Livro Segundo — Capítulo IV: O Hotel de La Mole O Vermelho e o Negro · Capítulo 34 de 77
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Livro Segundo — Capítulo IV: O Hotel de La Mole

Que faz ele aqui? Gostara disto? Pensaria agradar aqui?

Ronsard.

Se tudo parecia estranho a Julien no nobre salao do hotel de La Mole, esse jovem palido e vestido de preto parecia, por sua vez, muito singular as pessoas que se dignavam nota-lo. A sra. de La Mole propos ao marido envia-lo em missao nos dias em que haveria certos personagens para jantar.

- Tenho vontade de levar a experiencia ate o fim - respondeu o marques. - O abade Pirard pretende que erramos ao quebrar o amor-proprio das pessoas que admitimos junto de nos. So nos apoiamos naquilo que resiste, etc. Este aqui so e inconveniente por sua figura desconhecida; de resto, e um surdo-mudo.

Para que eu possa reconhecer-me nisto, e preciso, disse Julien consigo, que eu escreva os nomes e uma palavra sobre o carater dos personagens que vejo chegar a este salao.

Colocou em primeira linha cinco ou seis amigos da casa que lhe faziam a corte por via das duvidas, crendo-o protegido por um capricho do marques. Eram pobres-diabos, mais ou menos chatos; mas, e preciso dize-lo em louvor dessa classe de homens, tal como hoje se encontra nos saloes da aristocracia, nao eram chatos igualmente para todos. Um deles teria se deixado maltratar pelo marques, mas se revoltaria contra uma palavra dura dirigida a ele pela sra. de La Mole.

Havia orgulho demais e tedio demais no fundo do carater dos donos da casa; estavam acostumados demais a ultrajar para se desentediar, para que pudessem esperar verdadeiros amigos. Mas, exceto nos dias de chuva e nos momentos de tedio feroz, que eram raros, eram sempre encontrados em perfeita polidez.

Se os cinco ou seis complacentes que testemunhavam uma amizade tao paternal a Julien desertassem o hotel de La Mole, a marquesa ficaria exposta a grandes momentos de solidao; e, aos olhos das mulheres dessa categoria, a solidao e horrivel: e o emblema da desgraca.

O marques era perfeito para sua mulher; velava para que o salao dela estivesse suficientemente guarnecido; nao de pares, pois achava seus novos colegas nao bastante nobres para virem a sua casa como amigos, nem bastante divertidos para serem admitidos como subalternos.

So muito mais tarde Julien penetrou esses segredos. A politica dirigente, que faz a conversa das casas burguesas, so e abordada na casa da classe do marques nos instantes de apuro.

Tal e ainda, mesmo neste seculo entediado, o imperio da necessidade de se divertir: mesmo nos dias de jantar, mal o marques deixava o salao, todos fugiam. Contanto que nao se zombasse nem de Deus, nem dos padres, nem do rei, nem das pessoas em posicao, nem dos artistas protegidos pela corte, nem de tudo o que esta estabelecido; contanto que nao se dissesse bem nem de Beranger, nem dos jornais de oposicao, nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem de tudo o que se permite um pouco de franqueza; contanto, sobretudo, que nunca se falasse de politica, podia-se raciocinar livremente sobre tudo.

Nao ha cem mil escudos de renda nem cordao azul que possam lutar contra semelhante carta de salao. A menor ideia viva parecia uma grosseria. Apesar do bom-tom, da polidez perfeita, da vontade de ser agradavel, o tedio se lia em todas as frontes. Os jovens que vinham cumprir deveres, receosos de falar de algo que fizesse suspeitar uma ideia ou de trair alguma leitura proibida, calavam-se depois de algumas palavras muito elegantes sobre Rossini e o tempo que fazia.

Julien observou que a conversa era ordinariamente mantida viva por dois viscondes e cinco baroes que o sr. de La Mole conhecera na emigracao. Esses senhores gozavam de seis a oito mil libras de renda; quatro eram pela Quotidienne, e tres pela Gazette de France. Um deles tinha todos os dias a contar alguma anedota do Castelo, onde a palavra admiravel nao era poupada. Julien notou que ele tinha cinco cruzes; os outros, em geral, tinham apenas tres.

