Livro Segundo — Capítulo VIII: Qual é a condecoração que distingue? O Vermelho e o Negro · Capítulo 38 de 77
Obra Menu

Livro Segundo — Capítulo VIII: Qual é a condecoração que distingue?

Livro Segundo - Capitulo VIII: Qual e a condecoracao que distingue?

Tua agua nao me refresca, disse o genio sedento. - E, no entanto, e o poco mais fresco de todo o Diar-Bekir.

PELLICO.

Um dia, Julien voltava da encantadora propriedade de Villequier, as margens do Sena, que o sr. de La Mole via com interesse porque, de todas as suas terras, era a unica que pertencera ao celebre Boniface de La Mole. Encontrou no hotel a marquesa e a filha, que chegavam de Hyeres.

Julien era agora um dandi e compreendia a arte de viver em Paris. Foi de uma frieza perfeita para com a srta. de La Mole. Pareceu nao ter conservado nenhuma lembranca dos tempos em que ela lhe pedia, tao alegremente, detalhes sobre sua maneira de cair do cavalo com graca.

A srta. de La Mole achou-o mais alto e palido. Seu talhe, seu porte nada tinham ja de provinciano; o mesmo nao se dava com sua conversa: notava-se nela ainda seriedade demais, coisa positiva demais. Apesar dessas qualidades sensatas, gracas ao seu orgulho, ele nada tinha de subalterno; sentia-se apenas que ainda considerava importantes demasiadas coisas. Mas via-se que era homem capaz de sustentar o que dizia.

- Falta-lhe leveza, mas nao espirito - disse a srta. de La Mole ao pai, gracejando com ele sobre a cruz que dera a Julien. - Meu irmao pediu-a durante dezoito meses, e e um La Mole!

- Sim, mas Julien tem o imprevisto, e isso nunca aconteceu ao La Mole de quem voce fala.

Anunciaram o sr. duque de Retz.

Mathilde sentiu-se tomada por um bocejo irresistivel; ao ve-lo, parecia-lhe reconhecer os antigos dourados e os velhos habituados do salao paterno. Fazia para si uma imagem perfeitamente enfadonha da vida que iria retomar em Paris. E, no entanto, em Hyeres, sentia saudades de Paris.

E, contudo, tenho dezenove anos! pensava ela; e a idade da felicidade, dizem todos esses tolos de lombadas douradas. Olhava oito ou dez volumes de poesias novas acumulados, durante a viagem da Provença, sobre o console do salao. Tinha a infelicidade de possuir mais espirito que os srs. de Croisenois, de Caylus, de Luz e seus outros amigos. Imaginava tudo o que eles lhe diriam sobre o belo ceu da Provença, a poesia, o meio-dia etc., etc.

Esses olhos tao belos, nos quais respiravam o tedio mais profundo e, pior ainda, o desespero de encontrar prazer, detiveram-se em Julien. Ao menos ele nao era exatamente como os outros.

- Senhor Sorel - disse ela com essa voz viva, breve, que nada tem de feminino, e que as moças da alta sociedade empregam -, senhor Sorel, o senhor vem esta noite ao baile do sr. de Retz?

- Senhorita, nao tive a honra de ser apresentado ao sr. duque. (Dir-se-ia que essas palavras e esse titulo arranhavam a boca do provinciano orgulhoso.)

- Ele encarregou meu irmao de leva-lo consigo; e, se o senhor viesse, dar-me-ia detalhes sobre a propriedade de Villequier. Trata-se de ir para la na primavera. Gostaria de saber se o castelo e habitavel e se os arredores sao tao bonitos quanto dizem. Ha tantas reputacoes usurpadas!

Julien nao respondia.

- Venha ao baile com meu irmao - acrescentou ela, num tom bastante seco.

Julien cumprimentou com respeito. Assim, mesmo no meio de um baile, devo prestar contas a todos os membros da familia; nao sou pago como homem de negocios? Seu mau humor acrescentou: Deus sabe ainda se o que eu disser a filha nao contrariara os projetos do pai, do irmao, da mae! E uma verdadeira corte de principe soberano. Seria preciso ali ser de uma nulidade perfeita e, ainda assim, nao dar a ninguem o direito de se queixar.

