Livro Segundo — Capítulo X: A rainha Margarida O Vermelho e o Negro · Capítulo 40 de 77
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Livro Segundo — Capítulo X: A rainha Margarida

Livro Segundo - Capitulo X: A rainha Margarida

Amor! em que loucura nao consegues fazer-nos encontrar prazer?

Carta de uma Religiosa Portuguesa.

Julien releu suas cartas. Quando se ouviu o sino do jantar: Como devo ter sido ridiculo aos olhos dessa boneca parisiense! disse consigo; que loucura dizer-lhe realmente aquilo em que eu pensava! Mas talvez nao fosse uma loucura tao grande. A verdade, nessa ocasiao, era digna de mim.

Por que tambem vir interrogar-me sobre coisas intimas? Essa pergunta e indiscreta da parte dela. Faltou-lhe uso. Meus pensamentos sobre Danton nao fazem parte do servico pelo qual seu pai me paga.

Ao chegar a sala de jantar, Julien foi distraido de seu mau humor pelo grande luto da srta. de La Mole, que o impressionou tanto mais porque nenhuma outra pessoa da familia estava de preto.

Depois do jantar, viu-se inteiramente livre do acesso de entusiasmo que o havia obsediado durante todo o dia. Por felicidade, o academico que sabia latim estava naquele jantar. Eis o homem que menos zombara de mim, disse Julien a si mesmo, se, como presumo, minha pergunta sobre o luto da srta. de La Mole for uma gafe.

Mathilde olhava-o com uma expressao singular. Eis bem a coquetterie das mulheres deste pais, tal como a sra. de Renal me havia pintado, disse Julien a si mesmo. Nao fui amavel com ela esta manha, nao cedi a fantasia que tinha de conversar. Aumento de preco aos seus olhos. Sem duvida, o diabo nada perde nisso. Mais tarde, sua altivez desdenhosa sabera muito bem vingar-se. Estou tornando-a pior. Que diferenca com o que perdi! Que natural encantador! Que ingenuidade! Eu conhecia seus pensamentos antes dela, via-os nascer; nao tinha por antagonista, em seu coracao, senao o medo da morte dos filhos; era uma afeicao razoavel e natural, amavel mesmo para mim, que sofria com ela. Fui um tolo. As ideias que eu fazia de Paris impediram-me de apreciar aquela mulher sublime.

Que diferenca, grande Deus! E que encontro aqui? Vaidade seca e altiva, todas as nuancas do amor-proprio, e nada mais.

Levantavam-se da mesa. Nao deixemos que tomem meu academico, disse Julien consigo. Aproximou-se dele quando passavam ao jardim, tomou um ar doce e submisso, e partilhou sua furia contra o sucesso de Hernani.

- Se ainda estivessemos no tempo das cartas de cachet!... - disse ele.

- Entao ele nao teria ousado! - exclamou o academico com um gesto a Talma.

A proposito de uma flor, Julien citou algumas palavras das Georgicas de Virgilio e achou que nada se igualava aos versos do abade Delille. Em suma, adulou o academico de todas as maneiras. Depois disso, com o ar mais indiferente:

- Suponho - disse-lhe - que a srta. de La Mole herdou de algum tio por quem traz luto.

- Como! O senhor e da casa - disse o academico, parando de repente - e nao conhece a loucura dela? De fato, e estranho que a mae lhe permita tais coisas; mas, entre nos, nao e precisamente pela forca de carater que se brilha nesta casa. A srta. Mathilde tem isso por todos eles e os conduz. Hoje e 30 de abril! - E o academico parou, olhando Julien com ar fino. Julien sorriu com o ar mais espirituoso que pode.

Que relacao pode haver entre conduzir toda uma casa, usar um vestido preto e o dia 30 de abril? dizia consigo. E preciso que eu seja ainda mais desajeitado do que pensava.

- Confessar-lhe-ei... - disse ao academico, e seus olhos continuavam a interrogar.

- Demos uma volta pelo jardim - disse o academico, entreveendo com arrebatamento a ocasiao de fazer uma longa narrativa elegante.

- Como! E possivel que o senhor nao saiba o que aconteceu em 30 de abril de 1574?

- E onde? - disse Julien, espantado.

- Na praca de Greve.

