Livro Segundo — Capítulo XXX: Um camarote nos Bouffes O Vermelho e o Negro · Capítulo 60 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XXX: Um camarote nos Bouffes

Livro Segundo - Capitulo XXX: Um camarote nos Bouffes

As the blackest sky

Foretells the heaviest tempest.

Don Juan, C. I, est. 75.

No meio de todos esses grandes movimentos, Julien estava mais espantado que feliz. As injurias de Mathilde lhe mostravam como a politica russa era sabia. Falar pouco, agir pouco: eis meu unico meio de salvacao.

Ergueu Mathilde e, sem dizer palavra, recolocou-a no diva. Pouco a pouco as lagrimas a venceram.

Para dar a si mesma uma atitude, tomou nas maos as cartas da senhora de Fervaques; abria-as lentamente. Teve um movimento nervoso bem marcado quando reconheceu a letra da marechala. Virava, sem le-las, as folhas dessas cartas; a maioria tinha seis paginas.

- Responda-me ao menos, disse enfim Mathilde com o tom de voz mais suplicante, mas sem ousar olhar Julien. Voce sabe bem que tenho orgulho; e a infelicidade de minha posicao e mesmo de meu carater, eu o confessarei; entao a senhora de Fervaques tirou-me seu coracao... Ela fez por voce todos os sacrificios a que esse amor fatal me arrastou?

Um silencio sombrio foi toda a resposta de Julien. Com que direito, pensava, ela me pede uma indiscricao indigna de um homem honesto?

Mathilde tentou ler as cartas; seus olhos cheios de lagrimas tiravam-lhe a possibilidade.

Havia um mes que estava infeliz, mas aquela alma altiva estava longe de confessar a si mesma seus sentimentos. So o acaso provocara essa explosao. Por um instante, o ciume e o amor haviam levado vantagem sobre o orgulho. Estava sentada no diva, muito perto de Julien. Ele via seus cabelos e seu colo de alabastro; por um momento esqueceu tudo o que devia a si mesmo; passou o braco em torno de sua cintura e quase a apertou contra o peito.

Ela virou lentamente a cabeca para ele: Julien ficou espantado com a extrema dor que havia em seus olhos; era impossivel reconhecer neles a fisionomia habitual.

Julien sentiu as forcas abandona-lo, tao mortalmente penoso era o ato de coragem que se impunha.

Esses olhos logo nao exprimirao senao o mais frio desdem, disse consigo Julien, se eu me deixar arrastar pela felicidade de ama-la. Entretanto, com voz apagada e palavras que mal tinha forca de terminar, ela lhe repetia naquele momento a seguranca de todos os seus arrependimentos por atitudes que orgulho demais pudera aconselhar.

- Tambem tenho orgulho, disse-lhe Julien com uma voz apenas formada, e seus tracos pintavam o extremo abatimento fisico.

Mathilde voltou-se vivamente para ele. Ouvir sua voz era uma felicidade cuja esperanca quase abandonara. Naquele momento, so se lembrava de sua altivez para maldize-la; quisera encontrar passos insolitios, incriveis, para provar-lhe ate que ponto o adorava e detestava a si mesma.

- E provavelmente por causa desse orgulho, continuou Julien, que a senhorita me distinguiu por um instante; e certamente por causa dessa firmeza corajosa, e que convem a um homem, que me estima neste momento. Posso ter amor pela marechala...

Mathilde estremeceu; seus olhos tomaram uma expressao estranha. Ia ouvir pronunciar sua sentenca. Esse movimento nao escapou a Julien; sentiu enfraquecer-lhe a coragem.

Ah! dizia consigo, escutando o som das palavras ocas que sua boca pronunciava como se fosse um ruido estranho; se eu pudesse cobrir de beijos essas faces tao palidas, sem que tu o sentisses!

- Posso ter amor pela marechala, continuava... e sua voz enfraquecia sempre; mas certamente nao tenho nenhuma prova decisiva de seu interesse por mim...

Mathilde o olhou; ele sustentou esse olhar, ao menos esperou que sua fisionomia nao o traísse. Sentia-se penetrado de amor ate nos recantos mais intimos do coracao. Nunca a adorara a esse ponto; estava quase tao louco quanto Mathilde. Se ela tivesse encontrado sangue-frio e coragem suficientes para manobrar, ele teria caido a seus pes, abjurando toda va comedia. Teve forca bastante para continuar falando. Ah! Korasoff, exclamou interiormente, por que nao esta aqui? Que necessidade eu teria de uma palavra para dirigir minha conduta! Enquanto isso, sua voz dizia:

- Na falta de qualquer outro sentimento, a gratidao bastaria para me ligar a marechala; ela me mostrou indulgencia, consolou-me quando me desprezavam... Posso nao ter uma fe ilimitada em certas aparencias extremamente lisonjeiras, sem duvida, mas talvez tambem muito pouco duradouras.

