Livro Segundo — Capítulo XL: A tranquilidade O Vermelho e o Negro · Capítulo 70 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XL: A tranquilidade

Livro Segundo - Capitulo XL: A tranquilidade

E porque entao eu era louco que hoje sou sabio. O filosofo que nada ves senao de instantaneo, como sao curtas as tuas vistas! Teu olho nao foi feito para seguir o trabalho subterraneo das paixoes.

SRA. GOETHE.

Essa conversa foi interrompida por um interrogatorio, seguido de uma conferencia com o advogado encarregado da defesa. Esses momentos eram os unicos absolutamente desagradaveis de uma vida cheia de incuria e de ternos devaneios.

- Ha homicidio, e homicidio com premeditacao, disse Julien ao juiz como ao advogado. Lamento, senhores, acrescentou sorrindo; mas isto reduz sua tarefa a bem pouca coisa.

Afinal, dizia consigo Julien, quando conseguiu livrar-se desses dois seres, e preciso que eu seja bravo, e aparentemente mais bravo que esses dois homens. Eles consideram como o cumulo dos males, como o rei dos espantos, esse duelo de desfecho infeliz de que eu so me ocuparei seriamente no proprio dia.

E que conheci uma infelicidade maior, continuou Julien filosofando consigo mesmo. Eu sofria de modo bem diferente durante minha primeira viagem a Estrasburgo, quando me acreditava abandonado por Mathilde... E poder dizer que desejei com tanta paixao essa intimidade perfeita que hoje me deixa tao frio!... Na verdade, sou mais feliz sozinho do que quando essa moça tao bela partilha minha solidao...

O advogado, homem de regras e formalidades, julgava-o louco e pensava com o publico que fora o ciume que lhe pusera a pistola na mao. Um dia arriscou fazer Julien entender que essa alegacao, verdadeira ou falsa, seria um excelente meio de defesa. Mas o acusado tornou-se, num piscar de olhos, um ser apaixonado e incisivo.

- Pela sua vida, senhor, exclamou Julien fora de si, lembre-se de nunca mais proferir essa mentira abominavel.

O prudente advogado teve por um instante medo de ser assassinado.

Preparava sua defesa, pois o instante decisivo se aproximava rapidamente. Besancon e todo o departamento so falavam dessa causa celebre. Julien ignorava esse detalhe; pedira que nunca lhe falassem dessas coisas.

Naquele dia, Fouque e Mathilde quiseram contar-lhe certos rumores publicos muito proprios, segundo eles, a dar esperancas; Julien os deteve desde a primeira palavra.

- Deixem-me minha vida ideal. Suas pequenas tricas, seus detalhes da vida real, mais ou menos ferinos para mim, me tirariam do ceu. Morre-se como se pode; eu nao quero pensar na morte senao a minha maneira. Que me importam os outros? Minhas relacoes com os outros vao ser cortadas bruscamente. Por favor, nao me falem mais dessa gente: ja e bastante ainda ser rebaixado a vista do juiz de instrucao e do advogado.

De fato, dizia consigo mesmo, parece que meu destino e morrer sonhando. Um ser obscuro como eu, certo de ser esquecido antes de quinze dias, seria bem tolo, e preciso confessar, se fizesse comedia...

E singular, entretanto, que eu so tenha conhecido a arte de gozar a vida desde que vejo seu fim tao perto de mim.

Passava esses ultimos dias caminhando pela estreita terraca no alto da torre, fumando excelentes charutos que Mathilde mandara buscar na Holanda por um correio, e sem suspeitar que sua aparicao era esperada todos os dias por todos os telescopios da cidade. Seu pensamento estava em Vergy. Jamais falava da sra. de Renal a Fouque, mas duas ou tres vezes esse amigo lhe disse que ela se restabelecia rapidamente, e essa palavra ressoou em seu coracao.

Enquanto a alma de Julien estava quase sempre inteira no pais das ideias, Mathilde, ocupada com as coisas reais, como convem a um coracao aristocrata, soubera fazer avancar a tal ponto a intimidade da correspondencia direta entre a sra. de Fervaques e o sr. de Frilair que a grande palavra bispado ja fora pronunciada.

O veneravel prelado encarregado da folha dos beneficios acrescentou como pos-escrito a uma carta de sua sobrinha: Esse pobre Sorel nao passa de um imprudente; espero que no-lo devolvam.

