Livro Primeiro — Capítulo XX: As cartas anônimas O Vermelho e o Negro · Capítulo 20 de 77
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Livro Primeiro — Capítulo XX: As cartas anônimas

Do not give dalliance

Too much the rein; the strongest oaths are straw

To the fire i' the blood.

Tempest.

Quando se deixava o salao, por volta da meia-noite, Julien teve tempo de dizer a amiga:

-- Nao nos vejamos esta noite; vosso marido tem suspeitas. Eu juraria que aquela grande carta que ele lia suspirando e uma carta anonima.

Por felicidade, Julien trancava-se a chave em seu quarto. A sra. de Renal teve a ideia insensata de que aquele aviso era apenas um pretexto para nao ve-la. Perdeu completamente a cabeca e, na hora habitual, foi ate a porta dele. Julien, que ouviu ruido no corredor, apagou a lampada no mesmo instante. Faziam esforcos para abrir sua porta: era a sra. de Renal? Era um marido ciumento?

No dia seguinte, bem cedo, a cozinheira que protegia Julien lhe trouxe um livro em cuja capa ele leu estas palavras escritas em italiano: Guardate alla pagina 130.

Julien estremeceu diante da imprudencia, procurou a pagina cento e trinta e encontrou ali presa com um alfinete a seguinte carta, escrita as pressas, banhada de lagrimas e sem a menor ortografia. De ordinario, a sra. de Renal escrevia muito bem; ele ficou tocado por esse detalhe e esqueceu um pouco a imprudencia pavorosa.

Tu nao quiseste me receber esta noite? Ha momentos em que acredito nunca ter lido ate o fundo da tua alma. Teus olhares me assustam. Tenho medo de ti. Grande Deus! Nunca me terias amado? Nesse caso, que meu marido descubra nossos amores e me encerre numa prisao eterna, no campo, longe de meus filhos. Talvez Deus queira assim. Morrerei em breve. Mas tu seras um monstro.

Nao me amas? Estas cansado de minhas loucuras, de meus remorsos, impio? Queres me perder? Dou-te um meio facil. Vai, mostra esta carta a toda Verrieres; ou antes, mostra-a apenas ao sr. Valenod. Diz-lhe que te amo; mas nao, nao pronuncies tal blasfemia; diz-lhe que te adoro, que a vida so comecou para mim no dia em que te vi; que nos momentos mais loucos da minha juventude eu jamais sonhara sequer com a felicidade que te devo; que te sacrifiquei minha vida, que te sacrifico minha alma. Sabes que te sacrifico muito mais.

Mas esse homem entende de sacrificios? Diz-lhe, diz-lhe para irrita-lo, que desafio todos os maus, e que ja nao ha no mundo senao uma infelicidade para mim: ver mudar o unico homem que me prende a vida. Que felicidade para mim perde-la, oferece-la em sacrificio e ja nao temer por meus filhos!

Nao duvides, caro amigo: se ha uma carta anonima, ela vem desse ser odioso que, durante seis anos, me perseguiu com sua voz grossa, o relato de seus saltos a cavalo, sua fatuidade e a enumeracao eterna de todas as suas vantagens.

Ha uma carta anonima? Mau, era isso que eu queria discutir contigo; mas nao, fizeste bem. Apertando-te em meus bracos, talvez pela ultima vez, eu jamais poderia discutir friamente, como faco estando sozinha. A partir deste momento, nossa felicidade ja nao sera tao facil. Sera isso uma contrariedade para vós? Sim, nos dias em que nao tiverdes recebido do sr. Fouque algum livro divertido. O sacrificio esta feito; amanha, haja ou nao haja carta anonima, eu tambem direi a meu marido que recebi uma carta anonima e que e preciso imediatamente te fazer uma ponte de ouro, encontrar algum pretexto honesto e, sem demora, mandar-te de volta a teus pais.

Ai de mim, caro amigo, ficaremos separados quinze dias, talvez um mes! Vai, faco-te justica: sofreras tanto quanto eu. Mas, enfim, eis o unico meio de aparar o efeito dessa carta anonima; nao e a primeira que meu marido recebe, e ainda por minha causa. Ai! Quanto eu ria delas!

