Livro Segundo — Capítulo XVII: Uma velha espada
Livro Segundo - Capitulo XVII: Uma velha espada
Agora pretendo falar serio; ja e tempo,
Pois hoje em dia o riso e tido por serio demais;
Uma pilheria contra o vicio, pela virtude, e chamada crime.
Don Juan, C. XIII.
Ela nao apareceu no jantar. A noite, veio por um instante ao salao, mas nao olhou para Julien. Essa conduta lhe pareceu estranha; mas, pensou ele, devo confessar: so conheco os usos da boa companhia pelas acoes da vida de todos os dias que vi fazer cem vezes; ela me dara alguma boa razao para tudo isto. Contudo, agitado pela curiosidade mais extrema, estudava a expressao dos tracos de Mathilde; nao pode dissimular a si mesmo que ela tinha ar seco e mau. Evidentemente nao era a mesma mulher que, na noite precedente, tivera ou fingira transportes de felicidade excessivos demais para serem verdadeiros.
No dia seguinte, e no outro ainda, a mesma frieza da parte dela; nao o olhava, nao percebia sua existencia. Julien, devorado pela inquietacao mais viva, estava a mil leguas dos sentimentos de triunfo que so o haviam animado no primeiro dia. Seria por acaso, disse consigo, uma volta a virtude? Mas essa palavra era muito burguesa para a altiva Mathilde.
Nas posicoes ordinarias da vida, ela quase nao acredita na religiao, pensava Julien; ama-a como util aos interesses de sua casta.
Mas, por simples delicadeza feminina, nao pode censurar-se vivamente pela falta irreparavel que cometeu? Julien acreditava ser seu primeiro amante.
Mas, dizia consigo em outros instantes, e preciso confessar que nao ha nada de ingenuo, simples, terno em toda a sua maneira de ser; jamais a vi mais semelhante a uma rainha que acaba de descer do trono. Ela me desprezaria? Seria digno dela censurar-se pelo que fez por mim apenas por causa da baixeza de meu nascimento.
Enquanto Julien, cheio de seus preconceitos tirados dos livros e das lembrancas de Verrieres, perseguia a quimera de uma amante terna que nao pensa mais na propria existencia a partir do momento em que fez a felicidade do amante, a vaidade de Mathilde estava furiosa contra ele.
Como ja nao se entediava havia dois meses, ja nao temia o tedio; assim, sem poder suspeitar o minimo disso, Julien perdera sua maior vantagem.
Dei-me, portanto, um senhor! dizia a srta. de La Mole, passeando agitada em seu quarto. Ele e cheio de honra, muito bem; mas, se levo sua vaidade ao extremo, ele se vingara fazendo conhecer a natureza de nossas relacoes. Tal e o infortunio de nosso seculo: os mais estranhos desvios nem mesmo curam o tedio. Julien era o primeiro amor de Mathilde e, nessa circunstancia da vida que da algumas ilusoes ternas ate as almas mais secas, ela estava entregue as reflexoes mais amargas.
Ele tem sobre mim um imperio imenso, pois reina pelo terror e pode punir-me com uma pena atroz se o levo ao extremo. Essa unica ideia bastava para levar Mathilde ao ultraje, pois a coragem era a primeira qualidade de seu carater. Nada podia dar-lhe alguma agitacao e cura-la de um fundo de tedio sempre renascente senao a ideia de que jogava no cara ou coroa sua existencia inteira.
No terceiro dia, como a srta. de La Mole se obstinava em nao olha-lo, Julien seguiu-a depois do jantar, e evidentemente contra a vontade dela, ate a sala de bilhar.
- Pois bem, senhor, acredita portanto ter adquirido direitos bem poderosos sobre mim - disse ela com uma colera mal contida -, ja que, em oposicao a minha vontade claramente declarada, pretende falar comigo?... Sabe que ninguem no mundo jamais ousou tanto?
Nada foi tao curioso quanto o dialogo desses dois jovens amantes; sem suspeitar, estavam animados um contra o outro pelos sentimentos do odio mais vivo. Como nenhum dos dois tinha carater paciente e, alias, ambos tinham habitos de boa companhia, logo chegaram a declarar nitidamente que se separavam para sempre.
- Juro-lhe segredo eterno - disse Julien. - Acrescentaria mesmo que jamais lhe dirigirei a palavra, se sua reputacao nao pudesse sofrer com essa mudanca demasiado marcada.
Cumprimentou com perfeito respeito e partiu.
Cumpria sem muito esforco aquilo que julgava um dever; estava bem longe de crer-se muito apaixonado pela srta. de La Mole. Sem duvida, nao a amava tres dias antes, quando o haviam escondido no grande armario de mogno. Mas tudo mudou rapidamente em sua alma no momento em que se viu para sempre separado dela.
Sua memoria cruel pos-se a lhe retracar as menores circunstancias daquela noite que, na realidade, o deixara tao frio.
