Livro Primeiro — Capítulo XVIII: Um rei em Verrières O Vermelho e o Negro · Capítulo 18 de 77
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Livro Primeiro — Capítulo XVIII: Um rei em Verrières

Sois bons apenas para serdes lancados ali como o cadaver de um povo, sem alma, e cujas veias ja nao tem sangue?

Discurso do Bispo, na capela de Saint-Clement.

No dia 3 de setembro, as dez horas da noite, um gendarme despertou Verrieres inteira subindo a grande rua a galope; trazia a noticia de que Sua Majestade o rei de *** chegaria no domingo seguinte, e era terca-feira. O prefeito autorizava, isto e, pedia, a formacao de uma guarda de honra; era preciso desdobrar toda a pompa possivel. Uma estafeta foi enviada a Vergy. O sr. de Renal chegou durante a noite e encontrou a cidade inteira em alvoroço. Cada qual tinha suas pretensoes; os menos ocupados alugavam sacadas para ver a entrada do rei.

Quem comandaria a guarda de honra? O sr. de Renal viu de imediato o quanto importava, no interesse das casas sujeitas a recuar, que o sr. de Moirod tivesse esse comando. Isso podia servir de titulo para o cargo de primeiro adjunto. Nada havia a dizer contra a devocao do sr. de Moirod; ela estava acima de qualquer comparacao; mas ele nunca havia montado a cavalo. Era um homem de trinta e seis anos, timido de todas as maneiras, e temia igualmente as quedas e o ridiculo.

O prefeito mandou chama-lo desde as cinco horas da manha.

-- O senhor ve, meu caro, que reclamo seus conselhos como se ja ocupasse o posto ao qual todos os homens honestos o chamam. Nesta cidade infeliz, as manufaturas prosperam, o partido liberal se torna milionário, aspira ao poder e sabera fazer armas de tudo. Consultemos o interesse do rei, o da monarquia e, antes de tudo, o interesse da nossa santa religiao. A quem pensa o senhor que se possa confiar o comando da guarda de honra?

Apesar do pavor horrivel que o cavalo lhe inspirava, o sr. de Moirod acabou aceitando aquela honra como um martirio.

-- Saberei tomar um tom conveniente -- disse ao prefeito.

Mal restava tempo para mandar arrumar os uniformes que, sete anos antes, haviam servido por ocasiao da passagem de um principe de sangue.

As sete horas, a sra. de Renal chegou de Vergy com Julien e as criancas. Encontrou seu salao cheio de damas liberais que pregavam a uniao dos partidos e vinham suplicar-lhe que induzisse o marido a conceder um lugar aos seus na guarda de honra. Uma delas afirmava que, se o marido nao fosse eleito, faria falencia de desgosto. A sra. de Renal despachou rapidamente toda aquela gente; parecia muito ocupada.

Julien ficou espantado, e ainda mais irritado, por ela fazer misterio do que a agitava. Eu tinha previsto, dizia consigo, com amargura; o amor dela se apaga diante da felicidade de receber um rei em sua casa. Todo esse alarido a deslumbra. Ela voltara a me amar quando as ideias de sua casta nao lhe turvarem mais o cerebro.

Coisa espantosa: amou-a ainda mais por isso.

Os tapeceiros comecavam a encher a casa. Ele espiou por muito tempo, em vao, a oportunidade de lhe dizer uma palavra. Por fim, encontrou-a saindo do quarto dele, Julien levando uma de suas roupas. Estavam sozinhos. Ele quis falar-lhe. Ela fugiu, recusando-se a escuta-lo. Sou muito tolo por amar uma mulher assim, pensou; a ambicao a torna tao louca quanto o marido.

