Universo da obra
Universo da obra
O mundo estava então no mês do lobo, que é dezembro. Uma chuva cortante caía como agulhas sobre as águas. Os Mendigos cruzavam o Zuyderzee. O senhor almirante mandou, ao som da trombeta, que os capitães das hulcas e dos flibotes se reunissem em seu navio, e com eles Ulenspiegel.
— Vamos — disse ele, dirigindo-se primeiro a Ulenspiegel —, o príncipe quer reconhecer teus bons serviços e tua lealdade e te nomeia capitão do navio Brielle. Entrego-te aqui a comissão em pergaminho.
— Graças vos sejam dadas, senhor almirante — respondeu Ulenspiegel. — Capitanearei com todo o meu pequeno poder e, capitaneando assim, tenho grande esperança, se Deus me ajudar, de descapitanear a Espanha das terras de Flandres e da Holanda. Quero os Países Baixos do Sul e do Norte.
— Isso está bem — disse o almirante. — Agora — acrescentou, falando a todos —, direi que os de Amsterdam, a Católica, vão sitiar Enckhuyse. Ainda não saíram do canal do IJ. Cruzemos diante dele para que lá permaneçam, e caiamos sobre todo e qualquer navio que mostrar no Zuyderzee sua carcaça tirânica.
Eles responderam:
— Nós os perfuraremos. Viva o Mendigo!
Ulenspiegel, tendo regressado ao próprio navio, reuniu marinheiros e soldados no convés e lhes contou o que decidira o almirante.
Eles responderam:
— Temos asas, que são nossas velas; patins, que são as quilhas de nossos navios; mãos gigantescas, que são os arpéus de abordagem. Viva o Mendigo!
A frota partiu e cruzou diante de Amsterdam, a uma légua mar adentro, de tal modo que ninguém podia entrar ou sair sem que eles o permitissem.
No quinto dia, a chuva cessou. O vento soprou mais cortante sob o céu claro. Os de Amsterdam não faziam movimento algum.
De repente, Ulenspiegel viu Lamme subir ao convés, enxotando diante de si, com grandes golpes da colher de madeira, o intérprete do navio, jovem rapaz versado na língua francesa e flamenga, mas ainda mais versado na ciência da boca.
— Patife — dizia Lamme, enquanto o espancava —, pensavas poder comer impunemente meus fricassês antes da hora? Sobe ao alto do mastro e vê se alguma coisa se move nos navios de Amsterdam. Fazendo isso, farás bem.
Mas o intérprete respondeu:
— Que me darás?
— Pretendes — disse Lamme — ser pago sem haver trabalhado? Semente de ladrão, se não subires, mandarei açoitar-te. E teu francês não te salvará.
— É bela língua — disse o intérprete —, língua amorosa e guerreira.
E subiu.
— Então, preguiçoso? — perguntou Lamme.
O intérprete respondeu:
— Não vejo coisa alguma na cidade nem nos navios.
E, descendo:
— Paga-me agora — disse.
— Conserva o que roubaste — respondeu Lamme. — Mas semelhante bem não aproveita. Sem dúvida o vomitarás.
O intérprete tornou a subir ao alto do mastro e de repente gritou:
— Lamme! Lamme! Há um ladrão entrando em tua cozinha.
— Tenho a chave em minha bolsa — respondeu Lamme.
Ulenspiegel então levou Lamme à parte e disse-lhe:
— Meu filho, essa grande tranquilidade de Amsterdam me assusta. Eles têm algum plano secreto.
— Também pensei nisso — disse Lamme. — A água congela nas jarras do armário; as aves estão duras como madeira; a geada embranquece os salsichões; a manteiga está como pedra, o óleo, todo branco, e o sal, seco como areia ao sol.
— A geada se aproxima — disse Ulenspiegel. — Virão em grande número atacar-nos com artilharia.
Indo ao navio do almirante, contou-lhe o que temia. O almirante respondeu:
— O vento sopra da Inglaterra. Haverá neve, mas não congelará. Volta ao teu navio.
Ulenspiegel regressou.
Durante a noite caiu neve abundante. Mas logo, soprando o vento da Noruega, o mar congelou e tornou-se como um assoalho. O almirante contemplou o espetáculo.
