Livro Segundo — Capítulo XLIV O Vermelho e o Negro · Capítulo 74 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XLIV

Livro Segundo - Capitulo XLIV

Assim que ele saiu, Julien chorou muito, e chorou por morrer. Pouco a pouco disse consigo que, se a sra. de Renal estivesse em Besancon, teria confessado a ela sua fraqueza...

No momento em que mais lamentava a ausencia dessa mulher adorada, ouviu os passos de Mathilde.

O pior dos males na prisao, pensou, e nao poder fechar a porta. Tudo o que Mathilde lhe disse so fez irrita-lo.

Ela lhe contou que, no dia do julgamento, o sr. de Valenod, trazendo no bolso sua nomeacao de prefeito, ousara zombar do sr. de Frilair e dar-se o prazer de condena-lo a morte.

"Que ideia teve seu amigo, acaba de me dizer o sr. de Frilair, de ir despertar e atacar a pequena vaidade dessa aristocracia burguesa? Por que falar de casta? Ele lhes indicou o que deviam fazer em seu interesse politico: esses tolos nao pensavam nisso e estavam prontos a chorar. Esse interesse de casta veio mascarar aos seus olhos o horror de condenar a morte. E preciso confessar que o sr. Sorel e bem novato nos negocios. Se nao conseguirmos salva-lo pelo recurso de graca, sua morte sera uma especie de suicidio..."

Mathilde guardou-se bem de dizer a Julien aquilo de que ainda nao suspeitava: que o abade de Frilair, vendo Julien perdido, julgava util a sua ambicao aspirar a tornar-se seu sucessor.

Quase fora de si a forca de colera impotente e contrariedade:

- Va ouvir uma missa por mim, disse a Mathilde, e deixe-me um instante de paz.

Mathilde, ja muito ciumenta das visitas da sra. de Renal, e que acabava de saber de sua partida, compreendeu a causa do mau humor de Julien e desfez-se em lagrimas.

Sua dor era real, Julien via isso e ficava ainda mais irritado.

Tinha uma necessidade imperiosa de solidao, e como consegui-la?

Enfim, Mathilde, depois de tentar todos os raciocinios para enternece-lo, deixou-o so; mas quase no mesmo instante Fouque apareceu.

- Preciso ficar so, disse a esse amigo fiel...

E, como o viu hesitar:

- Estou compondo uma memoria para meu recurso de graca... alem disso... faca-me um favor, nunca me fale da morte. Se eu precisar de alguns servicos particulares naquele dia, deixe-me ser o primeiro a falar disso.

Quando Julien enfim conseguiu a solidao, achou-se mais abatido e mais covarde que antes. O pouco de forcas que restava a essa alma enfraquecida fora esgotado em disfarcar seu estado diante da senhorita de La Mole e de Fouque.

Pelo anoitecer, uma ideia o consolou:

Se esta manha, num momento em que a morte me parecia tao feia, me tivessem avisado para a execucao, o olhar do publico teria sido aguilhao de gloria; talvez meu passo tivesse algo de afetado, como o de um presumido timido que entra num salao. Algumas pessoas perspicazes, se as ha entre esses provincianos, teriam podido adivinhar minha fraqueza... mas ninguem a teria visto.

E sentiu-se livre de uma parte de sua infelicidade. Sou covarde neste momento, repetia cantando, mas ninguem sabera.

Um acontecimento quase mais desagradavel ainda o esperava para o dia seguinte. Havia muito tempo seu pai anunciava sua visita; nesse dia, antes do despertar de Julien, o velho carpinteiro de cabelos brancos apareceu em seu calabouco.

Julien sentiu-se fraco; esperava as censuras mais desagradaveis. Para completar sua sensacao penosa, nessa manha sentia vivamente o remorso de nao amar o pai.

O acaso nos colocou um perto do outro na terra, dizia consigo enquanto o chaveiro arrumava um pouco o calabouco, e fizemos um ao outro quase todo o mal possivel. Ele vem, no momento de minha morte, dar-me o ultimo golpe.

As severas censuras do velho comecaram assim que ficaram sem testemunha.

Julien nao pode conter as lagrimas. Que indigna fraqueza! disse consigo com raiva. Ele ira por toda parte exagerar minha falta de coragem; que triunfo para os Valenod e para todos os chatos hipocritas que reinam em Verrieres! Eles sao bem grandes na Franca, reunem todas as vantagens sociais. Ate aqui eu podia ao menos dizer a mim mesmo: eles recebem dinheiro, e verdade, todas as honras se acumulam sobre eles, mas eu tenho nobreza de coracao.

E eis uma testemunha que todos acreditarao, e que certificara a toda Verrieres, exagerando, que fui fraco diante da morte!

Terei sido covarde nessa prova que todos compreendem!

Julien estava perto do desespero. Nao sabia como despedir o pai. E fingir de modo a enganar esse velho tao clarividente estava, nesse momento, totalmente acima de suas forcas.

Seu espirito percorreu rapidamente todos os possiveis.

- Fiz economias! exclamou de repente.