Ela o estava ainda mais: um de seus grandes desejos, que jamais confessara a Julien por medo de feri-lo, era ve-lo deixar, nem que fosse por um dia, seu triste traje negro. Com uma habilidade verdadeiramente admiravel numa mulher tao natural, obteve primeiro do sr. de Moirod e depois do sr. subprefeito de Maugiron que Julien fosse nomeado guarda de honra de preferencia a cinco ou seis jovens, filhos de fabricantes muito abastados, dos quais pelo menos dois eram de piedade exemplar. O sr. Valenod, que contava emprestar sua caleche as mulheres mais bonitas da cidade e fazer admirar seus belos normandos, consentiu em dar um de seus cavalos a Julien, o ser que mais odiava. Mas todos os guardas de honra tinham, de propriedade ou emprestado, algum daqueles belos uniformes azul-celeste, com duas dragonas de coronel em prata, que haviam brilhado sete anos antes. A sra. de Renal queria um uniforme novo, e so lhe restavam quatro dias para mandar a Besancon e fazer voltar de la a farda, as armas, o chapeu, enfim tudo o que faz um guarda de honra. O divertido e que ela achava imprudente mandar fazer a roupa de Julien em Verrieres. Queria surpreende-lo, e surpreender a cidade.

Terminado o trabalho da guarda de honra e do espirito publico, o prefeito teve de se ocupar de uma grande cerimonia religiosa. O rei de *** nao queria passar por Verrieres sem visitar a famosa reliquia de sao Clemente, conservada em Bray-le-Haut, a uma pequena legua da cidade. Desejava-se um clero numeroso, e essa foi a parte mais dificil de arranjar; o sr. Maslon, o novo cura, queria evitar a todo custo a presenca do sr. Chelan. Em vao o sr. de Renal lhe mostrava que haveria imprudencia nisso. O sr. marques de La Mole, cujos antepassados foram por tanto tempo governadores da provincia, fora designado para acompanhar o rei de ***. Conhecia o abade Chelan havia trinta anos. Certamente perguntaria por ele ao chegar a Verrieres; e, se o encontrasse em desgraca, era homem de ir procura-lo na casinha para onde se retirara, acompanhado de todo o cortejo de que pudesse dispor. Que bofetada!

-- Estou desonrado aqui e em Besancon -- respondia o abade Maslon -- se ele aparecer no meu clero. Um jansenista, grande Deus!

-- Diga o que disser, meu caro abade -- replicava o sr. de Renal --, nao exporei a administracao de Verrieres a receber uma afronta do sr. de La Mole. O senhor nao o conhece. Ele pensa bem na corte; mas aqui, na provincia, e um mau gracejador satirico, zombeteiro, que so procura embaraçar as pessoas. E capaz, apenas para se divertir, de nos cobrir de ridiculo aos olhos dos liberais.

Foi apenas na noite de sabado para domingo, depois de tres dias de conversas, que o orgulho do abade Maslon cedeu diante do medo do prefeito, que se transformava em coragem. Foi preciso escrever uma carta melosa ao abade Chelan, pedindo-lhe que assistisse a cerimonia da reliquia de Bray-le-Haut, se sua grande idade e suas enfermidades o permitissem. O sr. Chelan pediu e obteve uma carta de convite para Julien, que devia acompanha-lo na qualidade de subdiacono.

Desde a manha de domingo, milhares de camponeses vindos das montanhas vizinhas inundaram as ruas de Verrieres. Fazia o mais belo sol. Enfim, por volta das tres horas, toda aquela multidao se agitou; via-se uma grande fogueira sobre um rochedo a duas leguas de Verrieres. Esse sinal anunciava que o rei acabava de entrar no territorio do departamento. Logo o som de todos os sinos e as descargas repetidas de um velho canhao espanhol pertencente a cidade assinalaram sua alegria por esse grande acontecimento. Metade da populacao subiu aos telhados. Todas as mulheres estavam nas sacadas. A guarda de honra se pos em movimento. Admiravam-se os uniformes brilhantes; cada um reconhecia um parente, um amigo. Zombava-se do medo do sr. de Moirod, cuja mao prudente estava a todo instante pronta para agarrar o arco da sela. Mas uma observacao fez esquecer todas as outras: o primeiro cavaleiro da nona fileira era um rapaz muito bonito, muito esbelto, que de inicio ninguem reconheceu. Logo um grito de indignacao em uns, e em outros o silencio do espanto, anunciaram uma sensacao geral. Reconhecia-se naquele jovem, montando um dos cavalos normandos do sr. Valenod, o pequeno Sorel, filho do carpinteiro. Houve um unico clamor contra o prefeito, sobretudo entre os liberais. Como! Porque esse pequeno operario disfarçado de abade era preceptor de seus pirralhos, ele tinha a audacia de nomea-lo guarda de honra, em prejuizo de senhores tais e tais, ricos fabricantes!

