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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 152 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 4 — Capítulo III

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Livro 4 — Capítulo III

O mundo estava em janeiro, o mês cruel que gela o bezerro no ventre da vaca. Nevara e, por cima da neve, viera a geada. Os meninos apanhavam com visco os pardais que procuravam sobre a neve endurecida algum pobre alimento e levavam essa caça para suas choupanas. Contra o céu cinzento e claro destacavam-se, imóveis, os esqueletos das árvores, cujos galhos estavam cobertos de almofadas de neve, que cobriam igualmente as choupanas e o alto dos muros, onde se viam as marcas das patas dos gatos, que também caçavam pardais sobre a neve. Ao longe, os prados estavam ocultos por aquele maravilhoso tosão, que mantinha a terra aquecida contra o frio cortante do inverno. A fumaça das casas e choupanas subia negra ao céu, e não se ouvia ruído algum.

Katheline e Nele estavam sozinhas em casa, e Katheline, balançando a cabeça, dizia:

— Hans, meu coração pende para ti. Precisas devolver os setecentos carolus a Ulenspiegel, filho de Soetkin. Se estiveres necessitado, vem contudo, para que eu veja teu rosto brilhante. Tira o fogo, minha cabeça arde. Ai! Onde estão teus beijos de neve? Onde está teu corpo de gelo? Hans, meu amado.

E permanecia junto à janela. De repente passou, correndo a toda velocidade, um voet-looper, mensageiro que trazia guizos à cintura e gritava:

— Aí vem o bailio, o alto-bailio de Damme!

E seguiu assim até a Casa Comunal, a fim de ali reunir os burgomestres e escabinos.

Então, no silêncio espesso, Nele ouviu soar dois clarins. Todos os habitantes de Damme foram às portas, julgando que Sua Majestade Real se anunciava com tais fanfarras.

Katheline também foi à porta com Nele. De longe, viram cavaleiros resplandecentes vindo em grupo e, à frente deles, cavalgava igualmente um personagem coberto por um opperst-kleed de veludo negro bordado de peles de marta, com gibão de veludo agaloado de ouro fino e botinas de couro fulvo forradas de marta. E reconheceram o alto-bailio.

Atrás dele cavalgavam jovens senhores que, apesar da ordenação de Sua falecida Majestade Imperial, traziam em seus trajes de veludo bordados, galões, faixas e debruns de ouro, prata e seda. E seus opperst-kleederen, sob as vestes de cima, eram, como o do bailio, orlados de pele. Cavalgavam alegremente, agitando ao vento as longas plumas de avestruz que enfeitavam suas boinas abotoadas e agaloadas de ouro.

E pareciam todos bons amigos e companheiros do alto-bailio, sobretudo um senhor de rosto azedo, vestido de veludo verde agaloado de ouro, cujo manto era de veludo negro, assim como a boina ornada de longas plumas. Tinha o nariz em forma de bico de abutre, a boca fina, os cabelos ruivos, o rosto pálido e o porte altivo.

Quando a comitiva desses senhores passava diante da casa de Katheline, esta, de repente, saltou até as rédeas do cavalo do senhor pálido e, enlouquecida de alegria, exclamou:

— Hans! Meu amado, eu sabia que voltarias. Estás belo assim, todo de veludo e ouro, como um sol sobre a neve! Trazes-me os setecentos carolus? Tornarei a ouvir-te gritar como a coruja-do-mato?

O alto-bailio mandou deter a comitiva dos fidalgos, e o senhor pálido disse:

— Que quer de mim esta mendiga?

Mas Katheline, segurando ainda as rédeas do cavalo:

— Não tornes a partir — dizia ela. — Chorei tanto por ti. Doces noites, meu amado, beijos de neve e corpo de gelo. A criança está aqui!

E mostrou-lhe Nele, que o fitava irada, pois ele erguera o chicote contra Katheline. Mas Katheline, chorando:

— Ah! — dizia ela. — Não te lembras? Tem piedade de tua serva. Leva-a contigo para onde quiseres. Tira o fogo, Hans, piedade!

— Vai-te! — disse ele.

E lançou o cavalo tão violentamente para a frente que Katheline, soltando as rédeas, caiu. O cavalo passou por cima dela e abriu-lhe na testa uma ferida sangrenta.

O bailio perguntou então ao senhor pálido:

— Senhor, conheceis esta mulher?

— Não a conheço — respondeu ele. — Deve ser alguma louca.

Mas Nele, tendo ajudado Katheline a erguer-se, disse:

— Se esta mulher é louca, eu não sou, monsenhor, e peço morrer aqui mesmo desta neve que como, e tomou neve com os dedos, se este homem não conheceu minha mãe, se não lhe tomou emprestado todo o dinheiro, se não matou o cão de Claes para retirar, de junto da parede do poço de nossa casa, setecentos carolus pertencentes ao pobre falecido.

— Hans, meu querido — chorava Katheline, sangrando e de joelhos —, Hans, meu amado, dá-me o beijo de paz. Vê o sangue que corre. A alma abriu o buraco e quer sair. Morrerei daqui a pouco. Não me abandones.

Depois, falando em voz baixa:

— Outrora mataste teu companheiro por ciúme, junto ao dique.

