Livro Primeiro — Capítulo V: Uma negociação O Vermelho e o Negro · Capítulo 5 de 77
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Livro Primeiro — Capítulo V: Uma negociação

— Responda-me sem mentir, se é capaz, cachorro de leitor: de onde conhece a senhora de Rênal? Quando falou com ela?

— Nunca falei com ela — respondeu Julien. — Nunca vi essa senhora senão na igreja.

— Mas você a terá olhado, vilão atrevido?

— Nunca! Sabe que na igreja eu só vejo Deus — acrescentou Julien, com um pequeno ar hipócrita, muito próprio, segundo ele, para afastar a volta dos tapas.

— Há alguma coisa por baixo disso — replicou o camponês astuto, e calou-se por um instante. — Mas de você nada saberei, maldito dissimulado. De todo modo, vou me livrar de você, e minha serra andará melhor. Você ganhou o senhor cura ou qualquer outro que lhe arranjou uma bela colocação. Vá fazer sua trouxa, e eu o levarei à casa do senhor de Rênal, onde será preceptor dos filhos.

— O que terei por isso?

— Alimentação, vestuário e trezentos francos de salário.

— Não quero ser criado.

— Animal, quem falou em ser criado? Acha que eu queria que meu filho fosse criado?

— Mas com quem comerei?

Essa pergunta desconcertou o velho Sorel. Sentiu que, se falasse, poderia cometer alguma imprudência. Enfureceu-se contra Julien, a quem cobriu de injúrias, acusando-o de gulodice, e o deixou para ir consultar os outros filhos.

Julien logo os viu, cada qual apoiado em seu machado, deliberando em conselho. Depois de observá-los por muito tempo, sem conseguir adivinhar nada, foi colocar-se do outro lado da serra para evitar ser surpreendido. Queria pensar maduramente naquele anúncio imprevisto que mudava seu destino, mas sentiu-se incapaz de prudência; sua imaginação estava inteira em figurar o que veria na bela casa do senhor de Rênal.

“É preciso renunciar a tudo isso”, disse consigo, “antes que me deixem reduzido a comer com os criados. Meu pai vai querer me forçar; antes morrer. Tenho quinze francos e oito soldos de economia. Fujo esta noite; em dois dias, por caminhos atravessados onde não temo nenhum gendarme, estarei em Besançon; lá me alisto como soldado e, se for preciso, passo para a Suíça. Mas então, nada mais de ascensão, nada mais de ambição para mim, nada desse belo estado de padre que leva a tudo.”

Esse horror a comer com os criados não era natural em Julien. Para chegar à fortuna, ele teria feito coisas muito mais penosas. Tirava essa repugnância das Confissões de Rousseau. Era o único livro com o auxílio do qual sua imaginação figurava o mundo. A coleção dos boletins do grande exército e o Memorial de Santa Helena completavam seu Corão. Ter-se-ia feito matar por essas três obras. Jamais acreditou em nenhuma outra. Segundo uma frase do velho cirurgião-major, considerava todos os demais livros do mundo mentirosos e escritos por patifes para obter promoção.

Com uma alma de fogo, Julien possuía uma dessas memórias espantosas tão frequentemente unidas à tolice. Para ganhar o velho cura Chélan, de quem via claramente depender seu destino futuro, aprendera de cor todo o Novo Testamento em latim; sabia também o livro Do Papa, do senhor de Maistre, e acreditava em um tão pouco quanto no outro.

Como por acordo mútuo, Sorel e seu filho evitaram falar-se naquele dia. Ao cair da noite, Julien foi tomar sua lição de teologia na casa do cura, mas não julgou prudente dizer-lhe nada da estranha proposta feita a seu pai. “Talvez seja uma armadilha”, dizia consigo. “É preciso fingir que a esqueci.”

No dia seguinte, bem cedo, o senhor de Rênal mandou chamar o velho Sorel, que, depois de se fazer esperar uma ou duas horas, acabou chegando, já da porta fazendo cem desculpas entremeadas de outras tantas reverências. À força de percorrer toda espécie de objeções, Sorel compreendeu que seu filho comeria com o senhor e a senhora da casa e, nos dias em que houvesse visitas, sozinho num quarto à parte com as crianças. Sempre mais disposto a criar incidentes à medida que distinguia verdadeiro empenho no senhor prefeito, e além disso cheio de desconfiança e espanto, Sorel pediu para ver o quarto onde o filho dormiria. Era uma grande peça muito asseadamente mobiliada, mas na qual já se ocupavam em transportar as camas das três crianças.

Essa circunstância foi um raio de luz para o velho camponês; pediu imediatamente, com segurança, para ver a roupa que dariam ao filho. O senhor de Rênal abriu sua escrivaninha e tomou cem francos.

— Com esse dinheiro, seu filho irá ao senhor Durand, o negociante de tecidos, e levantará um traje preto completo.

— E ainda que eu o retire de sua casa — disse o camponês, que de repente esquecera suas formas reverenciosas — esse traje preto ficará para ele?

— Sem dúvida.

— Ah, bem — disse Sorel, num tom de voz arrastado —, resta então apenas nos pormos de acordo sobre uma só coisa: o dinheiro que o senhor lhe dará.