Como me desagrada essa moça alta! pensou ele, olhando andar a srta. de La Mole, que a mae chamara para apresenta-la a varias mulheres amigas suas. Ela exagera todas as modas; o vestido lhe cai dos ombros... esta ainda mais palida que antes da viagem... Que cabelos sem cor, de tao louros; dir-se-ia que a luz passa atraves deles!... Que altivez nessa maneira de cumprimentar, nesse olhar! Que gestos de rainha!

A srta. de La Mole acabava de chamar o irmao, no momento em que ele deixava o salao.

O conde Norbert aproximou-se de Julien:

- Meu caro Sorel - disse-lhe -, onde quer que eu o apanhe a meia-noite para o baile do sr. de Retz? Ele me encarregou expressamente de leva-lo.

- Sei muito bem a quem devo tantas bondades - respondeu Julien, curvando-se ate o chao.

Seu mau humor, nada podendo censurar no tom de polidez e mesmo de interesse com que Norbert lhe falara, passou a exercitar-se sobre a resposta que ele, Julien, dera aquela palavra amavel. Encontrava nela uma nuance de baixeza.

A noite, ao chegar ao baile, ficou impressionado com a magnificencia do hotel de Retz. O patio de entrada estava coberto por uma imensa tenda de coutil carmesim com estrelas de ouro: nada mais elegante. Sob essa tenda, o patio fora transformado num bosque de laranjeiras e loendros floridos. Como haviam tido o cuidado de enterrar suficientemente os vasos, os loendros e as laranjeiras pareciam sair da terra. O caminho percorrido pelas carruagens estava areado.

Esse conjunto pareceu extraordinario ao nosso provinciano. Ele nao fazia ideia de tamanha magnificencia; num instante, sua imaginacao comovida ficou a mil leguas do mau humor. Na carruagem, vindo ao baile, Norbert estava feliz, e ele via tudo negro; mal entraram no patio, os papeis mudaram.

Norbert era sensivel apenas a alguns detalhes que, no meio de tanta magnificencia, nao haviam podido ser cuidados. Avaliava a despesa de cada coisa e, a medida que chegava a um total elevado, Julien notou que ele se mostrava quase ciumento e se tornava mal-humorado.

Quanto a ele, chegou seduzido, admirando e quase timido de tanta emocao, ao primeiro dos saloes onde se dancava. Apertavam-se a porta do segundo, e a multidao era tao grande que lhe foi impossivel avancar. A decoracao desse segundo salao representava a Alhambra de Granada.

- E a rainha do baile, e preciso convir - dizia um jovem de bigodes, cujo ombro entrava no peito de Julien.

- A srta. Fourmont, que durante todo o inverno foi a mais bonita - respondia o vizinho -, percebe que desce ao segundo lugar; veja seu ar singular.

- Realmente, ela abre todas as velas para agradar. Veja, veja esse sorriso gracioso no momento em que figura sozinha nessa contradanca. Palavra de honra, nao tem preco.

- A srta. de La Mole parece ser senhora do prazer que lhe da seu triunfo, do qual se apercebe muito bem. Dir-se-ia que teme agradar a quem lhe fala.

- Muito bem! Eis a arte de seduzir.

Julien fazia esforcos inuteis para avistar essa mulher sedutora: sete ou oito homens mais altos que ele impediam-no de ve-la.

- Ha muita coquetterie nessa reserva tao nobre - retomou o jovem de bigodes.

- E esses grandes olhos azuis que se abaixam tao lentamente no momento em que se diria que estao a ponto de trair-se - retomou o vizinho. - Francamente, nada mais habil.

- Veja como, perto dela, a bela Fourmont parece comum - disse um terceiro.

- Esse ar de reserva quer dizer: quanta amabilidade eu mostraria para o senhor, se o senhor fosse o homem digno de mim!

- E quem pode ser digno da sublime Mathilde? - disse o primeiro. - Algum principe soberano, belo, espirituoso, bem-feito, heroi na guerra, e de vinte anos no maximo.

- O filho natural do imperador da Russia... a quem, em favor desse casamento, se daria uma soberania; ou simplesmente o conde de Thaler, com seu ar de campones vestido...

