riso e lágrimas.

E a moça lançou-se ao pescoço de Ulenspiegel.

De repente, enquanto ambos desfaleciam de alegria nos braços de suas queridas, eis que entram na casa, ao som de um pífaro e de um tambor, empurrando-se, apertando-se, cantando, assobiando, gritando, urrando e vociferando, uma alegre companhia de meesevangers, que são em Antuérpia os caçadores de chapins.

Carregavam sacos e gaiolas cheios daqueles passarinhos, e as corujas que os haviam ajudado arregalavam os olhos dourados diante da luz.

Os meesevangers eram uns dez, todos vermelhos e inchados de vinho e cerveja, de cabeça trêmula, arrastando as pernas vacilantes e gritando com voz tão rouca e quebrada que as moças assustadas julgavam ouvir antes feras num bosque que homens numa casa.

Entretanto, como elas não cessavam de dizer, falando separadamente ou todas ao mesmo tempo:

— Quero quem amo.

— Pertencemos a quem nos agrada.

— Amanhã, aos ricos de florins! Hoje, aos ricos de amor!

Os meesevangers responderam:

— Temos florins e amor igualmente. Portanto, as moças são nossas. Quem recua é capão. Elas são chapins; nós somos caçadores. Ao assalto! Brabante ao bom duque!

Mas as mulheres diziam, rindo com desprezo:

— Fiau! Que focinhos horríveis pensam devorar-nos! Não se dão sorvetes aos porcos. Escolhemos quem nos agrada e não vos queremos. Tonéis de óleo, sacos de toucinho, pregos magros e lâminas enferrujadas, fedeis a suor e lama. Saí daqui. Sereis condenados sem nossa ajuda.

Mas eles:

— As galesas estão difíceis hoje. Senhoras enjoadas, bem podeis dar-nos aquilo que vendeis a todos.

Mas elas:

— Amanhã seremos cadelas escravas e vos aceitaremos. Hoje somos mulheres livres e vos rejeitamos.

Eles:

— Basta de palavras! Quem tem sede? Vamos colher as maçãs!

Dizendo isso, lançaram-se sobre elas, sem distinção de idade nem beleza.

As belas moças, resolutas em seu propósito, lançaram-lhes à cabeça cadeiras, canecas, jarras, taças, canecos, frascos e garrafas, que caíam cerradamente como granizo, ferindo-os, machucando-os e vazando-lhes os olhos.

Ulenspiegel e Lamme acorreram ao ruído, deixando no alto da escada suas amantes trêmulas.

Quando Ulenspiegel viu aqueles homens batendo nas mulheres, pegou no pátio uma vassoura, da qual fez saltar os galhos, deu outra a Lamme e, com elas, ambos golpearam os meesevangers sem piedade.

Como o jogo pareceu duro aos bêbados assim espancados, eles pararam por um instante.

As moças magras que queriam vender-se, e não se dar, mesmo naquele grande dia de amor voluntário, como deseja a Natureza, aproveitaram imediatamente.

Deslizaram como cobras por entre os feridos, acariciaram-nos, trataram-lhes as feridas, beberam por eles o vinho de Amboise e esvaziaram-lhes tão bem as bolsas de florins e outras moedas que não lhes restou um único liard traidor.

Depois, como tocava o recolher, puseram-nos para fora pela porta, caminho que Ulenspiegel e Lamme já haviam tomado.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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