Livro Segundo — Capítulo II: Entrada no mundo O Vermelho e o Negro · Capítulo 32 de 77
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Livro Segundo — Capítulo II: Entrada no mundo

Lembranca ridicula e tocante: o primeiro salao onde, aos dezoito anos, se apareceu sozinho e sem apoio! O olhar de uma mulher bastava para me intimidar. Quanto mais eu queria agradar, mais me tornava desajeitado. Fazia das coisas as ideias mais falsas; ou me entregava sem motivo, ou via num homem um inimigo porque ele me olhara com ar grave. Mas entao, no meio das terriveis desgracas de minha timidez, como um belo dia era belo!

Kant.

Julien deteve-se, pasmo, no meio do patio.

- Tenha, pois, ar razoavel - disse o abade Pirard. - Vem-lhe ideias horriveis, e depois o senhor nao passa de uma crianca! Onde esta o nil mirari de Horacio? Jamais entusiasmo. Pense que esse povo de lacaios, vendo-o estabelecido aqui, procurara zombar do senhor; verao em sua pessoa um igual, posto injustamente acima deles. Sob aparencias de bonomia, bons conselhos, desejo de guia-lo, tentarao faze-lo cair em alguma grande grosseria.

- Eu os desafio - disse Julien, mordendo o labio, e retomou toda a sua desconfianca.

Os saloes que esses senhores atravessaram no primeiro andar, antes de chegar ao gabinete do marques, teriam parecido, meu leitor, tao tristes quanto magnificos. Se lhos dessem tais como estavam, o senhor recusaria habita-los; e a patria do bocejo e do raciocinio triste. Eles redobraram o encantamento de Julien. Como se pode ser infeliz, pensava, quando se habita uma morada tao esplendida?

Enfim, esses senhores chegaram ao mais feio dos aposentos desse soberbo apartamento: mal havia luz ali. Encontrava-se nele um homenzinho magro, de olho vivo e peruca loura. O abade voltou-se para Julien e o apresentou. Era o marques. Julien teve muita dificuldade em reconhece-lo, tanto lhe achou ar polido. Ja nao era o grande senhor de aspecto tao altivo da abadia de Bray-le-Haut. Pareceu a Julien que sua peruca tinha cabelo demais. Com a ajuda dessa sensacao, nao ficou nem um pouco intimidado. O descendente do amigo de Henrique III lhe pareceu, de inicio, ter uma figura bastante mesquinha. Era muito magro e se agitava muito. Mas logo notou que o marques tinha uma polidez ainda mais agradavel ao interlocutor que a do proprio bispo de Besancon. A audiencia nao durou tres minutos. Ao sair, o abade disse a Julien:

- O senhor olhou o marques como teria olhado um quadro. Nao sou grande conhecedor do que essa gente chama de polidez; em breve o senhor sabera mais que eu. Mas, enfim, a ousadia do seu olhar me pareceu pouco polida.

Tinham subido de novo ao fiacre; o cocheiro parou perto do bulevar. O abade introduziu Julien numa serie de grandes saloes. Julien notou que nao havia moveis. Olhava uma magnifica pendula dourada, representando um assunto muito indecente segundo ele, quando um senhor muito elegante se aproximou com ar sorridente. Julien fez uma meia-reverencia.

O senhor sorriu e pos-lhe a mao no ombro. Julien estremeceu e deu um salto para tras. Corou de colera. O abade Pirard, apesar de sua gravidade, riu ate as lagrimas. O senhor era um alfaiate.

- Devolvo-lhe sua liberdade por dois dias - disse-lhe o abade ao sair. - So entao o senhor podera ser apresentado a sra. de La Mole. Outro o guardaria como uma mocinha nestes primeiros momentos de sua estada nesta nova Babilonia. Perca-se imediatamente, se tem de se perder, e ficarei livre da fraqueza que tenho de pensar no senhor. Depois de amanha pela manha, este alfaiate lhe levara duas roupas; dara cinco francos ao rapaz que as experimentara no senhor. De resto, nao deixe esses parisienses conhecerem o som de sua voz. Se disser uma palavra, eles encontrarao o segredo de zombar do senhor. E o talento deles. Depois de amanha esteja em minha casa ao meio-dia... Va, perca-se... Esquecia: va encomendar botas, camisas, um chapeu, nos enderecos aqui escritos.

