Livro Segundo — Capítulo XVIII: Momentos cruéis O Vermelho e o Negro · Capítulo 48 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XVIII: Momentos cruéis

Livro Segundo - Capitulo XVIII: Momentos crueis

E ela me confessa! Detalha ate as menores circunstancias! Seu olho tao belo fixo no meu pinta o amor que sente por outro!

SCHILLER.

A srta. de La Mole, arrebatada, so pensava na felicidade de ter estado a ponto de ser morta. Chegava a dizer a si mesma: ele e digno de ser meu senhor, pois esteve a ponto de me matar. Quantos belos jovens da sociedade seria preciso fundir juntos para chegar a tal movimento de paixao?

E preciso confessar que ele estava muito bonito no momento em que subiu na cadeira para recolocar a espada exatamente na posicao pitoresca que o tapeceiro decorador lhe dera! Afinal, nao fui tao louca por ama-lo!

Nesse instante, se se apresentasse algum meio honesto de reatar, ela o teria agarrado com prazer. Julien, fechado a duas voltas no quarto, estava entregue ao mais violento desespero. Em suas ideias loucas, pensava em lançar-se a seus pes. Se, em vez de ficar num lugar afastado, tivesse vagado pelo jardim e pelo hotel de maneira a manter-se ao alcance das ocasioes, talvez tivesse, num so instante, transformado em felicidade viva seu horrivel infortunio.

Mas a habilidade cuja ausencia lhe censuramos teria excluido o movimento sublime de agarrar a espada que, naquele momento, o tornava tao bonito aos olhos da srta. de La Mole. Esse capricho favoravel a Julien durou todo o dia; Mathilde fazia para si uma imagem encantadora dos breves instantes durante os quais o amara; lamentava-os.

De fato, dizia consigo, minha paixao por esse pobre rapaz so durou, aos olhos dele, desde uma hora depois da meia-noite, quando o vi chegar por sua escada com todas as pistolas no bolso lateral do casaco, ate as nove da manha. Foi um quarto de hora depois, ouvindo a missa em Sainte-Valere, que comecei a pensar que ele ia se julgar meu senhor e que poderia muito bem tentar fazer-me obedecer em nome do terror.

Depois do jantar, a srta. de La Mole, longe de fugir de Julien, falou-lhe e, de certo modo, convidou-o a segui-la ao jardim; ele obedeceu. Essa prova lhe faltava. Mathilde cedia, sem o perceber muito, ao amor que retomava por ele. Encontrava prazer extremo em passear a seu lado; era com curiosidade que olhava aquelas maos que, de manha, tinham agarrado a espada para mata-la.

Entretanto, depois de tudo o que se passara, ja nao podia tratar-se da antiga conversa deles.

Pouco a pouco, Mathilde pos-se a falar-lhe, com confidencia intima, do estado de seu coracao. Encontrava uma volupia singular nesse genero de conversa; chegou a contar-lhe longamente os movimentos de entusiasmo passageiro que outrora experimentara pelo sr. de Croisenois, depois pelo sr. de Caylus...

- Como! Pelo sr. de Caylus tambem! - exclamou Julien; e toda a amarga inveja de um amante abandonado explodia nessa palavra. Mathilde assim julgou, e nao se ofendeu.

Continuou a torturar Julien, detalhando-lhe seus sentimentos de outrora da maneira mais pitoresca e com o acento da mais intima verdade. Ele via que ela pintava o que tinha diante dos olhos. Tinha a dor de notar que, ao falar, ela fazia descobertas no proprio coracao.

A infelicidade da inveja nao pode ir mais longe.

Suspeitar que um rival e amado ja e bem cruel; mas ver-se confessar em detalhe o amor que ele inspira pela mulher que se adora talvez seja o cumulo das dores.

Oh, como eram punidos, nesse instante, os movimentos de orgulho que haviam levado Julien a preferir-se aos Caylus, aos Croisenois! Com que infelicidade intima e sentida exagerava para si as menores vantagens deles! Com que boa-fe ardente desprezava a si mesmo!

Mathilde lhe parecia um ser acima do divino; toda palavra e fraca para exprimir o excesso de sua admiracao. Passeando ao lado dela, olhava furtivamente suas maos, seus bracos, sua cintura de rainha. Estava a ponto de cair-lhe aos pes, aniquilado de amor e infelicidade, gritando: piedade!

E essa pessoa tao bela, tao superior a tudo, que uma vez me amou, e o sr. de Caylus que ela amara sem duvida em breve.

Julien nao podia duvidar da sinceridade da srta. de La Mole; o acento da verdade era evidente demais em tudo o que ela dizia. Para que absolutamente nada faltasse a sua infelicidade, houve momentos em que, a forca de ocupar-se dos sentimentos que experimentara outrora pelo sr. de Caylus, Mathilde chegava a falar dele como se o amasse atualmente. Certamente havia amor em seu acento, Julien via-o nitidamente.

Se o interior de seu peito tivesse sido inundado de chumbo fundido, teria sofrido menos. Como, chegado a esse excesso de infortunio, o pobre rapaz poderia adivinhar que era por falar com ele que a srta. de La Mole encontrava tanto prazer em repensar as veleidades de amor que outrora sentira pelo sr. de Caylus ou pelo sr. de Croisenois?

Nada poderia exprimir as torturas de Julien. Escutava as confidencias detalhadas do amor sentido por outros, naquela mesma aleia de tilias onde, tao poucos dias antes, esperava soar uma hora para penetrar no quarto dela. Um ser humano nao pode suportar a infelicidade em grau mais alto.