— Como! — exclamou o senhor de Rênal, indignado. — Estamos de acordo desde ontem: dou trezentos francos; creio que é muito, talvez demais.

— Foi sua oferta, não nego — disse o velho Sorel, falando ainda mais lentamente; e, por um esforço de gênio que só surpreenderá quem não conhece os camponeses da Franche-Comté, acrescentou, olhando fixamente o senhor de Rênal: — Encontramos melhor em outro lugar.

A essas palavras, a figura do prefeito ficou transtornada. Contudo, recompôs-se, e depois de uma conversa hábil de duas longas horas, na qual nem uma palavra foi dita ao acaso, a finura do camponês venceu a finura do homem rico, que não precisa dela para viver. Todos os numerosos artigos que deveriam regular a nova existência de Julien ficaram acertados; não só seus vencimentos foram fixados em quatrocentos francos, como se deveria pagá-los adiantados, no primeiro dia de cada mês.

— Pois bem, eu lhe entregarei trinta e cinco francos — disse o senhor de Rênal.

— Para fazer uma soma redonda, um homem rico e generoso como o senhor nosso prefeito — disse o camponês com voz melosa — bem irá até trinta e seis francos.

— Seja — disse o senhor de Rênal —, mas terminemos. Desta vez, a cólera lhe dava o tom da firmeza. O camponês viu que era preciso parar de avançar. Então, por sua vez, o senhor de Rênal fez progressos. Jamais quis entregar o primeiro mês de trinta e seis francos ao velho Sorel, muito apressado em recebê-lo para o filho. O senhor de Rênal veio a pensar que seria obrigado a contar à mulher o papel que desempenhara em toda a negociação.

— Devolva-me os cem francos que lhe entreguei — disse com mau humor. — O senhor Durand me deve alguma coisa. Irei com seu filho fazer a retirada do pano preto.

Depois desse ato de vigor, Sorel voltou prudentemente às suas fórmulas respeitosas; elas tomaram um bom quarto de hora. No fim, vendo que decididamente nada mais havia a ganhar, retirou-se. Sua última reverência terminou com estas palavras:

— Vou enviar meu filho ao castelo.

Era assim que os administrados do senhor prefeito chamavam sua casa quando queriam agradá-lo.

De volta à oficina, Sorel procurou em vão o filho. Desconfiando do que poderia acontecer, Julien saíra no meio da noite. Quisera pôr em segurança seus livros e sua cruz da Legião de Honra. Transportara tudo para a casa de um jovem negociante de madeira, seu amigo, chamado Fouqué, que morava na alta montanha que domina Verrières.

Quando reapareceu:

— Deus sabe, maldito preguiçoso — disse-lhe o pai —, se algum dia terá honra bastante para me pagar o preço de sua alimentação, que adianto há tantos anos! Pegue seus trapos e vá para a casa do senhor prefeito.

Julien, espantado por não ser espancado, apressou-se a partir. Mas, mal saiu da vista do terrível pai, diminuiu o passo. Julgou que seria útil à sua hipocrisia fazer uma estação na igreja.

Essa palavra o surpreende? Antes de chegar a essa palavra horrível, a alma do jovem camponês tivera muito caminho a percorrer.

Desde a primeira infância, a visão de certos dragões do sexto regimento, de longos mantos brancos e cabeças cobertas por capacetes de grandes crinas negras, que voltavam da Itália e que Julien viu amarrar seus cavalos à janela gradeada da casa paterna, enlouqueceu-o pelo estado militar. Mais tarde, escutava com transporte os relatos das batalhas da ponte de Lodi, de Arcole, de Rivoli, feitos pelo velho cirurgião-major. Reparava nos olhares inflamados que o velho lançava à sua cruz.

Mas, quando Julien tinha catorze anos, começou-se a construir em Verrières uma igreja que se pode chamar magnífica para uma cidade tão pequena. Havia sobretudo quatro colunas de mármore cuja vista impressionou Julien. Elas se tornaram célebres no país pelo ódio mortal que suscitaram entre o juiz de paz e o jovem vigário enviado de Besançon, que passava por espião da congregação. O juiz de paz esteve a ponto de perder o cargo, ao menos tal era a opinião comum. Não ousara ter uma diferença com um padre que, quase de quinze em quinze dias, ia a Besançon, onde via, segundo se dizia, monsenhor o bispo?

Nesse meio-tempo, o juiz de paz, pai de numerosa família, pronunciou várias sentenças que pareceram injustas; todas foram proferidas contra aqueles habitantes que liam o Constitutionnel. O bom partido triunfou. Tratava-se, é verdade, apenas de somas de três ou cinco francos; mas uma dessas pequenas multas devia ser paga por um fabricante de pregos, padrinho de Julien. Em sua cólera, esse homem exclamava: “Que mudança! e pensar que, há mais de vinte anos, o juiz de paz passava por homem tão honesto!” O cirurgião-major, amigo de Julien, estava morto.