A porta se desobstruiu, Julien pode entrar.

Ja que ela passa por tao notavel aos olhos desses bonecos, vale a pena que eu a estude, pensou ele. Compreenderei qual e a perfeicao para essa gente.

Quando a procurava com os olhos, Mathilde olhou para ele. Meu dever me chama, disse Julien a si mesmo; mas em sua expressao ja nao havia senao mau humor. A curiosidade o fazia avancar com um prazer que o vestido de Mathilde, muito baixo nos ombros, aumentou depressa, a bem da verdade de uma maneira pouco lisonjeira para seu amor-proprio. Sua beleza tem juventude, pensou ele. Cinco ou seis jovens, entre os quais Julien reconheceu os que ouvira a porta, estavam entre ela e ele.

- O senhor, que esteve aqui todo o inverno - disse-lhe ela -, nao acha que este baile e o mais bonito da estacao?

Ele nao respondia.

- Este quadrille de Coulon me parece admiravel, e estas senhoras o dancam de modo perfeito.

Os jovens se voltaram para ver quem era o homem feliz de quem se queria absolutamente uma resposta. Ela nao foi encorajadora.

- Eu nao saberia ser bom juiz, senhorita; passo a vida escrevendo: e o primeiro baile dessa magnificencia que vejo.

Os jovens de bigodes ficaram escandalizados.

- O senhor e um sabio, senhor Sorel - retomaram com interesse mais marcado; - ve todos esses bailes, todas essas festas, como filosofo, como J.-J. Rousseau. Essas loucuras o espantam sem seduzi-lo.

Uma palavra acabava de apagar a imaginacao de Julien e de expulsar de seu coracao toda ilusao. Sua boca tomou a expressao de um desprezo talvez um pouco exagerado.

- J.-J. Rousseau - respondeu ele - nao e, a meus olhos, senao um tolo quando se mete a julgar a alta sociedade; nao a compreendia e levava para ela o coracao de um lacaio parvenu.

- Ele fez o Contrato Social - disse Mathilde, no tom da veneracao.

- Ao mesmo tempo que prega a republica e a queda das dignidades monarquicas, esse parvenu fica bebado de felicidade se um duque muda a direcao de seu passeio depois do jantar para acompanhar um de seus amigos.

- Ah! sim, o duque de Luxembourg, em Montmorency, acompanha um sr. Coindet do lado de Paris... - retomou a srta. de La Mole com o prazer e o abandono do primeiro gozo de pedantismo. Estava embriagada de seu saber mais ou menos como o academico que descobriu a existencia do rei Feretrius. O olho de Julien permaneceu penetrante e severo. Mathilde tivera um momento de entusiasmo; a frieza de seu partner desconcertou-a profundamente. Ficou ainda mais espantada porque era ela que costumava produzir esse efeito nos outros.

Nesse momento, o marques de Croisenois avancava com pressa para a srta. de La Mole. Ficou por um instante a tres passos dela, sem poder penetrar por causa da multidao. Olhava-a sorrindo para o obstaculo. A jovem marquesa de Rouvray estava perto dele: era prima de Mathilde. Dava o braco ao marido, que o era havia apenas quinze dias. O marques de Rouvray, tambem muito jovem, tinha todo o amor tolo que se apodera de um homem que, fazendo um casamento de conveniencia unicamente arranjado por tabeliaes, encontra uma pessoa perfeitamente bela. O sr. de Rouvray seria duque com a morte de um tio muito idoso.

Enquanto o marques de Croisenois, sem poder romper a multidao, olhava Mathilde com ar risonho, ela detinha seus grandes olhos de azul celeste nele e em seus vizinhos. O que ha de mais insipido, dizia a si mesma, que todo esse grupo! Eis Croisenois que pretende casar-se comigo; e doce, polido, tem maneiras perfeitas como o sr. de Rouvray. Sem o tedio que causam, esses senhores seriam muito amaveis. Ele tambem me seguira ao baile com esse ar limitado e satisfeito. Um ano depois do casamento, minha carruagem, meus cavalos, meus vestidos, meu castelo a vinte leguas de Paris, tudo isso sera tao bem quanto possivel, exatamente o necessario para fazer morrer de inveja uma parvenue, uma condessa de Roiville, por exemplo; e depois?...

