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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 140 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XXXVI

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Livro 3 — Capítulo XXXVI

Em Harlebeke, Lamme renovou sua provisão de olie-koekjes, comeu vinte e sete e colocou trinta no cesto.

Ulenspiegel carregava as gaiolas na mão.

Ao cair da noite, chegaram a Courtrai e hospedaram-se no In de Bieh, a Abelha, de Gillis Van den Ende, que veio até a porta assim que ouviu o canto da cotovia.

Ali, tudo foi açúcar e mel para eles.

O hospedeiro, depois de ver as cartas do príncipe, entregou cinquenta carolus a Ulenspiegel para o príncipe e recusou pagamento pelo peru que lhes serviu e pela dobbele-clauwaert com que o regaram.

Também os preveniu de que havia em Courtrai espiões do Tribunal de Sangue e de que deveriam guardar bem a própria língua, assim como a do companheiro.

— Nós os reconheceremos — disseram Ulenspiegel e Lamme.

E saíram da hospedaria.

O sol se punha, dourando os frontões das casas. Os pássaros cantavam sob as tílias. As comadres conversavam às portas, as crianças rolavam na poeira, e Ulenspiegel e Lamme vagavam ao acaso pelas ruas.

De repente Lamme disse:

— Martin Van den Ende, a quem perguntei se vira uma mulher semelhante à minha, pois lhe fiz seu gracioso retrato, disse que na casa de Stevenyne, na estrada de Bruges, no Arco-Íris, fora da cidade, reúne-se todas as noites grande número de mulheres. Vou para lá agora mesmo.

— Eu te encontrarei daqui a pouco — disse Ulenspiegel. — Quero visitar a cidade. Se encontrar tua mulher, mandarei que vá até ti. Sabes que o baes recomendou que te calasses, se estimas tua pele.

— Ficarei calado — disse Lamme.

Ulenspiegel vagava tranquilamente.

O sol se pôs, e, como a noite caísse rapidamente, chegou à Pierpot-Straetje, que é a ruela do Pote de Pedra.

Ali ouviu uma viola tocando melodiosamente. Aproximando-se, viu ao longe uma forma branca que o chamava, fugia dele e tocava viola.

E ela cantava como um serafim uma canção doce e lenta, parando, voltando-se, chamando-o e sempre tornando a fugir.

Mas Ulenspiegel corria depressa. Alcançou-a e ia falar-lhe quando ela lhe colocou sobre a boca uma mão perfumada de benjoim.

— És camponês ou fidalgo? — perguntou ela.

— Sou Ulenspiegel.

— És rico?

— O bastante para pagar um grande prazer, não o bastante para resgatar minha alma.

— Não tens cavalos, para andares a pé?

— Tinha um asno — disse Ulenspiegel —, mas deixei-o no estábulo.

— Como estás sozinho, sem amigo, numa cidade estranha?

— Porque meu amigo vagueia de seu lado, assim como eu do meu, minha bela curiosa.

— Não sou curiosa — disse ela. — Teu amigo é rico?

— Em gordura — respondeu Ulenspiegel. — Terminarás logo de interrogar-me?

— Terminei — disse ela. — Agora deixa-me.

— Deixar-te? — disse ele. — Seria o mesmo que mandar Lamme, quando tem fome, abandonar um prato de hortulanas. Quero comer de ti.

— Ainda não me viste — disse ela.

E abriu uma lanterna, que brilhou de repente, iluminando-lhe o rosto.

— És bela — disse Ulenspiegel. — Oh, a pele dourada, os olhos doces, a boca vermelha, o corpo gracioso! Tudo será meu.

— Tudo — disse ela.

Conduziu-o à casa de Stevenyne, na estrada de Bruges, no Arco-Íris, In den Reghen-boogh.

Ulenspiegel viu ali grande número de moças, trazendo no braço rodelas de cor diferente da roupa de fustão.

Aquela usava uma rodela de tecido de prata sobre um vestido de tecido de ouro.

E todas as moças olhavam-na com ciúme.

Ao entrar, ela fez um sinal à baesinne, mas Ulenspiegel não viu.

Sentaram-se juntos e beberam.

— Sabes — disse ela — que todo homem que me amou passa a pertencer-me para sempre?

