Livro Segundo — Capítulo XII: Seria um Danton? O Vermelho e o Negro · Capítulo 42 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XII: Seria um Danton?

Livro Segundo - Capitulo XII: Seria um Danton?

A necessidade de ansiedade, tal era o carater da bela Margarida de Valois, minha tia, que logo esposou o rei de Navarra, que vemos presentemente reinar na Franca sob o nome de Henrique IV. A necessidade de jogar formava todo o segredo do carater dessa princesa amavel; dai suas brigas e reconciliacoes com os irmaos desde os dezesseis anos. Ora, que pode jogar uma jovem? O que tem de mais precioso: sua reputacao, a consideracao de toda a sua vida.

Memorias do duque de Angouleme, filho natural de Carlos IX.

Entre Julien e mim nao ha assinatura de contrato, nem tabeliao para a cerimonia burguesa; tudo e heroico, tudo sera filho do acaso. A parte a nobreza, que lhe falta, e o amor de Margarida de Valois pelo jovem La Mole, o homem mais distinto de seu tempo. E culpa minha se os jovens da Corte sao tao grandes partidarios do conveniente e empalidecem a simples ideia da menor aventura um pouco singular? Uma pequena viagem a Grecia ou a Africa e, para eles, o cumulo da audacia; e ainda assim so sabem marchar em grupo. Assim que se veem sozinhos, tem medo, nao da lanca do beduino, mas do ridiculo, e esse medo os enlouquece.

Meu pequeno Julien, ao contrario, gosta de agir apenas sozinho. Jamais, nesse ser privilegiado, a menor ideia de procurar apoio e socorro nos outros! Ele despreza os outros, e e por isso que nao o desprezo.

Se, com sua pobreza, Julien fosse nobre, meu amor nao passaria de uma tolice vulgar, uma mesalianca chata; eu nao o desejaria; ele nao teria aquilo que caracteriza as grandes paixoes: a imensidade da dificuldade a vencer e a negra incerteza do acontecimento.

A srta. de La Mole estava tao preocupada com esses belos raciocinios que, no dia seguinte, sem perceber, elogiava Julien ao marques de Croisenois e ao irmao. Sua eloquencia foi tao longe que os picou.

- Cuidado com esse jovem que tem tanta energia - exclamou seu irmao; - se a revolucao recomecar, ele fara todos nos sermos guilhotinados.

Ela guardou-se de responder e apressou-se em zombar do irmao e do marques de Croisenois pelo medo que lhes causava a energia. No fundo, nao e senao o medo de encontrar o imprevisto, o temor de ficar sem resposta diante do imprevisto...

- Sempre, sempre, senhores, o medo do ridiculo, monstro que, por infelicidade, morreu em 1816.

- Nao ha mais ridiculo - dizia o sr. de La Mole - num pais onde ha dois partidos.

Sua filha compreendeu essa ideia.

- Assim, senhores - dizia ela aos inimigos de Julien -, terao tido muito medo durante toda a vida e, depois, lhes dirao:

Nao era um lobo, era apenas sua sombra.

Mathilde deixou-os logo. A palavra do irmao lhe causava horror; inquietou-a muito; mas, desde o dia seguinte, ela via nela o mais belo dos elogios.

Neste seculo, em que toda energia esta morta, sua energia lhes mete medo. Direi a ele a palavra de meu irmao; quero ver a resposta que dara. Mas escolherei um daqueles momentos em que seus olhos brilham. Entao ele nao pode mentir para mim.

Seria um Danton! acrescentou ela, depois de longo e indistinto devaneio. Pois bem! A revolucao teria recomecado. Que papeis representariam entao Croisenois e meu irmao? Esta escrito de antemao: a resignacao sublime. Seriam carneiros heroicos, deixando-se degolar sem dizer palavra. Seu unico medo ao morrer ainda seria estar de mau gosto. Meu pequeno Julien queimaria os miolos do jacobino que viesse prende-lo, por pouco que tivesse esperanca de se salvar. Ele nao tem medo de estar de mau gosto.