De repente, Julien cessou de falar de Napoleão; anunciou o projeto de tornar-se padre, e viram-no constantemente, na serraria do pai, ocupado em aprender de cor uma Bíblia latina que o cura lhe emprestara. Esse bom velho, maravilhado com seus progressos, passava noites inteiras ensinando-lhe teologia. Julien não deixava aparecer diante dele senão sentimentos piedosos. Quem poderia adivinhar que aquele rosto de moça, tão pálido e tão doce, ocultava a resolução inabalável de expor-se a mil mortes antes de não fazer fortuna?

Para Julien, fazer fortuna era antes de tudo sair de Verrières; abominava sua terra natal. Tudo que via ali gelava sua imaginação.

Desde a primeira infância tivera momentos de exaltação. Então sonhava com delícia que um dia seria apresentado às belas mulheres de Paris; saberia atrair-lhes a atenção por alguma ação brilhante. Por que não seria amado por uma delas, como Bonaparte, ainda pobre, fora amado pela brilhante senhora de Beauharnais? Há muitos anos, talvez Julien não passasse uma hora de sua vida sem dizer a si mesmo que Bonaparte, obscuro tenente sem fortuna, fizera-se senhor do mundo com sua espada. Essa ideia o consolava dos infortúnios que julgava grandes e redobrava sua alegria quando a tinha.

A construção da igreja e as sentenças do juiz de paz o esclareceram de repente. Uma ideia que lhe veio o deixou como louco durante algumas semanas e, por fim, apoderou-se dele com toda a onipotência da primeira ideia que uma alma apaixonada acredita ter inventado.

Quando Bonaparte fez falar de si, a França tinha medo de ser invadida; o mérito militar era necessário e estava na moda. Hoje, vêem-se padres de quarenta anos receber cem mil francos de vencimentos, isto é, três vezes mais que os famosos generais de divisão de Napoleão. Eles precisam de gente que os ajude. Eis esse juiz de paz, tão bom espírito, homem tão honesto até aqui, tão velho, que se desonra por medo de desagradar a um jovem vigário de trinta anos. É preciso ser padre.

Uma vez, em meio à sua nova piedade, quando já fazia dois anos que Julien estudava teologia, foi traído por uma irrupção súbita do fogo que devorava sua alma. Foi na casa do senhor Chélan, num jantar de padres ao qual o bom cura o apresentara como prodígio de instrução; ocorreu-lhe louvar Napoleão com fúria. Amarrou o braço direito contra o peito, alegou ter deslocado o braço ao mover um tronco de pinheiro e levou-o por dois meses nessa posição incômoda. Depois dessa pena aflitiva, perdoou-se. Eis o jovem de dezenove anos, mas fraco na aparência, a quem dariam no máximo dezessete, entrando na magnífica igreja de Verrières com um pequeno pacote debaixo do braço.

Encontrou-a sombria e solitária. Por ocasião de uma festa, todas as janelas do edifício haviam sido cobertas de tecido carmesim. Daí resultava, aos raios do sol, um efeito de luz deslumbrante, do caráter mais imponente e religioso. Julien estremeceu. Sozinho na igreja, instalou-se no banco que tinha a aparência mais bela. Trazia as armas do senhor de Rênal.

No genuflexório, Julien notou um pedaço de papel impresso, estendido ali como para ser lido. Levou os olhos a ele e viu:

Detalhes da execução e dos últimos momentos de Louis Jenrel, executado em Besançon, no...

O papel estava rasgado. No verso liam-se as duas primeiras palavras de uma linha: “O primeiro passo.”

— Quem pôde pôr esse papel aqui? — disse Julien. — Pobre infeliz — acrescentou com um suspiro —, seu nome acaba como o meu... — e amassou o papel.

Ao sair, Julien acreditou ver sangue perto da pia de água benta; era água benta derramada: o reflexo das cortinas vermelhas que cobriam as janelas fazia-a parecer sangue.

Por fim, Julien teve vergonha de seu terror secreto.

“Serei um covarde?”, disse consigo. “Às armas!”

Essa palavra, tantas vezes repetida nos relatos de batalhas do velho cirurgião, era heroica para Julien. Levantou-se e caminhou rapidamente para a casa do senhor de Rênal.

Apesar de suas belas resoluções, assim que a avistou a vinte passos, foi tomado por invencível timidez. A grade de ferro estava aberta; ela lhe parecia magnífica; era preciso entrar ali.

Julien não era a única pessoa cujo coração estivesse perturbado por sua chegada àquela casa. A extrema timidez da senhora de Rênal estava desconcertada pela ideia daquele estranho que, por suas funções, se encontraria constantemente entre ela e os filhos. Estava acostumada a ter os filhos dormindo em seu quarto. Pela manhã, muitas lágrimas correram quando viu transportarem seus pequenos leitos para o apartamento destinado ao preceptor. Em vão pediu ao marido que a cama de Stanislas-Xavier, o mais novo, fosse levada de volta ao seu quarto.

A delicadeza feminina era levada a ponto excessivo na senhora de Rênal. Ela formava a imagem mais desagradável de um ser grosseiro e mal penteado, encarregado de repreender seus filhos apenas porque sabia latim, uma língua bárbara pela qual seus filhos seriam chicoteados.

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