— Bela moça perfumada — disse Ulenspiegel —, seria para mim delicioso banquete comer sempre de tua carne.

De repente avistou Lamme num canto, diante de uma mesinha, uma vela, um presunto e um pote de cerveja, sem saber como defender o presunto e a cerveja de duas moças que queriam a todo custo comer e beber com ele.

Quando Lamme viu Ulenspiegel, levantou-se e saltou três pés no ar, gritando:

— Bendito seja Deus, que me devolve meu amigo Ulenspiegel! Bebida, baesinne!

Ulenspiegel, tirando a bolsa, disse:

— Bebida até isto acabar.

E fez tilintar os carolus.

— Viva Deus! — disse Lamme, tomando-lhe habilmente a bolsa das mãos. — Sou eu quem paga, não tu. Esta bolsa é minha.

Ulenspiegel tentou recuperá-la à força, mas Lamme a segurava com firmeza.

Enquanto lutavam, um para conservar a bolsa e o outro para retomá-la, Lamme disse em voz baixa e entrecortada a Ulenspiegel:

— Escuta... Apanha-carne aqui... quatro... pequena sala com três moças... Dois lá fora para ti, para mim... Quis sair... impediram... Moça de brocado é espiã... Espiã Stevenyne!

Enquanto lutavam, Ulenspiegel escutava bem e gritava:

— Devolve minha bolsa, malandro!

— Não a terás — dizia Lamme.

E agarravam-se pelo pescoço e pelos ombros, rolando pelo chão, enquanto Lamme dava seu bom aviso a Ulenspiegel.

De repente, o baes da Abelha entrou, seguido por sete homens que parecia não conhecer.

Cantou como o galo, e Ulenspiegel assobiou como a cotovia.

Vendo Ulenspiegel e Lamme brigando, o baes perguntou:

— Quem são esses dois?

A Stevenyne respondeu:

— Malandros que seria melhor separar, em vez de deixá-los fazer tamanho tumulto antes de irem à forca.

— Que ouse separar-nos — disse Ulenspiegel —, e o faremos comer o piso.

— Sim, faremos que coma o piso — disse Lamme.

— O baes salvador — disse Ulenspiegel ao ouvido de Lamme.

Então o baes, adivinhando algum mistério, lançou-se de cabeça na briga.

Lamme gritou-lhe ao ouvido:

— Tu, salvador? Como?

O baes fingiu sacudir Ulenspiegel pelas orelhas e disse-lhe em voz baixa:

— Sete para ti... homens fortes, açougueiros... Eu partir... conhecido demais na cidade... Quando eu sair, ’t is van te beven de klinkaert... quebrar tudo...

— Sim — disse Ulenspiegel, levantando-se e dando-lhe um pontapé.

O baes golpeou-o por sua vez.

Ulenspiegel disse-lhe:

— Bate forte, minha pança.

— Como granizo — disse o baes, agarrando rapidamente a bolsa de Lamme e devolvendo-a a Ulenspiegel.

— Patife — disse ele —, paga agora a bebida, já que recuperaste teus bens.

— Beberás, malandro escandaloso — respondeu Ulenspiegel.

— Vede como é insolente — disse Stevenyne.

— Tanto quanto és bela, minha querida — respondeu Ulenspiegel.

Ora, Stevenyne tinha uns sessenta anos e o rosto semelhante a uma nêspera, todo amarelo de cólera biliosa. No meio havia um nariz como bico de coruja. Seus olhos eram olhos de avarenta, sem amor. Dois longos ganchos saíam de sua boca magra. E trazia uma grande mancha cor de vinho na face esquerda.

As moças riam, zombando dela e dizendo:

— Minha querida, minha querida, dá-lhe de beber.

— Ele te beijará.

— Há quanto tempo celebraste tuas primeiras bodas?

— Cuidado, Ulenspiegel, ela quer devorar-te.

— Vê os olhos dela. Brilham não de ódio, mas de amor.

— Parece que vai morder-te até a morte.

— Não tenhas medo.

— Assim fazem todas as mulheres apaixonadas.

— Ela só quer teu bem.

— Vê como está de ótimo humor para rir.

E de fato Stevenyne ria e piscava para Gilline, a moça de vestido de brocado.

O baes bebeu, pagou e partiu.

