Universo da obra
Universo da obra
Em maio, quando as camponesas de Flandres lançam à noite, devagar, por cima e para trás da cabeça, três favas negras para se protegerem da doença e da morte, a ferida de Lamme tornou a abrir; ele teve uma febre intensa e pediu que o deitassem no convés do navio, diante da jaula do monge.
Ulenspiegel consentiu; mas, temendo que o amigo caísse no mar durante algum acesso, mandou amarrá-lo solidamente à cama.
Nos momentos de lucidez, Lamme recomendava sem cessar que não se esquecessem do monge; e mostrava-lhe a língua.
E o monge dizia:
— Tu me insultas, homem gordo.
— Não, respondia Lamme, eu te engordo.
O vento soprava brando, o sol brilhava tépido; Lamme, ardendo em febre, estava bem amarrado à cama, para que, nos sobressaltos de seu delírio, não saltasse por cima do convés do navio; e, julgando-se ainda na cozinha, dizia:
— Este fogão está claro hoje. Daqui a pouco choverão hortulanas. Mulher, arma laços em nosso pomar. Estás bela assim, com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Teu braço é branco; quero mordê-lo, mordê-lo com os lábios, que são dentes de veludo. De quem é esta bela carne, de quem estes belos seios transparentes sob tua branca blusa de linho fino? Meus, meu doce tesouro. Quem fará a fricassê de cristas de galo e rabos de galinha? Não ponhas noz-moscada demais; ela dá febre. Molho branco, tomilho e louro. Onde estão as gemas?
Depois, fazendo sinal para que Ulenspiegel aproximasse o ouvido de sua boca, dizia-lhe baixinho:
— Daqui a pouco choverá carne de caça. Guardarei para ti quatro hortulanas a mais que para os outros. És o capitão; não me atraiçoes.
Depois, ouvindo a onda bater brandamente no costado do navio:
— A sopa está fervendo, meu filho, a sopa está fervendo, mas como este fogão demora a aquecer!
Assim que recuperava os sentidos, dizia, falando do monge:
— Onde está ele? Está crescendo em gordura?
Ao vê-lo, mostrava-lhe então a língua e dizia:
— A grande obra se cumpre; estou contente.
Um dia, pediu que armassem no convés a grande balança, que o colocassem num dos pratos e pusessem o monge no outro. Mal o monge foi ali acomodado, Lamme subiu no ar como uma flecha e, muito alegre, disse, olhando para ele:
— Ele pesa! Ele pesa! Ao lado dele, sou um espírito leve. Vou voar pelos ares como um pássaro. Tenho uma ideia: tirai-o para que eu possa descer. Ponde agora os pesos. Colocai-o outra vez. Quanto pesa? Trezentas e quatorze libras. E eu? Duzentas e vinte.
A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.
Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.
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