Em compensacao, viam-se na antecamara dez lacaios de libré, e durante toda a noite havia sorvetes ou cha a cada quarto de hora; e, por volta da meia-noite, uma especie de ceia com vinho de Champagne.

Era essa a razao que, por vezes, fazia Julien ficar ate o fim; de resto, quase nao compreendia que se pudesse escutar seriamente a conversa ordinaria daquele salao tao magnificamente dourado. Algumas vezes olhava os interlocutores para ver se eles mesmos nao zombavam do que diziam. Meu sr. de Maistre, que sei de cor, disse cem vezes melhor, pensava ele, e ainda assim e bem entediante.

Julien nao era o unico a perceber a asfixia moral. Uns se consolavam tomando muitos sorvetes; outros pelo prazer de dizer durante todo o resto da noite: saio do hotel de La Mole, onde soube que a Russia, etc...

Julien soube, por um dos complacentes, que nao havia ainda seis meses a sra. de La Mole recompensara uma assiduidade de mais de vinte anos fazendo prefeito o pobre barao Le Bourguignon, subprefeito desde a Restauracao.

Esse grande acontecimento retemperara o zelo de todos esses senhores; pouco antes, teriam se irritado por pouquissima coisa; agora ja nao se irritavam por nada. Raramente a falta de consideracao era direta; mas Julien ja surpreendera a mesa dois ou tres pequenos dialogos breves, entre o marques e sua mulher, crueis para os que estavam colocados perto deles. Esses nobres personagens nao dissimulavam o desprezo sincero por tudo que nao vinha de gente que subia nas carruagens do rei. Julien observou que a palavra cruzada era a unica que dava a seus rostos a expressao de uma profunda seriedade misturada de respeito. O respeito ordinario tinha sempre uma nuanca de complacencia.

No meio dessa magnificencia e desse tedio, Julien so se interessava pelo sr. de La Mole; ouviu-o com prazer protestar, um dia, que nada tivera a ver com a promocao do pobre Le Bourguignon. Era uma atencao para a marquesa; Julien sabia a verdade pelo abade Pirard.

Certa manha em que o abade trabalhava com Julien na biblioteca do marques, no eterno processo de Frilair:

- Senhor - disse Julien de repente -, jantar todos os dias com a sra. marquesa e um dos meus deveres, ou e uma bondade que se tem para comigo?

- E uma honra insigne! - retomou o abade, escandalizado. - Jamais o sr. N..., o academico, que faz corte assidua ha quinze anos, pode obte-la para seu sobrinho, o sr. Tanbeau.

- Para mim, senhor, e a parte mais penosa do meu emprego. Entediava-me menos no seminario. Vejo bocejar as vezes ate a srta. de La Mole, que, no entanto, deve estar acostumada a amabilidade dos amigos da casa. Tenho medo de adormecer. Por favor, obtenha-me permissao para ir jantar por quarenta soldos em alguma estalagem obscura.

O abade, verdadeiro arrivista, era muito sensivel a honra de jantar com um grande senhor. Enquanto se esforcava por fazer Julien compreender esse sentimento, um ruido ligeiro os fez virar a cabeca. Julien viu a srta. de La Mole, que escutava. Ele corou. Ela viera buscar um livro e ouvira tudo; tomou certa consideracao por Julien. Esse ai nao nasceu de joelhos, pensou ela, como esse velho abade. Deus! como e feio.

No jantar, Julien nao ousava olhar a srta. de La Mole, mas ela teve a bondade de lhe dirigir a palavra. Naquele dia esperava-se muita gente; ela o instou a ficar. As jovens de Paris nao gostam muito das pessoas de certa idade, sobretudo quando vestidas sem cuidado. Julien nao precisara de muita sagacidade para perceber que os colegas do sr. Le Bourguignon, que ficavam no salao, tinham a honra de ser o objeto ordinario das zombarias da srta. de La Mole. Naquele dia, houvesse ou nao afetação de sua parte, ela foi cruel para os entediantes.

