Livro Primeiro — Capítulo XXII: Modos de agir em 1830 O Vermelho e o Negro · Capítulo 22 de 77
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Livro Primeiro — Capítulo XXII: Modos de agir em 1830

A palavra foi dada ao homem para esconder seu pensamento.

R. P. Mamagrida.

Mal chegou a Verrieres, Julien censurou a si mesmo sua injustica para com a sra. de Renal. Eu a teria desprezado como uma mulherzinha se, por fraqueza, ela tivesse falhado em sua cena com o sr. de Renal! Ela se sai como um diplomata, e eu simpatizo com o vencido, que e meu inimigo. Ha em meu caso pequenez burguesa; minha vaidade esta ferida porque o sr. de Renal e um homem! Ilustre e vasta corporacao a que tenho a honra de pertencer: sou apenas um tolo.

O sr. Chelan recusara as moradias que os liberais mais considerados da regiao lhe haviam oferecido a porfia quando sua destituicao o expulsou do presbiterio. Os dois quartos que alugara estavam atravancados por seus livros. Julien, querendo mostrar a Verrieres o que era um padre, foi buscar na casa do pai uma duzia de pranchas de pinho, que ele mesmo carregou nas costas por toda a grande rua. Emprestou ferramentas de um antigo camarada e logo construiu uma especie de estante, na qual arrumou os livros do sr. Chelan.

-- Eu te julgava corrompido pela vaidade do mundo -- dizia-lhe o velho, chorando de alegria. -- Isto resgata muito bem a criancice daquele brilhante uniforme de guarda de honra que te fez tantos inimigos.

O sr. de Renal ordenara a Julien que se alojasse em sua casa. Ninguem suspeitou do que se passara. No terceiro dia depois de sua chegada, Julien viu subir ate seu quarto uma personagem nada menor que o sr. subprefeito de Maugiron. So depois de duas longas horas de conversa insipida e de grandes jeremiadas sobre a maldade dos homens, sobre a pouca probidade das pessoas encarregadas da administracao dos dinheiros publicos, sobre os perigos desta pobre Franca, etc., etc., Julien viu enfim despontar o assunto da visita. Ja estavam no patamar da escada, e o pobre preceptor meio desgraçado reconduzia com o respeito conveniente o futuro prefeito de algum feliz departamento, quando aprouve a este ocupar-se da fortuna de Julien, louvar sua moderacao em assuntos de interesse, etc., etc. Enfim, o sr. de Maugiron, apertando-o nos bracos com o ar mais paternal, propos-lhe deixar o sr. de Renal e entrar na casa de um funcionario que tinha filhos a educar e que, como o rei Filipe, agradeceria ao ceu nao tanto por lhos ter dado quanto por tê-los feito nascer na vizinhanca do sr. Julien. O preceptor gozaria de oitocentos francos de vencimentos, pagos nao de mes em mes, o que nao e nobre, disse o sr. de Maugiron, mas por trimestre, e sempre adiantado.

Era a vez de Julien, que havia uma hora e meia esperava a palavra com tedio. Sua resposta foi perfeita, e sobretudo longa como uma pastoral; deixava tudo entender e, entretanto, nada dizia claramente. Nela se teriam encontrado ao mesmo tempo respeito pelo sr. de Renal, veneracao pelo publico de Verrieres e reconhecimento pelo ilustre subprefeito. Esse subprefeito, espantado de encontrar alguem mais jesuita do que ele, tentou em vao obter algo de preciso. Julien, encantado, aproveitou a ocasiao para se exercitar e recomecou sua resposta em outros termos. Jamais ministro eloquente, querendo gastar o fim de uma sessao em que a Camara parece querer despertar, disse menos em mais palavras. Mal o sr. de Maugiron saiu, Julien se pos a rir como louco. Para aproveitar sua verve jesuitica, escreveu uma carta de nove paginas ao sr. de Renal, na qual lhe dava conta de tudo o que lhe haviam dito e lhe pedia humildemente conselho. Esse patife, contudo, nao me disse o nome da pessoa que faz a oferta! Deve ser o sr. Valenod, que ve no meu exilio em Verrieres o efeito de sua carta anonima.