Temendo então que os de Amsterdam viessem sobre o gelo incendiar os navios, ordenou aos soldados que preparassem os patins, caso precisassem combater fora e ao redor das embarcações; e aos artilheiros dos canhões de ferro e fundição que colocassem os projéteis em montes junto aos reparos, carregassem as peças e mantivessem sempre acesas as lanças de fogo.
Mas os de Amsterdam não vieram.
E assim se passaram sete dias.
Ao anoitecer do oitavo dia, Ulenspiegel mandou que servissem um bom banquete aos marinheiros e soldados, a fim de lhes dar uma armadura contra o vento cortante.
Mas Lamme disse:
— Nada resta além de biscoito e cerveja fraca.
— Viva o Mendigo! — disseram eles. — Serão núpcias de Quaresma, enquanto esperamos a hora da batalha.
— Que não soará tão cedo — disse Lamme. — Os de Amsterdam virão queimar nossos navios, mas não esta noite. Primeiro precisarão reunir-se ao redor do fogo e beber muitas canecas de vinho da Madeira fervido com açúcar, que Deus vo-lo conceda. Depois de haverem conversado até a meia-noite, com paciência, razão e canecas cheias, decidirão que convém decidir amanhã se nos atacarão ou não na semana seguinte.
“Amanhã, bebendo novamente vinho da Madeira fervido com açúcar, que Deus vo-lo conceda, decidirão outra vez, com calma, paciência e canecas cheias, que deverão reunir-se em outro dia, para saber se o gelo pode ou não sustentar uma grande tropa de homens.
“E mandarão homens doutos experimentá-lo, os quais escreverão em pergaminho suas conclusões. Depois de recebê-las, saberão que o gelo tem meia vara de espessura e é suficientemente sólido para sustentar algumas centenas de homens com canhões e artilharia de campanha.
“Então, reunindo-se novamente para deliberar com calma, paciência e muitas canecas de vinho fervido, calcularão se, por causa do tesouro que tomamos dos de Lisboa, convém assaltar ou queimar nossos navios. E assim, perplexos, mas contemporizadores, decidirão, contudo, que é preciso tomar e não queimar nossas embarcações, apesar do grande prejuízo que assim nos causariam.”
— Falas bem — respondeu Ulenspiegel. — Mas não vês aqueles fogos acenderem-se na cidade e homens com lanternas correrem de um lado para outro, atarefados?
— É porque estão com frio — disse Lamme.
E, suspirando, acrescentou:
— Tudo foi comido. Já não há boi, porco nem aves; já não há vinho, ai de mim, nem boa dobbel-bier. Nada além de biscoito e cerveja fraca. Quem me ama, siga-me!
— Aonde vais? — perguntou Ulenspiegel. — Ninguém pode deixar o navio.
— Meu filho — disse Lamme —, agora és capitão e senhor. Não sairei sem que o queiras. Digna-te, contudo, lembrar que anteontem comemos o último salsichão e que, neste tempo rigoroso, o fogo da cozinha é o sol dos bons companheiros. Quem não desejaria sentir aqui o aroma dos molhos, sorver o perfume do divino vinho, feito das flores alegres que são contentamento, risos e boa vontade para todos?
“Vamos, capitão e amigo fiel, ouso dizê-lo: minha alma rói-se por não comer, eu que, amando apenas o repouso e não matando de bom grado senão um ganso tenro, um frango gordo ou um peru suculento, sigo-te em fadigas e batalhas.
“Olha daqui as luzes daquela fazenda rica e bem provida de gado graúdo e miúdo. Sabes quem mora ali? É o barqueiro da Frísia que traiu o senhor Dandelot e levou a Enckhuyse Albisane e dezoito pobres senhores e amigos, que por sua causa foram esquartejados no Mercado dos Cavalos, em Bruxelas. É no Pequeno Sablon. Esse traidor, chamado Slosse, recebeu do duque dois mil florins por sua traição. Com o preço do sangue, verdadeiro Judas, comprou a fazenda que vês, o gado e os campos ao redor, que, frutificando e crescendo, digo a terra e os animais, tornaram-no rico.”