A srta. de La Mole era o centro de um pequeno grupo que se formava quase todas as noites atras da imensa bergere da marquesa. Ali se encontravam o marques de Croisenois, o conde de Caylus, o visconde de Luz e dois ou tres outros jovens oficiais, amigos de Norbert ou de sua irma. Esses senhores sentavam-se num grande sofa azul. Na extremidade do sofa oposta a que ocupava a brilhante Mathilde, Julien ficava silenciosamente numa pequena cadeira de palha bastante baixa. Esse posto modesto era invejado por todos os complacentes; Norbert nele mantinha decentemente o jovem secretario do pai, dirigindo-lhe a palavra ou nomeando-o uma ou duas vezes por noite. Naquele dia, a srta. de La Mole perguntou-lhe qual poderia ser a altura da montanha sobre a qual esta situada a cidadela de Besancon. Julien jamais pode dizer se essa montanha era mais ou menos alta que Montmartre. Muitas vezes ria de todo coracao do que se dizia naquele pequeno grupo; mas se sentia incapaz de inventar algo semelhante. Era como uma lingua estrangeira que ele compreendesse e admirasse, mas que nao pudesse falar.

Os amigos de Mathilde estavam, naquele dia, em hostilidade continua com as pessoas que chegavam ao magnifico salao. Os amigos da casa tiveram primeiro a preferencia, por serem mais conhecidos. Pode-se julgar se Julien estava atento; tudo o interessava, tanto o fundo das coisas como a maneira de gracejar delas.

- Ah! eis o sr. Descoulis - disse Mathilde -, ja nao usa peruca; sera que quer chegar a prefeitura pelo genio? Ostenta essa fronte calva que diz cheia de altos pensamentos.

- E um homem que conhece toda a terra - disse o marques de Croisenois; - vem tambem a casa de meu tio, o cardeal. E capaz de cultivar uma mentira junto a cada um de seus amigos durante anos seguidos, e tem duzentos ou trezentos amigos. Sabe alimentar a amizade, e esse o seu talento. Tal como o ve, ja esta enlameado a porta de um de seus amigos desde as sete horas da manha, no inverno.

Ele se desavem de tempos em tempos, e escreve sete ou oito cartas para a desavenca. Depois se reconcilia, e tem sete ou oito cartas para os transportes de amizade. Mas e no derramamento franco e sincero do homem honesto que nada guarda no coracao que mais brilha. Essa manobra aparece quando tem algum servico a pedir. Um dos grandes vigarios de meu tio e admiravel quando conta a vida do sr. Descoulis desde a Restauracao. Eu o trarei a senhorita.

- Bah! Eu nao acreditaria nesses comentarios; e ciume de oficio entre gente pequena - disse o conde de Caylus.

- O sr. Descoulis tera um nome na historia - retomou o marques -, fez a Restauracao com o abade de Pradt e os srs. de Talleyrand e Pozzo di Borgo.

- Esse homem manejou milhoes - disse Norbert -, e nao concebo que venha aqui embolsar os epigramas de meu pai, muitas vezes abominaveis. Quantas vezes traiu seus amigos, meu caro Descoulis? gritava-lhe ele outro dia de uma ponta a outra da mesa.

- Mas e verdade que ele traiu? - disse a srta. de La Mole. - Quem nao traiu?

- Como! - disse o conde de Caylus a Norbert. - Voces tem aqui o sr. Sainclair, esse famoso liberal, e que diabo vem ele fazer aqui? Preciso aproximar-me dele, falar-lhe, fazer com que me fale; dizem que tem tanto espirito.

- Mas como tua mae vai recebe-lo? - disse o sr. de Croisenois. - Ele tem ideias tao extravagantes, tao generosas, tao independentes...

- Vejam - disse a srta. de La Mole -, ali esta o homem independente, que sauda ate o chao o sr. Descoulis e lhe agarra a mao. Quase pensei que fosse leva-la aos labios.

- E preciso que Descoulis esteja melhor com o poder do que pensavamos - retomou o sr. de Croisenois.

- Sainclair vem aqui para entrar na Academia - disse Norbert. - Vejam como sauda o barao L..., Croisenois.

- Seria menos baixo ajoelhar-se - retomou o sr. de Luz.

- Meu caro Sorel - disse Norbert -, o senhor que tem espirito, mas que chega de suas montanhas, trate de nunca saudar como faz esse grande poeta, ainda que fosse Deus Pai.

- Ah! eis o homem de espirito por excelencia, o sr. barao Baton - disse a srta. de La Mole, imitando um pouco a voz do lacaio que acabava de anuncia-lo.