Os sete açougueiros faziam caretas de entendimento aos apanha-carne e a Stevenyne.

Um deles indicou por gestos que considerava Ulenspiegel um tolo e que o enganaria muito bem.

Disse-lhe ao ouvido, mostrando zombeteiramente a língua na direção de Stevenyne, que ria e exibia os ganchos:

— ’T is van te beven de klinkaert. É hora de fazer ranger os copos.

Depois, em voz alta, apontando os apanha-carne:

— Gentil reformado, estamos todos contigo. Paga-nos bebida e comida.

E Stevenyne ria de contentamento e mostrava também a língua a Ulenspiegel quando este lhe virava as costas.

Gilline, com o vestido de brocado, fazia o mesmo.

E as moças diziam em voz baixa:

— Vede a espiã que, por sua beleza, conduziu à cruel tortura e à morte ainda mais cruel mais de vinte e sete reformados. Gilline desfalece de alegria ao pensar na recompensa de sua denúncia, os primeiros cem florins carolus da herança das vítimas. Mas não ri ao lembrar que deverá dividi-los com Stevenyne.

E todos, apanha-carne, açougueiros e moças, mostravam a língua para zombar de Ulenspiegel.

Lamme suava grossas gotas e estava vermelho de cólera como a crista de um galo, mas não queria falar.

— Paga-nos bebida e comida — disseram os açougueiros e os apanha-carne.

— Então — disse Ulenspiegel, tornando a fazer tilintar os carolus —, dá-nos bebida e comida, ó graciosa Stevenyne, bebida em copos que soem.

As moças tornaram a rir, e Stevenyne mostrou os ganchos.

Contudo, foi à cozinha e à adega e trouxe presunto, salsichões, omeletes com chouriços negros e copos sonoros, assim chamados porque tinham pé e soavam como carrilhão quando se chocavam.

Ulenspiegel disse:

— Quem tem fome, coma. Quem tem sede, beba!

Os apanha-carne, as moças, os açougueiros, Gilline e Stevenyne aplaudiram com pés e mãos esse discurso.

Cada qual se acomodou da melhor maneira: Ulenspiegel, Lamme e os sete açougueiros à grande mesa de honra; os apanha-carne e as moças em duas mesas menores.

E beberam e comeram com grande estrondo de mandíbulas, até mesmo os dois apanha-carne que estavam do lado de fora e que os companheiros fizeram entrar para participar do banquete.

E viam-se sair das bolsas deles cordas e pequenas correntes.

Stevenyne então, mostrando a língua e rindo com escárnio, disse:

— Ninguém sairá sem me pagar.

E foi fechar todas as portas, guardando as chaves nos bolsos.

Gilline, erguendo o copo, disse:

— O pássaro está na gaiola. Bebamos.

Duas moças chamadas Gena e Margot disseram-lhe:

— É mais um que farás morrer, mulher malvada?

— Não sei — disse Gilline. — Bebamos.

Mas as três moças se recusaram a beber com ela.

Gilline pegou a viola e cantou em francês:

Ao som desta viola,
Eu canto noite e dia;
Sou a moça de vida alegre,
Vendedora de amor.

Astarté traçou em meus quadris
As linhas feitas de fogo;
Tenho os ombros brancos,
E meu belo corpo é Deus.

Esvaziem-se as bolsas
De carolus reluzentes;
Que o ouro ruivo corra
Em rios sob meus pés brancos.

Sou a filha de Eva
E de Satanás vencedor;
Por mais belo que seja teu sonho,
Procura-o em meu coração.

Sou fria ou ardente,
Terna no doce repouso;
Morna, perdida, abrasada,
Meu homem, conforme teu desejo.

Vê, vendo tudo: meus encantos,
Minha alma e meus olhos azuis;
Felicidade, risos e lágrimas,
E a Morte, se a quiseres.

Ao som desta viola,
Eu canto noite e dia;
Sou a moça de vida alegre,
Vendedora de amor.

Enquanto cantava, Gilline era tão bela, tão suave e graciosa que todos os homens, apanha-carne, açougueiros, Lamme e Ulenspiegel, permaneciam mudos, comovidos, sorridentes e dominados pelo encanto.

