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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 178 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 5 — Capítulo VII

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Livro 5 — Capítulo VII

Na noite seguinte, ao alvorecer cinzento, Ulenspiegel foi despertado por Lamme, que gritava:

— Ulenspiegel! Ulenspiegel! Socorro! Impede-a de partir. Cortai as cordas! Cortai as cordas!

Ulenspiegel subiu ao convés e disse:

— Por que gritas? Não vejo coisa alguma.

— É ela, respondeu Lamme, ela, minha mulher, ali, naquela chalupa que gira em torno daquele flibote; sim, daquele flibote de onde saíam cantos e acordes de viola.

Nele subira ao convés.

— Corta as cordas, minha amiga, disse Lamme. Não vês que minha ferida está curada? Sua doce mão cuidou dela; ela, sim, ela. Tu a vês de pé na chalupa? Escuta: ainda está cantando. Vem, minha amada, vem, não fujas de teu pobre Lamme, que ficou tão só no mundo sem ti.

Nele tomou-lhe a mão e tocou-lhe o rosto.

— Ele ainda está com febre, disse.

— Cortai as cordas, dizia Lamme. Dai-me uma chalupa! Estou vivo, estou feliz, estou curado.

Ulenspiegel cortou as cordas. Lamme, saltando da cama em calções de linho branco, sem gibão, pôs-se ele próprio a preparar a descida da chalupa.

— Olha-o, disse Nele a Ulenspiegel. Suas mãos tremem de impaciência enquanto trabalham.

Estando a chalupa pronta, Ulenspiegel, Nele e Lamme desceram nela com um remador e dirigiram-se para o flibote ancorado ao longe, no porto.

— Vê o belo flibote, dizia Lamme, ajudando o remador.

Contra o céu fresco da manhã, colorido como cristal dourado pelos raios do novo sol, o flibote destacava sua quilha e seus mastros elegantes.

Enquanto Lamme remava:

— Conta-nos agora como a reencontraste, pediu Ulenspiegel.

Lamme respondeu entrecortadamente:

— Eu dormia, já melhor. De repente, ruído surdo. Um pedaço de madeira bate no navio. Chalupa. Marinheiro corre ao ruído: “Quem está aí?” Uma voz doce, a dela, meu filho, a dela, sua voz suave: “Amigos.” Depois, uma voz mais grossa: “Viva o Mendigo! O comandante do flibote Johannah quer falar com Lamme Goedzak.” Marinheiro lança a escada. A lua brilhava. Vejo uma figura de homem subindo ao convés: quadris fortes, joelhos redondos, bacia larga. Digo comigo: falso homem. Sinto como uma rosa se abrindo e tocando minha face: sua boca, meu filho. E a ouço dizer, ela, compreendes? Ela própria, cobrindo-me de beijos e lágrimas: era fogo líquido e perfumado caindo sobre meu corpo: “Sei que procedo mal, mas eu te amo, meu homem! Jurei a Deus: falto a meu juramento, meu homem, meu pobre homem! Vim muitas vezes sem ousar me aproximar de ti; enfim, o marinheiro me permitiu. Eu tratava tua ferida; tu não me reconhecias, mas eu te curei. Não te zangues, meu homem! Eu te segui, mas tenho medo; ele está neste navio. Deixa-me partir. Se me visse, ele me amaldiçoaria, e eu arderia no fogo eterno!” Ela tornou a me beijar, chorando e feliz, e partiu apesar de mim, apesar de minhas lágrimas. Tu me havias amarrado braços e pernas, meu filho, mas agora...

E, dizendo isso, dava vigorosas remadas. Era como a corda retesada de um arco lançando a flecha para a frente.

À medida que se aproximavam do flibote, Lamme disse:

— Lá está ela no convés, tocando viola, minha graciosa mulher de cabelos castanho-dourados, olhos castanhos, faces ainda frescas, braços nus e redondos, mãos brancas. Salta, chalupa, sobre a onda!