Julien olhava a letra desses enderecos.

- E a mao do marques - disse o abade. - E um homem ativo, que preve tudo, e que prefere fazer a mandar. Toma-o junto de si para que o senhor lhe poupe esse genero de trabalhos. Tera espirito bastante para executar bem todas as coisas que esse homem vivo lhe indicara a meia palavra? E o que o futuro mostrara: cuidado!

Julien entrou, sem dizer uma unica palavra, nas oficinas indicadas pelos enderecos; notou que era recebido nelas com respeito, e o sapateiro, ao escrever seu nome no registro, pos: Sr. Julien de Sorel.

No cemiterio do Pere-Lachaise, um senhor muito prestativo, e ainda mais liberal em suas palavras, ofereceu-se para indicar a Julien o tumulo do marechal Ney, que uma politica sabia priva da honra de um epitafio. Mas, ao separar-se desse liberal, que, com lagrimas nos olhos, quase o apertava nos bracos, Julien ja nao tinha relogio. Rico dessa experiencia, foi dois dias depois, ao meio-dia, apresentar-se ao abade Pirard, que o observou muito.

- Talvez o senhor va se tornar um janota - disse-lhe o abade com ar severo. Julien tinha o aspecto de um rapaz muito jovem em grande luto; estava, na verdade, muito bem, mas o bom abade era provinciano demais para ver que Julien ainda tinha aquele andar de ombros que, na provincia, e ao mesmo tempo elegancia e importancia. Ao ver Julien, o marques julgou suas gracas de maneira tao diferente da do bom abade que lhe disse:

- O senhor teria alguma objecao a que o sr. Sorel tomasse aulas de danca?

O abade ficou petrificado.

- Nao - respondeu enfim -, Julien nao e padre.

O marques, subindo de dois em dois os degraus de uma pequena escada secreta, foi ele mesmo instalar nosso heroi numa bonita mansarda que dava para o imenso jardim do hotel. Perguntou-lhe quantas camisas havia levado da camiseira.

- Duas - respondeu Julien, intimidado por ver um senhor tao grande descer a esses detalhes.

- Muito bem - retomou o marques com ar serio e com certo tom imperativo e breve, que deu o que pensar a Julien. - Muito bem! Tome ainda vinte e duas camisas. Eis o primeiro trimestre de seus vencimentos.

Ao descer da mansarda, o marques chamou um homem idoso:

- Arsene - disse-lhe -, o senhor servira o sr. Sorel.

Poucos minutos depois, Julien se viu sozinho numa biblioteca magnifica; esse momento foi delicioso. Para nao ser surpreendido em sua emocao, foi esconder-se num pequeno canto escuro; dali contemplava com arrebatamento os dorsos brilhantes dos livros: Poderei ler tudo isto, dizia consigo. E como me desagradaria aqui? O sr. de Renal se teria julgado desonrado para sempre pela centesima parte do que o marques de La Mole acaba de fazer por mim.

Mas vejamos as copias a fazer. Terminado esse trabalho, Julien ousou aproximar-se dos livros; quase enlouqueceu de alegria ao encontrar uma edicao de Voltaire. Correu a abrir a porta da biblioteca para nao ser surpreendido. Deu-se em seguida o prazer de abrir cada um dos oitenta volumes. Eram magnificamente encadernados; era a obra-prima do melhor artifice de Londres. Nao era preciso tanto para levar ao cumulo a admiracao de Julien.

Uma hora depois, o marques entrou, olhou as copias e notou com espanto que Julien escrevia cela com dois l, cella. Tudo o que o abade me disse de sua ciencia seria simplesmente uma historia? O marques, muito desencorajado, disse-lhe com doçura:

- O senhor nao esta seguro de sua ortografia?

- E verdade - disse Julien, sem pensar de modo algum no mal que fazia a si proprio; estava enternecido pelas bondades do marques, que lhe lembravam o tom arrogante do sr. de Renal.

E tempo perdido toda essa experiencia de pequeno abade franco-comtes, pensou o marques; mas eu tinha tanta necessidade de um homem seguro!

