Universo da obra
Universo da obra
Neva sobre os navios. O ar está todo branco até muito longe, e sem cessar a neve cai, cai suavemente na água negra, onde se desfaz.
Neva sobre a terra. Todos brancos estão os caminhos, todas brancas as silhuetas negras das árvores desfolhadas. Nenhum ruído, exceto os sinos distantes de Haarlem marcando a hora e o alegre carrilhão lançando no ar espesso suas notas abafadas.
Sinos, não toqueis. Carrilhão, não lanceis vossas melodias simples e doces. Don Frédéric aproxima-se, o pequeno duque de sangue. Marcha contra ti, seguido de trinta e cinco companhias de Espanhóis, teus inimigos mortais, Haarlem, ó cidade da liberdade; vinte e duas companhias de Valões, dezoito de Alemães, oitocentos cavalos e uma poderosa artilharia seguem-no.
Ouves sobre as carroças o ruído dessas ferragens assassinas? Falcões, colubrinas, canhões curtos de grande boca, tudo isso é para ti, Haarlem. Sinos, não toqueis. Carrilhão, não lanceis vossas notas alegres no ar espesso de neve.
— Sinos, nós tocaremos. Eu, carrilhão, cantarei, lançando minhas notas ousadas no ar espesso de neve. Haarlem é a cidade dos corações valentes e das mulheres corajosas. Do alto de seus campanários, vê sem medo ondularem, como bandos de formigas infernais, as massas negras dos carrascos. Ulenspiegel, Lamme e cem Mendigos do Mar estão dentro de seus muros. Sua frota cruza o lago.
— Que venham! — dizem os habitantes. — Somos apenas burgueses, pescadores, marinheiros e mulheres. O filho do duque de Alba diz não querer outras chaves para entrar em nossa cidade além de seus canhões. Que abra, se puder, estas frágeis portas. Encontrará homens atrás delas. Tocai, sinos. Carrilhão, lança tuas notas alegres no ar espesso de neve.
“Temos apenas muros frágeis e fossos à maneira antiga. Quatorze peças de artilharia vomitam seus projéteis de quarenta e seis libras sobre a Cruys-poort. Ponde homens onde faltam pedras. Chega a noite, todos trabalham, e é como se jamais o canhão houvesse passado por ali. Contra a Cruys-poort lançaram seiscentos e oitenta projéteis; contra a porta de São João, seiscentos e setenta e cinco. Essas chaves não abrem, pois eis que atrás se ergue um novo baluarte. Tocai, sinos. Carrilhão, lança no ar espesso tuas notas alegres.
“O canhão bate, bate sempre contra as muralhas. As pedras saltam, os trechos de muro desabam. A brecha é bastante larga para deixar passar uma companhia de frente.
“Assalto! Matai! Matai! — gritam eles.
“Eles sobem, são dez mil. Deixai-os atravessar os fossos com suas pontes e suas escadas. Nossos canhões estão prontos. Eis o rebanho dos que vão morrer. Saudai-os, canhões da liberdade!
“Eles saúdam. Os projéteis acorrentados, os aros de alcatrão em chamas, voando e assobiando, perfuram, retalham, incendeiam e cegam a massa dos assaltantes, que desaba e foge em desordem. Mil e quinhentos mortos cobrem o fosso. Tocai, sinos. E tu, carrilhão, lança no ar espesso tuas notas alegres.
“Voltai ao assalto! Eles não ousam. Recomeçam a atirar e a cavar minas. Nós também conhecemos a arte das minas. Sob eles, sob eles, acendei o rastilho. Correi, veremos um belo espetáculo. Quatrocentos Espanhóis saltam pelos ares. Não é esse o caminho das chamas eternas. Oh, que bela dança ao som argentino de nossos sinos, ao som da música alegre de nosso carrilhão!
“Não suspeitam que o príncipe vela por nós e que todos os dias nos chegam, por caminhos bem guardados, trenós de trigo e pólvora. O trigo para nós, a pólvora para eles. Onde estão seus seiscentos Alemães, que matamos e afogamos no bosque de Haarlem? Onde estão as onze bandeiras que lhes tomamos, as seis peças de artilharia e os cinquenta bois? Tínhamos um recinto de muralhas, agora temos dois. Até as mulheres combatem, e Kenau conduz sua valente tropa. Vinde, carrascos, marchai por nossas ruas. As crianças vos cortarão os jarretes com suas pequenas facas. Tocai, sinos. E tu, carrilhão, lança no ar espesso tuas notas alegres!