O capitão do flibote, vendo chegar a chalupa e Lamme remando como um demônio, mandou lançar do convés uma escada. Quando Lamme chegou perto, saltou da chalupa para a escada, correndo o risco de cair no mar, e empurrou para trás a chalupa por mais de três braças. Depois, trepando como um gato até o convés, correu para sua mulher, que, desfalecida de alegria, o beijou e abraçou, dizendo:

— Lamme! Não venhas me buscar. Jurei a Deus, mas eu te amo. Ah, meu querido homem!

Nele exclamou:

— É Calleken Huybrechts, a bela Calleken.

— Sou eu, disse ela, mas, ai de mim, já passou o meio-dia de minha beleza.

E pareceu aflita.

— Que fizeste? dizia Lamme. Que foi feito de ti? Por que me abandonaste? Por que queres me deixar agora?

— Escuta, disse ela, não te zangues. Quero te contar tudo. Sabendo que todos os monges eram homens de Deus, confiei-me a um deles. Chamava-se Broer Cornelis Adriaensen.

Ao ouvir isso, Lamme disse:

— O quê! Aquele maldito hipócrita que tinha uma boca de esgoto, cheia de imundícies e porcarias, e só falava em derramar o sangue dos reformados? O quê! Aquele louvador da Inquisição e dos editos! Ah, foi aquele tratante sodomita!

Calleken disse:

— Não insultes o homem de Deus.

— O homem de Deus! disse Lamme. Eu o conheço: era um homem de imundícies e vilezas. Destino desgraçado! Minha bela Calleken caiu nas mãos daquele monge devasso! Não te aproximes, eu te mato. E eu, que tanto a amava! Meu pobre coração enganado, que era todo dela! Que vens fazer aqui? Por que cuidaste de mim? Devias ter me deixado morrer. Vai-te embora. Não quero mais te ver. Vai-te, ou eu te atiro ao mar. Minha faca!...

Ela o abraçou.

— Lamme, disse, meu homem, não chores. Não sou o que pensas. Não me entreguei àquele monge.

— Mentes, disse Lamme, chorando e rangendo os dentes ao mesmo tempo. Ah, nunca fui ciumento e agora sou. Triste paixão, cólera e amor, vontade de matar e de apertar nos braços. Vai-te! Não, fica! Eu era tão bom para ela! O assassínio é senhor de mim. Minha faca! Oh, isso queima, devora, corrói. Tu ris de mim...

Ela o abraçava, chorando, doce e submissa.

— Sim, dizia ele, sou um tolo em minha cólera. Sim, guardavas minha honra, essa honra que loucamente penduramos nas saias de uma mulher. Então era por isso que reservavas teus sorrisos mais doces para me pedir licença de ir ao sermão com tuas amigas...

— Deixa-me falar, dizia a mulher, abraçando-o. Que eu morra neste instante se te engano.

— Morre, então, disse Lamme, pois vais mentir.

— Escuta-me, disse ela.

— Fala ou não fales, disse ele, tanto faz para mim.

— Broer Adriaensen, disse ela, passava por bom pregador. Fui ouvi-lo. Ele colocava o estado eclesiástico e o celibato muito acima de todos os outros, por serem mais apropriados a conquistar o paraíso para os fiéis. Sua eloquência era grande e fogosa. Várias mulheres honestas, entre as quais eu, e sobretudo muitas viúvas e moças, ficaram com o espírito perturbado. Sendo o estado de celibato tão perfeito, recomendou-nos que nele permanecêssemos. Juramos não nos deixar casar outra vez...

— A não ser com ele, sem dúvida, disse Lamme, chorando.

— Cala-te, disse ela, irritada.

— Continua, disse ele, termina. Deste-me um golpe rude; não sararei.

— Sim, sararás, disse ela, meu homem, quando eu estiver sempre junto de ti.

Ela quis abraçá-lo e beijá-lo, mas ele a repeliu.

— As viúvas, disse ela, juraram em suas mãos nunca mais tornar a casar.

E Lamme a escutava, perdido em seu devaneio ciumento.