- Isto se escreve com um l apenas - disse-lhe o marques. - Quando suas copias estiverem terminadas, procure no dicionario as palavras de cuja ortografia nao estiver seguro.

As seis horas, o marques mandou chama-lo; olhou com evidente pena para as botas de Julien:

- Tenho uma falta a censurar-me: nao lhe disse que todos os dias, as cinco e meia, e preciso vestir-se.

Julien o olhava sem compreender.

- Quero dizer, por meias; Arsene o fara lembrar. Hoje pedirei desculpas por voce.

Ao terminar essas palavras, o sr. de La Mole fazia Julien passar a um salao resplandecente de dourados. Em ocasioes semelhantes, o sr. de Renal jamais deixava de dobrar o passo para ter a vantagem de passar primeiro pela porta. A pequena vaidade de seu antigo patrao fez Julien pisar nos pes do marques, causando-lhe muita dor por causa da gota. Ah! e desajeitado ainda por cima, disse este consigo. Apresentou-o a uma mulher de alta estatura e aspecto imponente. Era a marquesa. Julien achou-lhe o ar impertinente, um pouco como a sra. de Maugiron, subprefeita do distrito de Verrieres, quando comparecia ao jantar de Sao Carlos. Um pouco perturbado pela extrema magnificencia do salao, Julien nao ouviu o que dizia o sr. de La Mole. A marquesa mal se dignou olha-lo. Havia alguns homens, entre os quais Julien reconheceu com prazer indicivel o jovem bispo de Agde, que se dignara falar-lhe alguns meses antes, na cerimonia de Bray-le-Haut. Esse jovem prelado sem duvida se assustou com os olhos ternos que a timidez de Julien fixava nele, e nao se preocupou em reconhecer esse provinciano.

Os homens reunidos nesse salao pareceram a Julien ter algo de triste e constrangido; fala-se baixo em Paris, e nao se exageram as pequenas coisas.

Um belo jovem, de bigodes, muito palido e muito esguio, entrou por volta das seis e meia; tinha a cabeca muito pequena.

- O senhor sempre se fara esperar - disse a marquesa, a quem ele beijava a mao.

Julien compreendeu que era o conde de La Mole. Achou-o encantador desde o primeiro momento.

E possivel, dizia consigo, que seja este o homem cujas zombarias ofensivas devam expulsar-me desta casa?

A forca de examinar o conde Norbert, Julien notou que ele estava de botas e esporas; e eu devo estar de sapatos, aparentemente como inferior. Sentaram-se a mesa. Julien ouviu a marquesa dizer uma palavra severa, elevando um pouco a voz. Quase ao mesmo tempo, percebeu uma jovem extremamente loura e muito bem feita que veio sentar-se diante dele. Ela nao lhe agradou; entretanto, olhando-a atentamente, pensou que nunca vira olhos tao belos; mas eles anunciavam uma grande frieza de alma. Mais tarde, Julien achou que tinham a expressao do tedio que examina, mas que se lembra da obrigacao de ser imponente. A sra. de Renal, contudo, tinha olhos muito bonitos, dizia consigo; o mundo lhe fazia cumprimentos por eles, mas nada tinham em comum com estes. Julien nao tinha experiencia bastante para distinguir que era pelo fogo da espirituosidade que brilhavam de tempos em tempos os olhos da srta. Mathilde, pois assim a ouviu nomear. Quando os olhos da sra. de Renal se animavam, era com o fogo das paixoes, ou pelo efeito de uma indignacao generosa ao relato de alguma acao perversa. Pelo fim do jantar, Julien encontrou uma palavra para exprimir o genero de beleza dos olhos da srta. de La Mole: sao cintilantes, disse consigo. De resto, ela se parecia cruelmente com a mae, que lhe desagradava cada vez mais, e deixou de olha-la. Em compensacao, o conde Norbert lhe parecia admiravel em todos os pontos. Julien estava tao seduzido que nao teve a ideia de ter-lhe ciumes e odia-lo por ser mais rico e mais nobre que ele.

Julien achou que o marques tinha ar de se entediar.