-- Esses senhores -- dizia uma senhora banqueira -- bem que deveriam fazer uma afronta a esse pequeno insolente, nascido na lama.

-- Ele e dissimulado e traz um sabre -- respondia o vizinho --; seria bastante traicoeiro para lhes cortar o rosto.

As falas da sociedade nobre eram mais perigosas. As damas se perguntavam se aquela alta inconveniencia provinha apenas do prefeito. Em geral, faziam justica ao seu desprezo pela falta de nascimento.

Enquanto era a ocasiao de tantos comentarios, Julien era o mais feliz dos homens. Naturalmente ousado, mantinha-se melhor a cavalo do que a maioria dos jovens daquela cidade de montanha. Via nos olhos das mulheres que se falava dele.

Suas dragonas eram mais brilhantes porque eram novas. Seu cavalo se empinava a cada instante; ele estava no auge da alegria.

Sua felicidade nao teve mais limites quando, ao passar perto da velha muralha, o ruido da pequena peca de canhao fez seu cavalo saltar para fora da fileira. Por grande acaso, nao caiu; a partir desse momento, sentiu-se um heroi. Era oficial de ordenanca de Napoleao e atacava uma bateria.

Uma pessoa era mais feliz que ele. Primeiro o vira passar de uma das janelas da prefeitura; depois, subindo numa caleche e fazendo rapidamente um grande desvio, chegou a tempo de estremecer quando o cavalo o levou para fora da fileira. Enfim, sua caleche saindo a grande galope por outra porta da cidade, conseguiu alcancar a estrada por onde o rei devia passar e seguir a guarda de honra a vinte passos de distancia, em meio a uma nobre poeira. Dez mil camponeses gritaram: Viva o rei!, quando o prefeito teve a honra de discursar a Sua Majestade. Uma hora depois, ouvidos todos os discursos, quando o rei ia entrar na cidade, a pequena peca de canhao recomecou a disparar com golpes precipitados. Mas seguiu-se um acidente, nao para os artilheiros que tinham dado provas em Leipzig e Montmirail, mas para o futuro primeiro adjunto, o sr. de Moirod. Seu cavalo o depositou suavemente no unico lamaçal que havia na grande estrada, o que causou escandalo, pois foi preciso tira-lo dali para que a carruagem do rei pudesse passar.

Sua Majestade desceu na bela igreja nova, que naquele dia estava ornada com todas as suas cortinas carmesins. O rei devia jantar e, logo depois, tornar a subir na carruagem para ir venerar a reliquia de sao Clemente. Mal o rei entrou na igreja, Julien galopou para a casa do sr. de Renal. Ali, suspirando, deixou sua bela roupa azul-celeste, o sabre, as dragonas, para retomar o pequeno traje negro gasto. Montou de novo e, em poucos instantes, estava em Bray-le-Haut, que ocupa o cume de uma colina belissima. O entusiasmo multiplica estes camponeses, pensou Julien. Nao se pode mover em Verrieres, e aqui estao mais de dez mil ao redor desta antiga abadia. Meio arruinada pelo vandalismo revolucionario, ela fora magnificamente restaurada desde a Restauracao, e ja se comecava a falar de milagres. Julien juntou-se ao abade Chelan, que o repreendeu severamente e lhe entregou uma batina e uma sobrepeliz. Vestiu-se depressa e seguiu o sr. Chelan, que se dirigia ao jovem bispo de Agde. Era um sobrinho do sr. de La Mole, recentemente nomeado, e encarregado de mostrar a reliquia ao rei. Mas nao se conseguiu encontrar esse bispo.