Mathilde se entediava por antecipacao. O marques de Croisenois conseguiu aproximar-se e falava-lhe, mas ela sonhava sem escuta-lo. O rumor de suas palavras confundia-se, para ela, com o zumbido do baile. Seguia maquinalmente com os olhos Julien, que se afastara com ar respeitoso, mas orgulhoso e descontente. Viu num canto, longe da multidao circulante, o conde Altamira, condenado a morte em seu pais, que o leitor ja conhece. Sob Luis XIV, uma de suas parentes se casara com um principe de Conti; essa lembranca o protegia um pouco contra a policia da congregacao.

So vejo a condenacao a morte como aquilo que distingue um homem, pensou Mathilde; e a unica coisa que nao se compra.

Ah! e uma boa frase a que acabo de dizer a mim mesma! Que pena que nao tenha vindo de maneira a me dar honra. Mathilde tinha gosto demais para introduzir na conversa uma frase preparada de antemao, mas tinha tambem vaidade demais para nao ficar encantada consigo mesma. Um ar de felicidade substituiu em seus tracos a aparencia do tedio. O marques de Croisenois, que ainda lhe falava, julgou entrever sucesso e redobrou a facundia.

O que poderia objetar um maldoso a minha frase? disse Mathilde a si mesma. Eu responderia ao critico: um titulo de barao, de visconde, isso se compra; uma cruz, isso se da; meu irmao acaba de recebe-la, que fez ele? Um posto, isso se obtem. Dez anos de guarnicao, ou um parente ministro da guerra, e a gente e chefe de esquadrao como Norbert. Uma grande fortuna!... e ainda o que ha de mais dificil e, portanto, de mais meritorio. Eis o que e engracado! E o contrario de tudo o que dizem os livros... Pois bem! Para a fortuna, casa-se com a filha do sr. Rothschild.

Realmente, minha frase tem profundidade. A condenacao a morte ainda e a unica coisa que ninguem teve a ideia de solicitar.

- O senhor conhece o conde Altamira? - disse ela ao sr. de Croisenois.

Ela parecia voltar de tao longe, e essa pergunta tinha tao pouca relacao com tudo o que o pobre marques lhe dizia havia cinco minutos, que sua amabilidade ficou desconcertada. Era, contudo, um homem de espirito e muito reputado como tal.

Mathilde tem singularidade, pensou ele; e um inconveniente, mas ela da uma posicao social tao bela ao marido! Nao sei como faz esse marques de La Mole; e ligado ao que ha de melhor em todas as nuances, e um homem que nao pode naufragar. E, alem disso, essa singularidade de Mathilde pode passar por genio. Com alta nascenca e muita fortuna, o genio nao e ridiculo, e entao que distincao! Alias, ela tem tao bem, quando quer, essa mistura de espirito, carater e oportunidade que constitui a perfeita amabilidade... Como e dificil fazer bem duas coisas ao mesmo tempo, o marques respondia a Mathilde com ar vazio e como quem recita uma licao:

- Quem nao conhece esse pobre Altamira? - E fez-lhe a historia de sua conspiracao, ridicula, absurda.

- Muito absurda! - disse Mathilde, como falando consigo mesma -, mas ele agiu. Quero ver um homem; traga-o a mim - disse ao marques, muito chocado.

O conde Altamira era um dos admiradores mais declarados do ar altivo e quase impertinente da srta. de La Mole; ela era, segundo ele, uma das pessoas mais belas de Paris.

- Como ela seria bela num trono! - disse ele ao sr. de Croisenois, e deixou-se levar sem dificuldade.

Nao faltam pessoas no mundo que querem estabelecer que nada e de tao mau tom quanto uma conspiracao; isso cheira a jacobino. E o que ha de mais feio que o jacobino sem sucesso?

O olhar de Mathilde zombava do liberalismo de Altamira junto ao sr. de Croisenois, mas ela o escutava com prazer.

Um conspirador no baile, eis um bonito contraste, pensava ela. Achava nele, com seus bigodes negros, a fisionomia do leao quando repousa; mas logo percebeu que seu espirito tinha apenas uma atitude: a utilidade, a admiracao pela utilidade.

