Livro Segundo — Capítulo XVI: Uma hora da manhã
Livro Segundo - Capitulo XVI: Uma hora da manha
Esse jardim era muito grande, desenhado havia poucos anos com gosto perfeito. Mas as arvores tinham figurado no famoso Pre-aux-Clercs, tao celebre no tempo de Henrique III; tinham mais de um seculo. Encontrava-se ali algo de campestre.
MASSINGER.
Ia escrever uma contraordem a Fouque quando soaram onze horas. Fez ranger com ruido a fechadura da porta de seu quarto, como se se tivesse encerrado ali. Foi observar, a passos de lobo, o que se passava em toda a casa, sobretudo nas mansardas do quarto andar, habitadas pelos domesticos. Nada havia de extraordinario. Uma das criadas de quarto da sra. de La Mole dava uma pequena reuniao; os domesticos tomavam ponche muito alegremente. Os que riem assim, pensou Julien, nao devem fazer parte da expedicao noturna; estariam mais serios.
Enfim, foi colocar-se num canto escuro do jardim. Se o plano deles e esconder-se dos domesticos da casa, farao chegar por cima dos muros do jardim os homens encarregados de surpreender-me.
Se o sr. de Croisenois trouxer algum sangue-frio a tudo isto, deve achar menos comprometedor para a jovem que quer esposar mandar surpreender-me antes do momento em que eu tenha entrado no quarto dela.
Fez um reconhecimento militar e muito exato. Trata-se de minha honra, pensou; se caio em alguma tolice, nao sera desculpa, aos meus proprios olhos, dizer: Nao pensei nisso.
O tempo estava de uma serenidade desesperadora. Por volta das onze, a lua se erguera; a meia-noite e meia iluminava em cheio a fachada do hotel voltada para o jardim.
Ela esta louca, dizia Julien consigo quando soou uma hora; ainda havia luz nas janelas do conde Norbert. Em toda a vida Julien nao tivera tanto medo; nao via senao os perigos da empresa e nao tinha nenhum entusiasmo.
Foi buscar a imensa escada, esperou cinco minutos, para dar tempo a uma contraordem, e a uma hora e cinco minutos apoiou a escada contra a janela de Mathilde. Subiu devagar, pistola na mao, espantado de nao ser atacado. Quando se aproximava da janela, ela se abriu sem ruido:
- Eis o senhor aqui - disse-lhe Mathilde com muita emocao; - sigo seus movimentos ha uma hora.
Julien estava muito embaraçado, nao sabia como conduzir-se; nao tinha amor algum. Em seu embaraço, pensou que era preciso ousar; tentou beijar Mathilde.
- Ora! - disse ela, repelindo-o.
Muito contente por ser repelido, apressou-se em lancar um olhar ao redor: a lua era tao brilhante que as sombras que formava no quarto da srta. de La Mole eram negras. Pode muito bem haver ali homens escondidos sem que eu os veja, pensou.
- O que tem no bolso lateral de seu casaco? - disse-lhe Mathilde, encantada por encontrar um assunto de conversa. Sofria estranhamente; todos os sentimentos de reserva e timidez, tao naturais a uma moça bem-nascida, haviam retomado seu imperio e a punham no suplicio.
- Tenho toda especie de armas e pistolas - respondeu Julien, nao menos contente por ter algo a dizer.
- E preciso baixar a escada - disse Mathilde.
- Ela e imensa e pode quebrar as vidracas do salao embaixo, ou do entressolo.
- Nao se devem quebrar as vidracas - retomou Mathilde, tentando em vao tomar o tom da conversa ordinaria; - o senhor poderia, parece-me, abaixar a escada por meio de uma corda amarrada ao primeiro degrau. Tenho sempre uma provisao de cordas em meu quarto.
E eis uma mulher apaixonada! pensou Julien. Ela ousa dizer que ama! Tanto sangue-frio, tanta prudencia nas precaucoes me indicam bastante que nao triunfo do sr. de Croisenois como eu acreditava tolamente, mas que simplesmente lhe sucedo. De fato, que me importa? Por acaso a amo? Triunfo do marques no sentido de que ele ficara muito irritado por ter um sucessor, e mais irritado ainda por esse sucessor ser eu. Com que altivez me olhava ontem a noite no cafe Tortoni, fingindo nao me reconhecer; com que ar mau me saudou depois, quando ja nao podia dispensar-se disso!