Desde a segunda noite que se seguiu a declaracao de separacao eterna, Julien quase enlouqueceu ao ser obrigado a confessar a si mesmo que tinha amor pela srta. de La Mole.
Combates horriveis seguiram-se a essa descoberta: todos os seus sentimentos estavam transtornados.
Oito dias depois, em vez de mostrar orgulho diante do sr. de Croisenois, quase o teria abracado desfazendo-se em lagrimas.
O habito da infelicidade deu-lhe uma luz de bom senso; decidiu partir para o Languedoc, fez a mala e foi ao correio.
Sentiu-se desfalecer quando, chegando ao escritorio das diligencias, soube que, por um acaso singular, havia um lugar ja no dia seguinte na mala de Toulouse. Reservou-o e voltou ao hotel de La Mole para anunciar a partida ao marques.
O sr. de La Mole havia saido. Mais morto que vivo, Julien foi espera-lo na biblioteca. Que foi dele ao encontrar ali a srta. de La Mole?
Ao ve-lo aparecer, ela tomou um ar de maldade sobre o qual lhe foi impossivel enganar-se.
Levado por sua infelicidade, extraviado pela surpresa, Julien teve a fraqueza de dizer-lhe, no tom mais terno e que vinha da alma:
- Entao, a senhorita ja nao me ama?
- Tenho horror de me haver entregado ao primeiro que apareceu - disse Mathilde, chorando de raiva contra si mesma.
- Ao primeiro que apareceu! - exclamou Julien; e precipitou-se sobre uma velha espada da Idade Media, conservada na biblioteca como curiosidade.
Sua dor, que julgava extrema no momento em que dirigira a palavra a srta. de La Mole, acabava de ser centuplicada pelas lagrimas de vergonha que a via derramar. Teria sido o mais feliz dos homens se pudesse mata-la.
No momento em que acabava de tirar a espada, com alguma dificuldade, da bainha antiga, Mathilde, feliz por uma sensacao tao nova, avancou orgulhosamente para ele; suas lagrimas haviam secado.
A ideia do marques de La Mole, seu benfeitor, apresentou-se vivamente a Julien. Eu mataria sua filha! disse consigo; que horror! Fez um movimento para jogar a espada. Certamente, pensou, ela vai cair na risada vendo este gesto de melodrama; deveu a essa ideia o retorno de todo o seu sangue-frio. Olhou a lamina da velha espada curiosamente, como se procurasse nela alguma mancha de ferrugem; depois a recolocou na bainha e, com a maior tranquilidade, pendurou-a de novo no prego de bronze dourado que a sustentava.
Todo esse movimento, muito lento no fim, durou bem um minuto. A srta. de La Mole olhava-o espantada: Entao estive a ponto de ser morta por meu amante! dizia consigo.
Essa ideia a transportava aos mais belos anos do seculo de Carlos IX e de Henrique III.
Estava imovel, de pe diante de Julien, que acabava de recolocar a espada; olhava-o com olhos dos quais o odio fugira. E preciso confessar que ela era muito sedutora naquele momento; certamente jamais uma mulher se parecera menos com uma boneca parisiense. Essa palavra era a grande objecao de Julien contra as mulheres daquele pais.
Vou recair em alguma fraqueza por ele, pensou Mathilde; e desta vez, de fato, ele se acreditaria meu senhor e mestre, depois de uma recaida, e no momento preciso em que acabo de falar-lhe com tanta firmeza. Fugiu.
Meu Deus! Como ela e bela! disse Julien ao ve-la correr. Eis esse ser que se precipitava em meus bracos com tanto furor ha menos de quinze dias... e esses instantes jamais voltarao! E e por minha culpa! E, no momento de uma acao tao extraordinaria, tao interessante para mim, eu nao era sensivel a ela!... E preciso confessar que nasci com um carater bem plano e bem infeliz.
O marques apareceu; Julien apressou-se a anunciar-lhe a partida.
- Para onde? - disse o sr. de La Mole.
- Para o Languedoc.
- De modo algum, se me permite. O senhor esta reservado a destinos mais altos; se partir, sera para o Norte... Mesmo, em termos militares, consigno-o ao hotel. O senhor me obrigara a nunca ficar mais de duas ou tres horas ausente; posso precisar do senhor de um momento a outro.
Julien cumprimentou e se retirou sem dizer palavra, deixando o marques muito espantado. Estava fora de condicoes de falar; encerrou-se no quarto. Ali, pode exagerar livremente toda a atrocidade de sua sorte.
Assim, pensava, nao posso nem mesmo afastar-me! Deus sabe quantos dias o marques vai me reter em Paris; grande Deus! Que vai ser de mim? E nem um amigo que eu possa consultar: o abade Pirard nao me deixaria terminar a primeira frase; o conde Altamira me proporia, para me distrair, filiar-me a alguma conspiracao.
E, no entanto, estou louco, sinto-o; estou louco!
Quem podera guiar-me? Que vai ser de mim?