Todo o objetivo de minha conduta e fazer meu marido pensar que a carta vem do sr. Valenod; nao duvido de que ele seja o autor. Se deixares a casa, nao deixes de te estabelecer em Verrieres. Farei de modo que meu marido tenha a ideia de passar quinze dias la, para provar aos tolos que nao ha frieza entre ele e mim. Uma vez em Verrieres, faz amizade com todo mundo, ate com os liberais. Sei que todas essas senhoras te procurarao.

Nao vas te zangar com o sr. Valenod, nem lhe cortar as orelhas, como dizias um dia; ao contrario, faze-lhe todas as tuas gracas. O essencial e que se creia em Verrieres que vais entrar na casa do Valenod, ou de qualquer outro, para a educacao dos filhos.

Eis o que meu marido jamais suportara. Ainda que se resigne a isso, pois bem! Ao menos habitaras Verrieres, e eu te verei algumas vezes. Meus filhos, que tanto te amam, irao te ver. Grande Deus! Sinto que amo melhor meus filhos porque eles te amam. Que remorso! Como tudo isto acabara?... Eu me perco... Enfim, compreendes tua conduta; se doce, polido, nada desdenhoso com essas personagens grosseiras, peço-te de joelhos: elas vao ser os arbitros de nosso destino. Nao duvides um instante de que meu marido se conformara, a teu respeito, ao que lhe prescrever a opiniao publica.

Es tu quem vai me fornecer a carta anonima. Arma-te de paciencia e de uma tesoura. Recorta num livro as palavras que veras; cola-as em seguida, com cola de boca, sobre a folha de papel azulado que te envio; ela me vem do sr. Valenod. Espera uma busca em teu quarto; queima as paginas do livro que tiveres mutilado. Se nao encontrares as palavras prontas, tem a paciencia de forma-las letra por letra. Para poupar teu trabalho, fiz a carta anonima curta demais. Ai de mim! Se ja nao me amas, como temo, a minha deve te parecer longa!

Carta anonima

Madame,

Todas as vossas pequenas manobras sao conhecidas, mas as pessoas interessadas em reprimi-las estao avisadas. Por um resto de amizade por vós, aconselho-vos a vos desligardes totalmente do pequeno campones. Se fordes bastante sensata para isso, vosso marido acreditara que o aviso que recebeu o engana, e o deixarao em seu erro. Pensai que tenho vosso segredo; tremei, infeliz; e preciso, a partir desta hora, andar direito diante de mim.

Assim que tiveres acabado de colar as palavras que compoem esta carta, reconheceste nela os modos de falar do diretor?, sai pela casa; eu te encontrarei.

Irei a aldeia e voltarei com o rosto perturbado; de fato, estarei muito perturbada. Grande Deus! Que arrisco eu, e tudo isso porque julgaste adivinhar uma carta anonima. Enfim, com o rosto transtornado, entregarei a meu marido esta carta que um desconhecido me tera dado. Tu, vai passear pelo caminho dos grandes bosques com as criancas e so volta na hora do jantar.

Do alto dos rochedos, podes ver a torre do Colombier. Se nossos negocios forem bem, colocarei ali um lenco branco; no caso contrario, nao havera nada.

Teu coracao, ingrato, nao te fara encontrar meio de me dizer que me amas antes de partir para esse passeio? Aconteca o que acontecer, fica certo de uma coisa: eu nao sobreviveria um dia a nossa separacao definitiva. Ah, ma mae! Sao duas palavras vazias que acabo de escrever, caro Julien. Nao as sinto; neste momento, so posso pensar em ti; escrevi-as apenas para nao ser censurada por ti. Agora que me vejo prestes a te perder, para que dissimular? Sim! Que minha alma te pareca atroz, mas que eu nao minta diante do homem que adoro! Ja enganei demais em minha vida. Vai, perdoo-te se ja nao me amas. Nao tenho tempo de reler minha carta. E pouca coisa, a meus olhos, pagar com a vida os dias felizes que acabo de passar em teus bracos. Sabes que eles me custarao mais.

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