Julien amarrara a corda ao ultimo degrau da escada; descia-a devagar e inclinando-se muito para fora do balcao, para fazer com que nao tocasse as vidracas. Belo momento para me matar, pensou, se alguem esta escondido no quarto de Mathilde; mas um silencio profundo continuava a reinar em toda parte.
A escada tocou a terra; Julien conseguiu deita-la no canteiro de flores exoticas ao longo do muro.
- Que dira minha mae - disse Mathilde - quando vir suas belas plantas todas esmagadas!... E preciso jogar a corda - acrescentou com grande sangue-frio. - Se a vissem subindo ao balcao, seria uma circunstancia dificil de explicar.
- E como eu ir embora? - disse Julien em tom brincalhao, afetando a linguagem crioula. Uma das criadas da casa nascera em Sao Domingos.
- O senhor ira embora pela porta - disse Mathilde, arrebatada por essa ideia.
Ah! como este homem e digno de todo o meu amor! pensou ela.
Julien acabava de deixar cair a corda no jardim; Mathilde apertou-lhe o braco. Ele acreditou ser agarrado por um inimigo e voltou-se vivamente, tirando um punhal. Ela pensara ouvir abrir uma janela. Permaneceram imoveis e sem respirar. A lua os iluminava em cheio. Como o ruido nao se repetiu, nao houve mais inquietacao.
Entao o embaraço recomecou; era grande de ambos os lados. Julien certificou-se de que a porta estava fechada com todos os ferrolhos; pensou bem em olhar sob a cama, mas nao ousava: poderiam ter colocado ali um ou dois lacaios. Enfim, temeu uma censura futura de sua prudencia e olhou.
Mathilde caíra em todas as angustias da timidez mais extrema. Tinha horror de sua situacao.
- Que fez das minhas cartas? - disse ela enfim.
Que boa ocasiao de desconcertar esses senhores se estao escutando, e de evitar a batalha! pensou Julien.
- A primeira esta escondida numa grossa Biblia protestante que a diligencia de ontem a noite leva para bem longe daqui.
Falava muito distintamente ao entrar nesses detalhes, de modo a ser ouvido pelas pessoas que poderiam estar escondidas nos dois grandes armarios de mogno que nao ousara visitar.
- As outras duas estao no correio e seguem a mesma rota da primeira.
- Ah, meu Deus! Por que todas essas precaucoes? - disse Mathilde, espantada.
Por que haveria eu de mentir? pensou Julien, e confessou-lhe todas as suspeitas.
- Eis entao a causa da frieza de tuas cartas! - exclamou Mathilde com o acento da loucura mais que da ternura.
Julien nao notou essa nuance. Esse tratamento por tu fez-lhe perder a cabeca, ou pelo menos suas suspeitas se dissiparam; sentiu-se elevado aos proprios olhos, ousou apertar nos bracos aquela moça tao bela e que lhe inspirava tanto respeito. Foi repelido apenas pela metade.
Recorreu a memoria, como outrora em Besancon junto a Amanda Binet, e recitou varias das mais belas frases da Nova Heloisa.
- Tu tens um coracao de homem - responderam-lhe, sem escutar muito suas frases; - quis provar tua bravura, confesso. Tuas primeiras suspeitas e tua resolucao mostram-te ainda mais intrepido do que eu acreditava.
Mathilde fazia esforco para trata-lo por tu; estava evidentemente mais atenta a essa estranha maneira de falar que ao fundo das coisas que dizia. Esse tu despojado do tom da ternura, ao fim de um momento, nao deu nenhum prazer a Julien; ele se espantava com a ausencia da felicidade. Enfim, para senti-la, recorreu a razao. Via-se estimado por aquela jovem tao orgulhosa, que jamais concedia elogios sem restricao; com esse raciocinio chegou a uma felicidade de amor-proprio.
Nao era, e verdade, aquela voluptuosidade da alma que encontrara algumas vezes junto da sra. de Renal. Que diferenca, grande Deus! Nao havia nada de terno em seus sentimentos daquele primeiro momento. Era a mais viva felicidade de ambicao, e Julien era sobretudo ambicioso. Falou de novo das pessoas de quem suspeitava e das precaucoes que inventara. Enquanto falava, pensava nos meios de aproveitar sua vitoria.
