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A Lenda de Ulenspiegel

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A Lenda de Ulenspiegel

Capítulo 181 · A Lenda de Ulenspiegel

Livro 5 — Capítulo X

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Livro 5 — Capítulo X

Nele, ao cair, esfregou os olhos e nada viu senão o sol nascente entre vapores dourados, as pontas das ervas também todas douradas e o raio amarelando a plumagem das gaivotas adormecidas, que logo despertaram.

Depois, Nele olhou para si mesma, viu-se nua e vestiu-se depressa. Então viu Ulenspiegel igualmente nu e o cobriu. Julgando que dormia, sacudiu-o, mas ele não se movia mais que um morto. Ela foi tomada de medo.

— Teria eu, disse, matado meu amigo com este bálsamo da visão? Quero morrer também! Ah, Thyl, desperta! Está frio como mármore!

Ulenspiegel não despertava. Duas noites e um dia se passaram, e Nele, febril de dor, velou seu amigo Ulenspiegel.

No começo do segundo dia, Nele ouviu o som de uma campainha e viu chegar um camponês trazendo uma pá. Atrás dele caminhavam, com uma vela na mão, um burgomestre e dois escabinos, o cura de Stavenisse e um sacristão que segurava sobre ele o pálio.

Iam, diziam, administrar o santo sacramento da unção ao valente Jacobsen, que fora Mendigo por medo, mas que, passado o perigo, voltara para morrer no seio da Santa Igreja Romana.

Logo se encontraram diante de Nele, que chorava, e viram o corpo de Ulenspiegel estendido sobre a relva, coberto por suas roupas. Nele ajoelhou-se.

— Menina, disse o burgomestre, que fazes junto desse morto?

Sem ousar levantar os olhos, ela respondeu:

— Rezo por meu amigo, que caiu aqui como se atingido por um raio. Agora estou sozinha e também quero morrer.

Então o cura, bufando de satisfação:

— Ulenspiegel, o Mendigo, está morto, disse. Louvado seja Deus! Camponês, apressa-te em cavar uma cova. Tira-lhe as roupas antes que seja enterrado.

— Não, disse Nele, erguendo-se. Não lhe tirarão as roupas; ele sentiria frio debaixo da terra.

— Cava a cova, disse o cura ao camponês que trazia a pá.

— Eu quero que a caves, disse Nele, toda em lágrimas. Não há vermes na areia cheia de cal, e ele permanecerá inteiro e belo, meu amado.

E, inteiramente transtornada, inclinou-se sobre o corpo de Ulenspiegel e o beijou entre lágrimas e soluços.

O burgomestre, os escabinos e o camponês tiveram piedade, mas o cura não cessava de dizer alegremente:

— O grande Mendigo está morto, Deus seja louvado!

Então o camponês cavou a cova, colocou Ulenspiegel dentro dela e o cobriu de areia.

E o cura disse sobre a cova as orações dos mortos. Todos se ajoelharam ao redor. De repente, houve sob a areia um grande movimento, e Ulenspiegel, espirrando e sacudindo a areia dos cabelos, agarrou então o cura pela garganta:

— Inquisidor! disse. Tu me enterravas vivo enquanto eu dormia. Onde está Nele? Também a enterraste? Quem és tu?

O cura gritou:

— O grande Mendigo retorna a este mundo! Senhor Deus, recebei minha alma!

E fugiu como cervo diante dos cães.

Nele aproximou-se de Ulenspiegel.

— Beija-me, graciosa, disse ele.

Depois, olhou novamente ao redor. Os dois camponeses haviam fugido como o cura, largando no chão, para correr melhor, a pá, a cadeira e o pálio; o burgomestre e os escabinos, tapando os ouvidos de medo, gemiam sobre a relva.

Ulenspiegel foi até eles e, sacudindo-os, disse:

— Porventura se enterram Ulenspiegel, o espírito, e Nele, o coração da mãe Flandres? Ela também pode dormir, mas morrer, não! Vem, Nele.

E partiu com ela, cantando sua sexta canção; mas ninguém sabe onde cantou a última.

FIM

A Lenda de Ulenspiegel

Sinopse

A Lenda de Ulenspiegel é o grande romance épico e picaresco de Charles De Coster, obra central da literatura belga, atravessada por sátira, resistência popular e memória flamenga.

Tradução brasileira integral consolidada pelo projeto Literunico / Traduções, organizada nos cinco livros da edição francesa de 1869.

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