A vista dessas linhas, o sr. de Frilair ficou como fora de si. Nao duvidava de salvar Julien.

- Sem essa lei jacobina que prescreveu a formacao de uma lista inumeravel de jurados, e cujo unico objetivo real e retirar toda influencia as pessoas bem nascidas, dizia a Mathilde na vespera do sorteio dos trinta e seis jurados da sessao, eu responderia pelo veredicto. Bem fiz absolver o cura N...

Foi com prazer que, no dia seguinte, entre os nomes saídos da urna, o sr. de Frilair encontrou cinco congreganistas de Besancon e, entre os estranhos a cidade, os nomes dos srs. Valenod, de Moirod e de Cholin.

- Respondo desde ja por estes oito jurados, disse a Mathilde. Os cinco primeiros sao maquinas. Valenod e meu agente, Moirod me deve tudo, de Cholin e um imbecil que tem medo de tudo.

O jornal espalhou pelo departamento os nomes dos jurados, e a sra. de Renal, para terror inexprimivel do marido, quis vir a Besancon. Tudo o que o sr. de Renal conseguiu foi que ela nao deixaria o leito, a fim de nao ter o desgosto de ser chamada como testemunha.

- Voce nao compreende minha posicao, dizia o antigo prefeito de Verrieres; sou agora liberal da defeccao, como eles dizem; nao ha duvida de que esse patife do Valenod e o sr. de Frilair obterao facilmente do procurador-geral e dos juizes tudo o que possa ser desagradavel para mim.

A sra. de Renal cedeu sem dificuldade as ordens do marido. Se eu aparecesse no tribunal, dizia consigo, teria o ar de pedir vinganca.

Apesar de todas as promessas de prudencia feitas ao diretor de sua consciencia e ao marido, mal chegou a Besancon escreveu de propria mao a cada um dos trinta e seis jurados:

"Nao aparecerei no dia do julgamento, senhor, porque minha presenca poderia lancar desfavor sobre a causa do sr. Sorel. Nao desejo senao uma coisa no mundo, e com paixao: que ele seja salvo. Nao duvide disso; a ideia horrivel de que, por minha causa, um inocente tenha sido conduzido a morte envenenaria o resto de minha vida e sem duvida a abreviaria. Como poderiam condena-lo a morte enquanto eu vivo? Nao, sem duvida, a sociedade nao tem o direito de arrancar a vida, e sobretudo a um ser como Julien Sorel. Todos, em Verrieres, lhe conheceram momentos de extravio. Esse pobre jovem tem inimigos poderosos; mas, mesmo entre seus inimigos (e quantos nao tem!), qual e aquele que poe em duvida seus talentos admiráveis e sua ciencia profunda? Nao e um sujeito ordinario que os senhores vao julgar. Durante quase dezoito meses todos nos o conhecemos piedoso, sensato, aplicado; mas duas ou tres vezes por ano era tomado por acessos de melancolia que iam ate o desvario. Toda a cidade de Verrieres, todos os nossos vizinhos de Vergy, onde passamos a bela estacao, minha familia inteira, o senhor subprefeito ele mesmo, farao justica a sua piedade exemplar; ele sabe de cor toda a santa Biblia. Um impio teria se aplicado durante anos a aprender o livro santo? Meus filhos terao a honra de apresentar-lhe esta carta: sao criancas. Digne-se interroga-los, senhor; eles lhe darao sobre esse pobre jovem todos os detalhes que ainda fossem necessarios para convence-lo da barbaridade que haveria em condena-lo. Longe de me vingar, os senhores me dariam a morte.

"Que poderao seus inimigos opor a esse fato? A ferida, que foi o resultado de um desses momentos de loucura que meus filhos mesmos notavam em seu preceptor, e tao pouco perigosa que, depois de menos de dois meses, permitiu-me vir de posta de Verrieres a Besancon. Se eu souber, senhor, que o senhor hesitou o minimo que fosse em subtrair a barbarie das leis um ser tao pouco culpado, sairei de meu leito, onde me retêm unicamente as ordens de meu marido, e irei lancar-me a seus pes.

"Declare, senhor, que a premeditacao nao e constante, e o senhor nao tera de censurar-se pelo sangue de um inocente, etc., etc."

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