Livro Segundo — Capítulo XXV: O ministério da virtude O Vermelho e o Negro · Capítulo 55 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XXV: O ministério da virtude

Livro Segundo - Capitulo XXV: O ministerio da virtude

Mas se tomo esse prazer com tanta prudencia e circunspecao, ja nao sera prazer para mim.

LOPE DE VEGA.

Mal regressara a Paris e, ao sair do gabinete do marques de La Mole, que pareceu muito desconcertado com os despachos que lhe apresentavam, nosso heroi correu a casa do conde Altamira. A vantagem de estar condenado a morte, esse belo estrangeiro reunia muita gravidade e a felicidade de ser devoto; esses dois meritos, e, mais que tudo, a alta nascenca do conde, convinham perfeitamente a senhora de Fervaques, que o via muito.

Julien confessou-lhe gravemente que estava muito apaixonado por ela.

- E a virtude mais pura e mais alta, respondeu Altamira, apenas um pouco jesuitica e enfatica. Ha dias em que compreendo cada uma das palavras de que se serve, mas nao compreendo a frase inteira. Muitas vezes ela me da a ideia de que nao sei frances tao bem quanto dizem. Esse conhecimento fara pronunciar seu nome; dara peso ao senhor no mundo. Mas vamos a casa de Bustos, disse o conde Altamira, que era um espirito de ordem; ele fez a corte a senhora marechala.

Don Diego Bustos mandou explicar longamente o caso, sem dizer nada, como um advogado em seu gabinete. Tinha um grosso rosto de monge, com bigodes negros, e gravidade sem par; de resto, bom carbonario.

- Compreendo, disse enfim a Julien. A marechala de Fervaques teve amantes, ou nao os teve? O senhor tem assim alguma esperanca de sucesso? Eis a questao. Isto e dizer-lhe que, de minha parte, fracassei. Agora que ja nao estou ferido, faco este raciocinio: muitas vezes ela tem mau humor e, como logo lhe contarei, nao e pouco vingativa.

Nao encontro nela esse temperamento bilioso que e o do genio e lança sobre todas as acoes como que um verniz de paixao. E, ao contrario, ao modo de ser fleumatico e tranquilo dos holandeses que ela deve sua rara beleza e suas cores tao frescas.

Julien se impacientava com a lentidao e o fleuma inabalavel do espanhol; de tempos em tempos, apesar de si, escapavam-lhe alguns monossilabos.

- Quer escutar-me? disse-lhe gravemente don Diego Bustos.

- Perdoe a furia francese; sou todo ouvidos, disse Julien.

- A marechala de Fervaques e, pois, muito entregue ao odio; persegue impiedosamente pessoas que nunca viu, advogados, pobres-diabos de homens de letras que fizeram cancoes como Colle. O senhor sabe?

Tenho a mania

De amar Maria.

etc.

E Julien teve de suportar a citacao inteira. O espanhol estava bem contente de cantar em frances.

Essa divina cancao nunca foi ouvida com mais impaciencia. Quando terminou:

- A marechala, disse don Diego Bustos, fez destituir o autor desta cancao:

Um dia o amor na taberna...

Julien tremeu que ele quisesse canta-la. Contentou-se em analisa-la. Realmente era impia e pouco decente.

- Quando a marechala se irritou contra essa cancao, disse don Diego, observei-lhe que uma mulher de sua posicao nao devia ler todas as tolices que se publicam. Por maiores que sejam os progressos da piedade e da gravidade, havera sempre na Franca uma literatura de taberna. Quando a senhora de Fervaques fez tirar do autor, pobre-diabo em meio soldo, um cargo de mil e oitocentos francos: Tome cuidado, disse-lhe eu, a senhora atacou esse rimador com suas armas; ele pode responder-lhe com suas rimas: fara uma cancao sobre a virtude. Sabe, senhor, o que a marechala me respondeu? - Pelo interesse do Senhor, toda Paris me veria marchar ao martirio; seria um espetaculo novo na Franca. O povo aprenderia a respeitar a qualidade. Seria o mais belo dia de minha vida. Jamais seus olhos foram mais belos.

- E ela os tem soberbos, exclamou Julien.

- Vejo que esta apaixonado... Assim, retomou gravemente don Diego Bustos, ela nao tem a constituicao biliosa que leva a vinganca. Se gosta de prejudicar, contudo, e porque e infeliz; suspeito ali uma infelicidade interior. Nao seria uma devota cansada de seu oficio?

O espanhol olhou-o em silencio durante um grande minuto.