- Ah! grande Deus! exclamou Mathilde.

- Pois bem! que garantia me dara? retomou Julien com acento vivo e firme, que parecia abandonar por um instante as formas prudentes da diplomacia. Que garantia, que deus me respondera que a posicao que a senhorita parece disposta a me devolver neste instante vivera mais de dois dias?

- O excesso de meu amor e de minha infelicidade, se voce ja nao me ama, disse ela, tomando-lhe as maos e voltando-se para ele.

O movimento violento que acabava de fazer deslocara um pouco sua pelerine; Julien avistava seus ombros encantadores. Seus cabelos um pouco desarranjados lhe recordaram uma lembranca deliciosa...

Ia ceder. Uma palavra imprudente, disse consigo, e faco recomecar esta longa serie de dias passados no desespero. A senhora de Renal encontrava razoes para fazer o que seu coracao lhe ditava; esta jovem do grande mundo so deixa o coracao comover-se quando provou a si mesma, por boas razoes, que ele deve estar comovido.

Viu essa verdade num piscar de olhos e, num piscar de olhos tambem, reencontrou coragem.

Retirou as maos que Mathilde apertava nas suas e, com respeito marcado, afastou-se um pouco dela. Uma coragem de homem nao pode ir mais longe. Ocupou-se em seguida em reunir todas as cartas da senhora de Fervaques espalhadas pelo diva, e foi com a aparencia de uma polidez extrema e tao cruel naquele momento que acrescentou:

- A senhorita de La Mole se dignara permitir-me refletir sobre tudo isto.

Afastou-se rapidamente e deixou a biblioteca; ela o ouviu fechar sucessivamente todas as portas.

O monstro nao esta perturbado, disse consigo.

Mas que digo, monstro! Ele e sensato, prudente, bom; sou eu que tenho mais faltas do que se poderia imaginar.

Essa maneira de ver durou. Mathilde foi quase feliz naquele dia, pois foi toda entregue ao amor; dir-se-ia que nunca aquela alma fora agitada pelo orgulho, e que orgulho!

Estremeceu de horror quando, a noite, no salao, um lacaio anunciou a senhora de Fervaques; a voz daquele homem lhe pareceu sinistra. Nao conseguiu suportar a vista da marechala e afastou-se bem depressa. Julien, pouco envaidecido por sua penosa vitoria, temera os proprios olhares e nao jantara no hotel de La Mole.

Seu amor e sua felicidade aumentavam rapidamente a medida que se afastava do momento da batalha; ja chegava a censurar-se. Como pude resistir-lhe! dizia consigo; e se ela ja nao me amar? Um momento pode mudar essa alma altiva, e e preciso confessar que a tratei de maneira horrivel.

A noite, sentiu bem que precisava absolutamente aparecer nos Bouffes, no camarote da senhora de Fervaques. Ela o convidara expressamente; Mathilde nao deixaria de saber sua presenca ou sua ausencia impolida. Apesar da evidencia desse raciocinio, no comeco da noite nao teve forcas para mergulhar na sociedade. Falando, perderia metade de sua felicidade.

Dez horas soaram: era absolutamente necessario mostrar-se.

Por felicidade, encontrou o camarote da marechala cheio de mulheres e foi relegado para perto da porta, inteiramente escondido pelos chapeus. Essa posicao salvou-o de um ridiculo; os acentos divinos do desespero de Carolina no Matrimonio segreto o fizeram desfazer-se em lagrimas. A senhora de Fervaques viu essas lagrimas; elas faziam tamanho contraste com a firmeza viril de sua fisionomia habitual que aquela alma de grande dama, havia muito saturada de tudo o que o orgulho de parvenue tem de mais corrosivo, ficou tocada. O pouco que restava nela de um coracao de mulher levou-a a falar. Quis gozar o som de sua voz naquele momento.

- Viu as senhoras de La Mole? disse-lhe; estao no terceiro andar. No mesmo instante, Julien inclinou-se para a sala, apoiando-se com bastante impolidez na frente do camarote: viu Mathilde; seus olhos brilhavam de lagrimas.

E contudo nao e o dia delas de opera, pensou Julien; que pressa!

Mathilde decidira a mae a vir aos Bouffes, apesar da inconveniencia do nivel do camarote que uma complacente da casa se apressara em oferecer-lhes. Queria ver se Julien passaria aquela noite com a marechala.

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