Livro Segundo — Capítulo XIII: Um complô O Vermelho e o Negro · Capítulo 43 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XIII: Um complô

Livro Segundo - Capitulo XIII: Um complô

Palavras desconexas, encontros por efeito do acaso transformam-se em provas da ultima evidencia aos olhos do homem de imaginacao, se ele tem algum fogo no coracao.

SCHILLER.

No dia seguinte, surpreendeu ainda Norbert e a irma falando dele. A sua chegada, estabeleceu-se um silencio de morte, como na vespera. Suas suspeitas nao tiveram mais limites. Teriam esses jovens amaveis empreendido zombar de mim? E preciso confessar que isso e muito mais provavel, muito mais natural do que uma pretensa paixao da srta. de La Mole por um pobre-diabo de secretario. Antes de tudo, essa gente tem paixoes? Mistificar e seu forte. Têm inveja de minha pobre pequena superioridade de palavras. Ter inveja e ainda uma de suas fraquezas. Tudo se explica nesse sistema. A srta. de La Mole quer persuadir-me de que me distingue, simplesmente para me dar em espetaculo ao seu pretendente.

Essa cruel suspeita mudou toda a posicao moral de Julien. A ideia encontrou em seu coracao um comeco de amor que nao teve dificuldade em destruir. Esse amor nao se fundava senao na rara beleza de Mathilde, ou antes em seus modos de rainha e em sua toilette admiravel. Nisso Julien ainda era um parvenu. Uma bela mulher do grande mundo e, ao que asseguram, o que mais espanta um campones de espirito quando chega as primeiras classes da sociedade. Nao era o carater de Mathilde que fazia Julien sonhar nos dias precedentes. Ele tinha bastante bom senso para compreender que nao conhecia esse carater. Tudo o que via dele podia nao passar de aparencia.

Por exemplo, por nada neste mundo Mathilde teria faltado a missa num domingo; quase todos os dias acompanhava a mae. Se, no salao do hotel de La Mole, algum imprudente esquecia o lugar onde estava e se permitia a alusao mais distante a uma brincadeira contra os interesses verdadeiros ou supostos do trono ou do altar, Mathilde tornava-se no mesmo instante de uma seriedade gelada. Seu olhar, que era tao picante, retomava toda a altivez impassivel de um velho retrato de familia.

Mas Julien se certificara de que ela tinha sempre no quarto um ou dois dos volumes mais filosoficos de Voltaire. Ele mesmo furtava muitas vezes alguns tomos da bela edicao tao magnificamente encadernada. Afastando um pouco cada volume de seu vizinho, escondia a ausencia daquele que levava; mas logo percebeu que outra pessoa lia Voltaire. Recorreu a uma finura de seminario: colocou pequenos pedacos de crina nos volumes que supunha poder interessar a srta. de La Mole. Eles desapareciam durante semanas inteiras.

O sr. de La Mole, impaciente com seu livreiro, que lhe enviava todas as falsas Memorias, encarregou Julien de comprar todas as novidades um pouco picantes. Mas, para que o veneno nao se espalhasse pela casa, o secretario tinha ordem de depositar esses livros numa pequena biblioteca situada no proprio quarto do marques. Logo teve a certeza de que, por pouco que esses livros novos fossem hostis aos interesses do trono e do altar, nao tardavam a desaparecer. Certamente nao era Norbert quem os lia.

Julien, exagerando essa experiencia, atribuía a srta. de La Mole a duplicidade de Maquiavel. Essa pretensa perversidade era um encanto aos seus olhos, quase o unico encanto moral que ela tivesse. O tedio da hipocrisia e das falas de virtude o lancava nesse excesso.

Ele excitava a imaginacao mais do que era arrastado pelo amor.

Era depois de se perder em devaneios sobre a elegancia da cintura da srta. de La Mole, sobre o gosto excelente de sua roupa, sobre a brancura de sua mao, sobre a beleza de seu braco, sobre a disinvoltura de todos os seus movimentos, que se achava apaixonado. Entao, para completar o encanto, acreditava-a uma Catarina de Medicis. Nada era profundo demais ou perverso demais para o carater que lhe atribuía. Era o ideal dos Maslon, dos Frilair e dos Castanede que admirara na juventude. Era, numa palavra, para ele, o ideal de Paris.

Houve jamais algo mais divertido que supor profundidade ou perversidade ao carater parisiense?

E possivel que esse trio zombe de mim, pensava Julien. Conhece-se bem pouco seu carater se ja nao se ve a expressao sombria e fria que seus olhos tomaram ao responder aos de Mathilde. Uma ironia amarga repeliu as garantias de amizade que a srta. de La Mole, espantada, ousou arriscar duas ou tres vezes.

