Livro Segundo — Capítulo XXVI: O amor moral O Vermelho e o Negro · Capítulo 56 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XXVI: O amor moral

Livro Segundo - Capitulo XXVI: O amor moral

There also was of course in Adeline

That calm patrician polish in the address,

Which ne'er can pass the equinoctial line

Of any thing which Nature would express:

Just as a Mandarin finds nothing fine,

At least his manner suffers not to guess

That any thing he views can greatly please.

Don Juan. C. XIII, estrofe 84.

Ha um pouco de loucura na maneira de ver de toda essa familia, pensava a marechala; estao encantados com seu jovem abade, que so sabe escutar, com olhos bastante bonitos, e verdade.

Julien, por seu lado, encontrava nas maneiras da marechala um exemplo quase perfeito daquele calmo polimento patricio que respira uma polidez exata e, ainda mais, a impossibilidade de qualquer viva emocao. O inesperado nos movimentos, a falta de dominio sobre si mesmo, teria escandalizado a senhora de Fervaques quase tanto quanto a ausencia de majestade para com os inferiores. O menor sinal de sensibilidade teria sido a seus olhos como uma especie de embriaguez moral, de que se deve corar e que prejudica muito o que uma pessoa de alta posicao deve a si mesma. Sua grande felicidade era falar da ultima caca do rei; seu livro favorito, as Memorias do duque de Saint-Simon, sobretudo na parte genealogica.

Julien sabia o lugar que, segundo a disposicao das luzes, convinha ao genero de beleza da senhora de Fervaques. Ali se encontrava de antemao, mas tinha grande cuidado de virar a cadeira de modo a nao avistar Mathilde. Espantada com essa constancia em esconder-se dela, certo dia ela deixou o sofa azul e veio trabalhar junto de uma pequena mesa vizinha da poltrona da marechala. Julien a via bastante de perto por baixo do chapeu da senhora de Fervaques. Aqueles olhos, que dispunham de sua sorte, primeiro o assustaram, vistos de tao perto; depois o arrancaram violentamente de sua apatia habitual: falou, e muito bem.

Dirigia a palavra a marechala, mas seu unico objetivo era agir sobre a alma de Mathilde. Animou-se de tal modo que a senhora de Fervaques chegou a ja nao compreender o que ele dizia.

Era um primeiro merito. Se Julien tivesse tido a ideia de completa-lo com algumas frases de misticismo alemao, de alta religiosidade e de jesuitismo, a marechala o teria colocado de imediato entre os homens superiores chamados a regenerar o seculo.

Ja que ele tem tao mau gosto, dizia consigo a srta. de La Mole, a ponto de falar tao longamente e com tanto fogo a senhora de Fervaques, nao o escutarei mais. Durante todo o fim daquela noite, cumpriu a palavra, embora com dificuldade.

A meia-noite, quando pegou o castical da mae para acompanha-la ao quarto, a senhora de La Mole parou na escada para fazer um elogio completo de Julien. Mathilde acabou de se irritar; nao conseguia dormir. Uma ideia a acalmou: aquilo que desprezo ainda pode fazer um homem de grande merito aos olhos da marechala.

Quanto a Julien, agira, estava menos infeliz; seus olhos cairam por acaso sobre a carteira de couro da Russia na qual o principe Korasoff encerrara as cinquenta e tres cartas de amor que lhe dera de presente. Julien viu, em nota, ao pe da primeira carta: Envia-se o nº 1 oito dias depois da primeira vista.

Estou atrasado! exclamou Julien, pois ha muito tempo vejo a senhora de Fervaques. Pos-se imediatamente a transcrever essa primeira carta de amor; era uma homilia cheia de frases sobre a virtude e enfadonha de morrer. Julien teve a felicidade de adormecer na segunda pagina.

Algumas horas depois, o grande sol o surpreendeu apoiado sobre a mesa. Um dos momentos mais penosos de sua vida era aquele em que, todas as manhas, ao despertar, ensinava a si mesmo sua infelicidade. Naquele dia, terminou a copia da carta quase rindo. E possivel, dizia consigo, que tenha existido um jovem para escrever assim! Contou varias frases de nove linhas. Ao pe do original, percebeu uma nota a lapis:

Levam-se estas cartas pessoalmente: a cavalo, gravata preta, sobrecasaca azul. Entrega-se a carta ao porteiro com ar contrito; profunda melancolia no olhar. Se se avistar alguma criada, enxugar os olhos furtivamente. Dirigir a palavra a criada.

Tudo isso foi executado fielmente.

O que faco e bem ousado, pensou Julien ao sair do hotel de Fervaques; mas tanto pior para Korasoff. Ousar escrever a uma virtude tao celebre! Vou ser tratado com o ultimo desprezo, e nada me divertira mais. No fundo, e a unica comedia a que posso ser sensivel. Sim, cobrir de ridiculo esse ser tao odioso que chamo eu me divertira. Se eu acreditasse em mim, cometeria algum crime para me distrair.

Havia um mes que o mais belo momento da vida de Julien era aquele em que entregava o cavalo a estrebaria. Korasoff proibira expressamente olhar, sob qualquer pretexto, para a amante que o abandonara. Mas o passo daquele cavalo, que ela conhecia tao bem, a maneira como Julien batia com a chicoteira na porta da estrebaria para chamar um homem atraíam por vezes Mathilde para tras da cortina de sua janela. A musselina era tao leve que Julien via atraves dela. Olhando de certa maneira por baixo da aba do chapeu, avistava a silhueta de Mathilde sem ver seus olhos. Por conseguinte, dizia consigo, ela nao pode ver os meus, e isso nao e olha-la.

A noite, a senhora de Fervaques foi para ele exatamente como se nao tivesse recebido a dissertacao filosofica, mistica e religiosa que, pela manha, ele entregara a seu porteiro com tanta melancolia. Na vespera, o acaso revelara a Julien o meio de ser eloquente; arranjou-se de modo a ver os olhos de Mathilde. Ela, por sua vez, um instante depois da chegada da marechala, deixou o sofa azul: era desertar sua sociedade habitual. O sr. de Croisenois pareceu consternado com esse novo capricho; sua dor evidente tirou da infelicidade de Julien o que ela tinha de mais atroz.

Esse imprevisto em sua vida o fez falar como um anjo; e, como o amor-proprio se insinua mesmo nos coracoes que servem de templo a virtude mais augusta, a senhora de La Mole tem razao, disse consigo a marechala ao voltar para a carruagem; esse jovem padre tem distincao. E preciso que, nos primeiros dias, minha presenca o tenha intimidado. Na verdade, tudo o que se encontra nessa casa e muito leviano; vejo ali apenas virtudes ajudadas pela velhice, e que tinham grande necessidade dos gelos da idade. Esse jovem soube ver a diferenca; escreve bem, mas temo muito que esse pedido de ilumina-lo com meus conselhos, que me faz em sua carta, seja no fundo apenas um sentimento que se ignora a si mesmo.

Entretanto, quantas conversoes comecaram assim! O que me faz bem augurar desta e a diferenca de seu estilo em relacao ao dos jovens cujas cartas tive ocasiao de ver. E impossivel nao reconhecer uncao, seriedade profunda e muita conviccao na prosa desse jovem levita; ele tera sem duvida a virtude de Massillon.

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