O clero impacientava-se. Esperava seu chefe no claustro sombrio e gotico da antiga abadia. Haviam reunido vinte e quatro curas para representar o antigo capitulo de Bray-le-Haut, composto, antes de 1789, de vinte e quatro conegos. Depois de lamentarem durante tres quartos de hora a juventude do bispo, os curas acharam conveniente que o sr. decano se retirasse ate monsenhor para avisa-lo de que o rei estava prestes a chegar e de que era urgente dirigir-se ao coro. A grande idade do sr. Chelan fizera dele o decano; apesar do mau humor que demonstrava a Julien, fez-lhe sinal para que o seguisse. Julien trajava muito bem sua sobrepeliz. Por meio de nao sei que procedimento de toalete eclesiastica, tornara bem lisos seus belos cabelos encaracolados; mas, por um esquecimento que redobrou a colera do sr. Chelan, sob as longas pregas de sua batina podiam-se perceber as esporas do guarda de honra.

Ao chegarem ao aposento do bispo, grandes lacaios muito agaloados dignaram-se apenas responder ao velho cura que monsenhor nao estava visivel. Zombaram dele quando quis explicar que, na qualidade de decano do nobre capitulo de Bray-le-Haut, tinha o privilegio de ser admitido a qualquer tempo junto ao bispo oficiante.

O humor altivo de Julien foi ferido pela insolencia dos lacaios. Pos-se a percorrer os dormitorios da antiga abadia, sacudindo todas as portas que encontrava. Uma pequenissima cedeu aos seus esforcos, e ele se achou numa cela, entre os camareiros de monsenhor, de traje negro e corrente ao pescoco. Pelo ar apressado, aqueles senhores o julgaram chamado pelo bispo e o deixaram passar. Deu alguns passos e encontrou-se numa imensa sala gotica, extremamente sombria e toda revestida de carvalho negro. Com excecao de uma so, as janelas ogivais haviam sido tapadas com tijolos. A grosseria dessa alvenaria nao era disfarçada por nada e fazia triste contraste com a antiga magnificencia dos lambris. Os dois grandes lados dessa sala, celebre entre os antiquarios borgonheses, e que o duque Carlos, o Temerario, mandara construir por volta de 1470 em expiacao de algum pecado, estavam guarnecidos de cadeirais de madeira ricamente esculpidos. Ali se viam, representados em madeiras de diversas cores, todos os misterios do Apocalipse.

Essa magnificencia melancolica, degradada pela vista dos tijolos nus e do reboco ainda todo branco, tocou Julien. Ele parou em silencio. Na outra extremidade da sala, perto da unica janela por onde entrava a luz do dia, viu um espelho movel de mogno. Um jovem, de batina violeta e sobrepeliz de renda, mas de cabeca descoberta, estava parado a tres passos do espelho. Esse movel parecia estranho em tal lugar e, sem duvida, fora trazido da cidade. Julien achou que o jovem tinha ar irritado; com a mao direita, dava gravemente bencaos na direcao do espelho.

Que pode significar isto?, pensou. Sera uma cerimonia preparatoria que esse jovem padre cumpre? Talvez seja o secretario do bispo... sera insolente como os lacaios... Seja como for, tentemos.

Avancou e percorreu com bastante lentidao o comprimento da sala, sempre com os olhos voltados para a unica janela, observando aquele jovem que continuava a dar bencaos executadas lentamente, mas em numero infinito, sem repousar um instante.

A medida que se aproximava, distinguia melhor seu ar contrariado. A riqueza da sobrepeliz guarnecida de rendas deteve involuntariamente Julien a alguns passos do magnifico espelho.

E meu dever falar, disse enfim consigo; mas a beleza da sala o comovera, e ja estava antecipadamente melindrado pelas palavras duras que lhe seriam dirigidas.

O jovem o viu no espelho, voltou-se e, abandonando de subito o ar irritado, disse-lhe no tom mais doce:

-- Entao, senhor, esta enfim arrumada?