Calleken, envergonhada, prosseguiu:

— Ele só queria como penitentes mulheres ou moças jovens e belas; as outras, mandava-as de volta aos seus párocos. Fundou uma ordem de devotas e fez todas nós jurarmos que não teríamos outro confessor senão ele. Eu jurei. Minhas companheiras, mais instruídas que eu, perguntaram se eu queria ser iniciada na Santa Disciplina e na Santa Penitência. Eu quis. Havia em Bruges, no cais dos Talhadores de Pedra, perto do convento dos Frades Menores, uma casa habitada por uma mulher chamada Calle de Najage, que dava instrução e alimento às moças por um carolus de ouro ao mês. Broer Cornelis podia entrar na casa de Calle de Najage sem parecer sair de seu claustro. Foi nessa casa que fui encontrá-lo, num pequeno quarto onde ele permanecia sozinho. Ali me ordenou que lhe contasse todas as minhas inclinações naturais e carnais. A princípio não ousei, mas por fim cedi, chorei e lhe contei tudo.

— Ai! chorou Lamme, e aquele monge porco recebeu assim tua doce confissão.

— Ele me dizia sempre, e isso é verdade, meu homem, que acima do pudor terreno há um pudor celestial, pelo qual fazemos a Deus o sacrifício de nossas vergonhas mundanas; e que, confessando assim ao confessor todos os nossos desejos secretos, tornamo-nos dignas de receber a Santa Disciplina e a Santa Penitência. Por fim, obrigou-me a ficar nua diante dele, para receber sobre meu corpo, que havia pecado, o castigo demasiado leve de minhas faltas. Um dia, forçou-me a me despir; desmaiei quando precisei deixar cair minha roupa de baixo. Ele me reanimou com sais e frascos. “Está bem por hoje, minha filha, disse; volta dentro de dois dias e traz uma vara.” Isso durou muito tempo sem que jamais... juro diante de Deus e de todos os seus santos... meu homem... compreende-me... olha para mim... vê se minto: permaneci pura e fiel... eu te amava.

— Pobre e doce corpo, disse Lamme. Oh, mancha de vergonha sobre teu vestido de núpcias!

— Lamme, disse ela, ele falava em nome de Deus e de nossa santa mãe Igreja. Eu não devia escutá-lo? Sempre te amei, mas jurara à Virgem, por terríveis juramentos, recusar-me a ti. Ainda assim, fui fraca, fraca por ti. Lembras-te da hospedaria de Bruges? Eu estava na casa de Calle de Najage. Tu passavas por ali em teu asno com Ulenspiegel. Eu te segui. Tinha comigo uma boa soma em dinheiro; não gastava nada comigo mesma. Vi que tinhas fome. Meu coração inclinou-se para ti; tive piedade e amor.

— Onde está ele agora? perguntou Ulenspiegel.

Calleken respondeu:

— Depois de uma investigação ordenada pelo magistrado e de uma apuração feita pelos homens perversos, Broer Adriaensen teve de deixar Bruges e refugiou-se em Antuérpia. Disseram-me no flibote que meu homem o fizera prisioneiro.

— O quê! disse Lamme. Aquele monge que estou engordando é...

— Ele, respondeu Calleken, escondendo o rosto.

— Um machado! Um machado! disse Lamme. Que eu o mate, que venda em leilão sua gordura de bode lascivo! Depressa, voltemos ao navio. A chalupa! Onde está a chalupa?

Nele lhe disse:

— É crueldade vil matar ou ferir um prisioneiro.

— Tu me olhas com olhos cruéis. Impedir-me-ias? perguntou ele.

— Sim, respondeu ela.

— Pois bem! disse Lamme. Não lhe farei mal algum. Deixa-me apenas tirá-lo da jaula. A chalupa! Onde está a chalupa?

Logo desceram para ela. Lamme remava com pressa e chorava ao mesmo tempo.

— Estás triste, meu homem? perguntou-lhe Calleken.

— Não! disse ele. Estou contente. Não me abandonarás mais, sem dúvida?

— Nunca! respondeu ela.

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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