E estendeu o dedo na direção de Dudzeele.

— Amavas-me muito naquele tempo.

E abraçava o joelho do fidalgo, e tomava-lhe a botina e a beijava.

— Quem é esse homem morto? — perguntou o alto-bailio.

— Não sei, monsenhor — respondeu ele. — Não devemos dar atenção às palavras dessa mendiga. Sigamos.

O povo se reunia ao redor deles. Grandes e pequenos burgueses, trabalhadores e camponeses, tomando o partido de Katheline, gritavam:

— Justiça, monsenhor bailio, justiça!

E o bailio disse a Nele:

— Quem é esse homem morto? Fala segundo Deus e a verdade.

Nele falou e disse, apontando para o fidalgo pálido:

— Este vinha todos os sábados ao Keet ver minha mãe e tomar-lhe o dinheiro. Matou um de seus amigos, chamado Hilbert, no campo de Servaes Van der Vichte, não por amor, como acredita esta inocente enlouquecida, mas para ficar sozinho com os setecentos carolus.

E Nele contou os amores de Katheline e aquilo que esta ouvira quando, à noite, se escondera atrás do dique que atravessava o campo de Servaes Van der Vichte.

— Nele é má — dizia Katheline. — Fala duramente com Hans, seu pai.

— Juro — disse Nele — que ele gritava como a coruja-do-mato para anunciar sua chegada.

— Mentes — disse o fidalgo.

— Oh, não! — respondeu Nele. — E monsenhor o bailio e todos estes grandes senhores aqui presentes podem ver muito bem: estás pálido, não de frio, mas de medo. Por que teu rosto já não brilha? Perdeste então tua mistura encantada, com a qual te esfregavas para que parecesse luminoso como as ondas no verão, quando troveja? Mas, feiticeiro maldito, serás queimado diante das grades da Casa Comunal. Foste tu que causaste a morte de Soetkin, tu que reduziste seu filho órfão à miséria. Tu, sem dúvida homem nobre, que vinhas à casa de nós, burgueses, para levar dinheiro a minha mãe uma única vez e tomá-lo dela em todas as outras.

— Hans — dizia Katheline —, tornarás a levar-me ao sabá e tornarás a untar-me com bálsamo. Não escutes Nele, ela é má. Vês o sangue, a alma abriu o buraco e quer sair. Morrerei daqui a pouco e irei para o limbo, onde não se queima.

— Cala-te, louca feiticeira. Não te conheço e não sei o que queres dizer — disse o fidalgo.

— E contudo — disse Nele — foste tu que vieste com um companheiro e quiseste dá-lo a mim como marido. Sabes que não o quis. Que fez ele, teu amigo Hilbert? Que fez dos olhos depois que neles enterrei as unhas?

— Nele é má — dizia Katheline. — Não acredites nela, Hans, meu querido. Está zangada com Hilbert, que quis tomá-la à força. Mas Hilbert já não pode fazê-lo, os vermes o comeram. E Hilbert era feio. Hans, meu querido, só tu és belo. Nele é má.

Então o bailio disse:

— Mulheres, ide em paz.

Mas Katheline não queria deixar o lugar onde estava seu amigo. Foi preciso conduzi-la à força de volta para casa.

E todo o povo reunido gritava:

— Justiça, monsenhor, justiça!

Os sargentos da comuna, tendo vindo ao ruído, receberam ordem do bailio para permanecer ali, e ele disse aos senhores e fidalgos:

— Monsenhores e senhores, apesar de todos os privilégios que protegem a ilustre ordem da nobreza na terra de Flandres, devo, diante das acusações, e sobretudo da acusação de feitiçaria levantada contra o senhor Joos Damman, mandar prendê-lo até que seja julgado segundo as leis e ordenações do Império. Entregai-me vossa espada, senhor Joos.

— Monsenhor bailio — disse Joos Damman, com grande altivez e orgulho nobiliário —, prendendo-me, infringis a lei de Flandres, pois não sois vós mesmo juiz. Ora, sabeis que não é permitido prender sem mandado de juiz senão falsificadores de moeda, salteadores de estradas e vias públicas, incendiários, violentadores de mulheres, homens de armas que abandonam seu capitão, encantadores que empregam veneno para envenenar as águas, monges ou beguinas fugidos da religião e banidos. Vamos, senhores e monsenhores, defendei-me!

Como alguns quisessem obedecer, o bailio lhes disse:

— Monsenhores e senhores, representando aqui nosso rei, conde e senhor, a quem está reservada a decisão dos casos difíceis, ordeno-vos, sob pena de serdes declarados rebeldes, que torneis a pôr as espadas nas bainhas.

Os fidalgos obedeceram, e, como o senhor Joos Damman ainda hesitasse, o povo gritou:

— Justiça, monsenhor, justiça! Que entregue a espada.

Ele o fez então, muito a contragosto, e, descendo do cavalo, foi conduzido por dois sargentos à prisão da comuna.

Contudo, não foi encerrado nas caves, mas numa câmara gradeada, onde, pagando, teve bom fogo, bom leito e boa comida, da qual o carcereiro ficava com a metade.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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