Picado por essa bizarrice repentina, o coracao dessa jovem naturalmente fria, entediada, sensivel ao espirito, tornou-se tao apaixonado quanto estava em sua natureza se-lo. Mas havia tambem muito orgulho no carater de Mathilde, e o nascimento de um sentimento que fazia depender de outro toda a sua felicidade foi acompanhado de uma sombria tristeza.

Julien ja aproveitara bastante desde sua chegada a Paris para distinguir que nao era aquela a tristeza seca do tedio. Em vez de ser avidamente desejosa, como antes, de seroes, espetaculos e distracoes de todo genero, ela os fugia.

A musica cantada por franceses entediava Mathilde mortalmente; e, no entanto, Julien, que fazia questao de assistir a saida da Opera, notou que ela se fazia levar la o mais frequentemente possivel. Julgou distinguir que ela perdera um pouco da medida perfeita que brilhava em todas as suas acoes. Respondia as vezes aos amigos com pilherias ultrajantes de tao picante energia. Parece-lhe que ela tomava antipatia pelo marques de Croisenois. E preciso que esse jovem ame furiosamente o dinheiro para nao largar essa moça, por mais rica que seja! pensava Julien. E, quanto a ele, indignado com as ofensas feitas a dignidade masculina, redobrava de frieza para com ela. Muitas vezes chegou a respostas pouco polidas.

Por mais resolvido que estivesse a nao ser enganado pelas marcas de interesse de Mathilde, elas eram tao evidentes em certos dias, e Julien, cujos olhos comecavam a se abrir, achava-a tao bela, que as vezes ficava embaraçado.

A habilidade e a longanimidade desses jovens do grande mundo acabariam triunfando de minha pouca experiencia, disse consigo; e preciso partir e pôr fim a tudo isso. O marques acabava de lhe confiar a administracao de uma quantidade de pequenas terras e casas que possuia no Baixo Languedoc. Uma viagem era necessaria: o sr. de La Mole consentiu com dificuldade. Exceto nas materias de alta ambicao, Julien tornara-se um outro ele mesmo.

Afinal, eles nao me apanharam, dizia Julien, preparando a partida. Que as pilherias que a srta. de La Mole faz a esses senhores sejam reais ou destinadas apenas a inspirar-me confianca, diverti-me com elas.

Se nao ha conspiracao contra o filho do carpinteiro, a srta. de La Mole e inexplicavel; mas o e para o marques de Croisenois pelo menos tanto quanto para mim. Ontem, por exemplo, seu mau humor era bem real, e tive o prazer de fazer curvar-se, por meu favor, um jovem tao nobre e tao rico quanto eu sou miseravel e plebeu. Eis o mais belo de meus triunfos; ele me alegrara na cadeira de posta, correndo pelas planicies do Languedoc.

Fizera de sua partida um segredo, mas Mathilde sabia melhor do que ele que deixaria Paris no dia seguinte, e por muito tempo. Recorreu a uma dor de cabeca louca, que o ar abafado do salao aumentava. Passeou muito no jardim e perseguiu tanto, com suas pilherias mordazes, Norbert, o marques de Croisenois, Caylus, de Luz e alguns outros jovens que haviam jantado no hotel de La Mole, que os forcou a partir. Olhava Julien de uma maneira estranha.

Esse olhar talvez seja uma comedia, pensou Julien; mas essa respiracao apressada, mas todo esse disturbio! Bah! disse consigo, quem sou eu para julgar todas essas coisas? Trata-se aqui do que ha de mais sublime e de mais fino entre as mulheres de Paris. Essa respiracao apressada, que esteve a ponto de me tocar, ela a tera estudado em Leontine Fay, de quem gosta tanto.

Ficaram sozinhos; a conversa evidentemente definhava. Nao! Julien nada sente por mim, dizia Mathilde, realmente infeliz.

Quando ele se despedia dela, ela lhe apertou o braco com forca:

- O senhor recebera esta noite uma carta minha - disse-lhe ela com uma voz tao alterada que o som nao era reconhecivel.

Essa circunstancia tocou imediatamente Julien.

- Meu pai - continuou ela - tem justa estima pelos servicos que o senhor lhe presta. E preciso nao partir amanha; encontre um pretexto.

E afastou-se correndo.

Sua cintura era encantadora. Era impossivel ter um pe mais bonito; corria com uma graca que arrebatou Julien. Mas adivinhar-se-ia qual foi seu segundo pensamento depois que ela desapareceu de todo? Ficou ofendido com o tom imperativo com que ela dissera aquelas palavras: e preciso. Tambem Luis XV, no momento de morrer, ficou vivamente ferido pela expressao e preciso, empregada sem jeito por seu primeiro medico; e Luis XV, contudo, nao era um parvenu.