Ulenspiegel respondeu:
— As cinzas batem sobre o meu coração. Tocas a hora de Deus.
— E também — disse Lamme — a hora da comida. Dá-me vinte rapazes, valentes soldados e marinheiros. Irei buscar o traidor.
— Quero ser o chefe deles — disse Ulenspiegel. — Quem ama a justiça, siga-me. Não todos, queridos e fiéis. Precisamos apenas de vinte. Senão, quem guardaria o navio? Lançai os dados.
— Sois vinte. Vinde. Os dados falaram bem. Aquecei os patins e deslizai rumo à estrela Vênus, que brilha acima da fazenda do traidor.
Guiando-vos pela luz clara, vinde, os vinte, patinando e deslizando, o machado ao ombro.
O vento assobia e impele diante de si, sobre o gelo, brancos turbilhões de neve.
Vinde, homens valentes!
Não cantais nem falais. Avançais em linha reta, silenciosos, rumo à estrela. Vossos patins fazem o gelo gritar.
Quem cai torna logo a levantar-se. Chegamos à margem. Nenhuma forma humana sobre a neve branca, nenhum pássaro no ar gelado.
Tirai os patins. Estamos em terra. Eis os prados. Calçai novamente os patins.
Estamos ao redor da fazenda, retendo a respiração.
Ulenspiegel bate à porta. Os cães ladram. Bate novamente. Uma janela abre-se e o patrão, enfiando a cabeça para fora, pergunta:
— Quem és?
Vê apenas Ulenspiegel. Os outros estão escondidos atrás do kaet, que é a lavanderia.
Ulenspiegel responde:
— O senhor de Boussu ordena que te apresentes imediatamente diante dele em Amsterdam.
— Onde está teu salvo-conduto? — perguntou o homem, descendo e abrindo-lhe a porta.
— Aqui — respondeu Ulenspiegel, mostrando-lhe os vinte Mendigos que se precipitaram atrás dele pela abertura.
Ulenspiegel então lhe disse:
— És Slosse, o barqueiro traidor que fez os senhores Dandelot, de Battembourg e outros caírem numa emboscada. Onde está o preço do sangue?
O fazendeiro, tremendo, respondeu:
— Sois os Mendigos. Dai-me perdão. Eu não sabia o que fazia. Não há dinheiro algum aqui. Entregarei tudo.
Lamme disse:
— Está escuro. Dá-nos velas de sebo ou de cera.
O patrão respondeu:
— As velas de sebo estão penduradas ali.
Tendo sido acesa uma vela, um dos Mendigos, junto à lareira, disse:
— Está frio. Acendamos fogo. Aqui estão belos gravetos.
E mostrou, sobre uma tábua, vasos de flores onde se viam plantas secas. Tomou uma delas pelos cabelos e, sacudindo-a com o vaso, fez este cair, espalhando pelo chão ducados, florins e reais.
— Aqui está o tesouro — disse ele, apontando os outros vasos de flores.
De fato, esvaziando-os, encontraram dez mil florins.
Vendo aquilo, o patrão gritou e chorou.
Os criados e criadas da fazenda vieram aos gritos, em roupas de dormir. Os homens, querendo vingar o amo, foram amarrados. Logo as comadres, envergonhadas, sobretudo as mais jovens, escondiam-se atrás deles.
Lamme avançou então e disse:
— Fazendeiro traidor, onde estão as chaves da adega, da estrebaria, dos currais e do aprisco?
— Salteadores infames — disse o patrão —, sereis enforcados até que a morte sobrevenha.
Ulenspiegel respondeu:
— É a hora de Deus. Dá as chaves.
— Deus me vingará — disse o patrão, entregando-lhas.
Depois de esvaziarem a fazenda, os Mendigos regressaram patinando para os navios, leves moradas da liberdade.
— Sou mestre-cozinheiro — dizia Lamme, guiando-os. — Sou mestre-cozinheiro. Empurrai os valentes trenós carregados de vinhos e cervejas. Enxotai diante de vós, pelos chifres ou de outro modo, cavalos, bois, porcos, carneiros e rebanhos que cantam suas canções naturais. Os pombos arrulham nos cestos. Os capões, empanturrados de miolo de pão, espantam-se dentro das gaiolas de madeira, onde não conseguem mover-se. Sou mestre-cozinheiro.