De repente, soltando uma gargalhada, Gilline disse, olhando Ulenspiegel:

— É assim que se colocam pássaros na gaiola.

E o encanto se rompeu.

Ulenspiegel, Lamme e os açougueiros trocaram olhares.

— Ora — disse Stevenyne —, pagar-me-eis, senhor Ulenspiegel, que engordais tão bem com a carne dos pregadores?

Lamme quis falar, mas Ulenspiegel fez sinal para que se calasse e respondeu a Stevenyne:

— Não pagaremos antecipadamente.

— Então me pagarei depois com tua herança — disse Stevenyne.

— As carniçais vivem de cadáveres — respondeu Ulenspiegel.

— Sim — disse um dos apanha-carne —, esses dois tomaram o dinheiro dos pregadores, mais de trezentos florins carolus. É bela quantia para Gilline.

Esta cantava:

Procura em outra esses encantos,
Toma tudo, meu amante,
Prazeres, beijos e lágrimas,
E a Morte, se a quiseres.

Depois, rindo com escárnio, disse:

— Bebamos!

— Bebamos! — disseram os apanha-carne.

— Viva Deus! — disse Stevenyne. — Bebamos! As portas estão fechadas, as janelas têm barras fortes, os pássaros estão na gaiola. Bebamos!

— Bebamos! — disse Ulenspiegel.

— Bebamos! — disse Lamme.

— Bebamos! — disseram os sete.

— Bebamos! — disseram os apanha-carne.

— Bebamos! — disse Gilline, fazendo cantar a viola. — Sou bela, bebamos! Apanharei o arcanjo Gabriel nas redes de minha canção.

— Bebida, então — disse Ulenspiegel. — Vinho para coroar a festa, e do melhor. Quero que haja uma gota de fogo líquido em cada pelo de nossos corpos sedentos.

— Bebamos! — disse Gilline. — Mais vinte gobiões como tu, e os lúcios deixarão de cantar.

Stevenyne trouxe vinho.

Todos estavam sentados, bebendo e devorando, os apanha-carne junto das moças.

Os sete, sentados à mesa de Ulenspiegel e Lamme, lançavam da própria mesa para a das moças presuntos, salsichões, omeletes e garrafas, que elas apanhavam no ar como carpas agarrando moscas acima de um lago.

Stevenyne ria, mostrando os ganchos e apontando feixes de velas de cinco por libra, que balançavam acima do balcão.

Eram as velas das moças.

Depois disse a Ulenspiegel:

— Quando alguém vai à fogueira, leva uma vela de sebo. Queres uma desde já?

— Bebamos! — disse Ulenspiegel.

— Bebamos! — disseram os sete.

Gilline disse:

— Ulenspiegel tem os olhos brilhantes como um cisne prestes a morrer.

— E se os déssemos aos porcos? — perguntou Stevenyne.

— Seria para eles um banquete de lanternas. Bebamos! — disse Ulenspiegel.

— Gostarias — perguntou Stevenyne — que, erguido no cadafalso, perfurassem tua língua com ferro em brasa?

— Ficaria melhor para assobiar. Bebamos! — respondeu Ulenspiegel.

— Falarias menos se estivesses enforcado — disse Stevenyne —, e tua querida viria contemplar-te.

— Sim — disse Ulenspiegel —, mas eu ficaria mais pesado e cairia sobre teu focinho gracioso. Bebamos!

— Que dirias se fosses açoitado e marcado na testa e no ombro?

— Diria que confundiram a carne — respondeu Ulenspiegel — e que, em vez de assar a porca Stevenyne, escaldaram o leitão Ulenspiegel. Bebamos!

— Já que não gostas de nada disso — disse Stevenyne —, serás levado aos navios do rei e condenado a ser esquartejado por quatro galés.

— Então — disse Ulenspiegel —, os tubarões ficarão com meus quatro membros, e tu comerás aquilo que recusarem. Bebamos!

— Por que não comes uma dessas velas? — perguntou ela. — Serviriam no inferno para iluminar tua condenação eterna.

— Enxergo o bastante para contemplar teu focinho luminoso, ó porca mal escaldada. Bebamos! — disse Ulenspiegel.

