Livro Segundo — Capítulo XLIII O Vermelho e o Negro · Capítulo 73 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XLIII

Livro Segundo - Capitulo XLIII

Uma hora depois, como dormia profundamente, foi despertado por lagrimas que sentia correr sobre sua mao. Ah! e ainda Mathilde, pensou meio desperto. Ela vem, fiel a teoria, atacar minha resolucao pelos sentimentos ternos. Entediado com a perspectiva dessa nova cena no genero patetico, nao abriu os olhos. Os versos de Belfegor fugindo da mulher lhe voltaram ao pensamento.

Ouviu um suspiro singular; abriu os olhos: era a sra. de Renal.

- Ah! torno a ve-la antes de morrer; sera uma ilusao? exclamou, lancando-se a seus pes.

Mas perdao, senhora, nao sou senao um assassino a seus olhos, disse no mesmo instante, voltando a si.

- Senhor... venho conjura-lo a apelar; sei que nao quer... Os soluços a sufocavam; ela nao podia falar.

- Digne-se perdoar-me.

- Se quer que eu o perdoe, disse ela levantando-se e lancando-se em seus bracos, apele imediatamente de sua sentenca de morte.

Julien a cobria de beijos.

- Vira me ver todos os dias durante estes dois meses?

- Eu lhe juro. Todos os dias, a menos que meu marido me proiba.

- Assino! exclamou Julien. Como! voce me perdoa! e possivel!

Apertava-a nos bracos; estava louco. Ela soltou um pequeno grito.

- Nao e nada, disse-lhe; voce me fez mal.

- Em seu ombro! exclamou Julien, desfazendo-se em lagrimas. Afastou-se um pouco e cobriu-lhe a mao de beijos de chama. Quem me teria dito isso, da ultima vez que a vi, em seu quarto em Verrieres?...

- Quem me teria dito entao que eu escreveria ao sr. de La Mole aquela carta infame?...

- Saiba que sempre a amei, que nunca amei senao a senhora.

- Sera bem possivel! exclamou a sra. de Renal, por sua vez arrebatada.

Apoiou-se em Julien, que estava de joelhos, e por muito tempo choraram em silencio.

Em nenhuma epoca de sua vida Julien encontrara momento semelhante.

Muito tempo depois, quando puderam falar:

- E essa jovem sra. Michelet, disse a sra. de Renal, ou antes essa senhorita de La Mole, pois comeco na verdade a acreditar nesse estranho romance.

- Ele so e verdadeiro em aparencia, respondeu Julien. E minha mulher, mas nao e minha amante...

Interrompendo-se cem vezes um ao outro, conseguiram com grande dificuldade contar o que ignoravam. A carta escrita ao sr. de La Mole fora composta pelo jovem padre que dirigia a consciencia da sra. de Renal, e depois copiada por ela.

- Que horror a religiao me fez cometer! dizia-lhe ela; e ainda abrandei as passagens mais horriveis dessa carta...

Os transportes e a felicidade de Julien lhe provavam o quanto ele a perdoava. Jamais estivera tao louco de amor.

- Creio-me, entretanto, piedosa, dizia-lhe a sra. de Renal na continuacao da conversa. Creio sinceramente em Deus, creio igualmente, e ate isto me e provado, que o crime que cometo e horrivel; e desde que o vejo, mesmo depois de voce ter disparado dois tiros de pistola contra mim...

E aqui, apesar dela, Julien a cobriu de beijos.

- Deixe-me, continuou ela; quero raciocinar com voce, para nao esquecer... Desde que o vejo, todos os deveres desaparecem; nao sou mais que amor por voce, ou antes, a palavra amor e fraca demais. Sinto por voce o que deveria sentir unicamente por Deus: uma mistura de respeito, amor, obediencia... Na verdade, nao sei o que voce me inspira. Se me dissesse que desse uma facada no carcereiro, o crime estaria cometido antes que eu tivesse pensado nele. Explique-me isso muito claramente antes que eu o deixe; quero ver claro em meu coracao, pois daqui a dois meses nos separaremos... A proposito, nos separaremos? disse-lhe sorrindo.

- Retiro minha palavra, exclamou Julien levantando-se; nao apelo da sentenca de morte se, por veneno, faca, pistola, carvao ou por qualquer outro meio, voce procurar dar fim ou obstaculo a sua vida.

A fisionomia da sra. de Renal mudou de repente; a mais viva ternura deu lugar a um devaneio profundo.

- E se morressemos agora mesmo? disse-lhe enfim.

- Quem sabe o que se encontra na outra vida? respondeu Julien; talvez tormentos, talvez nada. Nao podemos passar dois meses juntos de maneira deliciosa? Dois meses sao muitos dias. Jamais terei sido tao feliz.

- Jamais tera sido tao feliz!

- Jamais, repetiu Julien arrebatado, e falo com voce como falo comigo mesmo. Deus me preserve de exagerar.

- Falar assim e mandar em mim, disse ela com um sorriso timido e melancolico.