“O gelo grita sob o ferro dos patins. Chegamos aos navios. Amanhã haverá música de cozinha. Baixai as roldanas. Ponde correias nos cavalos, vacas e bois. É belo espetáculo vê-los assim suspensos pelo ventre. Amanhã seremos suspensos pela língua diante dos gordos fricassês. A roldana de gancho os ergue para o navio. São carbonadas.
“Lançai-me, todos misturados, no porão, frangas, gansos, patos e capões. Quem lhes torcerá o pescoço? O mestre-cozinheiro. A porta está fechada. Tenho a chave em minha bolsa. Deus seja louvado na cozinha! Viva o Mendigo!”
Ulenspiegel foi então ao navio do almirante, levando consigo Dierick Slosse e os demais prisioneiros, que gemiam e choravam de medo da corda.
O senhor Worst veio ao ruído. Vendo Ulenspiegel e seus companheiros iluminados pela luz vermelha das tochas, perguntou:
— Que queres de nós?
Ulenspiegel respondeu:
— Tomamos esta noite, em sua fazenda, o traidor Dierick Slosse, que fez os dezoito caírem numa emboscada. É este. Os outros são criados e criadas inocentes.
Depois, entregando-lhe uma bolsa:
— Estes florins — disse — floresciam em vasos na casa do traidor. São dez mil.
O senhor Worst lhes disse:
— Fizestes mal em abandonar os navios, mas, por causa do bom êxito, vos será dado perdão. Bem-vindos sejam os prisioneiros e a bolsa de florins, e vós, homens valentes, a quem concedo, segundo os direitos e costumes do mar, um terço da presa. O segundo será para a frota, e outro terço, para monsenhor de Orange. Enforcai imediatamente o traidor.
Os Mendigos obedeceram. Depois abriram um buraco no gelo e ali lançaram o corpo de Dierick Slosse.
O senhor Worst disse então:
— Cresceu erva ao redor dos navios, para que eu ouça cacarejarem galinhas, balirem carneiros e mugirem bois e vacas?
— São nossos prisioneiros de boca — respondeu Ulenspiegel. — Pagarão o resgate em fricassês. O senhor almirante receberá o melhor.
“Quanto a estes, criados e criadas, entre os quais há comadres bem-feitas e encantadoras, vou levá-los de volta ao meu navio.”
Tendo feito isso, dirigiu-lhes este discurso:
— Compadres e comadres, estais aqui no melhor navio que existe. Passamos o tempo em festas, banquetes e comilanças sem fim. Se vos agrada partir, pagai resgate. Se vos agrada ficar, vivereis como nós, trabalhando e comendo bem. Quanto a estas comadres encantadoras, concedo-lhes, por licença de capitão, plena liberdade do corpo e digo-lhes que tanto me faz se querem conservar os amigos que vieram com elas para o navio ou escolher algum valente Mendigo aqui presente para lhes fazer companhia matrimonial.
Mas todas as gentis comadres permaneceram fiéis aos amigos, exceto uma, que, sorrindo e olhando para Lamme, perguntou-lhe se a queria.
— Graças vos sejam dadas, encantadora — disse ele —, mas estou comprometido em outra parte.
— É casado, o bom homem — disseram os Mendigos, vendo a comadre contrariada.
Ela, voltando-lhe as costas, escolheu outro que, como Lamme, tinha boa pança e boa cara.
Naquele dia e nos seguintes, houve a bordo dos navios grandes festas e banquetes de vinhos, aves e carnes.
Ulenspiegel disse:
— Viva o Mendigo! Soprai, vento cortante. Aqueceremos o ar com nossa respiração. Nosso coração é de fogo pela livre consciência, e de fogo nosso estômago pelas carnes do inimigo. Bebamos o vinho, leite dos homens. Viva o Mendigo!
Nele também bebia numa grande taça de ouro e, vermelha sob o sopro do vento, fazia o pífaro guinchar.
E, apesar do frio, os Mendigos comiam e bebiam alegremente sobre o convés.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
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