Uma hora depois, um criado entregou uma carta a Julien; era simplesmente uma declaracao de amor.

Nao ha afetacao demais no estilo, disse Julien consigo, procurando por observacoes literarias conter a alegria que lhe contraia as faces e o forcava a rir apesar de si.

Enfim eu, exclamou de repente, a paixao sendo forte demais para ser contida, eu, pobre campones, tenho portanto uma declaracao de amor de uma grande dama!

Quanto a mim, nao esta mal, acrescentou, comprimindo a alegria tanto quanto possivel. Soube conservar a dignidade de meu carater. Nao disse que amava. Pos-se a estudar a forma das letras; a srta. de La Mole tinha uma bonita pequena escrita inglesa. Precisava de uma ocupacao fisica para se distrair de uma alegria que ia ate o delirio.

Vossa partida me obriga a falar... Estaria acima de minhas forcas nao mais ve-lo...

Um pensamento veio atingir Julien como uma descoberta, interromper o exame que fazia da carta de Mathilde e redobrar sua alegria. Levo vantagem sobre o marques de Croisenois, exclamou, eu, que so digo coisas serias! E ele e tao bonito! Tem bigodes, um uniforme encantador, encontra sempre, justo no momento conveniente, uma palavra espirituosa e fina.

Julien teve um instante delicioso; errava ao acaso pelo jardim, louco de felicidade.

Mais tarde subiu ao escritorio e fez-se anunciar junto ao marques de La Mole, que felizmente nao havia saido. Provou-lhe facilmente, mostrando alguns papeis marcados como chegados da Normandia, que o cuidado dos processos normandos o obrigava a adiar a partida para o Languedoc.

- Fico contente que nao parta - disse-lhe o marques, quando terminaram de falar de negocios; - gosto de ve-lo. Julien saiu; essa palavra o incomodava.

E eu vou seduzir sua filha! Tornar impossivel talvez esse casamento com o marques de Croisenois, que faz o encanto de seu futuro: se ele nao e duque, ao menos sua filha tera um tamborete. Julien teve a ideia de partir para o Languedoc apesar da carta de Mathilde, apesar da explicacao dada ao marques. Esse lampejo de virtude desapareceu muito depressa.

Como sou bom, disse consigo; eu, plebeu, ter piedade de uma familia desse nivel! Eu, a quem o duque de Chaulnes chama criado! Como o marques aumenta sua imensa fortuna? Vendendo renda quando fica sabendo no castelo que no dia seguinte havera aparencia de golpe de Estado. E eu, lancado ao ultimo degrau por uma providencia madrasta, eu, a quem ela deu um coracao nobre e nao mil francos de renda, isto e, nem pao, falando exatamente, nem pao, eu recusaria um prazer que se oferece! Uma fonte limpida que vem matar minha sede no deserto ardente da mediocridade que atravesso tao penosamente! Palavra de honra, nao sou tao tolo; cada um por si nesse deserto de egoismo que se chama vida.

E lembrou-se de alguns olhares cheios de desdem dirigidos a ele pela sra. de La Mole e, sobretudo, pelas damas amigas dela.

O prazer de triunfar do marques de Croisenois veio completar a derrota daquela lembranca de virtude.

Como eu gostaria que ele se zangasse! disse Julien; com que seguranca agora lhe daria um golpe de espada. E fazia o gesto do golpe de segunda. Antes disso, eu era um pedante, abusando baixamente de um pouco de coragem. Depois desta carta, sou seu igual.

Sim, dizia consigo com volupia infinita e falando lentamente, nossos meritos, o do marques e o meu, foram pesados, e o pobre carpinteiro do Jura leva vantagem.

Bom! exclamou, eis achada a assinatura de minha resposta. Nao va imaginar, senhorita de La Mole, que esqueco meu estado. Farei a senhora compreender e sentir bem que e pelo filho de um carpinteiro que trai um descendente do famoso Guy de Croisenois, que seguiu Sao Luis a cruzada.

Julien nao podia conter a alegria. Foi obrigado a descer ao jardim. Seu quarto, onde se trancara a chave, parecia estreito demais para que ali respirasse.

Eu, pobre campones do Jura, repetia sem cessar, eu, condenado a usar sempre este triste traje preto! Ai de mim! Vinte anos antes, eu teria usado o uniforme como eles! Entao um homem como eu era morto ou general aos trinta e seis anos. Essa carta, que mantinha apertada na mao, dava-lhe a estatura e a atitude de um heroi. Agora, e verdade, com este traje preto, aos quarenta anos, tem-se cem mil francos de vencimentos e o cordao azul, como o sr. bispo de Beauvais.