- Eis toda a questao, acrescentou gravemente, e e dai que o senhor pode tirar alguma esperanca. Pensei muito nisso durante os dois anos em que me apresentei como seu humildissimo servidor. Todo o seu futuro, senhor que esta apaixonado, depende deste grande problema: e uma devota cansada de seu oficio e ma porque e infeliz?

- Ou entao, disse Altamira, saindo enfim de seu profundo silencio, seria aquilo que eu te disse vinte vezes? simplesmente vaidade francesa; e a lembranca de seu pai, o famoso comerciante de panos, que faz a infelicidade desse carater naturalmente sombrio e seco. Haveria apenas uma felicidade para ela: morar em Toledo e ser atormentada por um confessor que, a cada dia, lhe mostrasse o inferno inteiramente aberto.

Quando Julien ia saindo:

- Altamira me informa que o senhor e dos nossos, disse-lhe don Diego, sempre mais grave. Um dia nos ajudara a reconquistar nossa liberdade; assim quero ajuda-lo neste pequeno divertimento. E bom que conheca o estilo da marechala; eis quatro cartas de sua mao.

- Vou copia-las, exclamou Julien, e as trarei de volta.

- E jamais ninguem sabera por seu intermedio uma palavra do que dissemos?

- Jamais, por minha honra! exclamou Julien.

- Assim Deus o ajude! acrescentou o espanhol, e reconduziu silenciosamente Altamira e Julien ate a escada.

Essa cena alegrou um pouco nosso heroi; esteve a ponto de sorrir. E eis o devoto Altamira, dizia consigo, ajudando-me numa empresa de adulterio!

Durante toda a grave conversa de don Diego Bustos, Julien estivera atento as horas que soava o relogio do hotel d'Aligre.

A hora do jantar se aproximava; ia portanto rever Mathilde! Voltou para casa e vestiu-se com muito cuidado.

Primeira tolice, disse consigo ao descer a escada; e preciso seguir ao pe da letra a ordenanca do principe.

Subiu de novo ao quarto e vestiu um traje de viagem o mais simples possivel.

Agora, pensou, trata-se dos olhares. Eram apenas cinco e meia, e jantava-se as seis. Teve a ideia de descer ao salao, que encontrou solitario. Ao ver o sofa azul, precipitou-se de joelhos e beijou o lugar onde Mathilde apoiava o braco; derramou lagrimas, suas faces tornaram-se ardentes. E preciso gastar esta sensibilidade tola, disse consigo com colera; ela me trairia. Pegou um jornal para ter uma atitude e passou tres ou quatro vezes do salao ao jardim.

So tremendo, e bem escondido por um grande carvalho, ousou erguer os olhos ate a janela da srta. de La Mole. Estava hermeticamente fechada; esteve a ponto de cair e ficou longo tempo apoiado contra o carvalho; depois, com passo vacilante, foi rever a escada do jardineiro.

O elo, outrora forcado por ele em circunstancias ai! tao diferentes, nao fora consertado. Levado por um movimento de loucura, Julien apertou-o contra os labios.

Depois de errar muito tempo do salao ao jardim, Julien se viu horrivelmente fatigado; foi um primeiro sucesso que sentiu vivamente. Meus olhares estarao apagados e nao me trairao! Pouco a pouco os convidados chegaram ao salao; nunca a porta se abriu sem lancar uma perturbacao mortal no coracao de Julien.

Sentaram-se a mesa. Enfim apareceu a srta. de La Mole, sempre fiel ao costume de fazer-se esperar. Ela enrubesceu muito ao ver Julien; nao lhe haviam dito de sua chegada. Segundo a recomendacao do principe Korasoff, Julien olhou-lhe as maos; tremiam. Ele proprio perturbado alem de toda expressao por essa descoberta, teve a felicidade de parecer apenas cansado.

O sr. de La Mole elogiou-o. A marquesa dirigiu-lhe a palavra um instante depois e lhe fez cumprimento sobre o ar de fadiga. Julien dizia consigo a cada instante: Nao devo olhar demais a srta. de La Mole, mas meus olhares tambem nao devem fugir dela. E preciso parecer o que eu era realmente oito dias antes de minha infelicidade... Teve motivo para ficar satisfeito com o sucesso e permaneceu no salao. Atento pela primeira vez para com a dona da casa, fez todos os esforcos para fazer falar os homens de sua sociedade e manter viva a conversa.