De repente, bateu com o pé do copo sobre a mesa, imitando com as mãos o ruído que faz um tapeceiro ao bater ritmadamente a lã de um colchão sobre um leito de varas, mas de maneira muito tranquila, dizendo:

— ’T Is van te beven de klinkaert. É hora de fazer tremer o copo sonoro.

Esse é, em Flandres, o sinal de briga entre bebedores e de devastação das casas de lanterna vermelha.

Ulenspiegel bebeu, depois fez o copo tremer sobre a mesa, dizendo:

— ’T Is van te beven de klinkaert.

E os sete o imitaram.

Todos ficaram imóveis.

Gilline empalideceu. Stevenyne pareceu espantada.

Os apanha-carne perguntavam:

— Os sete estão com eles?

Mas os açougueiros, piscando-lhes os olhos, tranquilizavam-nos e continuavam a dizer, cada vez mais alto, com Ulenspiegel:

— ’T Is van te beven de klinkaert! ’T Is van te beven de klinkaert!

Stevenyne bebia para criar coragem.

Ulenspiegel bateu então o punho sobre a mesa, no ritmo dos tapeceiros que batem colchões.

Os sete fizeram como ele.

Copos, jarras, tigelas, canecas e taças começaram lentamente a dançar, tombando, quebrando-se, erguendo-se de um lado para cair do outro.

E ressoava, cada vez mais ameaçador, grave, guerreiro e monótono:

— ’T Is van te beven de klinkaert!

— Ai! — disse Stevenyne. — Vão quebrar tudo aqui.

E, de medo, os dois ganchos lhe saíram ainda mais da boca.

O sangue, de fúria e cólera, inflamava-se na alma dos sete, assim como na de Lamme e Ulenspiegel.

Então, sem cessar o canto monótono e ameaçador, todos os que estavam à mesa de Ulenspiegel pegaram os copos e quebraram-nos ritmadamente sobre a mesa. Depois montaram nas cadeiras e sacaram os facões.

Faziam tamanho ruído com a canção que todas as vidraças da casa tremiam.

Depois, como uma roda de diabos enlouquecidos, percorreram a sala e todas as mesas, repetindo sem descanso:

— ’T Is van te beven de klinkaert!

Os apanha-carne levantaram-se, tremendo de medo, e pegaram as correntes e cordinhas.

Mas os açougueiros, Ulenspiegel e Lamme, recolocando os facões nas bainhas, levantaram-se, agarraram as cadeiras e, brandindo-as como bastões, correram ágeis pela sala, golpeando à direita e à esquerda.

Pouparam apenas as moças e quebraram todo o resto: móveis, vidraças, aparadores, louças, canecas, tigelas, copos e garrafas.

Golpearam os apanha-carne sem piedade, cantando sempre no ritmo do tapeceiro que bate colchões:

— ’T Is van te beven de klinkaert! ’T Is van te beven de klinkaert!

Enquanto isso, Ulenspiegel deu um soco no focinho de Stevenyne, tirou-lhe as chaves da bolsa e a fez engolir à força suas velas.

A bela Gilline, arranhando com as unhas portas, venezianas, vidros e caixilhos, parecia querer atravessar tudo como uma gata assustada.

Depois, inteiramente lívida, agachou-se num canto, com os olhos arregalados, mostrando os dentes e segurando a viola como se esta devesse protegê-la.

Os sete e Lamme diziam às moças:

— Não vos faremos mal algum.

E, com a ajuda delas, amarravam com correntes e cordas os apanha-carne, que tremiam dentro das calças e não ousavam resistir, pois sentiam que os açougueiros, escolhidos entre os mais fortes pelo baes da Abelha, os teriam cortado em pedaços com seus facões.

A cada vela que fazia Stevenyne engolir, Ulenspiegel dizia:

— Esta é para o enforcamento; aquela, para o açoite; esta outra, para a marca; a quarta, para minha língua perfurada; estas duas, excelentes e bem gordas, para os navios do rei e o esquartejamento entre quatro galés; esta, para teu covil de espiões; aquela, para tua moça do vestido de brocado; e todas as outras, para meu prazer.

E as moças riam ao ver Stevenyne espirrando de cólera e querendo cuspir as velas.

Mas em vão, pois tinha a boca cheia demais.

Ulenspiegel, Lamme e os sete não cessavam de cantar ritmadamente:

— ’T Is van te beven de klinkaert!

