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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 162 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 4 — Capítulo XIII

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Livro 4 — Capítulo XIII

Ali, Lamme tornou a ficar alegre. Descia de bom grado à terra, caçando bois, carneiros e aves como se fossem lebres, veados e papa-figos.

E não estava sozinho naquela caça nutritiva. Era belo então ver os caçadores regressarem, Lamme à frente, puxando o gado graúdo pelos chifres, empurrando o miúdo, conduzindo à vara bandos de gansos e trazendo na ponta das ganchorras galinhas, frangos e capões, apesar da proibição.

Havia então festas e banquetes nos navios. E Lamme dizia:

— O aroma dos molhos subia até o céu, alegrando os senhores anjos, que dizem: “Eis o melhor da carne.”

Enquanto cruzavam, surgiu uma frota mercante vinda de Lisboa, cujo comandante ignorava que Flessingue caíra em poder dos Mendigos. Ordenaram-lhe que lançasse âncora, e a frota foi cercada.

Viva o Mendigo!

Tambores e pífaros deram o sinal de abordagem. Os mercadores tinham canhões, lanças, machados e arcabuzes. Balas e projéteis choviam dos navios dos Mendigos. Seus arcabuzeiros, entrincheirados ao redor do mastro grande em fortins de madeira, atiravam com certeza e sem perigo. Os mercadores caíam como moscas.

— Ao ataque! — dizia Ulenspiegel a Lamme e a Nele. — Ao ataque! Eis especiarias, joias, mercadorias preciosas, açúcar, noz-moscada, cravo, gengibre, reais, ducados e moedas de ouro, todas brilhantes. Há mais de quinhentas mil peças. O Espanhol pagará as despesas da guerra. Bebamos! Cantemos a missa dos Mendigos, que é a batalha.

Ulenspiegel e Lamme corriam por toda parte como leões. Nele tocava pífaro, abrigada no fortim de madeira.

Toda a frota foi tomada.

Contados os mortos, havia mil do lado dos Espanhóis e trezentos do lado dos Mendigos. Entre estes estava o mestre-cozinheiro do flibote Brielle.

Ulenspiegel pediu licença para falar diante de Muito-Longo e dos marinheiros, e Muito-Longo lha concedeu de bom grado.

Então lhes dirigiu este discurso:

— Senhor capitão e vós, compadres, acabamos de herdar muitas especiarias. Aqui está Lamme, a boa pança, que julga que o pobre morto ali, Deus o conserve em alegria, não era doutor suficientemente grande nos fricassês. Nomeemo-lo para o lugar, e ele vos preparará ensopados celestes e sopas paradisíacas.

— Queremos — disseram Muito-Longo e os outros. — Lamme será o mestre-cozinheiro do navio. Trará a grande colher de madeira para afastar de seus molhos os comilões.

— Senhor capitão, compadres e amigos — disse Lamme —, vedes-me chorando de alegria, pois não mereço honra tão grande. Contudo, já que vos dignais recorrer à minha indignidade, aceito as nobres funções de mestre nas artes dos fricassês no valente flibote Brielle. Peço-vos, porém, humildemente, que me invistais no comando supremo da cozinha, de tal maneira que vosso mestre-cozinheiro, que serei eu, possa, por direito, lei e força, impedir qualquer um de vir comer a parte dos outros.

Muito-Longo e os Mendigos gritaram:

— Viva Lamme! Terás direito, lei e força.

— Mas tenho — disse ele — outra súplica a fazer-vos humildemente. Sou gordo, grande e robusto. Profunda é minha pança, profundo meu estômago. Minha pobre mulher, que Deus ma devolva, sempre me dava duas porções em vez de uma. Concedei-me o mesmo favor.

Muito-Longo, Ulenspiegel e os marinheiros disseram:

— Terás as duas porções, Lamme.

Lamme, tornando-se subitamente melancólico, disse:

— Minha mulher! Minha doce encantadora! Se alguma coisa pode consolar-me de tua ausência, será recordar em minhas funções tua cozinha celeste em nosso doce lar.

— É preciso prestar juramento, meu filho — disse Ulenspiegel. — Que tragam a grande colher de madeira e o grande caldeirão de cobre.

— Juro — disse Lamme — por Deus, que aqui me ajude, juro fidelidade a monsenhor príncipe de Orange, chamado o Taciturno, governador, em nome do rei, das províncias da Holanda e da Zelândia; fidelidade ao senhor de Lumey, almirante que comanda nossa nobre frota, e ao senhor Muito-Longo, vice-almirante e capitão do navio Brielle. Juro alimentar com o melhor de minhas pobres forças, segundo os usos e costumes dos grandes cozinheiros antigos, que deixaram sobre a elevada arte da cozinha belos livros com figuras, as carnes e aves que a Fortuna nos conceder.

“Juro alimentar o referido senhor Muito-Longo, capitão; seu imediato, que é meu amigo Ulenspiegel; e todos vós, mestre-marinheiro, piloto, contramestre, companheiros, soldados, artilheiros, copeiro, grumete, pajem do capitão, cirurgião, trombeteiro, marinheiros e todos os demais.

“Se o assado estiver demasiado sangrento, se a ave estiver pouco dourada; se a sopa exalar cheiro insípido, contrário a toda boa digestão; se o aroma dos molhos não vos levar a lançar-vos todos à cozinha, respeitada, contudo, minha vontade; se eu não vos fizer alegres e de boa cara, renunciarei às minhas nobres funções, julgando-me inepto para ocupar por mais tempo o trono da cozinha. Assim me ajude Deus nesta vida e na outra.”

— Viva o mestre-cozinheiro! — disseram eles. — O rei da cozinha, o imperador dos fricassês! Aos domingos terá três porções em vez de duas.

E Lamme tornou-se mestre-cozinheiro do navio Brielle. Enquanto as sopas suculentas cozinhavam nas panelas, permanecia à porta da cozinha, altivo, trazendo como cetro a grande colher de madeira.

E tinha suas três porções aos domingos.

Quando os Mendigos travavam combate com o inimigo, ele permanecia de bom grado em seu laboratório de molhos. Mas saía para ir ao convés disparar alguns tiros de arcabuz e tornava logo a descer para velar pelos molhos.

Sendo assim cozinheiro fiel e soldado valente, era muito amado por todos.

Mas ninguém devia entrar em sua cozinha. Pois então ele se tornava como um diabo e golpeava com a colher de madeira de ponta e de gume, sem piedade.

E foi novamente chamado Lamme, o Leão.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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