Essa palavra de genio mudou a fisionomia do velho e a posicao de Julien.

- Como devo dispor delas? continuou Julien, mais tranquilo: o efeito produzido lhe retirara todo sentimento de inferioridade.

O velho carpinteiro ardia no desejo de nao deixar escapar esse dinheiro, do qual parecia que Julien queria deixar uma parte aos irmaos. Falou longamente e com ardor. Julien pode ser zombeteiro.

- Pois bem! o Senhor me inspirou para meu testamento. Darei mil francos a cada um de meus irmaos, e o resto ao senhor.

- Muito bem, disse o velho; esse resto me e devido; mas, ja que Deus lhe fez a graca de tocar seu coracao, se quer morrer como bom cristao, convem pagar suas dividas. Ha ainda as despesas de sua alimentacao e de sua educacao, que adiantei e nas quais voce nao pensa...

Eis, portanto, o amor de pai! repetia Julien, a alma dilacerada, quando enfim ficou so. Logo apareceu o carcereiro.

- Senhor, depois da visita dos grandes parentes, trago sempre a meus hospedes uma garrafa de bom vinho de Champagne. E um pouco caro, seis francos a garrafa, mas alegra o coracao.

- Traga tres copos, disse Julien com pressa de crianca, e faca entrar dois dos prisioneiros que ouco passear no corredor.

O carcereiro lhe trouxe dois condenados reincidentes que se preparavam para voltar as galés. Eram malfeitores muito alegres e realmente muito notaveis pela finura, coragem e sangue-frio.

- Se me der vinte francos, disse um deles a Julien, conto-lhe minha vida em detalhe. E coisa fina.

- Mas voce vai mentir para mim? disse Julien.

- Nao, respondeu ele; meu amigo aqui, que esta com ciume dos meus vinte francos, me denunciara se eu disser falso.

Sua historia era abominavel. Mostrava um coracao corajoso, onde ja nao havia senao uma paixao: a do dinheiro.

Depois da partida deles, Julien ja nao era o mesmo homem. Toda a colera contra si mesmo desaparecera. A dor atroz, envenenada pela pusilanimidade, de que era presa desde a partida da sra. de Renal, transformara-se em melancolia.

A medida que eu fosse menos enganado pelas aparencias, dizia consigo, teria visto que os saloes de Paris sao povoados por homens honestos como meu pai, ou por patifes habeis como esses condenados. Eles tem razao: nunca os homens de salao se levantam de manha com este pensamento pungente: Como jantarei? E vangloriam sua probidade! e, chamados ao juri, condenam orgulhosamente o homem que roubou um talher de prata porque se sentia desfalecer de fome!

Mas se ha uma corte, se se trata de perder ou ganhar uma pasta, meus homens honestos de salao caem em crimes exatamente iguais aos que a necessidade de jantar inspirou a esses dois condenados...

Nao ha direito natural; essa palavra e apenas uma antiga tolice bem digna do advogado-geral que me perseguiu outro dia, e cujo avo se enriqueceu com uma confiscacao de Luis XIV. Nao ha direito senao quando ha uma lei para proibir fazer tal coisa sob pena de punicao. Antes da lei, nada ha de natural senao a forca do leao, ou a necessidade do ser que tem fome, que tem frio, a necessidade, em uma palavra... Nao, as pessoas que se honram nao passam de velhacos que tiveram a felicidade de nao ser apanhados em flagrante delito. O acusador que a sociedade lanca contra mim foi enriquecido por uma infamia... Cometi um assassinato e sou justamente condenado; mas, excetuada essa unica acao, o Valenod que me condenou e cem vezes mais nocivo a sociedade.

Pois bem! acrescentou Julien tristemente, mas sem colera, apesar de sua avareza, meu pai vale mais que todos esses homens. Nunca me amou. Venho completar a medida desonrando-o por uma morte infame. Esse temor de faltar dinheiro, essa visao exagerada da maldade dos homens, que se chama avareza, faz-lhe ver um prodigioso motivo de consolacao e seguranca numa soma de trezentos ou quatrocentos luises que posso deixar-lhe. Num domingo, depois do jantar, ele mostrara seu ouro a todos os invejosos de Verrieres. A esse preco, dira seu olhar, qual de voces nao ficaria encantado de ter um filho guilhotinado?

Essa filosofia podia ser verdadeira, mas era de natureza a fazer desejar a morte. Assim se passaram cinco longos dias. Era polido e doce com Mathilde, que via exasperada pelo mais vivo ciume. Uma noite, Julien pensava seriamente em dar fim a propria vida. Sua alma estava enervada pela profunda infelicidade em que a partida da sra. de Renal o lancara. Nada mais lhe agradava, nem na vida real, nem na imaginacao. A falta de exercicio comecava a alterar sua saude e a dar-lhe o carater exaltado e fraco de um jovem estudante alemao. Perdia aquela masculina altivez que repele, por uma energica imprecação, certas ideias pouco convenientes, pelas quais a alma dos infelizes e assaltada.