Despachada sua missiva, Julien, contente como um cacador que, as seis da manha, num belo dia de outono, desemboca numa planicie abundante em caca, saiu para pedir conselho ao sr. Chelan. Mas, antes de chegar a casa do bom cura, o ceu, que queria proporcionar-lhe prazeres, lancou sob seus passos o sr. Valenod, a quem ele nao escondeu que tinha o coracao dilacerado; um pobre rapaz como ele devia-se por inteiro a vocacao que o ceu pusera em seu coracao, mas a vocacao nao era tudo neste baixo mundo. Para trabalhar dignamente na vinha do Senhor e nao ser inteiramente indigno de tantos sabios colaboradores, era preciso instrucao; era preciso passar dois anos no seminario de Besancon, anos muito dispendiosos; tornava-se, portanto, indispensavel, e podia-se dizer que era de certo modo um dever, fazer economias, o que era muito mais facil com um vencimento de oitocentos francos pagos por trimestre do que com seiscentos francos que se consumiam de mes em mes. Por outro lado, o ceu, colocando-o junto dos jovens de Renal e, sobretudo, inspirando-lhe por eles um apego especial, nao parecia indicar-lhe que nao convinha abandonar essa educacao por outra?...

Julien atingiu tal grau de perfeicao nesse genero de eloquencia que substituiu a rapidez de acao do Imperio, que acabou por entediar a si mesmo com o som de suas palavras.

Ao voltar, encontrou um criado do sr. Valenod, em grande libré, que o procurava por toda a cidade com um bilhete de convite para jantar naquele mesmo dia.

Julien jamais fora a casa desse homem; poucos dias antes, so pensava nos meios de lhe dar uma surra de pauladas sem arranjar para si um caso na policia correcional. Embora o jantar estivesse marcado apenas para uma hora, Julien achou mais respeitoso apresentar-se desde meio-dia e meia no gabinete de trabalho do sr. diretor do deposito. Encontrou-o exibindo sua importancia no meio de uma multidao de pastas. Suas grossas costeletas negras, a enorme quantidade de cabelos, o gorro grego colocado de lado no alto da cabeca, o cachimbo imenso, as pantufas bordadas, as grossas correntes de ouro cruzadas em todos os sentidos sobre o peito e todo esse aparato de financista de provincia que se acredita homem de conquistas nao impunham respeito algum a Julien; ele pensava ainda mais nas pauladas que lhe devia.

Pediu a honra de ser apresentado a sra. Valenod; ela estava em sua toalete e nao podia recebe-lo. Em compensacao, teve a vantagem de assistir a do sr. diretor do deposito. Passaram depois a casa da sra. Valenod, que lhe apresentou os filhos com lagrimas nos olhos. Essa dama, uma das mais consideraveis de Verrieres, tinha um rosto grosso de homem, no qual pusera ruge para a grande cerimonia. Desdobrou ali todo o patetico maternal.

Julien pensava na sra. de Renal. Sua desconfianca quase so o deixava suscetivel a esse genero de lembrancas chamadas pelos contrastes, mas entao era tomado por elas ate a ternura. Essa disposicao foi aumentada pelo aspecto da casa do diretor do deposito. Fizeram-no visita-la. Tudo ali era magnifico e novo, e diziam-lhe o preco de cada movel. Mas Julien encontrava em tudo alguma coisa ignobil, cheirando a dinheiro roubado. Ate os criados, todos pareciam garantir a propria postura contra o desprezo.

O coletor das contribuicoes, o funcionario dos impostos indiretos, o oficial da gendarmaria e dois ou tres outros funcionarios publicos chegaram com suas mulheres. Foram seguidos de alguns liberais ricos. Anunciou-se o jantar. Julien, ja muito mal disposto, veio a pensar que do outro lado da parede da sala de jantar se encontravam pobres detentos, de cuja porcao de carne talvez se tivesse surrupiado algo para comprar todo aquele luxo de mau gosto com que queriam aturdi-lo.