Exceto o que podia dar a seu pais o governo de duas Camaras, o jovem conde achava que nada era digno de sua atencao. Deixou Mathilde com prazer, a pessoa mais sedutora do baile, porque viu entrar um general peruano.

Desesperando da Europa, o pobre Altamira se via reduzido a pensar que, quando os Estados da America meridional fossem fortes e poderosos, poderiam devolver a Europa a liberdade que Mirabeau lhes enviara. Um turbilhao de jovens de bigodes aproximara-se de Mathilde. Ela percebera bem que Altamira nao estava seduzido e se sentia picada por sua partida; via o olho negro dele brilhar ao falar com o general peruano. A srta. de La Mole passeava seus olhares sobre os jovens franceses com essa seriedade profunda que nenhuma de suas rivais podia imitar. Qual deles, pensava ela, poderia fazer-se condenar a morte, mesmo supondo-lhe todas as chances favoraveis?

Esse olhar singular lisonjeava os que tinham pouco espirito, mas inquietava os outros. Temiam a explosao de alguma palavra mordaz e de dificil resposta.

Uma alta nascenca da cem qualidades cuja ausencia me ofenderia, vejo-o pelo exemplo de Julien, pensava Mathilde; mas ela estiola essas qualidades da alma que fazem condenar alguem a morte.

Nesse momento, alguem dizia perto dela:

- Esse conde Altamira e o segundo filho do principe de San Nazaro-Pimentel; foi um Pimentel que tentou salvar Conradino, decapitado em 1268. E uma das familias mais nobres de Napoles.

Eis, disse Mathilde a si mesma, o que prova lindamente minha maxima: A alta nascenca tira a forca de carater sem a qual nao se faz alguem condenar a morte! Estou, portanto, predestinada a desarrazoar esta noite. Ja que nao sou senao uma mulher como outra qualquer, pois bem, e preciso dancar. Cedeu as instancias do marques de Croisenois, que havia uma hora solicitava uma galope. Para distrair-se de seu infortunio em filosofia, Mathilde quis ser perfeitamente sedutora; o sr. de Croisenois ficou arrebatado.

Mas nem a danca, nem o desejo de agradar a um dos mais belos homens da corte, nada pode distrair Mathilde. Era impossivel ter mais sucesso. Ela era a rainha do baile, via-o, mas com frieza.

Que vida apagada vou passar com um ser como Croisenois! dizia a si mesma, quando ele a reconduzia ao lugar uma hora depois... Onde esta o prazer para mim, acrescentou tristemente, se, apos seis meses de ausencia, nao o encontro no meio de um baile que desperta a inveja de todas as mulheres de Paris? E ainda estou cercada das homenagens de uma sociedade que nao posso imaginar melhor composta. Aqui nao ha burgueses senao alguns pares e talvez um ou dois Julien. E, entretanto, acrescentava ela com tristeza crescente, que vantagens o destino nao me deu: ilustracao, fortuna, juventude! ai de mim! tudo, exceto a felicidade.

As mais duvidosas de minhas vantagens sao ainda aquelas de que me falaram a noite inteira. O espirito, acredito nele, pois evidentemente faco medo a todos. Se ousam abordar um assunto serio, ao cabo de cinco minutos de conversa chegam sem folego, como fazendo uma grande descoberta, a uma coisa que lhes repito ha uma hora. Sou bela, tenho essa vantagem pela qual madame de Stael teria sacrificado tudo, e contudo e fato que morro de tedio. Ha alguma razao para que eu me entedie menos quando tiver trocado meu nome pelo do marques de Croisenois?

Mas, meu Deus! acrescentou ela quase com vontade de chorar, nao e ele um homem perfeito? E a obra-prima da educacao deste seculo; nao se pode olha-lo sem que encontre uma coisa amavel, e mesmo espirituosa, a dizer; e bravo... Mas esse Sorel e singular, disse a si mesma, e seus olhos deixavam o ar sombrio pelo ar irritado. Avisei-o de que tinha de falar com ele, e ele nao se digna a reaparecer!

1/1
Menu

Fazer anotação