Julien ficou estupefato. Como o jovem se voltava para ele, Julien viu a cruz peitoral em seu peito: era o bispo de Agde. Tao jovem!, pensou Julien; quando muito seis ou oito anos mais velho que eu!...

E teve vergonha de suas esporas.

-- Monsenhor -- respondeu timidamente --, sou enviado pelo decano do capitulo, o sr. Chelan.

-- Ah! Ele me foi vivamente recomendado -- disse o bispo, num tom polido que redobrou o encantamento de Julien. -- Mas peço-lhe perdao, senhor, eu o tomava pela pessoa que deve me trazer de volta a mitra. Ela foi mal embalada em Paris; o tecido de prata esta horrivelmente estragado no alto. Fara o mais feio efeito -- acrescentou o jovem bispo, com ar triste --, e ainda me fazem esperar!

-- Monsenhor, irei buscar a mitra, se Vossa Grandeza o permitir.

Os belos olhos de Julien produziram seu efeito.

-- Va, senhor -- respondeu o bispo, com polidez encantadora --; preciso dela imediatamente. Estou desolado por fazer esperar os senhores do capitulo.

Quando Julien chegou ao meio da sala, voltou-se para o bispo e o viu retomando as bencaos. Que pode ser isso?, perguntou a si mesmo. Sem duvida e uma preparacao eclesiastica necessaria a cerimonia que vai acontecer. Ao chegar a cela onde estavam os camareiros, viu a mitra nas maos deles. Aqueles senhores, cedendo a contragosto ao olhar imperioso de Julien, entregaram-lhe a mitra de monsenhor.

Sentiu orgulho de carrega-la; ao atravessar a sala, caminhava lentamente e a segurava com respeito. Encontrou o bispo sentado diante do espelho; mas, de tempos em tempos, sua mao direita, embora fatigada, ainda dava a bencao. Julien ajudou-o a colocar a mitra. O bispo sacudiu a cabeca.

-- Ah! Ela ficara firme -- disse a Julien, com ar satisfeito. -- Quer afastar-se um pouco?

Entao o bispo foi muito depressa ate o meio do aposento; depois, aproximando-se do espelho a passos lentos, retomou o ar irritado e dava gravemente bencaos.

Julien estava imovel de espanto; estava tentado a compreender, mas nao ousava. O bispo parou e, olhando-o com um ar que perdia rapidamente a gravidade:

-- Que diz da minha mitra, senhor? Vai bem?

-- Muito bem, monsenhor.

-- Nao esta muito para tras? Isso teria um ar um pouco tolo; mas tambem nao se deve leva-la baixa sobre os olhos como um chaco de oficial.

-- Parece-me ir muito bem.

-- O rei de *** esta acostumado a um clero veneravel e, sem duvida, muito grave. Eu nao gostaria, sobretudo por causa da minha idade, de parecer leviano demais.

E o bispo se pos novamente a caminhar dando bencaos.

E claro, disse Julien, ousando enfim compreender; ele se exercita em dar a bencao.

Depois de alguns instantes:

-- Estou pronto -- disse o bispo. -- Va, senhor, avisar o sr. decano e os senhores do capitulo.

Logo o sr. Chelan, seguido dos dois curas mais idosos, entrou por uma porta muito grande, magnificamente esculpida, que Julien nao percebera. Mas dessa vez ele ficou no seu lugar, o ultimo de todos, e so pode ver o bispo por cima dos ombros dos eclesiasticos que se comprimiam em multidao naquela porta.

O bispo atravessava lentamente a sala; quando chegou ao limiar, os curas se formaram em procissao. Depois de um pequeno momento de desordem, a procissao comecou a caminhar entoando um salmo. O bispo avancava por ultimo, entre o sr. Chelan e outro cura muito velho. Julien se insinuou bem perto de monsenhor, como ligado ao abade Chelan. Seguiram-se os longos corredores da abadia de Bray-le-Haut; apesar do sol radiante, eram sombrios e umidos. Chegou-se enfim ao portico do claustro. Julien estava estupefato de admiracao por tao bela cerimonia. A ambicao despertada pela juventude do bispo, a sensibilidade e a polidez requintada daquele prelado disputavam seu coracao. Essa polidez era bem outra coisa que a do sr. de Renal, mesmo em seus bons dias. Quanto mais se sobe em direcao ao primeiro posto da sociedade, dizia Julien consigo, mais se encontram dessas maneiras encantadoras.

