Livro Segundo — Capítulo V: A sensibilidade e uma grande dama devota O Vermelho e o Negro · Capítulo 35 de 77
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Livro Segundo — Capítulo V: A sensibilidade e uma grande dama devota

Uma ideia um pouco viva ali tem ar de grosseria, tanto se esta acostumado a palavras sem relevo. Infeliz de quem inventa ao falar!

Faublas.

Depois de varios meses de provas, eis onde estava Julien no dia em que o intendente da casa lhe entregou o terceiro trimestre de seus vencimentos. O sr. de La Mole o encarregara de acompanhar a administracao de suas terras na Bretanha e na Normandia. Julien fazia ali viagens frequentes. Estava encarregado, como chefe, da correspondencia relativa ao famoso processo com o abade de Frilair; o sr. Pirard o instruira.

Sobre as breves notas que o marques rabiscava a margem dos papeis de toda especie que lhe eram dirigidos, Julien compunha cartas, quase todas assinadas depois.

Na escola de teologia, seus professores queixavam-se de sua pouca assiduidade, mas nem por isso deixavam de considera-lo um de seus alunos mais distinguidos. Esses diferentes trabalhos, tomados com todo o ardor da ambicao sofredora, logo haviam tirado de Julien as cores frescas que trouxera da provincia. Sua palidez era um merito aos olhos dos jovens seminaristas seus camaradas; achava-os muito menos maus, muito menos de joelhos diante de um escudo, que os de Besancon; eles o julgavam atacado do peito. O marques lhe dera um cavalo.

Temendo ser encontrado em seus passeios a cavalo, Julien lhes dissera que esse exercicio lhe fora prescrito pelos medicos. O abade Pirard o levara a varias casas jansenistas. Julien ficou espantado: a ideia da religiao estava invencivelmente ligada, em seu espirito, a de hipocrisia e esperanca de ganhar dinheiro. Admirou aqueles homens piedosos e severos que nao pensavam no orcamento. Varios jansenistas o haviam tomado em amizade e lhe davam conselhos. Um mundo novo se abria diante dele. Conheceu entre os jansenistas um conde Altamira, que tinha quase seis pes de altura, liberal condenado a morte em seu pais, e devoto. Esse estranho contraste, a devocao e o amor da liberdade, o impressionou.

Julien estava frio com o jovem conde. Norbert achara que ele respondia com vivacidade demais as brincadeiras de alguns de seus amigos. Julien, tendo faltado uma ou duas vezes as conveniencias, prescrevera a si mesmo nunca dirigir a palavra a srta. Mathilde. Eram sempre perfeitamente polidos com ele no hotel de La Mole, mas ele se sentia decaido. Seu bom senso de provincia explicava esse efeito pelo proverbio vulgar: tudo bonito enquanto e novo.

Talvez estivesse um pouco mais perspicaz que nos primeiros dias, ou talvez o primeiro encantamento produzido pela urbanidade parisiense tivesse passado.

Assim que deixava de trabalhar, era presa de um tedio mortal; e o efeito ressecante da polidez admiravel, mas tao medida, tao perfeitamente graduada segundo as posicoes, que distingue a alta sociedade. Um coracao um pouco sensivel ve o artificio.

Sem duvida, pode-se censurar a provincia por um tom comum ou pouco polido. Mas as pessoas se apaixonam um pouco ao responder. Jamais no hotel de La Mole o amor-proprio de Julien era ferido; mas muitas vezes, ao fim do dia, ao pegar sua vela na antecamara, sentia vontade de chorar. Na provincia, um garcom de cafe se interessa pelo senhor se lhe acontece algum acidente ao entrar em seu cafe. Mas, se esse acidente oferece algo desagradavel para o amor-proprio, ao lamentar-se ele repetira dez vezes a palavra que o tortura. Em Paris, tem-se a atencao de se esconder para rir, mas o senhor e sempre um estrangeiro.

Passamos em silencio uma multidao de pequenas aventuras que teriam dado ridiculos a Julien, se ele nao estivesse, por assim dizer, abaixo do ridiculo. Uma sensibilidade louca o fazia cometer milhares de desajeitamentos. Todos os seus prazeres eram de precaucao: atirava com pistola todos os dias, era um dos bons alunos dos mais famosos mestres de armas. Assim que podia dispor de um instante, em vez de emprega-lo na leitura, como outrora, corria ao picadeiro e pedia os cavalos mais viciosos. Nos passeios com o mestre do picadeiro, era quase regularmente jogado ao chao.

O marques o achava comodo por causa de seu trabalho obstinado, de seu silencio, de sua inteligencia, e pouco a pouco lhe confiou o andamento de todos os negocios um pouco dificeis de desembaracar. Nos momentos em que sua alta ambicao lhe deixava algum repouso, o marques fazia negocios com sagacidade; em condicoes de saber noticias, tinha sorte na Bolsa. Comprava casas, bosques; mas irritava-se facilmente. Dava centenas de luis e litigava por centenas de francos. Os homens ricos de coracao alto procuram nos negocios divertimento, e nao resultados. O marques precisava de um chefe de estado-maior que pusesse uma ordem clara e facil de apreender em todos os seus negocios de dinheiro.

A sra. de La Mole, embora de carater tao medido, zombava as vezes de Julien. O imprevisto produzido pela sensibilidade e o horror das grandes damas; e o antipoda das conveniencias. Duas ou tres vezes o marques tomou seu partido: Se ele e ridiculo em seu salao, triunfa em seu gabinete. Julien, por sua vez, julgou captar o segredo da marquesa. Ela se dignava interessar-se por tudo assim que se anunciava o barao de La Joumate. Era um ser frio, de fisionomia impassivel. Era pequeno, magro, feio, muito bem vestido, passava a vida no Castelo e, em geral, nao dizia nada sobre nada. Tal era sua maneira de pensar. A sra. de La Mole teria sido apaixonadamente feliz pela primeira vez em sua vida se pudesse fazer dele o marido de sua filha.

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