- Pois bem! voce jura, pelo amor que tem por mim, nao atentar contra sua vida por nenhum meio direto nem indireto... pense, acrescentou, que e preciso viver por meu filho, que Mathilde abandonara aos lacaios assim que for marquesa de Croisenois.

- Juro, retomou ela friamente; mas quero levar sua apelacao escrita e assinada por sua mao. Irei eu mesma a casa do senhor procurador-geral.

- Cuidado, voce se compromete.

- Depois do passo de vir ve-lo em sua prisao, sou para sempre, em Besancon e em toda a Franca-Comte, uma heroina de anedotas, disse ela com ar profundamente aflito. Os limites do pudor austero foram ultrapassados... Sou uma mulher perdida de honra; e verdade que e por voce...

Seu acento era tao triste que Julien a beijou com uma felicidade inteiramente nova para ele. Ja nao era a embriaguez do amor, era reconhecimento extremo. Acabava de perceber, pela primeira vez, toda a extensao do sacrificio que ela lhe fizera.

Alguma alma caridosa informou, sem duvida, o sr. de Renal das longas visitas que sua mulher fazia a prisao de Julien; pois, ao cabo de tres dias, ele lhe enviou sua carruagem, com ordem expressa de voltar imediatamente a Verrieres.

Essa separacao cruel comecara mal o dia para Julien. Avisaram-no, duas ou tres horas depois, que certo padre intrigante, e que no entanto nao pudera abrir caminho entre os jesuitas de Besancon, se instalara desde a manha fora da porta da prisao, na rua. Chovia muito, e ali esse homem pretendia representar o martir. Julien estava mal disposto; essa tolice o tocou profundamente.

Pela manha ja recusara a visita desse padre, mas esse homem metera na cabeca confessar Julien e fazer nome entre as jovens mulheres de Besancon por todas as confidencias que pretendesse ter recebido.

Declarava em voz alta que passaria o dia e a noite a porta da prisao:

- Deus me envia para tocar o coracao deste outro apostata...

E o baixo povo, sempre curioso de uma cena, comecava a se agrupar.

- Sim, meus irmaos, dizia-lhes, passarei aqui o dia, a noite, assim como todos os dias e todas as noites que se seguirem. O Espirito Santo me falou, tenho uma missao do alto; sou eu quem deve salvar a alma do jovem Sorel. Uni-vos a minhas preces, etc., etc.

Julien tinha horror ao escandalo e a tudo o que podia atrair atencao sobre ele. Pensou em aproveitar o momento para escapar do mundo incognito; mas tinha alguma esperanca de rever a sra. de Renal, e estava perdidamente apaixonado.

A porta da prisao ficava numa das ruas mais frequentadas. A ideia daquele padre enlameado, fazendo multidao e escandalo, torturava sua alma. E, sem duvida alguma, a cada instante ele repete meu nome! Esse momento foi mais penoso que a morte.

Chamou duas ou tres vezes, com uma hora de intervalo, um chaveiro que lhe era devotado, para manda-lo ver se o padre ainda estava a porta da prisao.

- Senhor, ele esta de joelhos na lama, dizia-lhe sempre o chaveiro; reza em voz alta e diz ladainhas por sua alma...

O impertinente! pensou Julien. Nesse momento, de fato, ouviu um zumbido surdo: era o povo respondendo as ladainhas. Para cumulo de impaciencia, viu o proprio chaveiro mover os labios repetindo as palavras latinas.

- Comecam a dizer, acrescentou o chaveiro, que e preciso que o senhor tenha o coracao bem endurecido para recusar o socorro desse santo homem.

O minha patria! como ainda es barbara! exclamou Julien, embriagado de colera.

E continuou seu raciocinio em voz alta, sem pensar na presenca do chaveiro.

Esse homem quer um artigo no jornal, e eis que esta certo de obte-lo.

Ah! malditos provincianos! em Paris, eu nao estaria submetido a todas essas vexacoes. La se e mais sabido em charlatanismo.

- Faca entrar esse santo padre, disse enfim ao chaveiro, e o suor corria em grandes ondas por sua fronte.

O chaveiro fez o sinal da cruz e saiu todo alegre.

Esse santo padre revelou-se horrivelmente feio; estava ainda mais enlameado. A chuva fria que caia aumentava a escuridao e a umidade do calabouco. O padre quis beijar Julien e pos-se a enternecer-se falando-lhe. A mais baixa hipocrisia era evidente demais; em toda a sua vida, Julien nunca estivera tao encolerizado.

Um quarto de hora depois da entrada do padre, Julien se achou inteiramente covarde. Pela primeira vez, a morte lhe pareceu horrivel. Pensava no estado de putrefacao em que estaria seu corpo dois dias depois da execucao, etc., etc.

Ia trair-se por algum sinal de fraqueza ou lancar-se sobre o padre e estrangula-lo com sua corrente, quando teve a ideia de pedir ao santo homem que fosse dizer por ele uma boa missa de quarenta francos naquele mesmo dia.

Ora, era perto do meio-dia; o padre bateu em retirada.

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