Livro Segundo — Capítulo XXIX: O tédio O Vermelho e o Negro · Capítulo 59 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XXIX: O tédio

Livro Segundo - Capitulo XXIX: O tedio

Sacrificar-se as proprias paixoes, va la: mas a paixoes que nao se tem! O triste seculo dezenove!

GIRODET.

Depois de ler sem prazer, de inicio, as longas cartas de Julien, a senhora de Fervaques comecava a ocupar-se delas; mas uma coisa a desolava: que pena que o sr. Sorel nao fosse decididamente padre! Poder-se-ia admiti-lo a uma especie de intimidade; com aquela cruz e aquela roupa quase burguesa, ficava-se exposta a perguntas crueis, e que responder? Ela nao concluia o pensamento: alguma amiga maligna pode supor, e ate espalhar, que e um priminho subalterno, parente de meu pai, algum comerciante decorado pela guarda nacional.

Ate o momento em que vira Julien, o maior prazer da senhora de Fervaques fora escrever a palavra marechala ao lado de seu nome. Depois, uma vaidade de parvenue, doentia e que se ofendia com tudo, combateu um comeco de interesse.

Seria tao facil, dizia a marechala consigo, fazer dele um grande vigario em alguma diocese vizinha de Paris! Mas sr. Sorel simplesmente, e ainda pequeno secretario do sr. de La Mole! E desolador.

Pela primeira vez, essa alma que tanto temia estava comovida por um interesse estranho a suas pretensoes de posicao e superioridade social. Seu velho porteiro notou que, quando trazia uma carta daquele belo jovem de ar tao triste, tinha certeza de ver desaparecer o ar distraido e descontente que a marechala sempre tomava cuidado de assumir a chegada de um de seus empregados.

O tedio de uma maneira de viver toda ambiciosa de efeito sobre o publico, sem que houvesse no fundo do coracao gozo real por esse genero de sucesso, tornara-se tao intoleravel desde que se pensava em Julien, que, para que as criadas nao fossem maltratadas o dia inteiro, bastava que, na noite anterior, se tivesse passado uma hora com esse jovem singular. Seu credito nascente resistiu a cartas anonimas, muito bem feitas. Em vao o pequeno Tanbeau forneceu aos srs. de Luz, de Croisenois, de Caylus duas ou tres calunias muito habeis, que esses senhores tiveram prazer em espalhar sem se darem muito conta da verdade das acusacoes. A marechala, cujo espirito nao era feito para resistir a esses meios vulgares, contava suas duvidas a Mathilde, e sempre era consolada.

Certo dia, depois de perguntar tres vezes se havia cartas, a senhora de Fervaques decidiu-se subitamente a responder a Julien. Foi uma vitoria do tedio. Na segunda carta, a marechala quase foi detida pela inconveniencia de escrever de propria mao um endereco tao vulgar: Ao sr. Sorel, na casa do sr. marques de La Mole.

- E preciso, disse ela a noite a Julien, com ar muito seco, que me traga envelopes nos quais esteja seu endereco.

Eis-me constituido amante criado de quarto, pensou Julien, e inclinou-se, divertindo-se em mascarar-se como Arsene, o velho criado de quarto do marques.

Na mesma noite, trouxe envelopes, e no dia seguinte, bem cedo, recebeu uma terceira carta: leu cinco ou seis linhas do inicio e duas ou tres do fim. Ela tinha quatro paginas de letra miuda e muito apertada.

Pouco a pouco adquiriu-se o doce habito de escrever quase todos os dias. Julien respondia com copias fieis das cartas russas, e tal e a vantagem do estilo enfatico: a senhora de Fervaques nao se espantava com a pouca relacao das respostas com suas cartas.

Qual nao teria sido a irritacao de seu orgulho se o pequeno Tanbeau, que se constituira espiao voluntario dos passos de Julien, pudesse informar-lhe que todas as suas cartas, ainda lacradas, eram atiradas ao acaso na gaveta de Julien.

Certa manha, o porteiro lhe trazia a biblioteca uma carta da marechala; Mathilde encontrou esse homem, viu a carta e o endereco na letra de Julien. Entrou na biblioteca assim que o porteiro saiu; a carta ainda estava na borda da mesa. Julien, muito ocupado em escrever, nao a colocara na gaveta.

- Eis o que nao posso suportar, exclamou Mathilde, apoderando-se da carta; o senhor me esquece completamente, eu que sou sua esposa. Sua conduta e horrivel, senhor.

A essas palavras, seu orgulho, espantado com a terrivel inconveniencia de seu gesto, a sufocou; desfez-se em lagrimas e logo pareceu a Julien incapaz de respirar.

Surpreso, confundido, Julien nao distinguia bem tudo o que essa cena tinha de admiravel e feliz para ele. Ajudou Mathilde a sentar-se; ela quase se abandonava em seus bracos.

O primeiro instante em que percebeu esse movimento foi de extrema alegria. O segundo foi um pensamento para Korasoff: posso perder tudo por uma so palavra.

Seus bracos se enrijeceram, tamanho era o esforco imposto pela politica. Nao devo sequer permitir-me apertar contra o coracao este corpo flexivel e encantador, ou ela me desprezara e me maltratara. Que carater horrivel!

E, maldizendo o carater de Mathilde, amava-a cem vezes mais; parecia-lhe ter nos bracos uma rainha.

A impassivel frieza de Julien redobrou a infelicidade de orgulho que dilacerava a alma da srta. de La Mole. Ela estava longe de ter o sangue-frio necessario para tentar adivinhar em seus olhos o que ele sentia por ela naquele instante. Nao conseguiu resolver-se a olha-lo; tremia de encontrar a expressao do desprezo.

Sentada no diva da biblioteca, imovel, com a cabeca voltada para o lado oposto a Julien, estava presa as dores mais vivas que o orgulho e o amor podem fazer uma alma humana experimentar. Em que passo atroz acabava de cair!

Estava-me reservado, infeliz que sou, ver repelidos os avances mais indecentes! E repelidos por quem? acrescentava o orgulho louco de dor; repelidos por um criado de meu pai.

- E isso que nao sofrerei, disse em voz alta.

E, levantando-se com furia, abriu a gaveta da mesa de Julien, colocada a dois passos diante dela. Ficou como que gelada de horror ao ver ali oito ou dez cartas fechadas, semelhantes em tudo a que o porteiro acabara de trazer. Em todos os enderecos reconhecia a letra de Julien, mais ou menos disfarçada.

- Assim, exclamou fora de si, nao apenas o senhor esta bem com ela, mas ainda a despreza. O senhor, um homem de nada, desprezar a senhora marechala de Fervaques!

Ah! perdao, meu amigo, acrescentou, jogando-se de joelhos diante dele; despreza-me se quiseres, mas ama-me; nao posso mais viver privada de teu amor. E caiu completamente desmaiada.

Ei-la, pois, essa orgulhosa, a meus pes! disse Julien consigo.

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