- Creio que ate seus criados zombam dele. Que nome, barao Baton! - disse o sr. de Caylus.

- Que importa o nome? - dizia-nos ele outro dia - retomou Mathilde. - Imaginem o duque de Bouillon anunciado pela primeira vez: falta ao publico, em relacao a mim, apenas um pouco de habito...

Julien deixou as proximidades do sofa. Ainda pouco sensivel as encantadoras finezas de uma zombaria leve, para rir de uma piada ele pretendia que ela fosse fundada em razao. Via, nas palavras desses jovens, apenas o tom de depreciacao geral, e ficava chocado. Seu pudor provinciano ou ingles chegava a ver inveja nisso, em que certamente se enganava.

O conde Norbert, dizia consigo, a quem vi fazer tres rascunhos para uma carta de vinte linhas a seu coronel, seria muito feliz se tivesse escrito na vida uma pagina como as do sr. Sainclair.

Passando despercebido por causa de sua pouca importancia, Julien aproximou-se sucessivamente de varios grupos; seguia de longe o barao Baton e queria ouvi-lo. Esse homem de tanto espirito parecia inquieto, e Julien so o viu recompor-se um pouco quando encontrou tres ou quatro frases picantes. Pareceu a Julien que esse genero de espirito precisava de espaco.

O barao nao podia dizer ditos; precisava de ao menos quatro frases de seis linhas cada uma para ser brilhante.

- Esse homem disserta, nao conversa - dizia alguem atras de Julien.

Ele se voltou e corou de prazer quando ouviu nomearem o conde Chalvet. E o homem mais fino do seculo. Julien encontrara muitas vezes seu nome no Memorial de Santa Helena e nos trechos de historia ditados por Napoleao. O conde Chalvet era breve na fala; seus tracos eram relampagos, justos, vivos, por vezes profundos. Se falava de um assunto, logo se via a discussao dar um passo. Levava fatos a ela; era um prazer ouvi-lo. De resto, em politica, era cinico descarado.

- Sou independente, eu - dizia a um senhor que trazia tres placas, e de quem aparentemente zombava. - Por que querem que eu tenha hoje a mesma opiniao de seis semanas atras? Nesse caso, minha opiniao seria minha tirana.

Quatro jovens graves que o cercavam fizeram cara feia; esses senhores nao gostam do genero brincalhao. O conde viu que fora longe demais. Felizmente, percebeu o honesto sr. Balland, tartufo de honestidade. O conde pos-se a falar com ele: aproximaram-se, compreendeu-se que o pobre Balland ia ser imolado. A forca de moral e moralidade, embora horrivelmente feio, e depois de primeiros passos no mundo dificeis de contar, o sr. Balland casara-se com uma mulher muito rica, que morreu; depois, com uma segunda mulher muito rica, que nao se ve no mundo. Goza com toda humildade de sessenta mil libras de renda, e tambem tem seus aduladores. O conde Chalvet falou-lhe de tudo isso e sem piedade. Logo houve em torno deles um circulo de trinta pessoas. Todos sorriam, ate os jovens graves, a esperanca do seculo.

Por que ele vem a casa do sr. de La Mole, onde evidentemente e o alvo? pensou Julien. Aproximou-se do abade Pirard para perguntar-lhe.

O sr. Balland escapuliu.

- Bom! - disse Norbert. - Eis um dos espioes de meu pai que se foi; so resta o pequeno coxo Napier.

Sera essa a palavra do enigma? pensou Julien. Mas, nesse caso, por que o marques recebe o sr. Balland?

O severo abade Pirard fazia cara feia num canto do salao, ouvindo os lacaios anunciarem.

- Isto e entao uma caverna - dizia ele como Basilio -, so vejo chegar gente tarada.

E que o severo abade nao conhecia o que pertence a alta sociedade. Mas, por seus amigos jansenistas, tinha nocoes muito exatas sobre esses homens que so chegam aos saloes por sua extrema finura a servico de todos os partidos, ou por sua fortuna escandalosa. Durante alguns minutos, naquela noite, respondeu de abundancia de coracao as perguntas apressadas de Julien; depois parou bruscamente, desolado por ter sempre mal a dizer de todo mundo, e imputando isso a si mesmo como pecado. Bilioso, jansenista, e crendo no dever da caridade crista, sua vida no mundo era um combate.