Amei a verdade... Onde esta ela?... Em toda parte hipocrisia, ou ao menos charlatanismo, mesmo entre os mais virtuosos, mesmo entre os maiores; e seus labios tomaram a expressao do desgosto... Nao, o homem nao pode confiar no homem.

A sra. de *** fazendo uma coleta para seus pobres orfaos me dizia que tal principe acabava de dar dez luises; mentira. Mas que digo? Napoleao em Santa Helena!... Puro charlatanismo, proclamacao em favor do rei de Roma.

Grande Deus! se tal homem, e ainda quando a infelicidade deve chama-lo severamente ao dever, se abaixa ate o charlatanismo, que esperar do resto da especie?...

Onde esta a verdade? Na religiao... Sim, acrescentou com o sorriso amargo do mais extremo desprezo, na boca dos Maslon, dos Frilair, dos Castanede... Talvez no verdadeiro cristianismo, cujos padres nao seriam mais pagos do que foram os apostolos?... Mas Sao Paulo foi pago pelo prazer de comandar, de falar, de fazer falar de si...

Ah! se houvesse uma religiao verdadeira... Tolo que sou! vejo uma catedral gotica, vitrais veneraveis; meu coracao fraco imagina o padre desses vitrais... Minha alma o compreenderia, minha alma precisa dele... Nao encontro senao um fatuo de cabelos sujos... faltando apenas os encantos, um cavaleiro de Beauvoisis.

Mas um verdadeiro padre, um Massillon, um Fenelon... Massillon sagrou Dubois. As Memorias de Saint-Simon estragaram Fenelon para mim; mas, enfim, um verdadeiro padre... Entao, as almas ternas teriam um ponto de reuniao no mundo... Nao estariamos isolados... Esse bom padre nos falaria de Deus. Mas que Deus? Nao o da Biblia, pequeno despota cruel e cheio de sede de vinganca... mas o Deus de Voltaire, justo, bom, infinito...

Foi agitado por todas as lembrancas dessa Biblia que sabia de cor... Mas como, logo que se esteja em tres juntos, crer nesse grande nome DEUS, depois do abuso espantoso que dele fazem nossos padres?

Viver isolado!... Que tormento!...

Fico louco e injusto, disse Julien batendo na testa. Estou isolado aqui neste calabouco, mas nao vivi isolado na terra; tinha a poderosa ideia do dever. O dever que eu me prescrevera, errada ou acertadamente... foi como o tronco de uma arvore solida em que me apoiava durante a tempestade; eu vacilava, era agitado. Afinal, nao passava de um homem... mas nao era levado.

E o ar umido deste calabouco que me faz pensar no isolamento...

E por que ainda ser hipocrita ao maldizer a hipocrisia? Nao e a morte, nem o calabouco, nem o ar umido; e a ausencia da sra. de Renal que me esmaga. Se, em Verrieres, para ve-la, eu fosse obrigado a viver semanas inteiras escondido nos poroes de sua casa, acaso me queixaria?

A influencia de meus contemporaneos prevalece, disse em voz alta e com um riso amargo. Falando sozinho comigo mesmo, a dois passos da morte, ainda sou hipocrita... O seculo dezenove!

... Um cacador dispara um tiro numa floresta, sua presa cai, ele se lanca para apanha-la. Seu sapato bate num formigueiro de dois pes de altura, destroi a habitacao das formigas, semeia ao longe as formigas e seus ovos... As mais filosofas entre as formigas jamais poderao compreender esse corpo negro, imenso, terrivel: a bota do cacador, que de repente penetrou em sua morada com incrivel rapidez, precedida de um ruido espantoso e acompanhada de jatos de fogo avermelhado...

... Assim a morte, a vida, a eternidade, coisas muito simples para quem tivesse orgaos bastante vastos para concebe-las...

Uma mosca efemera nasce as nove horas da manha nos grandes dias de verao para morrer as cinco da tarde; como compreenderia ela a palavra noite?

Deem-lhe cinco horas de existencia a mais: ela ve e compreende o que e a noite.

Assim eu morrerei aos vinte e tres anos. Deem-me cinco anos de vida a mais, para viver com a sra. de Renal...

Pos-se a rir como Mefistofeles. Que loucura discutir esses grandes problemas!

1º Sou hipocrita como se houvesse alguem aqui para me escutar.

2º Esqueco de viver e de amar, quando me restam tao poucos dias para viver... Ai de mim! a sra. de Renal esta ausente; talvez o marido nao a deixe mais voltar a Besancon e continuar a se desonrar.

Eis o que me isola, e nao a ausencia de um Deus justo, todo-poderoso, nada mau, nada avido de vinganca...

Ah! se ele existisse... ai de mim! eu cairia a seus pes: Mereci a morte, dir-lhe-ia; mas, grande Deus, Deus bom, Deus indulgente, devolve-me aquela que amo!

A noite estava entao muito avancada. Depois de uma ou duas horas de sono tranquilo, chegou Fouque.

Julien sentia-se forte e resoluto como o homem que ve claro em sua alma.

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