Leia agora
A Lenda de Ulenspiegel

Universo da obra

A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 160 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 4 — Capítulo XI

161 de 182 ≈ 8 min de leitura

Livro 4 — Capítulo XI

Numa noite negra, enquanto a tempestade ribombava nas profundezas das nuvens, Ulenspiegel estava no convés com Nele e disse:

— Todos os nossos fogos estão apagados. Somos raposas espreitando, à noite, a passagem da criação espanhola, isto é, seus vinte e dois assabres, navios ricos nos quais brilham lanternas que para eles são estrelas da má hora. E nós lhes cairemos em cima.

Nele disse:

— Esta é uma noite de feiticeiros. O céu está negro como a boca do inferno, os relâmpagos brilham como o sorriso de Satanás, a tempestade distante ribomba surdamente, as gaivotas passam soltando grandes gritos. O mar enrola, como serpentes de prata, suas ondas fosforescentes. Thyl, meu amado, vem ao mundo dos espíritos. Toma o pó das visões...

— Verei os Sete, minha encantadora?

E tomaram o pó das visões.

Nele fechou os olhos de Ulenspiegel, e Ulenspiegel fechou os olhos de Nele. E viram um espetáculo cruel.

Céu, terra e mar estavam cheios de homens, mulheres e crianças trabalhando, navegando, caminhando ou sonhando. O mar os embalava, a terra os carregava. E fervilhavam como enguias dentro de um cesto.

Sete homens e mulheres estavam no meio do céu, sentados sobre tronos e com a fronte cingida por uma estrela brilhante. Mas eram tão indistintos que Nele e Ulenspiegel só conseguiam ver claramente as estrelas.

O mar elevou-se até o céu, revolvendo em sua espuma a multidão inumerável dos navios, cujos mastros e cordames se chocavam, cruzavam-se, quebravam-se e esmagavam-se, seguindo os movimentos tempestuosos das ondas.

Então um navio surgiu no meio de todos os outros. Seu casco era de ferro flamejante. Sua quilha era de aço afiado como uma faca. A água gritava e gemia quando ele passava.

A Morte estava sentada na popa, rindo com escárnio. Numa das mãos trazia a foice e, na outra, um chicote com o qual golpeava sete personagens.

Um deles era um homem pesaroso, magro, altivo e silencioso. Segurava numa das mãos um cetro e, na outra, uma espada.

Junto dele, montada numa cabra, estava uma moça ruiva, de seios nus, vestido aberto e olhos brilhantes. Estendia-se lascivamente ao lado de um velho judeu que recolhia pregos e de um homem gordo e inchado, que caía cada vez que ela o colocava de pé, enquanto uma mulher magra e enfurecida golpeava os dois.

O homem gordo não se defendia, nem sua companheira ruiva.

Um monge, no meio deles, comia salsichas.

Uma mulher, deitada no chão, rastejava como serpente entre os demais. Mordia o velho judeu por causa de seus velhos pregos; o homem inchado, porque tinha demasiado conforto; a mulher ruiva, pelo brilho úmido dos olhos; o monge, por causa das salsichas; e o homem magro, por causa do cetro.

E logo todos começaram a lutar.

Quando passaram, a batalha tornou-se horrível no mar, no céu e sobre a terra. Choveu sangue. Os navios eram despedaçados a golpes de machado, arcabuz e canhão. Seus destroços voavam pelo ar, no meio da fumaça da pólvora.

Em terra, os exércitos chocavam-se como muralhas de bronze. Cidades, aldeias e colheitas ardiam entre gritos e lágrimas. Os altos campanários, rendas de pedra, destacavam no meio do fogo suas silhuetas altivas e depois caíam com estrondo como carvalhos abatidos.

Cavaleiros negros, numerosos e cerrados como bandos de formigas, de espada na mão e pistola em punho, golpeavam homens, mulheres e crianças. Alguns abriam buracos no gelo e ali enterravam velhos vivos. Outros cortavam os seios das mulheres e semeavam pimenta nas feridas. Outros penduravam as crianças nas chaminés.

Os que se cansavam de ferir violavam alguma jovem ou alguma mulher, bebiam, jogavam dados e, remexendo montes de ouro, fruto do saque, mergulhavam neles os dedos vermelhos.

Os sete coroados de estrelas gritavam:

— Piedade para o pobre mundo!

E os fantasmas riam com escárnio. Suas vozes pareciam as de mil corujas-do-mato gritando juntas. E a Morte agitava a foice.