Talvez estejam com fome neste momento, disse consigo; sua garganta se apertou, tornou-se-lhe impossivel comer e quase falar. Foi bem pior um quarto de hora depois, ao ouvir, de longe em longe, alguns acentos de uma cancao popular e, e preciso confessar, um pouco ignobil, que um dos reclusos cantava. O sr. Valenod olhou para um de seus homens em grande libré; este desapareceu, e logo nao se ouviu mais cantar. Nesse momento, um criado oferecia a Julien vinho do Reno, num copo verde, e a sra. Valenod cuidava de lhe observar que aquele vinho custava nove francos a garrafa, no lugar. Julien, segurando o copo verde, disse ao sr. Valenod:

-- Ja nao se canta aquela vil canção.

-- Por Deus! Creio bem -- respondeu o diretor triunfante. -- Mandei impor silencio aos miseraveis.

A palavra foi forte demais para Julien; ele tinha as maneiras, mas ainda nao o coracao de sua condicao. Apesar de toda a hipocrisia tantas vezes exercida, sentiu uma grossa lagrima correr-lhe pela face.

Tentou esconde-la com o copo verde, mas lhe foi absolutamente impossivel fazer honra ao vinho do Reno. Impedir que cante!, dizia consigo. Oh, meu Deus! E tu o toleras.

Por felicidade, ninguem notou sua comoção de mau tom. O coletor das contribuicoes entoara uma cancao realista. Durante o alarido do refrao, cantado em coro: Eis entao, dizia a consciencia de Julien, a fortuna suja a que chegaras, e so a gozara sob essa condicao e em semelhante companhia! Teras talvez um cargo de vinte mil francos, mas sera preciso que, enquanto te empanturras de carnes, impeças o pobre prisioneiro de cantar; daras jantares com o dinheiro que teras roubado de sua miseravel pitança, e durante teu jantar ele sera ainda mais infeliz! Oh, Napoleao! Como era doce, em teu tempo, subir a fortuna pelos perigos de uma batalha; mas aumentar covardemente a dor do miseravel!

Confesso que a fraqueza de que Julien da prova nesse monologo me da uma pobre opiniao dele. Seria digno de ser colega desses conspiradores de luvas amarelas que pretendem mudar todo o modo de ser de um grande pais e nao querem ter de se censurar o menor arranhao.

Julien foi violentamente chamado de volta a seu papel. Nao fora convidado a jantar em tao boa companhia para sonhar e nada dizer.

Um fabricante de tecidos estampados aposentado, membro correspondente da academia de Besancon e da de Uzes, dirigiu-lhe a palavra de uma ponta a outra da mesa para perguntar se era verdade o que geralmente se dizia de seus progressos espantosos no estudo do Novo Testamento.

Um profundo silencio se estabeleceu de repente; um Novo Testamento latino apareceu como por encanto nas maos do sabio membro de duas academias. A resposta de Julien, uma meia frase latina foi lida ao acaso. Ele recitou: sua memoria mostrou-se fiel, e esse prodigio foi admirado com toda a energia ruidosa do fim de um jantar. Julien olhava o rosto iluminado das damas; varias nao eram feias. Distinguira a mulher do coletor, belo cantor.

-- Tenho vergonha, em verdade, de falar tanto tempo latim diante destas senhoras -- disse, olhando para ela. -- Se o sr. Rubigneau, era esse o membro das duas academias, tiver a bondade de ler ao acaso uma frase latina, em vez de responder seguindo o texto latino, tentarei traduzi-la de improviso.

Essa segunda prova levou sua gloria ao cumulo.