Sua polidez foi recompensada; por volta das oito horas, anunciaram a senhora marechala de Fervaques. Julien escapou e logo reapareceu, vestido com o maior cuidado. A senhora de La Mole ficou-lhe infinitamente grata por essa marca de respeito e quis testemunhar sua satisfacao falando de sua viagem a senhora de Fervaques. Julien se estabeleceu perto da marechala, de modo que seus olhos nao fossem percebidos por Mathilde. Colocado assim, segundo todas as regras da arte, a senhora de Fervaques foi para ele objeto da admiracao mais assombrada. Era por uma tirada sobre esse sentimento que comecava a primeira das cinquenta e tres cartas que o principe Korasoff lhe dera de presente.

A marechala anunciou que ia ao Opera-Buffa. Julien correu para la; encontrou o cavaleiro de Beauvoisis, que o levou a um camarote dos senhores gentil-homens da camara, justamente ao lado do camarote da senhora de Fervaques. Julien a olhou constantemente. E preciso, disse consigo ao voltar ao hotel, que eu mantenha um diario de cerco; caso contrario, esquecerei meus ataques. Forcou-se a escrever duas ou tres paginas sobre esse assunto entediante e conseguiu assim, coisa admiravel, quase nao pensar na srta. de La Mole.

Mathilde quase o esquecera durante sua viagem. Afinal, e apenas um ser comum, pensava; seu nome sempre me lembrara a maior mancha de minha vida. E preciso voltar de boa-fe as ideias vulgares de sabedoria e honra; uma mulher tem tudo a perder quando as esquece. Mostrou-se disposta a permitir enfim a conclusao do arranjo com o marques de Croisenois, preparado havia tanto tempo. Ele estava louco de alegria; ficaria muito espantado se lhe dissessem que havia resignacao no fundo dessa maneira de sentir de Mathilde, que o tornava tao orgulhoso.

Todas as ideias da srta. de La Mole mudaram ao ver Julien. Na verdade, eis meu marido, disse consigo; se volto de boa-fe as ideias de sabedoria, e evidentemente com ele que devo casar.

Esperava importunidades, ares de infelicidade da parte de Julien; preparava suas respostas, pois sem duvida, ao sair do jantar, ele tentaria dirigir-lhe algumas palavras. Longe disso, ele permaneceu firme no salao; seus olhares nem sequer se voltaram para o jardim. Deus sabe com que pena! E melhor ter logo essa explicacao, disse a srta. de La Mole; foi sozinha ao jardim; Julien nao apareceu. Mathilde veio passear perto das portas-janelas do salao; viu-o muito ocupado em descrever a senhora de Fervaques os velhos castelos em ruinas que coroam as colinas das margens do Reno e lhes dao tanta fisionomia. Comecava a nao se sair mal da frase sentimental e pitoresca que se chama espirito em certos saloes.

O principe Korasoff teria ficado muito orgulhoso se estivesse em Paris: essa noite fora exatamente o que ele havia predito.

Teria aprovado a conduta que Julien manteve nos dias seguintes.

Uma intriga entre os membros do governo oculto ia dispor de alguns cordoes azuis; a senhora marechala de Fervaques exigia que seu tio-avo fosse cavaleiro da ordem. O marques de La Mole tinha a mesma pretensao para o sogro; reuniram seus esforcos, e a marechala vinha quase todos os dias ao hotel de La Mole. Foi por ela que Julien soube que o marques ia ser ministro: oferecia a Camarilha um plano muito engenhoso para aniquilar a Carta, sem comoção, em tres anos.

Julien podia esperar um bispado, se o sr. de La Mole chegasse ao ministerio; mas, a seus olhos, todos esses grandes interesses estavam como que cobertos por um veu. Sua imaginacao so os percebia vagamente, por assim dizer ao longe. A horrivel infelicidade que fazia dele um maniaco lhe mostrava todos os interesses da vida em sua maneira de ser com a srta. de La Mole. Calculava que, depois de cinco ou seis anos de cuidados, conseguiria fazer-se amar por ela de novo.

Essa cabeca tao fria havia, como se ve, caido em estado de completa desrazao. De todas as qualidades que outrora o distinguiram, restava-lhe apenas um pouco de firmeza. Materialmente fiel ao plano de conduta ditado pelo principe Korasoff, todas as noites colocava-se bastante perto da poltrona da senhora de Fervaques, mas era-lhe impossivel encontrar uma palavra para dizer.

O esforco que se impunha para parecer curado aos olhos de Mathilde absorvia todas as forcas de sua alma; ficava junto da marechala como um ser apenas animado; seus proprios olhos, como na extrema dor fisica, haviam perdido todo o brilho.

Como a maneira de ver da senhora de La Mole nunca era senao uma contraprova das opinioes daquele marido que podia faze-la duquesa, havia alguns dias ela elevava as nuvens o merito de Julien.

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