Depois Ulenspiegel parou e fez sinal para que murmurassem suavemente o refrão.

Eles obedeceram, enquanto ele dizia aos apanha-carne e às moças:

— Se qualquer um de vós gritar por socorro, será morto imediatamente.

— Morto! — disseram os açougueiros.

— Ficaremos caladas — disseram as moças. — Não nos faças mal, Ulenspiegel.

Mas Gilline, agachada no canto, com os olhos saltados e os dentes à mostra, não conseguia falar e apertava a viola contra o corpo.

E os sete continuavam a murmurar ritmadamente:

— ’T Is van te beven de klinkaert!

Stevenyne, apontando para as velas em sua boca, fez sinal de que também ficaria calada.

Os apanha-carne prometeram o mesmo.

Ulenspiegel prosseguiu:

— Estais em nosso poder. A noite caiu negra. Estamos perto do Lys, onde é fácil afogar-se quando alguém nos empurra. As portas de Courtrai estão fechadas. Se os guardas noturnos ouviram o tumulto, não se moverão, pois são preguiçosos demais e pensam que bons Flamengos bebem e cantam alegremente ao som das canecas e garrafas. Portanto, ficai quietos e obedientes diante de vossos senhores.

Depois, falando aos sete:

— Ireis a Peteghem procurar os Mendigos.

— Preparamo-nos para isso ao saber de tua chegada.

— De lá seguireis para o mar.

— Sim — responderam.

— Conheceis entre estes apanha-carne um ou dois que possam ser soltos para servir-nos?

— Dois — disseram eles. — Niklaes e Joos, que nunca perseguiram os pobres reformados.

— Somos fiéis! — disseram Niklaes e Joos.

Ulenspiegel disse então:

— Aqui tendes vinte florins carolus. É o dobro do que receberíeis como preço infame por uma denúncia.

De repente, os outros cinco exclamaram:

— Vinte florins! Servimos o príncipe por vinte florins. O rei paga mal. Dá metade disso a cada um de nós e diremos ao juiz tudo o que quiseres.

Os açougueiros e Lamme murmuravam sombriamente:

— ’T Is van te beven de klinkaert! ’T Is van te beven de klinkaert!

— Para que não faleis demais — disse Ulenspiegel —, os sete vos conduzirão amarrados até Peteghem, aos Mendigos. Recebereis dez florins quando estiverdes no mar. Até lá, teremos certeza de que a cozinha do acampamento vos manterá fiéis ao pão e à sopa. Se fordes valentes, tereis vossa parte do butim. Se tentardes desertar, sereis enforcados. Se fugirdes e evitardes a corda, encontrareis a faca.

— Servimos quem nos paga — disseram eles.

— ’T Is van te beven de klinkaert! ’T Is van te beven de klinkaert! — diziam Lamme e os sete, batendo sobre as mesas com cacos de potes e copos quebrados.

— Levareis também convosco — disse Ulenspiegel — Gilline, Stevenyne e as três moças. Se alguma tentar fugir, costurai-a num saco e atirai-a ao rio.

— Ele não me matou! — disse Gilline, saltando do canto e brandindo a viola no ar.

E cantou:

Sangrento foi meu sonho,
O sonho de meu coração;
Sou a filha de Eva
E de Satanás vencedor.

Stevenyne e as outras fingiam chorar.

— Não temais, minhas queridas — disse Ulenspiegel. — Sois tão suaves e doces que por toda parte sereis amadas, festejadas e acariciadas. A cada presa de guerra, tereis vossa parte do butim.

— Nada darão a mim, que sou velha — chorou Stevenyne.

— Um soldo por dia, crocodilo — disse Ulenspiegel —, pois serás criada destas quatro belas moças. Lavarás suas saias, lençóis e camisas.

— Eu, Senhor Deus! — exclamou ela.

Ulenspiegel respondeu:

— Durante muito tempo as governaste, vivendo do lucro dos corpos delas e deixando-as pobres e famintas. Podes gemer e zurrar. Será como eu disse.

As quatro moças riram e zombaram de Stevenyne, mostrando-lhe a língua:

— Chegou a vez de cada uma neste mundo. Quem diria isso de Stevenyne, a avarenta? Trabalhará para nós como criada. Bendito seja o senhor Ulenspiegel!