Havia ali varios liberais ricos, mas felizes pais de filhos suscetiveis de obter bolsas, e, nessa qualidade, subitamente convertidos desde a ultima missao. Apesar desse traco de fina politica, o sr. de Renal jamais quisera recebe-los em sua casa. Esses bravos homens, que so conheciam Julien de reputacao e por tê-lo visto a cavalo no dia da entrada do rei de ***, eram seus admiradores mais barulhentos. Quando esses tolos se cansarao de escutar esse estilo biblico, do qual nada entendem?, pensava ele. Mas, ao contrario, esse estilo os divertia por sua estranheza; riam dele. Mas Julien se cansou.

Levantou-se gravemente quando soaram seis horas e falou de um capitulo da nova teologia de Ligorio que tinha de aprender para recitar no dia seguinte ao sr. Chelan. Pois meu oficio, acrescentou agradavelmente, e fazer recitar licoes e recita-las eu mesmo.

Riram muito, admiraram; tal e o espirito de uso em Verrieres. Julien ja estava de pe; todos se levantaram apesar do decoro; tal e o imperio do genio. A sra. Valenod ainda o reteve por um quarto de hora: era preciso que ele ouvisse os filhos recitarem o catecismo. Fizeram as mais engraçadas confusoes, das quais so ele se percebeu. Guardou-se bem de corrigi-las. Que ignorancia dos primeiros principios da religiao!, pensava. Enfim saudava e acreditava poder escapar, mas foi preciso suportar uma fabula de La Fontaine.

-- Esse autor e muito imoral -- disse Julien a sra. Valenod. -- Certa fabula sobre o mestre Jean Chouart ousa derramar o ridiculo sobre o que ha de mais veneravel. E vivamente censurado pelos melhores comentadores.

Julien recebeu, antes de sair, quatro ou cinco convites para jantar. Esse jovem honra o departamento!, exclamavam ao mesmo tempo os convivas muito animados. Chegaram a falar de uma pensao votada pelos fundos comunais para coloca-lo em condicoes de continuar os estudos em Paris.

Enquanto essa ideia imprudente fazia ressoar a sala de jantar, Julien ganhara com ligeireza o portao. Ah! Canalha! Canalha!, exclamou em voz baixa tres ou quatro vezes seguidas, dando-se o prazer de respirar o ar fresco.

Sentia-se inteiramente aristocrata naquele momento, ele que por muito tempo fora tao ferido pelo sorriso desdenhoso e pela superioridade altiva que descobria no fundo de todas as polidezes que lhe dirigiam na casa do sr. de Renal. Nao pode deixar de sentir a extrema diferenca. Esqueçamos mesmo, dizia consigo ao partir, que se trata de dinheiro roubado aos pobres detentos e ainda que se impede que cantem! Alguma vez o sr. de Renal teve a ideia de dizer a seus hospedes o preco de cada garrafa de vinho que lhes apresenta? E esse sr. Valenod, na enumeracao de suas propriedades, a que volta sem cessar, nao pode falar de sua casa, de sua propriedade, etc., se a mulher esta presente, sem dizer tua casa, tua propriedade.

Essa dama, aparentemente tao sensivel ao prazer da propriedade, acabara de fazer uma cena abominavel, durante o jantar, a um criado que quebrara uma taca e desfalcara uma de suas duzias; e esse criado respondera com a ultima insolencia.

Que conjunto!, dizia Julien. Ainda que me dessem metade de tudo o que roubam, eu nao quereria viver com eles. Um belo dia eu me trairia; nao poderia reter a expressao do desprezo que me inspiram.