Pois bem! disse consigo, rindo como Mefistofeles, tenho mais espirito que eles; sei escolher o uniforme do meu seculo. E sentiu redobrar sua ambicao e seu apego ao habito eclesiastico. Quantos cardeais nascidos mais baixo que eu governaram! Meu compatriota Granvelle, por exemplo.

Pouco a pouco a agitacao de Julien se acalmou; a prudencia veio a tona. Disse a si mesmo, como seu mestre Tartufo, cujo papel sabia de cor:

Posso crer essas palavras um artificio honesto.

..................................

Nao me fiarei em palavras tao doces;

Que um pouco de seus favores, por que suspiro,

Nao venha assegurar-me tudo o que elas puderam dizer.

TARTUFO, ato IV, cena V.

Tartufo tambem se perdeu por uma mulher, e valia bem outro qualquer... Minha resposta pode ser mostrada... Para isso encontramos este remedio, acrescentou, pronunciando lentamente e com o acento da ferocidade que se contem: comecemo-la pelas frases mais vivas da carta da sublime Mathilde.

Sim, mas quatro lacaios do sr. de Croisenois precipitam-se sobre mim e me arrancam o original.

Nao, pois estou bem armado e tenho o costume, como se sabe, de atirar em lacaios.

Pois bem! Um deles tem coragem; precipita-se sobre mim. Prometeram-lhe cem napoleoes. Mato-o ou firo-o; muito bem, e o que querem. Jogam-me na prisao de modo perfeitamente legal; apareco na policia correcional, e me mandam, com toda justica e equidade da parte dos juizes, fazer companhia em Poissy aos srs. Fontan e Magallon. La, durmo com quatrocentos miseraveis misturados... E eu teria alguma piedade dessa gente? exclamou, erguendo-se impetuosamente. Têm eles piedade das pessoas do terceiro estado quando as tem nas maos? Essa palavra foi o ultimo suspiro de sua gratidao pelo sr. de La Mole, que, apesar dele, o atormentava ate entao.

Devagar, senhores fidalgos, compreendo esse pequeno lance de maquiavelismo; o abade Maslon ou o sr. Castanede do seminario nao teriam feito melhor. Os senhores me tirarao a carta provocadora, e eu serei o segundo tomo do coronel Caron em Colmar.

Um instante, senhores, vou enviar a carta fatal em deposito, num pacote bem lacrado, ao sr. abade Pirard. Esse e homem honesto, jansenista, e, como tal, a salvo das seducoes do orcamento. Sim, mas ele abre cartas... E a Fouque que enviarei esta.

E preciso confessar: o olhar de Julien era atroz, sua fisionomia hedionda; respirava o crime sem mistura. Era o homem infeliz em guerra com toda a sociedade.

As armas! exclamou Julien. E saltou os degraus da entrada do hotel. Entrou na lojinha do escrevente da esquina; causou-lhe medo.

- Copie - disse-lhe, entregando a carta da srta. de La Mole.

Enquanto o escrevente trabalhava, escreveu ele mesmo a Fouque; pedia-lhe que conservasse para ele um deposito precioso. Mas, disse consigo interrompendo-se, o gabinete negro dos correios abrira minha carta e lhe devolverao aquela que procuram... Nao, senhores. Foi comprar uma enorme Biblia numa livraria protestante, escondeu com muita habilidade a carta de Mathilde na capa, mandou embrulhar tudo, e seu pacote partiu pela diligencia, enderecado a um dos operarios de Fouque, cujo nome ninguem em Paris sabia.

Feito isso, voltou alegre e leve ao hotel de La Mole. Agora, a nos! exclamou, trancando-se no quarto e tirando o casaco:

"Como! Senhorita", escrevia a Mathilde, "e a srta. de La Mole que, pelas maos de Arsene, lacaio de seu pai, faz entregar uma carta sedutora demais a um pobre carpinteiro do Jura, sem duvida para divertir-se com sua simplicidade..." E transcrevia as frases mais claras da carta que acabava de receber.

A sua teria feito honra a prudencia diplomatica do sr. cavaleiro de Beauvoisis. Ainda eram apenas dez horas; Julien, embriagado de felicidade e do sentimento de sua forca, tao novo para um pobre-diabo, entrou na Opera italiana. Ouviu cantar seu amigo Geronimo. Jamais a musica o havia exaltado a tal ponto. Era um deus.

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