— Ouves? — perguntou Ulenspiegel. — São as aves de rapina dos pobres homens. Vivem dos pequenos pássaros, que são os simples e os bons.

Os sete coroados de estrelas gritavam:

— Amor, justiça, misericórdia!

E os sete fantasmas riam com escárnio. Suas vozes pareciam as de mil corujas-do-mato gritando juntas. E a Morte os golpeava com o chicote.

O navio passava sobre as ondas, cortando ao meio embarcações, barcos, homens, mulheres e crianças. Sobre o mar ressoavam os lamentos das vítimas, que gritavam:

— Piedade!

E o navio vermelho passava sobre todos eles, enquanto os fantasmas, rindo, gritavam como corujas-do-mato.

E a Morte, rindo com escárnio, bebia a água cheia de sangue.

Quando o navio desapareceu no nevoeiro, a batalha cessou e os sete coroados de estrelas se desvaneceram.

Ulenspiegel e Nele já não viram senão o céu negro, o mar revolto, as nuvens sombrias avançando sobre a água fosforescente e, muito perto, estrelas vermelhas.

Eram as lanternas dos vinte e dois assabres. O mar e o trovão ribombavam surdamente.

Ulenspiegel tocou suavemente o sino de alarme e gritou:

— O Espanhol! O Espanhol! Navega rumo a Flessingue!

E o grito foi repetido por toda a frota.

Ulenspiegel disse a Nele:

— Um tom cinzento espalha-se pelo céu e pelo mar. As lanternas já não brilham senão fracamente. A aurora se levanta, o vento refresca, as ondas lançam espuma por cima do convés dos navios. Cai uma chuva forte e logo cessa. O sol nasce radioso, dourando a crista das ondas. É teu sorriso, Nele, fresco como a manhã, suave como o raio de sol.

Os vinte e dois assabres passam. Nos navios dos Mendigos, os tambores batem e os pífaros guincham. De Lumey grita:

— Em nome do príncipe, à caça!

Ewout Pietersen Worst, vice-almirante, grita:

— Em nome de monsenhor de Orange e do senhor almirante, à caça!

Em todos os navios, o Johannah, o Cisne, o Anne-Mie, o Mendigo, o Compromisso, o Egmont, o De Horn, o Willem de Zwyger, o Guilherme, o Taciturno, todos os capitães gritam:

— Em nome de monsenhor de Orange e do senhor almirante, à caça!

— À caça! Viva o Mendigo! — gritam os soldados e marinheiros.

A hulca de Muito-Longo, na qual estavam Lamme e Ulenspiegel e que se chamava Brielle, seguida de perto pelo Johannah, pelo Cisne e pelo Mendigo, apodera-se de quatro assabres.

Os Mendigos lançam à água tudo o que é espanhol, fazem prisioneiros os habitantes dos Países Baixos, esvaziam os navios como cascas de ovos e deixam-nos navegar sem mastros nem velas pela enseada.

Depois perseguem os outros dezoito assabres.

O vento sopra violento, vindo de Antuérpia. A muralha dos navios velozes inclina-se sobre a água do rio sob o fardo das velas enfunadas como faces de monge ao vento que vem das cozinhas.

Os assabres avançam depressa. Os Mendigos perseguem-nos até a enseada de Middelburg, sob o fogo dos fortes.

Ali trava-se uma batalha sangrenta. Os Mendigos lançam-se com machados sobre os conveses dos navios, logo cobertos de braços e pernas cortados, que, terminado o combate, precisam ser lançados às ondas em cestos.

Os fortes disparam contra eles. Eles zombam e, ao grito de “Viva o Mendigo!”, tomam dos assabres pólvora, artilharia, balas e trigo, incendeiam-nos depois de esvaziá-los e seguem para Flessingue, deixando-os fumegantes e em chamas na enseada.

Dali enviarão pelotões para romper os diques da Zelândia e da Holanda e ajudar na construção de novos navios, sobretudo flibotes de cento e quarenta toneladas, capazes de levar até vinte peças de ferro fundido.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

A Lenda de Ulenspiegel

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

A Lenda de Ulenspiegel

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de A Lenda de Ulenspiegel

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral A Lenda de Ulenspiegel Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 160 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de A Lenda de Ulenspiegel

Capa de A Lenda de Ulenspiegel
Continue a leitura Livro 4 — Capítulo XI Capítulo 160 · 161 de 182 · ≈ 8 min
Todos os capítulos 182 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir