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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 147 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 3 — Capítulo XLIII

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Livro 3 — Capítulo XLIII

O ar estava quente. Do mar calmo não vinha sopro algum de vento. Mal estremeciam as árvores do canal de Damme. As cigarras permaneciam nos prados, enquanto nos campos os homens das igrejas e abadias vinham buscar a décima terceira parte da colheita para os curas e abades.

Do céu azul, ardente e profundo, o sol derramava calor, e a Natureza dormia sob seus raios como bela moça nua, desfalecida sob as carícias do amante.

As carpas davam saltos acima da água do canal para apanhar as moscas, que zumbiam como um caldeirão, enquanto as andorinhas de corpo alongado e grandes asas disputavam-lhes a presa.

Da terra erguia-se um vapor quente, matizado e brilhante sob a luz.

O sacristão de Damme anunciava do alto da torre, por meio de um sino rachado que soava como caldeirão, que era meio-dia e chegara a hora de jantar para os camponeses que trabalhavam na ceifa do feno.

As mulheres, fechando as mãos em forma de funil diante da boca, gritavam os nomes de seus homens, irmãos ou maridos:

— Hans! Pieter! Joos!

E viam-se acima das cercas suas capelinas vermelhas.

Ao longe, diante dos olhos de Lamme e Ulenspiegel, erguia-se alta, quadrada e maciça a torre de Notre-Dame.

E Lamme disse:

— Ali, meu filho, estão tuas dores e teus amores.

Mas Ulenspiegel não respondeu.

— Logo — disse Lamme — verei minha antiga casa e talvez minha mulher.

Mas Ulenspiegel não respondia.

— Homem de madeira — disse Lamme —, coração de pedra, então nada consegue agir sobre ti? Nem a proximidade dos lugares onde passaste a infância, nem as sombras queridas do pobre Claes e da pobre Soetkin, os dois mártires? Como! Não estás triste nem alegre? Quem te secou assim o coração? Vê-me ansioso, inquieto, saltando dentro de minha pança. Vê-me...

Lamme olhou para Ulenspiegel e o viu pálido, de cabeça baixa, os lábios trêmulos, chorando em silêncio.

E calou-se.

Caminharam assim, sem dizer palavra, até Damme. Entraram pela rua da Garça e não viram ninguém por causa do calor.

Os cães, de língua pendente, deitados de lado, bocejavam diante das soleiras.

Lamme e Ulenspiegel passaram bem perto da Casa Comunal, diante da qual Claes fora queimado.

Os lábios de Ulenspiegel tremeram ainda mais, e suas lágrimas secaram.

Diante da casa de Claes, agora ocupada por um mestre carvoeiro, Ulenspiegel entrou e disse:

— Reconheces-me? Quero descansar aqui.

O mestre carvoeiro respondeu:

— Reconheço-te. És o filho da vítima. Vai aonde quiseres nesta casa.

Ulenspiegel foi à cozinha, depois ao quarto de Claes e Soetkin.

E ali chorou.

Quando desceu, o mestre carvoeiro disse-lhe:

— Aqui tens pão, queijo e cerveja. Se tens fome, come. Se tens sede, bebe.

Ulenspiegel fez sinal com a mão de que não tinha fome nem sede.

Seguiu caminho com Lamme, que permanecia montado no asno, uma perna de cada lado, enquanto Ulenspiegel levava o próprio animal pelo cabresto.

Chegaram à choupana de Katheline, amarraram os asnos e entraram.

Era a hora da refeição.

Sobre a mesa havia vagens de feijão-princesa misturadas a grandes favas brancas.

Katheline comia.

Nele estava de pé, pronta para derramar na tigela de Katheline um molho de vinagre que acabava de tirar do fogo.

Quando Ulenspiegel entrou, ela ficou tão perturbada que colocou dentro da tigela de Katheline o pote inteiro, com todo o molho.

Katheline, balançando a cabeça, procurava com a colher as favas ao redor do recipiente e, batendo na testa, dizia como mulher louca:

— Tirai o fogo! A cabeça queima!

O cheiro do vinagre despertava a fome de Lamme.

Ulenspiegel permanecia de pé, contemplando Nele e sorrindo de amor em meio à grande tristeza.

E Nele, sem lhe dizer palavra, lançou-lhe os braços ao pescoço.

Ela também parecia louca. Chorava, ria e, vermelha de grande e doce prazer, dizia apenas:

— Thyl! Thyl!

Ulenspiegel, feliz, contemplava-a.

Depois ela o soltava, afastava-se um pouco, olhava-o com alegria e, dali, tornava a lançar-se sobre ele, envolvendo-lhe o pescoço com os braços.

E assim fez muitas vezes.

Ele a sustentava, muito feliz, sem conseguir separar-se dela, até que Nele caiu sobre uma cadeira, cansada e como fora de si, dizendo sem vergonha:

— Thyl! Thyl! Meu amado, então voltaste!

Lamme permanecia de pé junto à porta.

Quando Nele se acalmou, a

— Onde vi esse gordo?

— É meu amigo — disse Ulenspiegel. — Procura a mulher em minha companhia.

— Reconheço-te — disse Nele, falando a Lamme. — Moravas na rua da Garça. Procuras tua mulher. Eu a vi em Bruges, vivendo em completa piedade e devoção. Perguntei por que fugira tão cruelmente do marido, e ela respondeu: “Tal era a santa vontade de Deus e a ordem da santa Penitência. Mas já não posso viver com ele.”

Lamme entristeceu-se ao ouvir aquilo e contemplou as favas com vinagre.

E as cotovias, cantando, erguiam-se no céu, e a Natureza desfalecida deixava-se acariciar pelo sol.

E Katheline espetava com a colher, ao redor do pote, as favas brancas, as vagens verdes e o molho.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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