Ulenspiegel disse aos açougueiros e a Lamme:

— Esvaziai as adegas de vinho e pegai o dinheiro. Servirá para sustentar Stevenyne e as quatro moças.

— Ela range os dentes, Stevenyne, a avarenta — disseram as moças. — Foste cruel e agora são cruéis contigo. Bendito seja o senhor Ulenspiegel!

Depois as três se voltaram para Gilline:

— Eras filha dela, seu ganha-pão. Dividias com ela o fruto da espionagem infame. Ainda ousarás bater-nos e insultar-nos com teu vestido de brocado? Desprezavas-nos porque só usávamos fustão. Não estás vestida tão ricamente senão com o sangue das vítimas. Tiremos-lhe o vestido, para que fique igual a nós.

— Não quero — disse Ulenspiegel.

Gilline saltou-lhe ao pescoço e disse:

— Bendito sejas, porque não me mataste e não queres que eu fique feia!

E as moças, ciumentas, olhavam Ulenspiegel e diziam:

— Está enlouquecido por ela, como todos.

Gilline tocava e cantava na viola.

Os sete partiram em direção a Peteghem, levando os apanha-carne e as moças ao longo do Lys.

Enquanto caminhavam, murmuravam:

— ’T Is van te beven de klinkaert! ’T Is van te beven de klinkaert!

Ao amanhecer, chegaram ao acampamento, cantaram como a cotovia, e o clarim do galo lhes respondeu.

As moças e os apanha-carne ficaram sob estreita vigilância.

Contudo, ao meio-dia do terceiro dia, Gilline foi encontrada morta, com o coração perfurado por uma grande agulha.

As três moças acusaram Stevenyne, que foi levada diante do capitão da companhia, de seus chefes de dezena e dos sargentos, constituídos em tribunal.

Ali, sem necessidade de tortura, confessou ter matado Gilline por ciúme de sua beleza e por fúria de a moça tratá-la como criada, sem piedade.

Stevenyne foi enforcada e depois enterrada no bosque.

Gilline também foi enterrada, e disseram-se as orações dos mortos sobre seu corpo gracioso.

Enquanto isso, os dois apanha-carne patrocinados por Ulenspiegel foram diante do castelão de Courtrai, pois os ruídos, tumultos e pilhagens ocorridos na casa de Stevenyne deviam ser punidos pelo castelão, já que a casa ficava na castelania, fora da jurisdição da cidade de Courtrai.

Depois de contar ao senhor castelão o que acontecera, disseram-lhe com grande convicção e humilde sinceridade:

— Os assassinos dos pregadores não são de maneira alguma Ulenspiegel e seu fiel e querido Lamme Goedzak, que só foram ao Arco-Íris para se divertirem. Eles até possuem salvo-condutos do duque, e nós os vimos. Os verdadeiros culpados são dois mercadores de Gante, um magro e o outro muito gordo, que seguiram para a França depois de quebrarem tudo na casa de Stevenyne e levarem consigo ela e suas quatro moças para divertimento. Nós os teríamos apanhado, mas havia ali sete dos mais fortes açougueiros da cidade, que tomaram o partido deles. Amarraram-nos a todos e só nos libertaram quando já estavam longe, em terra francesa. Eis as marcas das cordas. Os outros quatro apanha-carne estão no encalço deles, esperando reforços para pôr-lhes as mãos.

O castelão deu a cada um dois carolus e roupa nova por seus serviços leais.

Depois escreveu ao conselho de Flandres, ao tribunal dos escabinos de Courtrai e a outras cortes de justiça, anunciando-lhes que os verdadeiros assassinos haviam sido descobertos.

E relatou-lhes toda a aventura em detalhes.

Os membros do conselho de Flandres e das outras cortes de justiça estremeceram ao sabê-lo.

E o castelão foi muito elogiado por sua perspicácia.

Ulenspiegel e Lamme caminhavam tranquilamente pela estrada de Peteghem a Gante, ao longo do Lys, desejando chegar a Bruges, onde Lamme esperava encontrar a mulher, e a Damme, onde Ulenspiegel, pensativo, já queria estar para ver Nele, que vivia triste junto de Katheline, a enlouquecida.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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