- Que cara tem esse abade Pirard! - dizia a srta. de La Mole, quando Julien se aproximava do sofa.

Julien sentiu-se irritado, mas ela tinha razao. O sr. Pirard era, sem contestacao, o homem mais honesto do salao, mas seu rosto avermelhado, agitado pelos remorsos de sua consciencia, tornava-o hediondo naquele momento. Creiam depois disso nas fisionomias, pensou Julien; e justamente quando a delicadeza do abade Pirard lhe censura algum pequeno pecado que ele tem ar atroz; enquanto no rosto desse Napier, espiao conhecido de todos, le-se uma felicidade pura e tranquila. O abade Pirard fizera, entretanto, grandes concessoes a seu partido: tomara um criado, vestia-se muito bem.

Julien notou algo de singular no salao: era um movimento de todos os olhos para a porta, e um meio-silencio subito. O lacaio anunciava o famoso barao de Tolly, sobre o qual as eleicoes acabavam de fixar todos os olhares. Julien adiantou-se e o viu muito bem. O barao presidia um colegio eleitoral; teve a ideia luminosa de escamotear os pequenos quadrados de papel que traziam os votos de um dos partidos. Mas, para que houvesse compensacao, substituia-os a medida por outros pequenos pedacos de papel que traziam um nome que lhe era agradavel. Essa manobra decisiva foi percebida por alguns eleitores, que se apressaram em cumprimentar o barao de Tolly. O bom homem ainda estava palido dessa grande aventura. Espiritos mal formados haviam pronunciado a palavra gales. O sr. de La Mole recebeu-o friamente. O pobre barao escapou.

- Se nos deixa tao depressa, e para ir a casa do sr. Comte - disse o conde Chalvet, e todos riram.

No meio de alguns grandes senhores mudos e dos intrigantes, a maioria tarada, mas todos homens de espirito, que naquela noite abordavam sucessivamente o salao do sr. de La Mole (falava-se dele para um ministerio), o pequeno Tanbeau fazia suas primeiras armas. Se ainda nao tinha a fineza das percepcoes, compensava-a, como se vera, pela energia das palavras.

- Por que nao condenar esse homem a dez anos de prisao? - dizia ele no momento em que Julien se aproximou de seu grupo. - E no fundo de uma masmorra que se deve confinar os repteis; deve-se faze-los morrer a sombra, do contrario seu veneno se exalta e se torna mais perigoso. De que serve condena-lo a mil escudos de multa? E pobre, seja, tanto melhor; seu partido pagara por ele. Era preciso quinhentos francos de multa e dez anos de masmorra.

Bom Deus! quem e entao o monstro de quem se fala? pensou Julien, que admirava o tom veemente e os gestos sacudidos do colega. A pequena figura magra e contraida do sobrinho favorito do academico estava hedionda naquele momento. Julien soube logo que se tratava do maior poeta da epoca.

- Ah, monstro! - exclamou Julien a meia voz, e lagrimas generosas vieram molhar-lhe os olhos. - Ah, pequeno miseravel! - pensou. - Hei de te pagar essa frase.

Eis, no entanto, pensou, os filhos perdidos do partido de que o marques e um dos chefes! E esse homem ilustre que ele calunia, quantas cruzes, quantas sinecuras nao teria acumulado se tivesse se vendido, nao digo ao ministerio rasteiro do sr. de Nerval, mas a algum desses ministros razoavelmente honestos que vimos se sucederem?

O abade Pirard fez sinal de longe a Julien; o sr. de La Mole acabava de lhe dizer uma palavra. Mas quando Julien, que naquele momento escutava, os olhos baixos, os gemidos de um bispo, ficou enfim livre e pode aproximar-se de seu amigo, encontrou-o monopolizado por aquele abominavel pequeno Tanbeau. Esse pequeno monstro o execrava como fonte do favor de Julien, e vinha fazer-lhe a corte.

Quando a morte nos livrara dessa velha podridao? Era nesses termos, de uma energia biblica, que o pequeno homem de letras falava naquele momento do respeitavel lorde Holland. Seu merito era saber muito bem a biografia dos homens vivos, e acabava de fazer uma revista rapida de todos os homens que podiam aspirar a alguma influencia sob o reinado do novo rei da Inglaterra.