Perto do segundo servico, disse ao filho:

- Norbert, peço tuas bondades para o sr. Julien Sorel, que acabo de tomar para o meu estado-maior e de quem pretendo fazer um homem, se cella for possivel.

- E meu secretario - disse o marques ao vizinho -, e escreve cela com dois l.

Todos olharam Julien, que fez uma inclinacao de cabeca um pouco marcada demais a Norbert; mas, em geral, ficaram satisfeitos com seu olhar.

Era preciso que o marques tivesse falado do genero de educacao que Julien recebera, pois um dos convivas o atacou sobre Horacio: Foi precisamente falando de Horacio que tive sucesso junto ao bispo de Besancon, disse Julien consigo; aparentemente eles so conhecem esse autor. A partir desse instante, foi senhor de si. Esse movimento se tornou facil porque acabava de decidir que a srta. de La Mole jamais seria uma mulher a seus olhos. Desde o seminario, punha os homens no pior, e dificilmente se deixava intimidar por eles. Teria gozado de todo o seu sangue-frio se a sala de jantar fosse mobiliada com menos magnificencia. Eram, na verdade, dois espelhos de oito pes de altura cada um, nos quais as vezes olhava seu interlocutor ao falar de Horacio, que ainda o impunham. Suas frases nao eram longas demais para um provinciano. Tinha belos olhos, cujo brilho a timidez, tremula ou feliz quando respondia bem, redobrava. Foi julgado agradavel. Essa especie de exame lancava algum interesse num jantar grave. O marques convidou por um sinal o interlocutor de Julien a empurra-lo vivamente. Sera possivel que ele saiba alguma coisa? pensava.

Julien respondeu inventando suas ideias, e perdeu bastante de sua timidez para mostrar nao espirito, coisa impossivel a quem nao sabe a lingua de que se serve em Paris, mas ideias novas, embora apresentadas sem graca nem oportunidade; viu-se que sabia perfeitamente o latim.

O adversario de Julien era um academico das Inscricoes que, por acaso, sabia latim. Encontrou em Julien um muito bom humanista; ja nao temeu faze-lo corar e procurou realmente embaraca-lo. No calor do combate, Julien esqueceu enfim o mobiliario magnifico da sala de jantar; chegou a expor sobre os poetas latinos ideias que o interlocutor nao lera em parte alguma. Como homem honesto, este deu credito ao jovem secretario. Por felicidade, iniciou-se uma discussao sobre a questao de saber se Horacio fora pobre ou rico: um homem amavel, voluptuoso e despreocupado, fazendo versos por divertimento, como Chapelle, amigo de Moliere e de La Fontaine, ou um pobre diabo de poeta laureado seguindo a corte e fazendo odes para o aniversario do rei, como Southey, acusador de lorde Byron. Falou-se do estado da sociedade sob Augusto e sob George; nas duas epocas, a aristocracia era toda-poderosa; mas em Roma via arrancarem-lhe o poder por Mecenas, que nao passava de simples cavaleiro, e na Inglaterra ela havia reduzido George quase ao estado de um doge de Veneza. Essa discussao pareceu tirar o marques do estado de torpor em que o tedio o mergulhava no comeco do jantar.

Julien nada compreendia de todos os nomes modernos, como Southey, lorde Byron, George, que ouvia pronunciar pela primeira vez. Mas nao escapou a ninguem que, todas as vezes que se tratava de fatos passados em Roma, e cujo conhecimento podia deduzir-se das obras de Horacio, de Marcial, de Tacito, etc., tinha uma incontestavel superioridade. Julien apoderou-se sem ceremonia de varias ideias que aprendera do bispo de Besancon na famosa discussao que tivera com esse prelado; nao foram as menos apreciadas.

Quando todos se cansaram de falar de poetas, a marquesa, que fazia lei para si admirar tudo o que divertia seu marido, dignou-se olhar Julien.

- As maneiras desajeitadas desse jovem abade talvez escondam um homem instruido - disse à marquesa o academico que estava perto dela; e Julien ouviu alguma coisa.

As frases feitas convinham bastante ao espirito da dona da casa; ela adotou essa sobre Julien e deu-se credito por ter convidado o academico para jantar. Ele diverte o sr. de La Mole, pensava ela.

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