Julien estava tao espantado que essa palavra nao o esclareceu. A curiosidade, a espera de um interesse tragico, tao de acordo com seu carater, davam-lhe esses olhos brilhantes que um narrador tanto gosta de ver em quem escuta. O academico, encantado por encontrar um ouvido virgem, contou longamente a Julien como, em 30 de abril de 1574, o rapaz mais bonito de seu seculo, Boniface de La Mole, e Annibal de Coconasso, fidalgo piemontes, seu amigo, tinham tido a cabeca cortada na praca de Greve. La Mole era o amante adorado da rainha Margarida de Navarra.

- E note - acrescentou o academico - que a srta. de La Mole se chama Mathilde-Marguerite. La Mole era ao mesmo tempo o favorito do duque de Alencon e o amigo intimo do rei de Navarra, depois Henrique IV, marido de sua amante. No dia de mardi gras daquele ano de 1574, a corte estava em Saint-Germain com o pobre rei Carlos IX, que ia morrendo. La Mole quis raptar os principes seus amigos, que a rainha Catarina de Medicis retinha como prisioneiros na corte. Fez avancar duzentos cavalos sob os muros de Saint-Germain; o duque de Alencon teve medo, e La Mole foi entregue ao carrasco.

Mas o que toca a srta. Mathilde, o que ela mesma me confessou ha sete ou oito anos, quando tinha doze, pois e uma cabeca, uma cabeca!... E o academico ergueu os olhos ao ceu. O que a impressionou nessa catastrofe politica foi que a rainha Margarida de Navarra, escondida numa casa da praca de Greve, ousou mandar pedir ao carrasco a cabeca de seu amante. E, na noite seguinte, a meia-noite, tomou essa cabeca em sua carruagem e foi enterra-la ela mesma numa capela situada ao pe da colina de Montmartre.

- E possivel? - exclamou Julien, tocado.

- A srta. Mathilde despreza seu irmao porque, como o senhor ve, ele nao pensa de modo algum em toda essa historia antiga e nao toma luto em 30 de abril. E desde esse famoso suplicio, e para lembrar a amizade intima de La Mole por Coconasso, o qual Coconasso, como italiano que era, se chamava Annibal, que todos os homens desta familia trazem esse nome. E - acrescentou o academico, baixando a voz - esse Coconasso foi, segundo o proprio Carlos IX, um dos mais crueis assassinos de 24 de agosto de 1572... Mas como e possivel, meu caro Sorel, que o senhor ignore essas coisas, o senhor, comensal desta casa?

- Eis entao por que, duas vezes ao jantar, a srta. de La Mole chamou o irmao de Annibal. Pensei ter ouvido mal.

- Era uma censura. E estranho que a marquesa tolere semelhantes loucuras... O marido dessa moça alta vera belas coisas!

Essa palavra foi seguida de cinco ou seis frases satiricas. A alegria e a intimidade que brilhavam nos olhos do academico chocaram Julien. Eis-nos dois domesticos ocupados em maldizer nossos senhores, pensou ele. Mas nada deve espantar-me da parte desse homem de academia.

Um dia, Julien o surpreendera de joelhos diante da marquesa de La Mole; pedia-lhe uma receita de tabaco para um sobrinho da provincia. A noite, uma pequena criada da srta. de La Mole, que fazia a corte a Julien como outrora Elisa, deu-lhe esta ideia: o luto de sua senhora nao era tomado para atrair os olhares. Essa bizarrice prendia-se ao fundo de seu carater. Ela amava realmente esse La Mole, amante amado da rainha mais espirituosa de seu seculo, e que morreu por ter querido devolver a liberdade a seus amigos. E que amigos! O primeiro principe do sangue e Henrique IV.

Acostumado ao natural perfeito que brilhava em toda a conduta da sra. de Renal, Julien nao via senao afetacao em todas as mulheres de Paris; e, por pouco que estivesse disposto a tristeza, nada encontrava para lhes dizer. A srta. de La Mole foi excecao.

Comecava a nao mais tomar por secura de coracao o genero de beleza que nasce da nobreza do porte. Teve longas conversas com a srta. de La Mole, que, durante os belos dias da primavera, passeava com ele no jardim, ao longo das janelas abertas do salao. Ela lhe disse um dia que lia a historia de d'Aubigne e Brantome. Singular leitura, pensou Julien; e a marquesa nao lhe permite ler os romances de Walter Scott!