“Mas a felicidade não está conosco. A frota dos Mendigos foi derrotada no lago. Foram derrotadas as tropas que Orange enviara em nosso socorro. Gela, gela cruelmente. Já não há auxílio. Durante cinco meses, mil contra dez mil, resistimos. Agora é preciso negociar com os carrascos. Aceitará ele algum acordo, esse pequeno duque de sangue que jurou nossa perdição? Façamos sair todos os soldados com suas armas. Eles atravessarão as tropas inimigas. Mas as mulheres estão às portas, temendo que as deixem sozinhas para guardar a cidade. Sinos, não toqueis mais. Carrilhão, não lanceis mais no ar vossas notas alegres.
“Eis junho. O feno exala perfume, o trigo doura ao sol, os pássaros cantam. Passamos fome durante cinco meses. A cidade está de luto. Sairemos todos de Haarlem: os arcabuzeiros à frente, para abrir caminho; as mulheres, as crianças e o magistrado atrás, protegidos pela infantaria que vela junto à brecha. Uma carta, uma carta do pequeno duque de sangue! É a morte que anuncia? Não, é a vida para todos os que estão na cidade. Ó clemência inesperada, ó mentira talvez! Tornarás a cantar, alegre carrilhão? Eles entram na cidade.”
Ulenspiegel, Lamme e Nele haviam vestido os trajes dos soldados alemães encerrados com eles, em número de seiscentos, no convento dos Agostinianos.
— Morreremos hoje — disse Ulenspiegel em voz baixa a Lamme.
E apertou contra o peito o corpo encantador de Nele, que tremia de medo.
— Ai! Minha mulher, nunca mais a verei — dizia Lamme. — Mas talvez nossos trajes de soldados alemães nos salvem a vida.
Ulenspiegel sacudiu a cabeça, mostrando que não acreditava em graça alguma.
— Não ouço o ruído do saque — disse Lamme.
Ulenspiegel respondeu:
— Segundo o acordo, os burgueses resgataram o saque e a própria vida pela soma de duzentos e quarenta mil florins. Deverão pagar cem mil florins à vista, dentro de doze dias, e o restante três meses depois. Ordenaram às mulheres que se recolhessem às igrejas. Sem dúvida vão começar o massacre. Ouves pregarem os cadafalsos e erguerem as forcas?
— Ah! Vamos morrer! — disse Nele. — Tenho fome.
— Sim — disse Lamme em voz baixa a Ulenspiegel —, o pequeno duque de sangue disse que, estando famintos, seremos mais dóceis quando nos levarem para morrer.
— Tenho tanta fome! — disse Nele.
Ao anoitecer, alguns soldados vieram e distribuíram um pão para cada seis homens.
— Trezentos soldados valões foram enforcados no mercado — disseram. — Em breve será a vossa vez. Sempre houve casamento entre Mendigos e forcas.
Na noite seguinte, vieram novamente com o pão para seis homens.
— Quatro grandes burgueses foram decapitados — disseram. — Duzentos e quarenta e nove soldados foram amarrados dois a dois e lançados ao mar. Os caranguejos estarão gordos este ano. Não tendes boa cara, vós outros, desde o dia sete de julho em que estais aqui. São gulosos e beberrões estes habitantes dos Países Baixos. Nós, Espanhóis, contentamo-nos com dois figos no jantar.
— É por isso — respondeu Ulenspiegel — que em toda casa de burguês precisais de quatro refeições de carnes, aves, cremes, vinhos e doces; que precisais de leite para lavar os corpos de vossos bigodes e vinho para banhar os pés de vossos cavalos?
No dia dezoito de julho, Nele disse:
— Meus pés estão molhados. Que é isto?
— Sangue — respondeu Ulenspiegel.
Ao anoitecer, os soldados vieram novamente com o pão para seis homens.
— Onde a corda já não basta — disseram —, a espada faz o trabalho. Trezentos soldados e vinte e sete burgueses que pensaram fugir da cidade passeiam agora pelo inferno com a cabeça nas mãos.
No dia seguinte, o sangue tornou a entrar no convento. Os soldados não vieram trazer pão, mas apenas contemplar os prisioneiros, dizendo:
— Os quinhentos Valões, Ingleses e Escoceses decapitados ontem tinham melhor aparência. Estes estão com fome, sem dúvida. Mas quem morreria de fome, senão o Mendigo?
E, de fato, todos estavam ali pálidos, esquálidos, desfeitos, tremendo de febre fria, como fantasmas.
No dia dezesseis de agosto, às cinco horas da tarde, os soldados entraram rindo e lhes deram pão, queijo e cerveja.
Lamme disse:
— É o banquete da morte.
Às dez horas, chegaram quatro companhias. Os capitães mandaram abrir as portas do convento e ordenaram aos prisioneiros que marchassem quatro a quatro, atrás dos pífaros e tambores, até o lugar onde lhes fosse ordenado parar.
