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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 144 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XL

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Livro 3 — Capítulo XL

Cavalgando cada qual com uma perna de um lado e outra do outro, chegaram a Oost-Camp, onde há um grande bosque cuja orla tocava o canal.

Procurando ali sombra e doces aromas, entraram sem ver nada além das longas alamedas que seguiam em todas as direções para Bruges, Gante, Flandres do Sul e Flandres do Norte.

De repente, Ulenspiegel saltou do asno.

— Não vês nada lá adiante?

Lamme disse:

— Sim, vejo.

E, tremendo:

— Minha mulher, minha boa mulher! É ela, meu filho. Ah! Não consigo caminhar até ela. Encontrá-la assim!

— De que te queixas? — disse Ulenspiegel. — Está bela, assim seminua, naquele gibão de musselina recortada que deixa ver a carne fresca. Esta é jovem demais. Não é tua mulher.

— Meu filho — disse Lamme —, é ela. Eu a reconheço. Carrega-me, não sei mais andar. Quem teria pensado isso dela? Dançar assim vestida de egípcia, sem pudor! Sim, é ela. Vê suas pernas finas, os braços nus até os ombros, os seios redondos e dourados saindo pela metade do gibão de musselina. Vê como provoca, com aquela bandeira vermelha, o grande cão que salta atrás dela.

— É um cão do Egito — disse Ulenspiegel. — Os Países Baixos não produzem animais dessa espécie.

— Egito... Não sei... Mas é ela. Ah, meu filho, já não enxergo. Ela levanta ainda mais as calças para mostrar mais alto as pernas redondas. Ri para mostrar os dentes brancos, e às gargalhadas para que se ouça o som de sua voz doce. Abre o gibão por cima e lança o corpo para trás. Ah, esse pescoço de cisne amoroso, esses ombros nus, esses olhos claros e ousados! Vou correr até ela.

E saltou do asno.

Mas Ulenspiegel o deteve.

— Essa moça não é tua mulher. Estamos perto de um acampamento de egípcios. Guarda-te. Vês a fumaça atrás das árvores? Ouves os latidos dos cães? Eis alguns deles olhando-nos, talvez prontos para morder. Escondamo-nos melhor no matagal.

— Não me esconderei — disse Lamme. — Essa mulher é minha, flamenga como nós.

— Louco cego — disse Ulenspiegel.

— Cego, não! Vejo-a dançando, seminua, rindo e provocando o grande cão. Finge não nos ver. Mas nos vê, garanto. Thyl, Thyl! Eis o cão lançando-se sobre ela e derrubando-a para tomar a bandeira vermelha. Ela cai soltando um grito lastimoso.

E Lamme lançou-se imediatamente em sua direção, dizendo:

— Minha mulher, minha mulher! Onde te feriste, minha querida? Por que ris às gargalhadas? Teus olhos estão desvairados.

E a abraçava e acariciava.

Depois disse:

— Aquele sinal de beleza que tinhas debaixo do seio esquerdo. Não o vejo. Onde está? Não és minha mulher. Grande Deus do céu!

E ela não cessava de rir.

De repente Ulenspiegel gritou:

— Cuidado, Lamme!

Lamme voltou-se e viu diante de si um grande egípcio moreno, de cara magra, escuro como peper-koek, que é pão de especiarias na terra da França.

Lamme pegou o chuço e, colocando-se em defesa, gritou:

— Socorro, Ulenspiegel!

Ulenspiegel estava ali com sua boa espada.

O egípcio disse-lhe em alto-alemão:

— Gibt mi ghelt, ein Richsthaler auf tsein. Dá-me dinheiro, um rijksdaalder ou dez.

— Vê — disse Ulenspiegel. — A moça parte rindo às gargalhadas e voltando-se sem descanso, pedindo que a sigam.

— Gibt mi ghelt — disse o homem. — Paga teus amores. Somos pobres e não queremos fazer-te mal algum.

Lamme deu-lhe um carolus.

— Que ofício exerces? — perguntou Ulenspiegel.

— Todos — respondeu o egípcio. — Sendo mestres nas artes da agilidade, fazemos prodígios maravilhosos e mágicos. Tocamos tamborim e dançamos as danças da Hungria. Há mais de um entre nós que fabrica gaiolas e grelhas para assar belas carbonadas. Mas todos os Flamengos e Valões têm medo de nós e nos expulsam. Como não podemos viver do ganho, vivemos de pilhagem, isto é, dos legumes, da carne e das aves que precisamos tomar do camponês, já que ele não quer dá-los nem vendê-los.

Lamme perguntou:

— De onde veio essa moça, que se parece tanto com minha mulher?

— É filha de nosso chefe — respondeu o moreno.

Depois, falando baixo como homem amedrontado:

— Deus a feriu com o mal de amor, e ela desconhece o pudor das mulheres. Assim que vê um homem, entra em alegria e loucura e ri sem parar. Fala pouco. Durante muito tempo, pensamos que fosse muda. À noite, triste, permanece diante do fogo, às vezes chorando ou rindo sem motivo e mostrando o ventre, onde diz sentir dor. Ao meio-dia, no verão, depois da refeição, sua loucura torna-se mais intensa. Então vai dançar quase nua nos arredores do acampamento. Só quer usar roupas de tule ou musselina, e, no inverno, com grande dificuldade conseguimos cobri-la com um manto de pelo de cabra.

— Mas — disse Lamme — ela não tem algum amigo que a impeça de entregar-se assim a qualquer um?

— Não tem — disse o homem —, pois os viajantes, aproximando-se dela e vendo seus olhos enlouquecidos, sentem mais medo que amor. Esse gordo foi ousado — acrescentou, apontando Lamme.

— Deixa-o falar, meu filho — replicou Ulenspiegel. — É o stockfisch falando mal da baleia. Qual dos dois dá mais óleo?

— Tua língua está azeda esta manhã — disse Lamme.

Mas Ulenspiegel, sem escutá-lo, perguntou ao egípcio:

— Que faz ela quando outros são ousados como meu amigo Lamme?

O egípcio respondeu tristemente:

— Então ela tem prazer e lucro. Aqueles que a possuem pagam sua alegria, e o dinheiro serve para vesti-la e também para as necessidades dos velhos e das mulheres.

— Então ela não obedece a ninguém? — perguntou Lamme.

O egípcio respondeu:

— Deixamos fazer a própria vontade àqueles que Deus fere. Assim ele manifesta seu querer. E esta é nossa lei.

Ulenspiegel e Lamme partiram.

E o egípcio voltou grave e altivo para o acampamento.

E a moça, rindo às gargalhadas, dançava na clareira.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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