Um dia ela lhe contou, com esses olhos brilhantes de prazer que provam a sinceridade da admiracao, o traço de uma jovem mulher do reinado de Henrique III que acabava de ler nas Memorias de l'Etoile: encontrando o marido infiel, ela o apunhalou.

O amor-proprio de Julien estava lisonjeado. Uma pessoa cercada de tantos respeitos e que, segundo o academico, conduzia toda a casa, dignava-se falar-lhe com um ar que quase podia parecer amizade.

Eu me enganara, pensou logo Julien; isto nao e familiaridade, sou apenas um confidente de tragedia, e a necessidade de falar. Passo por sabio nesta familia. Vou ler Brantome, d'Aubigne, l'Etoile. Poderei contestar algumas das anedotas de que me fala a srta. de La Mole. Quero sair desse papel de confidente passivo.

Pouco a pouco, suas conversas com aquela jovem, de porte tao imponente e ao mesmo tempo tao facil, tornaram-se mais interessantes. Ele esquecia seu triste papel de plebeu revoltado. Achava-a instruida e ate sensata. Suas opinioes no jardim eram bem diferentes das que confessava no salao. As vezes tinha com ele um entusiasmo e uma franqueza que formavam contraste perfeito com sua maneira de ser habitual, tao altiva e fria.

- As guerras da Liga sao os tempos heroicos da Franca - dizia-lhe um dia, com olhos faiscantes de genio e entusiasmo. - Entao cada um lutava para obter certa coisa que desejava, para fazer triunfar seu partido, e nao para ganhar baixamente uma cruz, como no tempo de seu imperador. Convenha que havia menos egoismo e pequenez. Amo esse seculo.

- E Boniface de La Mole foi seu heroi - disse-lhe ele.

- Ao menos foi amado como talvez seja doce se-lo. Que mulher atualmente viva nao teria horror de tocar a cabeca de seu amante decapitado?

A sra. de La Mole chamou a filha. A hipocrisia, para ser util, deve esconder-se; e Julien, como se ve, fizera a srta. de La Mole uma meia-confidencia sobre sua admiracao por Napoleao.

Eis a imensa vantagem que eles tem sobre nos, disse Julien consigo, ficando sozinho no jardim. A historia de seus antepassados os eleva acima dos sentimentos vulgares, e nao precisam sempre pensar na subsistencia! Que miseria! acrescentava com amargura; sou indigno de raciocinar sobre esses grandes interesses. Vejo-os mal, sem duvida. Minha vida nao passa de uma serie de hipocrisias, porque nao tenho mil francos de renda para comprar pao.

- Em que sonha ai, senhor? - disse-lhe Mathilde, que voltava correndo.

Havia intimidade nessa pergunta, e ela voltava correndo, ofegante, para estar com ele. Julien estava cansado de desprezar-se. Por orgulho, disse francamente seu pensamento. Corou muito ao falar de sua pobreza a uma pessoa tao rica. Procurou expressar bem, por seu tom orgulhoso, que nao pedia nada. Jamais parecera tao bonito a Mathilde; ela encontrou nele uma expressao de sensibilidade e franqueza que muitas vezes lhe faltava.

Menos de um mes depois, Julien passeava pensativo no jardim do hotel de La Mole, mas seu rosto ja nao tinha a dureza e a altivez filosofica que lhe imprimia o sentimento continuo de sua inferioridade. Acabava de reconduzir ate a porta do salao a srta. de La Mole, que pretendia ter machucado o pe correndo com o irmao.

Ela se apoiou em meu braco de uma maneira bem singular! dizia Julien a si mesmo. Sou um presuncoso, ou sera verdade que ela tem gosto por mim? Escuta-me com ar tao doce, mesmo quando lhe confesso todos os sofrimentos do meu orgulho! Ela, que tem tanta altivez com todo o mundo! Ficariam muito espantados no salao se lhe vissem essa fisionomia. Muito certamente esse ar doce e bom ela nao tem com ninguem.

Julien procurava nao exagerar para si essa singular amizade. Comparava-a ele mesmo a um comercio armado. A cada dia, ao se reencontrarem, antes de retomar o tom quase intimo da vespera, perguntavam-se quase: seremos hoje amigos ou inimigos? Nas primeiras frases trocadas, o fundo das coisas ja nao era nada. De ambos os lados, atentava-se apenas a forma. Julien compreendera que deixar-se ofender impunemente uma so vez por aquela moça tao altiva era perder tudo. Se devo brigar, nao e melhor que seja logo de entrada, defendendo os justos direitos de meu orgulho, do que repelindo as marcas de desprezo que logo seguiriam ao menor abandono do que devo a minha dignidade pessoal?

