Livro Segundo — Capítulo III: Os primeiros passos O Vermelho e o Negro · Capítulo 33 de 77
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Livro Segundo — Capítulo III: Os primeiros passos

Esse imenso vale cheio de luzes brilhantes e de tantos milhares de homens deslumbra minha vista. Nenhum deles me conhece, todos me sao superiores. Minha cabeca se perde.

Poemi dell'av. Reina.

No dia seguinte, muito cedo, Julien fazia copias de cartas na biblioteca, quando a srta. Mathilde entrou por uma pequena porta de servico, muito bem escondida por dorsos de livros. Enquanto Julien admirava essa invencao, a srta. Mathilde parecia muito espantada e bastante contrariada por encontra-lo ali. Julien achou-lhe, de papillotes, o ar duro, altivo e quase masculino. A srta. de La Mole tinha o segredo de furtar livros da biblioteca do pai sem que parecesse. A presenca de Julien tornava inutil sua saida daquela manha, o que a contrariou tanto mais porque viera buscar o segundo volume da Princesa da Babilonia, de Voltaire, digno complemento de uma educacao eminentemente monarquica e religiosa, obra-prima do Sagrado Coracao! Essa pobre moça, aos dezenove anos, ja precisava do picante do espirito para interessar-se por um romance.

O conde Norbert apareceu na biblioteca por volta das tres horas; vinha estudar um jornal para poder falar de politica a noite, e ficou muito contente por encontrar Julien, cuja existencia havia esquecido. Foi perfeito para com ele: ofereceu-lhe montar a cavalo.

- Meu pai nos da folga ate o jantar.

Julien compreendeu esse nos e o achou encantador.

- Meu Deus, senhor conde - disse Julien -, se se tratasse de abater uma arvore de oitenta pes de altura, esquadra-la e fazer dela tabuas, eu me sairia bem, ouso dizer; mas montar a cavalo, isso nao me aconteceu seis vezes na vida.

- Pois bem, esta sera a setima - disse Norbert.

No fundo, Julien lembrava-se da entrada do rei de *** em Verrieres e acreditava montar a cavalo superiormente. Mas, voltando do bosque de Boulogne, bem no meio da rua do Bac, caiu ao querer evitar bruscamente um cabriole e cobriu-se de lama. Foi sorte sua ter duas roupas. No jantar, querendo dirigir-lhe a palavra, o marques perguntou-lhe noticias do passeio; Norbert apressou-se em responder em termos gerais.

- O sr. conde e cheio de bondades para comigo - retomou Julien -, eu lhe agradeco e sinto todo o valor disso. Dignou-se mandar dar-me o cavalo mais manso e mais bonito; mas, enfim, nao podia amarrar-me a ele, e, por falta dessa precaucao, cai bem no meio daquela rua tao comprida, perto da ponte.

A srta. Mathilde tentou em vao dissimular uma gargalhada; em seguida, sua indiscricao pediu detalhes. Julien saiu-se com muita simplicidade; teve graca sem sabe-lo.

- Auguro bem desse pequeno padre - disse o marques ao academico. - Um provinciano simples em tal ocorrencia! E coisa que nunca se viu e nunca se vera; e ainda conta sua desventura diante de damas!

Julien deixou os ouvintes tao a vontade quanto a seu infortunio que, no fim do jantar, quando a conversa geral tomou outro rumo, a srta. Mathilde fazia perguntas ao irmao sobre os detalhes do acontecimento infeliz. Como suas perguntas se prolongassem, e Julien encontrasse seus olhos varias vezes, ousou responder diretamente, embora nao fosse interrogado, e os tres acabaram rindo como poderiam fazer tres jovens habitantes de uma aldeia no fundo de um bosque.

No dia seguinte, Julien assistiu a duas aulas de teologia e voltou em seguida para transcrever umas vinte cartas. Encontrou instalado perto dele, na biblioteca, um jovem vestido com muito cuidado; mas a postura era mesquinha, e a fisionomia, a da inveja.

O marques entrou.

- Que faz aqui, sr. Tanbeau? - disse ao recem-chegado, em tom severo.

- Eu pensava... - retomou o jovem, sorrindo baixamente.

- Nao, senhor, o senhor nao pensava. Isto e uma tentativa, mas e infeliz.

O jovem Tanbeau levantou-se furioso e desapareceu. Era sobrinho do academico amigo da sra. de La Mole; destinava-se as letras. O academico conseguira que o marques o tomasse por secretario. Tanbeau, que trabalhava num aposento afastado, tendo sabido do favor de que Julien era objeto, quis compartilha-lo; pela manha, viera instalar sua escrivaninha na biblioteca.

As quatro horas, Julien ousou, depois de alguma hesitacao, aparecer na casa do conde Norbert. Este ia montar a cavalo e ficou embaraçado, pois era perfeitamente polido.

- Penso - disse a Julien - que em breve o senhor ira ao picadeiro; e, depois de algumas semanas, ficarei encantado de montar a cavalo com o senhor.

- Eu queria ter a honra de agradecer-lhe as bondades que teve para comigo; creia, senhor - acrescentou Julien com ar muito serio -, que sinto tudo o que lhe devo. Se seu cavalo nao ficou ferido por causa da minha impericia de ontem, e se esta livre, eu desejaria monta-lo esta manha.

- Palavra, meu caro Sorel, por sua conta e risco. Suponha que lhe fiz todas as objecoes que a prudencia reclama; o fato e que sao quatro horas, nao temos tempo a perder.

Uma vez que esteve a cavalo:

- Que e preciso fazer para nao cair? - disse Julien ao jovem conde.

- Muitas coisas - respondeu Norbert, rindo as gargalhadas -, por exemplo, manter o corpo para tras.

Julien tomou o grande trote. Estavam na praca Luis XVI.

- Ah! jovem temerario - disse Norbert -, ha carros demais, e ainda por cima conduzidos por imprudentes! Uma vez no chao, os tilburis vao passar-lhe por cima do corpo; eles nao arriscarao estragar a boca do cavalo parando-o de repente.

Vinte vezes Norbert viu Julien a ponto de cair; mas enfim o passeio terminou sem acidente. Ao voltar, o jovem conde disse a irma:

- Apresento-lhe um ousado quebra-pescoco.

No jantar, falando ao pai de uma ponta a outra da mesa, fez justica a ousadia de Julien; era tudo o que se podia louvar em sua maneira de montar a cavalo. O jovem conde ouvira, de manha, os homens que tratavam dos cavalos no patio tomarem a queda de Julien como pretexto para zombar dele ultrajosamente.

Apesar de tanta bondade, Julien logo se sentiu perfeitamente isolado no meio dessa familia. Todos os usos lhe pareciam singulares, e faltava a todos. Suas gafes faziam a alegria dos criados de quarto.

O abade Pirard partira para sua paroquia. Se Julien e um fraco junco, que pereca; se e um homem de coracao, que se arranje sozinho, pensava ele.

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