Entrava-se na igreja por uma porta lateral; de repente, um ruido espantoso fez ressoar suas abobadas antigas. Julien acreditou que elas desabavam. Era ainda a pequena peca de canhao; puxada por oito cavalos a galope, acabava de chegar e, mal chegada, posta em bateria pelos artilheiros de Leipzig, disparava cinco tiros por minuto, como se os prussianos estivessem diante dela.

Mas esse ruido admiravel ja nao produziu efeito em Julien; ele nao pensava mais em Napoleao nem na gloria militar. Tao jovem, pensava, ser bispo de Agde! Mas onde fica Agde? E quanto rende isso? Duzentos ou trezentos mil francos, talvez.

Os lacaios de monsenhor apareceram com um dossel magnifico; o sr. Chelan tomou uma das hastes, mas, na realidade, foi Julien quem a carregou. O bispo se colocou sob ele. Realmente conseguira dar a si mesmo um ar velho; a admiracao do nosso heroi nao teve mais limites. O que nao se faz com habilidade!, pensou.

O rei entrou. Julien teve a felicidade de ve-lo de muito perto. O bispo lhe dirigiu uma fala com uncao, sem esquecer uma pequena nuance de perturbacao muito polida para Sua Majestade. Nao repetiremos a descricao das cerimonias de Bray-le-Haut; durante quinze dias, elas encheram as colunas de todos os jornais do departamento. Julien soube pelo discurso do bispo que o rei descendia de Carlos, o Temerario.

Mais tarde, entrou nas funcoes de Julien verificar as contas do que custara aquela cerimonia. O sr. de La Mole, que havia obtido um bispado para seu sobrinho, quis fazer-lhe a gentileza de se encarregar de todas as despesas. Somente a cerimonia de Bray-le-Haut custou tres mil e oitocentos francos.

Depois do discurso do bispo e da resposta do rei, Sua Majestade colocou-se sob o dossel; em seguida, ajoelhou-se muito devotamente sobre uma almofada perto do altar. O coro era cercado de cadeirais, e os cadeirais ficavam elevados dois degraus acima do pavimento. Era no ultimo desses degraus que Julien estava sentado aos pes do sr. Chelan, mais ou menos como um caudatario junto de seu cardeal, na capela Sistina, em Roma. Houve um Te Deum, ondas de incenso, descargas infinitas de mosquetaria e artilharia; os camponeses estavam ebrios de felicidade e piedade. Um dia assim desfaz a obra de cem numeros dos jornais jacobinos.

Julien estava a seis passos do rei, que realmente rezava com abandono. Notou pela primeira vez um homem pequeno, de olhar espirituoso, que usava uma roupa quase sem bordados. Mas tinha uma faixa azul-celeste sobre aquele traje muito simples. Estava mais perto do rei do que muitos outros senhores, cujas roupas eram tao bordadas de ouro que, segundo a expressao de Julien, nao se via o pano. Soube alguns momentos depois que era o sr. de La Mole. Achou-lhe o ar altivo e ate insolente.

Esse marques nao seria polido como meu bonito bispo, pensou. Ah! O estado eclesiastico torna os homens doces e sabios. Mas o rei veio venerar a reliquia, e eu nao vejo reliquia alguma. Onde estara sao Clemente?

Um pequeno clerigo, seu vizinho, informou-lhe que a veneravel reliquia estava no alto do edificio, numa capela ardente.

Que e uma capela ardente?, perguntou-se Julien.

Mas nao quis pedir a explicacao dessa palavra. Sua atencao redobrou.

Em caso de visita de um principe soberano, a etiqueta exige que os conegos nao acompanhem o bispo. Mas, ao se por a caminho da capela ardente, monsenhor de Agde chamou o abade Chelan; Julien ousou segui-lo.