Esse genero de intimidade cruel durou oito longos dias. Mathilde ora parecia procurar, ora nao fugia das ocasioes de falar-lhe; e o assunto de conversa, ao qual ambos pareciam voltar com uma especie de volupia cruel, era o relato dos sentimentos que ela experimentara por outros: contava-lhe as cartas que escrevera, lembrava-lhe ate as palavras, recitava-lhe frases inteiras. Nos ultimos dias, parecia contemplar Julien com uma especie de alegria maligna. Suas dores eram para ela viva fruicao; via nelas a fraqueza de seu tirano, e podia portanto permitir-se ama-lo.

Ve-se que Julien nao tinha nenhuma experiencia da vida; nem sequer lera romances. Se tivesse sido um pouco menos desajeitado e lhe houvesse dito com algum sangue-frio, a essa jovem por ele tao adorada e que lhe fazia confidencias tao estranhas:

- Convenha que, embora eu nao valha todos esses senhores, sou eu, contudo, que a senhorita ama...

Talvez ela tivesse ficado feliz por ser adivinhada; ao menos o sucesso teria dependido inteiramente da graca com que Julien exprimisse essa ideia e do momento que escolhesse. Em todos os casos, sairia bem, e com vantagem para si, de uma situacao que ia tornar-se monotona aos olhos de Mathilde.

- E a senhorita ja nao me ama, eu que a adoro! - disse-lhe um dia, depois de longo passeio, Julien, perdido de amor e infortunio.

Essa tolice era quase a maior que podia cometer.

Essa palavra destruiu num piscar de olhos todo o prazer que a srta. de La Mole encontrava em falar-lhe do estado de seu coracao. Ela comecava a espantar-se de que, depois do que se passara, ele nao se ofendesse com seus relatos; chegava a imaginar, no momento em que ele lhe disse essa frase tola, que talvez ja nao a amasse. O orgulho sem duvida apagou seu amor, dizia consigo. Ele nao e homem para se ver impunemente preterido por seres como Caylus, de Luz, Croisenois, que confessa serem tao superiores a ele. Nao, ja nao o verei a meus pes!

Nos dias precedentes, na ingenuidade de sua infelicidade, Julien fazia-lhe um elogio apaixonado das brilhantes qualidades desses senhores; chegava ate a exagera-las. Essa nuance nao escapara a srta. de La Mole, que se espantava com ela. A alma frenetica de Julien, louvando um rival que julgava amado, simpatizava com a felicidade dela.

Sua palavra tao franca, mas tao estupida, veio mudar tudo num instante; Mathilde, segura de ser amada, desprezou-o perfeitamente.

Passeava com ele no momento dessa fala desajeitada; deixou-o, e seu ultimo olhar exprimia o mais horrivel desprezo. De volta ao salao, durante toda a noite nao o olhou mais. No dia seguinte, esse desprezo ocupava todo o seu coracao; ja nao se tratava do movimento que, durante oito dias, a fizera encontrar tanto prazer em tratar Julien como o amigo mais intimo; sua vista lhe era desagradavel. A sensacao de Mathilde chegou logo ao desgosto; nada saberia exprimir o excesso de desprezo que experimentava ao encontra-lo diante dos olhos.

Julien nada compreendera de tudo o que se passara no coracao de Mathilde, mas sua vaidade clarividente discerniu o desprezo. Teve o bom senso de aparecer diante dela o mais raramente possivel, e nunca a olhava.

Mas nao foi sem pena mortal que se privou de sua presenca. Creio sentir que minha infelicidade aumenta ainda mais, dizia consigo. A coragem de um coracao de homem nao pode ir mais longe. Passava a vida numa pequena janela dos comodos superiores do hotel; a persiana estava cuidadosamente fechada, e dali ao menos podia avistar a srta. de La Mole nos instantes em que aparecia no jardim.

Que era dele quando, depois do jantar, a via passear com o sr. de Caylus, o sr. de Luz ou qualquer outro por quem ela lhe confessara alguma veleidade de amor outrora sentida?

Julien nao tinha ideia de tamanha intensidade de infortunio; estava a ponto de soltar gritos. Essa alma tao fechada estava enfim transtornada de alto a baixo.

Todo pensamento estranho a srta. de La Mole lhe se tornara odioso; era incapaz de escrever as cartas mais simples.

- O senhor esta louco - disse-lhe uma manha o marques.

Julien, tremendo por ser adivinhado, falou de doenca e conseguiu fazer-se acreditar. Felizmente para ele, o sr. de La Mole gracejou ao jantar sobre sua proxima viagem: Mathilde compreendeu que ela podia ser muito longa. Ja havia varios dias que Julien a evitava, e os jovens tao brilhantes que tinham tudo o que faltava a esse ser tao palido e sombrio outrora amado por ela ja nao tinham o poder de tira-la de seu devaneio.

Uma moça comum, dizia consigo, teria procurado o homem que prefere entre esses jovens que atraem todos os olhares num salao; mas um dos caracteres do genio e nao arrastar o pensamento pelo trilho tracado pelo vulgar.

Companheira de um homem como Julien, a quem nao falta senao a fortuna que tenho, excitarei continuamente a atencao; nao passarei despercebida na vida. Longe de temer sem cessar uma revolucao como minhas primas, que, por medo do povo, nao ousam ralhar com um postilhao que as conduz mal, terei certeza de desempenhar um papel, e um grande papel, pois o homem que escolhi tem carater e uma ambicao sem limites. Que lhe falta? Amigos, dinheiro? Eu lhe dou tudo isso. Mas seu pensamento tratava um pouco Julien como ser inferior de quem se faz a fortuna quando e como se quer, e de cujo amor nem sequer se permite duvidar.

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