Mathilde, ainda muito embaraçada e com ar atordoado por sua propria atitude, pareceu encantada por encontrar um assunto de conversa. Falaram dos meios de se rever. Julien gozou deliciosamente do espirito e da bravura de que fez nova prova durante essa discussao. Lidavam com pessoas muito perspicazes; o pequeno Tanbeau era certamente um espiao, mas Mathilde e ele tambem nao eram desprovidos de habilidade.
Que havia de mais facil que se encontrarem na biblioteca para combinar tudo?
- Posso aparecer, sem despertar suspeitas, em todas as partes do hotel - acrescentava Julien -, quase ate o quarto da sra. de La Mole. Era absolutamente necessario atravessa-lo para chegar ao da filha. Se Mathilde achasse melhor que ele chegasse sempre por uma escada, era com o coracao embriagado de alegria que ele se exporia a esse fraco perigo.
Ao ouvi-lo falar, Mathilde ficou chocada com aquele ar de triunfo. Ele e portanto meu senhor! disse consigo. Ja estava entregue ao remorso. Sua razao tinha horror da insigne loucura que acabava de cometer. Se pudesse, teria aniquilado a si mesma e a Julien. Quando, por instantes, a forca de sua vontade fazia calar os remorsos, sentimentos de timidez e de pudor sofredor a tornavam muito infeliz. Nao havia de modo algum previsto o estado horrivel em que se encontrava.
E preciso, contudo, que eu lhe fale, disse enfim consigo; isso esta nas conveniencias, fala-se ao amante. Entao, para cumprir um dever e com uma ternura que estava muito mais nas palavras de que se servia que no som da voz, contou as diversas resolucoes que tomara a respeito dele nos ultimos dias.
Decidira que, se ele ousasse chegar ao seu quarto com o auxilio da escada do jardineiro, como lhe fora prescrito, ela seria toda dele. Mas jamais se disseram em tom mais frio e mais polido coisas tao ternas. Ate ali, aquele encontro era gelado. Era de fazer tomar o amor por odio. Que licao de moral para uma jovem imprudente! Valeria a pena perder o futuro por tal momento?
Depois de longas incertezas, que poderiam parecer a um observador superficial o efeito do odio mais decidido, tao dificil era aos sentimentos que uma mulher deve a si mesma ceder a uma vontade tao firme, Mathilde acabou por ser para ele uma amante amavel.
Na verdade, esses transportes eram um pouco voluntarios. O amor apaixonado era muito mais um modelo que se imitava do que uma realidade.
A srta. de La Mole julgava cumprir um dever para consigo mesma e para com o amante. O pobre rapaz, dizia consigo, foi de uma bravura perfeita; deve ser feliz, ou entao sou eu que careco de carater. Mas ela teria querido resgatar ao preco de uma eternidade de infelicidade a cruel necessidade em que se encontrava.
Apesar da violencia horrivel que se impunha, foi perfeitamente senhora de suas palavras.
Nenhum arrependimento, nenhuma censura veio estragar aquela noite, que pareceu singular antes que feliz a Julien. Que diferenca, grande Deus! com sua ultima permanencia de vinte e quatro horas em Verrieres! Essas belas maneiras de Paris encontraram o segredo de estragar tudo, ate o amor, dizia consigo em sua extrema injustica.
Entregava-se a essas reflexoes em pe, dentro de um dos grandes armarios de mogno onde o haviam feito entrar aos primeiros ruidos ouvidos no apartamento vizinho, que era o da sra. de La Mole. Mathilde acompanhou a mae a missa; as mulheres deixaram o apartamento, e Julien escapou antes que elas voltassem para terminar seus trabalhos.
Montou a cavalo e foi a passo procurar os lugares mais solitarios do bosque de Meudon. Estava muito mais espantado que feliz. A felicidade que, de tempos em tempos, vinha ocupar sua alma era como a de um jovem subtenente que, depois de alguma acao espantosa, tivesse sido nomeado coronel de imediato pelo general em chefe; sentia-se levado a uma altura imensa. Tudo o que estava acima dele na vespera estava agora a seu lado ou abaixo. Pouco a pouco, a felicidade de Julien aumentou a medida que se afastava.
Se nao havia nada de terno em sua alma, e que, por estranho que possa parecer essa palavra, Mathilde, em toda a sua conduta com ele, cumprira um dever. Nao houve nada de imprevisto para ela em todos os acontecimentos daquela noite, exceto a infelicidade e a vergonha que encontrara em vez desses transportes divinos de que falam os romances.
Terei me enganado, nao terei amor por ele? disse ela consigo.