O abade Pirard passou a um salao vizinho; Julien o seguiu:

- O marques nao gosta de escrevinhadores, eu o previno; e sua unica antipatia. Saiba latim, grego se puder, a historia dos egipcios, dos persas, etc., ele o honrara e o protegera como sabio. Mas nao va escrever uma pagina em frances, e sobretudo sobre materias graves e acima de sua posicao no mundo; ele o chamaria de escrevinhador e tomaria aversao ao senhor. Como, morando no hotel de um grande senhor, o senhor nao conhece a palavra do duque de Castries sobre d'Alembert e Rousseau: Isso quer raciocinar sobre tudo, e nao tem mil escudos de renda!

Tudo se sabe, pensou Julien, aqui como no seminario! Escrevera oito ou dez paginas bastante enfaticas: era uma especie de elogio historico do velho cirurgiao-major que, dizia ele, o havia feito homem. E esse pequeno caderno, disse consigo Julien, esteve sempre fechado a chave! Subiu ao quarto, queimou o manuscrito e voltou ao salao. Os patifes brilhantes o haviam deixado; restavam apenas os homens com placas.

Em torno da mesa que os criados acabavam de trazer ja servida encontravam-se sete ou oito mulheres muito nobres, muito devotas, muito afetadas, de trinta a trinta e cinco anos. A brilhante marechala de Fervaques entrou desculpando-se pela hora tardia. Era mais de meia-noite; foi tomar lugar junto da marquesa. Julien ficou profundamente comovido; ela tinha os olhos e o olhar da sra. de Renal.

O grupo da srta. de La Mole ainda estava povoado. Ela se ocupava com seus amigos em zombar do infeliz conde de Thaler. Era o filho unico daquele famoso judeu celebre pelas riquezas que adquirira emprestando dinheiro aos reis para fazer guerra aos povos. O judeu acabava de morrer, deixando ao filho cem mil escudos de renda por mes e um nome, ai de mim! conhecido demais. Essa posicao singular teria exigido simplicidade de carater ou muita forca de vontade.

Infelizmente, o conde nao passava de um bom rapaz guarnecido de toda sorte de pretensoes que despertavam sucessivamente a voz de seus aduladores.

O sr. de Caylus pretendia que lhe haviam dado a vontade de pedir em casamento a srta. de La Mole (a quem o marques de Croisenois, que devia ser duque com cem mil libras de renda, fazia a corte).

- Ah! nao o acusem de ter vontade - dizia piedosamente Norbert.

O que talvez mais faltasse a esse pobre conde de Thaler era a faculdade de querer. Por esse lado de seu carater, teria sido digno de ser rei. Tomando sem cessar conselho de todo mundo, nao tinha coragem de seguir nenhum parecer ate o fim.

Sua fisionomia por si so bastaria, dizia a srta. de La Mole, para inspirar-lhe uma alegria eterna. Era uma mistura singular de inquietacao e desapontamento; mas de tempos em tempos distinguiam-se muito bem nela baforadas de importancia e daquele tom cortante que deve ter o homem mais rico da Franca, sobretudo quando e bastante bem-feito de pessoa e ainda nao tem trinta e seis anos. E timidamente insolente, dizia o sr. de Croisenois. O conde de Caylus, Norbert e dois ou tres jovens de bigodes troçaram dele quanto quiseram, sem que percebesse, e por fim o mandaram embora quando soou uma hora:

- Sao seus famosos cavalos arabes que o esperam a porta com o tempo que faz? - disse-lhe Norbert.

- Nao, e uma nova parelha bem menos cara - respondeu o sr. de Thaler. - O cavalo da esquerda me custou cinco mil francos, e o da direita nao vale senao cem luis; mas peco que acreditem que so o atrelam de noite. E que seu trote e perfeitamente semelhante ao do outro.

A reflexao de Norbert fez pensar ao conde que era decente, para um homem como ele, ter a paixao dos cavalos, e que nao convinha deixar molhar os seus. Partiu, e esses senhores sairam um instante depois zombando dele.

Assim, pensava Julien ao ouvi-los rir na escada, foi-me dado ver o outro extremo de minha situacao! Nao tenho vinte luis de renda, e encontrei-me lado a lado com um homem que tem vinte luis de renda por hora, e zombam dele... Tal visao cura a inveja.

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