Foi preciso, contudo, segundo as ordens da sra. de Renal, assistir a varios jantares do mesmo genero. Julien ficou na moda; perdoavam-lhe o uniforme de guarda de honra, ou antes, essa imprudencia era a verdadeira causa de seus sucessos. Logo, em Verrieres, so se falava em ver quem levaria a melhor na luta para obter o jovem sabio: o sr. de Renal ou o diretor do deposito. Esses senhores formavam com o sr. Maslon um triunvirato que, havia varios anos, tiranizava a cidade. Invejavam o prefeito, os liberais tinham queixas contra ele; mas afinal era nobre e feito para a superioridade, ao passo que o pai do sr. Valenod nao lhe deixara seiscentas libras de renda. Fora preciso passar, em relacao a ele, da piedade pelo mau casaco verde-maca que todos lhe haviam conhecido na juventude para a inveja por seus cavalos normandos, suas correntes de ouro, suas roupas vindas de Paris, toda a sua prosperidade atual.

No fluxo desse mundo novo para Julien, ele acreditou descobrir um homem honesto; era geometra, chamava-se Gros e passava por jacobino. Julien, tendo se consagrado a nunca dizer senao coisas que lhe parecessem falsas a si mesmo, foi obrigado a ficar apenas na suspeita em relacao ao sr. Gros. Recebia de Vergy grandes pacotes de temas. Aconselhavam-no a ver com frequencia o pai; conformava-se a essa triste necessidade. Em uma palavra, remendava bastante bem sua reputacao, quando certa manha ficou muito surpreso ao sentir-se acordado por duas maos que lhe fechavam os olhos.

Era a sra. de Renal, que fizera uma viagem a cidade e, subindo as escadas de quatro em quatro, deixando os filhos ocupados com um coelho favorito que viera na viagem, chegara ao quarto de Julien um instante antes deles. Esse momento foi delicioso, mas muito curto: a sra. de Renal havia desaparecido quando as criancas chegaram com o coelho que queriam mostrar ao amigo. Julien acolheu bem a todos, ate o coelho. Parecia-lhe reencontrar a familia; sentiu que amava aquelas criancas, que se comprazia em tagarelar com elas. Espantava-se com a docura da voz delas, com a simplicidade e a nobreza de seus pequenos modos; precisava lavar sua imaginacao de todos os modos de agir vulgares, de todos os pensamentos desagradaveis em meio aos quais respirava em Verrieres. Era sempre o medo de faltar, eram sempre o luxo e a miseria agarrando-se pelos cabelos. As pessoas em cuja casa jantava faziam, a proposito do assado, confidencias humilhantes para elas e nauseantes para quem as ouvia.

-- Vós, os nobres, tendes razao de ser orgulhosos -- dizia a sra. de Renal.

E lhe contava todos os jantares que suportara.

-- Entao o senhor esta na moda!

E ela ria de bom coracao, pensando no ruge que a sra. Valenod se julgava obrigada a por sempre que esperava Julien. Creio que ela tem projetos sobre o vosso coracao, acrescentava.

O almoco foi delicioso. A presenca das criancas, embora incomoda em aparencia, na realidade aumentava a felicidade comum. Aquelas pobres criancas nao sabiam como testemunhar a alegria de rever Julien. Os criados nao deixaram de lhes contar que lhe ofereciam duzentos francos a mais para educar os pequenos Valenod.

No meio do almoco, Stanislas-Xavier, ainda palido de sua grande doenca, perguntou de repente a mae quanto valiam seu talher de prata e a taça em que bebia.

-- Por que isso?

-- Quero vende-los para dar o preco ao sr. Julien, para que ele nao seja logrado ficando conosco.

Julien o beijou com lagrimas nos olhos. A mae chorava completamente, enquanto Julien, que tomara Stanislas nos joelhos, lhe explicava que nao se devia usar a palavra logrado, que, empregada naquele sentido, era uma maneira de falar de lacaios. Vendo o prazer que dava a sra. de Renal, procurou explicar por exemplos pitorescos, que divertiam as criancas, o que era ser logrado.

-- Entendo -- disse Stanislas --, e o corvo que tem a tolice de deixar cair o queijo, que a raposa, que era aduladora, pega.

A sra. de Renal, louca de alegria, cobria os filhos de beijos, o que dificilmente se podia fazer sem se apoiar um pouco em Julien.