Esta ultima palavra a tornou passiva; despertava lembrancas penosas e tirou-lhe toda a ousadia. Essa palavra lhe recordava as zombarias dos srs. de Caylus, de Croisenois, de Luz e de seu irmao. Esses senhores censuravam unanimemente a Julien o ar de padre: humilde e hipocrita.

Mas, retomou ela de repente, os olhos brilhando de alegria, a amargura e a frequencia de suas zombarias provam, apesar deles, que e o homem mais distinto que tivemos neste inverno. Que importam seus defeitos, seus ridiculos? Ele tem grandeza e eles se chocam com isso, eles, alias tao bons e tao indulgentes. E certo que ele e pobre e estudou para ser padre; eles sao chefes de esquadrao e nao precisaram estudar, e mais comodo.

Apesar de todas as desvantagens de seu eterno traje preto e dessa fisionomia de padre, que e bem obrigado a ter, pobre rapaz, sob pena de morrer de fome, seu merito lhes mete medo, nada mais claro. E essa fisionomia de padre ele ja nao a tem assim que ficamos alguns instantes sozinhos. E quando esses senhores dizem uma palavra que julgam fina e imprevista, seu primeiro olhar nao e para Julien? Notei-o muito bem. E, no entanto, eles sabem perfeitamente que ele jamais lhes fala, a menos que seja interrogado. So a mim dirige a palavra; acredita que tenho a alma alta. Nao responde as objecoes deles senao exatamente o quanto e preciso para ser polido. Comigo, discute horas inteiras; nao esta seguro de suas ideias enquanto encontro nelas a menor objecao. Enfim, todo este inverno, nao tivemos tiros de fuzil; tratou-se apenas de atrair a atencao por palavras. Pois bem, meu pai, homem superior e que levara longe a fortuna de nossa casa, respeita Julien. Todo o resto o odeia; ninguem o despreza, a nao ser as devotas amigas de minha mae.

O conde de Caylus tinha, ou fingia ter, grande paixao por cavalos; passava a vida na estrebaria e muitas vezes ali almocava. Essa grande paixao, unida ao habito de nunca rir, dava-lhe muita consideracao entre os amigos: era a aguia daquele pequeno circulo.

Assim que se reuniu no dia seguinte atras da poltrona da sra. de La Mole, Julien nao estando presente, o sr. de Caylus, apoiado por Croisenois e Norbert, atacou vivamente a boa opiniao que Mathilde tinha de Julien, e isso sem proposito, quase no primeiro momento em que viu a srta. de La Mole. Ela compreendeu essa finura a uma legua de distancia e ficou encantada.

Ei-los todos aliados, disse consigo, contra um homem de genio que nao tem dez luises de renda e que so pode responder-lhes quando e interrogado. Tem medo dele sob seu traje preto. Que seria com dragonas?

Jamais ela estivera mais brilhante. Desde os primeiros ataques, cobriu de sarcasmos agradaveis Caylus e seus aliados. Quando se apagou o fogo das pilherias desses brilhantes oficiais:

- Que amanha algum fidalgote das montanhas do Franco-Condado - disse ela ao sr. de Caylus - descubra que Julien e seu filho natural e lhe de um nome e alguns milhares de francos; em seis semanas ele tera bigodes como os senhores; em seis meses sera oficial de husares como os senhores. E entao a grandeza de seu carater ja nao sera um ridiculo. Vejo-o reduzido, senhor futuro duque, a esta antiga ma razao: a superioridade da nobreza de coracao sobre a nobreza de provincia. Mas que lhe restara se eu quiser leva-lo ao extremo, se tiver a malicia de dar a Julien por pai um duque espanhol, prisioneiro de guerra em Besancon no tempo de Napoleao, e que, por escrupulo de consciencia, o reconhece no leito de morte?

Todas essas suposicoes de nascimento nao legitimo foram achadas de gosto bastante duvidoso pelos srs. de Caylus e de Croisenois. Foi tudo o que viram no raciocinio de Mathilde.