Algumas ruas estavam vermelhas, e eles marcharam rumo ao Campo das Forcas.
Aqui e ali, poças de sangue manchavam os prados. Havia sangue por toda parte ao redor das muralhas. Os corvos vinham em nuvens de todos os lados. O sol escondia-se num leito de vapores. O céu ainda estava claro, e, em sua profundidade, despertavam tímidas as estrelas.
De repente ouviram uivos lamentáveis.
— Os que gritam ali são os Mendigos do forte de Fuycke, fora da cidade — diziam os soldados. — Deixam-nos morrer de fome.
— Nós também vamos morrer — disse Nele.
E chorou.
— As cinzas batem sobre o meu coração — disse Ulenspiegel.
— Ah! — disse Lamme em flamengo, pois os soldados da escolta não compreendiam aquela orgulhosa língua. — Ah! Se eu pudesse apanhar esse duque de sangue e fazê-lo comer, até que a pele lhe arrebentasse, todas as cordas, forcas, bancos, cavaletes, pesos e borzeguins; se pudesse fazê-lo beber o sangue que derramou e de sua pele rasgada e de suas tripas abertas saíssem lascas de madeira e pedaços de ferro, e ele ainda não entregasse a alma, eu lhe arrancaria o coração do peito e o faria comê-lo cru e venenoso. Então, com certeza, cairia da vida para a morte no abismo de enxofre, onde possa o diabo fazê-lo comer e tornar a comer o próprio coração sem cessar. E assim por toda a longa eternidade.
— Amém — disseram Ulenspiegel e Nele.
— Não vês coisa alguma? — perguntou ela.
— Não — respondeu ele.
— Vejo no Ocidente — disse Nele — cinco homens e duas mulheres sentados em círculo. Um está vestido de púrpura e traz uma coroa de ouro. Parece o chefe dos outros, todos esfarrapados e cobertos de andrajos. Vejo do lado do Oriente outra tropa de sete aproximando-se. Alguém também os comanda, vestido de púrpura, mas sem coroa. E avançam contra os do Ocidente. Lutam com eles dentro da nuvem, mas já não vejo coisa alguma.
— Os Sete — disse Ulenspiegel.
— Ouço — disse Nele — aqui perto, na folhagem, uma voz semelhante a um sopro, dizendo:
Pela guerra e pelo fogo,
Pelas lanças e pelas espadas,
Procura.
Na morte e no sangue,
Nas ruínas e nas lágrimas,
Encontra.
— Outros, não nós, libertarão a terra de Flandres — respondeu Ulenspiegel. — A noite torna-se negra. Os soldados acendem tochas. Estamos perto do Campo das Forcas. Ó doce amada, por que me seguiste? Já não ouves coisa alguma, Nele?
— Sim — respondeu ela —, ouço ruído de armas entre os trigais. E ali, acima daquela colina que domina o caminho por onde entramos, vês brilhar sobre o aço a luz vermelha das tochas? Vejo pontos de fogo das mechas dos arcabuzes. Nossos guardas dormem ou estão cegos? Ouves esse trovão? Vês os Espanhóis caírem atravessados por balas? Ouves: “Viva o Mendigo!” Eles sobem correndo pelo atalho, de lança em riste. Descendem com machados pela encosta. Viva o Mendigo!
— Viva o Mendigo! — gritam Lamme e Ulenspiegel.
— Toma — disse Nele —, eis soldados que nos dão armas. Toma, Lamme. Toma, meu amado. Viva o Mendigo!
— Viva o Mendigo! — grita toda a tropa dos prisioneiros.
— Os arcabuzes não cessam de disparar — disse Nele. — Eles caem como moscas, iluminados pelo clarão das tochas. Viva o Mendigo!
— Viva o Mendigo! — grita a tropa dos libertadores.
— Viva o Mendigo! — gritam Ulenspiegel e os prisioneiros. — Os Espanhóis estão dentro de um círculo de ferro. Matai! Matai! Nenhum permanece de pé. Matai! Sem piedade, guerra sem misericórdia. Agora recolhamos a bagagem e corramos até Enckhuyse. Quem tem as roupas de tecido e seda dos carrascos? Quem tem suas armas?
— Todos! Todos! — gritam eles. — Viva o Mendigo!
E, de fato, regressam de barco para Enckhuyse, onde os Alemães libertados com eles permaneceram para guardar a cidade.
Lamme, Nele e Ulenspiegel reencontram seus navios.
E novamente ei-los cantando sobre o mar livre:
— Viva o Mendigo!
E cruzam a enseada de Flessingue.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
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