Livro Primeiro — Capítulo XV: O canto do galo O Vermelho e o Negro · Capítulo 15 de 77
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Livro Primeiro — Capítulo XV: O canto do galo

Amor em latim faz amor,

ora, portanto, do amor provém a morte,

e, antes dela, o cuidado que morde,

luto, prantos, ciladas, crimes, remorsos...

BLASÃO DE AMOR.

Se Julien tivesse tido um pouco da habilidade que se atribuía tão gratuitamente, poderia ter-se felicitado, no dia seguinte, pelo efeito produzido por sua viagem a Verrières. Sua ausência fizera esquecer seus desajeitamentos. Ainda naquele dia, esteve bastante mal-humorado; ao anoitecer, uma ideia ridícula lhe veio e ele a comunicou à senhora de Rênal com uma rara intrepidez.

Mal se sentaram no jardim, sem esperar uma escuridão suficiente, Julien aproximou a boca do ouvido da senhora de Rênal e, com o risco de comprometê-la horrivelmente, disse-lhe:

— Madame, esta noite, às duas horas, irei ao seu quarto; devo dizer-lhe uma coisa.

Julien tremia para que seu pedido não fosse concedido. Seu papel de sedutor lhe pesava tão horrivelmente que, se pudesse seguir sua inclinação, teria se retirado para o quarto por vários dias e não teria mais visto aquelas senhoras. Compreendia que, por sua conduta sábia da véspera, havia estragado todas as belas aparências do dia anterior, e realmente não sabia a que santo recorrer.

A senhora de Rênal respondeu com uma indignação real, e de modo algum exagerada, ao anúncio impertinente que Julien ousava lhe fazer. Ele julgou ver desprezo em sua curta resposta. É certo que, nessa resposta pronunciada muito baixo, as palavras ora, que horror haviam aparecido. Sob pretexto de algo a dizer às crianças, Julien foi ao quarto delas e, ao voltar, colocou-se ao lado da senhora Derville e bem longe da senhora de Rênal. Tirou assim de si toda possibilidade de lhe tomar a mão. A conversa foi séria, e Julien saiu-se muito bem, salvo alguns momentos de silêncio durante os quais quebrava a cabeça. Por que não posso inventar alguma bela manobra, dizia consigo, para forçar a senhora de Rênal a me devolver esses sinais de ternura inequívocos que me faziam acreditar, há três dias, que ela era minha?

Julien estava extremamente desconcertado pelo estado quase desesperado em que pusera seus negócios. Nada, contudo, o teria embaraçado mais que o sucesso.

Quando se separaram à meia-noite, seu pessimismo o fez acreditar que gozava do desprezo da senhora Derville e que provavelmente não estava muito melhor com a senhora de Rênal.

De péssimo humor e muito humilhado, Julien não dormiu. Estava a mil léguas da ideia de renunciar a todo fingimento, a todo projeto, e viver dia a dia com a senhora de Rênal, contentando-se como uma criança com a felicidade que cada dia trouxesse.

Cansou o cérebro inventando manobras sábias; um instante depois, achava-as absurdas; em uma palavra, estava muito infeliz quando soaram duas horas no relógio do castelo.

Esse ruído o despertou como o canto do galo despertou são Pedro. Viu-se no momento do acontecimento mais penoso. Não pensara mais em sua proposta impertinente desde o momento em que a fizera; ela fora tão mal recebida!

Eu lhe disse que iria ao quarto dela às duas horas, disse consigo, levantando-se; posso ser inexperiente e grosseiro, como convém ao filho de um camponês, a senhora Derville me deu bastante a entender; mas ao menos não serei fraco.

Julien tinha razão em felicitar-se por sua coragem; jamais impusera a si mesmo um constrangimento mais penoso. Ao abrir a porta, tremia tanto que os joelhos lhe fugiam, e foi obrigado a apoiar-se na parede.

Estava sem sapatos. Foi escutar à porta do senhor de Rênal, cujo ronco pôde distinguir. Ficou desolado. Não havia, portanto, mais pretexto para não ir ao quarto dela. Mas, grande Deus, que faria ali? Não tinha nenhum plano e, ainda que tivesse, sentia-se tão perturbado que teria sido incapaz de segui-lo.

Enfim, sofrendo mil vezes mais do que se caminhasse para a morte, entrou no pequeno corredor que levava ao quarto da senhora de Rênal. Abriu a porta com mão trêmula e fazendo um barulho terrível.

Havia luz; uma lamparina ardia sob a chaminé; não esperava essa nova desgraça. Ao vê-lo entrar, a senhora de Rênal lançou-se vivamente para fora do leito.

— Infeliz! — exclamou.

Houve um pouco de desordem. Julien esqueceu seus vãos projetos e voltou ao seu papel natural: não agradar a uma mulher tão encantadora lhe pareceu a maior das desgraças. Só respondeu às censuras dela lançando-se a seus pés, beijando-lhe os joelhos. Como ela lhe falava com extrema dureza, ele se desfez em lágrimas.

Algumas horas depois, quando Julien saiu do quarto da senhora de Rênal, poder-se-ia dizer, em estilo de romance, que já não tinha nada a desejar. De fato, devia ao amor que inspirara e à impressão imprevista que encantos sedutores haviam produzido sobre ele uma vitória à qual não o teria conduzido toda a sua habilidade tão desajeitada.

Mas, nos momentos mais doces, vítima de um orgulho estranho, ainda pretendeu representar o papel de um homem acostumado a subjugar mulheres: fez esforços incríveis de atenção para estragar o que tinha de amável. Em vez de estar atento aos transportes que fazia nascer e aos remorsos que lhes realçavam a vivacidade, a ideia do dever nunca deixou de estar presente a seus olhos. Temia um remorso terrível e um ridículo eterno, caso se afastasse do modelo ideal que se propunha seguir. Em uma palavra, aquilo que fazia de Julien um ser superior foi precisamente o que o impediu de saborear a felicidade que se colocava sob seus passos. É uma moça de dezesseis anos, que tem cores encantadoras e que, para ir ao baile, tem a loucura de pôr ruge.

Mortalmente assustada pela aparição de Julien, a senhora de Rênal logo se viu entregue às mais cruéis alarmas. As lágrimas e o desespero de Julien a perturbavam vivamente.

Mesmo quando já não teve nada a lhe recusar, repelia Julien para longe de si com uma indignação real e, em seguida, lançava-se em seus braços. Nenhum projeto aparecia em toda essa conduta. Julgava-se condenada sem remissão e procurava esconder de si a visão do inferno, cobrindo Julien das carícias mais vivas. Em uma palavra, nada teria faltado à felicidade de nosso herói, nem mesmo uma sensibilidade ardente na mulher que acabava de conquistar, se ele soubesse gozá-la. A partida de Julien não fez cessar os transportes que a agitavam apesar dela, nem seus combates com os remorsos que a dilaceravam.

Meu Deus! Ser feliz, ser amado, é só isso? Tal foi o primeiro pensamento de Julien ao voltar ao quarto. Estava naquele estado de espanto e de inquieta perturbação em que cai a alma que acaba de obter aquilo que há muito desejou. Está habituada a desejar, já não encontra o que desejar e, contudo, ainda não tem lembranças. Como o soldado que volta da parada, Julien ocupou-se atentamente em repassar todos os detalhes de sua conduta. Faltou-me alguma coisa do que devo a mim mesmo? Desempenhei bem meu papel?

E que papel? O de um homem acostumado a ser brilhante com as mulheres.

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