Por mais dominado que fosse Norbert, as palavras da irma eram tao claras que tomou um ar grave, que ia bastante mal, e preciso confessar, a sua fisionomia sorridente e boa. Ousou dizer algumas palavras:

- Esta doente, meu amigo? - respondeu-lhe Mathilde com um pequeno ar serio. - E preciso que esteja muito mal para responder a pilherias com moral.

- Moral, voce! Esta solicitando um cargo de prefeito?

Mathilde esqueceu muito depressa o ar ferido do conde de Caylus, o mau humor de Norbert e o desespero silencioso do sr. de Croisenois. Tinha de tomar uma decisao sobre uma ideia fatal que acabava de apoderar-se de sua alma.

Julien e bastante sincero comigo, disse consigo; na idade dele, numa fortuna inferior, infeliz como e por uma ambicao espantosa, precisa-se de uma amiga. Talvez eu seja essa amiga; mas nao vejo nele amor. Com a audacia de seu carater, ele me teria falado desse amor.

Essa incerteza, essa discussao consigo mesma, que desde esse instante ocupou cada momento de Mathilde, e para a qual, cada vez que Julien lhe falava, ela encontrava novos argumentos, expulsou por completo aqueles momentos de tedio aos quais era tao sujeita.

Filha de um homem de espirito que podia tornar-se ministro e devolver suas matas ao clero, a srta. de La Mole fora, no convento do Sagrado Coracao, objeto das lisonjas mais excessivas. Essa infelicidade jamais se repara. Tinham-na persuadido de que, por causa de todas as suas vantagens de nascimento, fortuna etc., devia ser mais feliz que outra qualquer. E a fonte do tedio dos principes e de todas as suas loucuras.

Mathilde nao escapara a funesta influencia dessa ideia. Por mais espirito que se tenha, nao se esta em guarda aos dez anos contra as lisonjas de todo um convento, tambem tao bem fundadas em aparencia.

Desde o momento em que decidiu que amava Julien, nao se entediou mais. Todos os dias se felicitava pela decisao que tomara de dar a si mesma uma grande paixao. Esta diversao tem muitos perigos, pensava. Tanto melhor! Mil vezes tanto melhor!

Sem grande paixao, eu definhava de tedio no mais belo momento da vida, dos dezesseis aos vinte anos. Ja perdi meus mais belos anos, obrigada, por todo prazer, a ouvir desarrazoar as amigas de minha mae, que, em Coblentz em 1792, nao eram exatamente, dizem, tao severas quanto suas palavras de hoje.

Era enquanto essas grandes incertezas agitavam Mathilde que Julien nao compreendia seus longos olhares detidos sobre ele. Percebia bem um redobramento de frieza nas maneiras do conde Norbert e um novo acesso de altivez nas dos srs. de Caylus, de Luz e de Croisenois. Estava acostumado. Essa desgraca lhe acontecia algumas vezes depois de uma noite em que brilhara mais do que convinha a sua posicao. Sem o acolhimento particular que Mathilde lhe fazia e a curiosidade que todo esse conjunto lhe inspirava, teria evitado seguir ao jardim aqueles brilhantes jovens de bigodes, quando, depois do jantar, acompanhavam a srta. de La Mole.

Sim, e impossivel que eu o dissimule, dizia Julien consigo, a srta. de La Mole me olha de uma maneira singular. Mas, mesmo quando seus belos olhos azuis fixos em mim se abrem com o maior abandono, leio sempre neles um fundo de exame, sangue-frio e maldade. E possivel que isso seja amor? Que diferenca dos olhares da sra. de Renal!

Numa tarde, Julien, que seguira o sr. de La Mole ate o gabinete, voltava rapidamente ao jardim. Como se aproximava sem precaucao do grupo de Mathilde, surpreendeu algumas palavras pronunciadas muito alto. Ela atormentava o irmao. Julien ouviu seu nome pronunciado distintamente duas vezes. Apareceu; um silencio profundo estabeleceu-se de repente, e fizeram esforcos vaos para faze-lo cessar. A srta. de La Mole e o irmao estavam demasiado animados para encontrar outro assunto de conversa. Os srs. de Caylus, de Croisenois, de Luz e um de seus amigos pareceram a Julien frios como gelo. Ele se afastou.

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