Depois de subir uma longa escada, chegaram a uma porta extremamente pequena, mas cujo caixilho gotico era dourado com magnificencia. A obra parecia feita na vespera.

Diante da porta estavam reunidas, de joelhos, vinte e quatro moças pertencentes as familias mais distintas de Verrieres. Antes de abrir a porta, o bispo ajoelhou-se no meio daquelas jovens, todas bonitas. Enquanto rezava em voz alta, elas pareciam nao poder admirar o bastante suas belas rendas, sua graca, seu rosto tao jovem e tao doce. Esse espetaculo fez nosso heroi perder o que lhe restava de razao. Naquele instante, ele teria lutado pela Inquisicao, e de boa-fe. A porta abriu-se de repente. A pequena capela apareceu como abrasada de luz. Sobre o altar viam-se mais de mil cirios divididos em oito fileiras, separados entre si por buques de flores. O suave odor do incenso mais puro saia em turbilhoes pela porta do santuario. A capela, novamente dourada, era muito pequena, mas muito alta. Julien notou que havia no altar cirios de mais de quinze pes de altura. As jovens nao puderam conter um grito de admiracao. No pequeno vestibulo da capela so haviam sido admitidas as vinte e quatro jovens, os dois curas e Julien.

Logo chegou o rei, seguido apenas pelo sr. de La Mole e por seu grande camareiro. Os proprios guardas ficaram do lado de fora, de joelhos, apresentando armas.

Sua Majestade se precipitou, mais do que se ajoelhou, sobre o genuflexorio. Foi entao somente que Julien, colado contra a porta dourada, percebeu, por baixo do braco nu de uma jovem, a encantadora estatua de sao Clemente. Estava escondida sob o altar, em traje de jovem soldado romano. Tinha no pescoco uma larga ferida de onde o sangue parecia correr. O artista se superara: seus olhos moribundos, mas cheios de graca, estavam semicerrados. Um bigode nascente ornava aquela boca encantadora que, meio fechada, ainda parecia rezar. Ao ve-la, a jovem vizinha de Julien chorou copiosamente; uma de suas lagrimas caiu sobre a mao dele.

Depois de um instante de preces no mais profundo silencio, perturbado apenas pelo som longinquo dos sinos de todas as aldeias a dez leguas em redor, o bispo de Agde pediu ao rei permissao para falar. Terminou um breve discurso muito tocante com palavras simples, mas cujo efeito era tanto mais seguro.

-- Nao vos esquecaes jamais, jovens cristas, de que vistes um dos maiores reis da terra ajoelhado diante dos servidores desse Deus todo-poderoso e terrivel. Esses servidores, fracos, perseguidos, assassinados na terra, como vedes pela ferida ainda sangrenta de sao Clemente, triunfam no ceu. Nao e verdade, jovens cristas, que vos lembrareis para sempre deste dia? Detestareis o impio. Para sempre sereis fieis a esse Deus tao grande, tao terrivel, mas tao bom.

A essas palavras, o bispo levantou-se com autoridade.

-- Prometeis? -- disse ele, estendendo o braco, com ar inspirado.

-- Prometemos -- disseram as jovens, desfazendo-se em lagrimas.

-- Recebo vossa promessa em nome do Deus terrivel -- acrescentou o bispo, numa voz tonitruante.

E a cerimonia terminou.

O proprio rei chorava. So muito tempo depois Julien teve sangue-frio bastante para perguntar onde estavam os ossos do santo enviados de Roma a Filipe, o Bom, duque da Borgonha. Disseram-lhe que estavam ocultos na encantadora figura de cera.

Sua Majestade dignou-se permitir as senhoritas que o haviam acompanhado na capela usar uma fita vermelha na qual estavam bordadas estas palavras: ODIO AO IMPIO, ADORACAO PERPETUA.

O sr. de La Mole fez distribuir aos camponeses dez mil garrafas de vinho. A noite, em Verrieres, os liberais encontraram uma razao para iluminar cem vezes melhor que os realistas. Antes de partir, o rei fez uma visita ao sr. de Moirod.

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