Varias vezes, em dias de mau humor, Mathilde tentou tomar com ele o tom de uma grande dama; punha rara finura nessas tentativas, mas Julien as repelia rudemente.

Um dia, interrompeu-a bruscamente:

- A srta. de La Mole tem alguma ordem a dar ao secretario de seu pai? - disse-lhe. - Ele deve escutar suas ordens e executa-las com respeito; mas, quanto ao resto, nao tem a menor palavra a lhe dirigir. Nao e pago para comunicar-lhe seus pensamentos.

Essa maneira de ser e as duvidas singulares de Julien fizeram desaparecer o tedio que encontrara durante os primeiros meses naquele salao tao magnifico, onde se tinha medo de tudo e onde nao era conveniente brincar com nada.

Seria engracado se ela me amasse! Ame-me ou nao, continuava Julien, tenho por confidente intima uma moça de espirito, diante da qual vejo tremer toda a casa e, mais que todos os outros, o marques de Croisenois. Esse jovem tao polido, tao doce, tao bravo, e que reune todas as vantagens de nascimento e fortuna das quais uma so deixaria meu coracao tao a vontade! Ele esta loucamente apaixonado por ela, isto e, tanto quanto um parisiense pode estar apaixonado; deve casar-se com ela. Quantas cartas o sr. de La Mole me fez escrever aos dois tabeliaes para arranjar o contrato! E eu, que de manha me vejo tao subalterno, a pena na mao, duas horas depois, aqui no jardim, triunfo desse jovem tao amavel; pois, afinal, as preferencias sao gritantes, diretas. Talvez tambem ela odeie nele um futuro marido. Tem altivez suficiente para isso. E entao as bondades que tem por mim eu as obtenho a titulo de confidente subalterno!

Mas nao; ou sou louco, ou ela me faz a corte. Quanto mais me mostro frio e respeitoso com ela, mais me procura. Isso poderia ser um partido tomado, uma afetacao; mas vejo seus olhos se animarem quando apareco de improviso. As mulheres de Paris sabem fingir a esse ponto? Que me importa! Tenho a aparencia a meu favor; gozemos as aparencias. Meu Deus, como ela e bela! Como me agradam seus grandes olhos azuis, vistos de perto, olhando-me como fazem tantas vezes! Que diferenca desta primavera para a do ano passado, quando eu vivia infeliz, sustentando-me a forca de carater no meio daqueles trezentos hipocritas maus e sujos! Eu era quase tao mau quanto eles.

Nos dias de desconfianca: Essa moça zomba de mim, pensava Julien. Esta de acordo com o irmao para mistificar-me. Mas ela parece desprezar tanto a falta de energia desse irmao! Ele e bravo, e nada mais, diz-me ela. E ainda assim bravo diante da espada dos espanhois. Em Paris tudo lhe da medo, ve por toda parte o perigo do ridiculo. Nao tem um pensamento que ouse afastar-se da moda. Sou sempre eu que sou obrigado a defende-lo. Uma moça de dezenove anos! Nessa idade pode-se ser fiel a cada instante do dia a hipocrisia que se prescreveu?

Por outro lado, quando a srta. de La Mole fixa em mim seus grandes olhos azuis com certa expressao singular, o conde Norbert sempre se afasta. Isto me e suspeito; nao deveria indignar-se por sua irma distinguir um domestico da casa? Pois ouvi o duque de Chaulnes falar assim de mim. A essa lembranca, a colera substituia qualquer outro sentimento. Sera amor pela velha linguagem nesse duque maniaco?

Pois bem, ela e bonita! continuava Julien, com olhares de tigre. Eu a terei, irei embora em seguida, e ai de quem me perturbar na fuga!

Essa ideia tornou-se o unico assunto de Julien; ja nao podia pensar em outra coisa. Seus dias passavam como horas.

A cada instante, procurando ocupar-se de algum negocio serio, seu pensamento se perdia num devaneio profundo, e ele despertava um quarto de hora depois, com o coracao palpitante de ambicao, a cabeca perturbada e sonhando esta ideia: Ela me ama?

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