De repente a porta se abriu: era o sr. de Renal. Seu rosto severo e descontente fez estranho contraste com a doce alegria que sua presenca expulsava. A sra. de Renal empalideceu; sentia-se incapaz de negar qualquer coisa. Julien tomou a palavra e, falando muito alto, pos-se a contar ao sr. prefeito o caso da taça de prata que Stanislas queria vender. Estava certo de que essa historia seria mal acolhida. Primeiro, o sr. de Renal franzia o cenho por bom habito ao simples nome de dinheiro. A mencao desse metal, dizia ele, e sempre o prefacio de alguma ordem sacada contra minha bolsa.

Mas aqui havia mais que interesse de dinheiro; havia aumento de suspeitas. O ar de felicidade que animava sua familia em sua ausencia nao era feito para arranjar as coisas junto de um homem dominado por vaidade tao suscetivel. Quando a mulher lhe elogiava a maneira cheia de graca e espirito com que Julien dava ideias novas aos alunos:

-- Sim! Sim! Eu sei, ele me torna odioso a meus filhos; e bem facil para ele ser cem vezes mais amavel com eles que eu, que, no fundo, sou o senhor. Tudo neste seculo tende a tornar odiosa a autoridade legitima. Pobre Franca!

A sra. de Renal nao se deteve a examinar as nuances da acolhida que lhe fazia o marido. Acabara de entrever a possibilidade de passar doze horas com Julien. Tinha uma multidao de compras a fazer na cidade e declarou que queria absolutamente ir jantar na hospedaria; dissesse ou fizesse o que quisesse o marido, manteve sua ideia. As criancas estavam encantadas com aquela unica palavra, hospedaria, que a pudicicia moderna pronuncia com tanto prazer.

O sr. de Renal deixou a mulher na primeira loja de novidades em que ela entrou, para ir fazer algumas visitas. Voltou mais sombrio que de manha; estava convencido de que toda a cidade se ocupava dele e de Julien. Na verdade, ninguem ainda lhe deixara suspeitar a parte ofensiva dos comentarios publicos. Os que repetiram ao sr. prefeito tinham por tema apenas saber se Julien ficaria em sua casa com seiscentos francos ou aceitaria os oitocentos oferecidos pelo sr. diretor do deposito.

Esse diretor, que encontrou o sr. de Renal na sociedade, tratou-o com frieza. Essa conduta nao era sem habilidade; ha pouca leviandade na provincia: as sensacoes sao tao raras que se vai ao fundo delas.

O sr. Valenod era o que se chama, a cem leguas de Paris, um janota; e uma especie de natural atrevido e grosseiro. Sua existencia triunfante desde 1815 reforcara suas belas disposicoes. Reinava, por assim dizer, em Verrieres, sob as ordens do sr. de Renal, mas muito mais ativo, sem corar de nada, metendo-se em tudo, indo sem cessar, escrevendo, falando, esquecendo as humilhacoes, sem pretensao pessoal alguma; acabara por equilibrar o credito do prefeito aos olhos do poder eclesiastico. O sr. Valenod dissera de certo modo aos merceeiros da regiao: dai-me os dois mais tolos dentre vós; aos homens da lei: indicai-me os dois mais ignorantes; aos oficiais de saude: designai-me os dois mais charlataes. Quando reunira os mais descarados de cada oficio, dissera-lhes: reinemos juntos.

As maneiras dessa gente feriam o sr. de Renal. A grosseria de Valenod nao se ofendia com nada, nem mesmo com os desmentidos que o pequeno abade Maslon nao lhe poupava em publico.

Mas, no meio dessa prosperidade, o sr. Valenod precisava tranquilizar-se por pequenas insolencias de detalhe contra as grandes verdades que sentia muito bem que todos tinham direito de lhe dirigir. Sua atividade redobrara desde os temores deixados pela visita do sr. Appert; fizera tres viagens a Besancon; escrevia varias cartas a cada correio; enviava outras por desconhecidos que passavam por sua casa ao cair da noite. Talvez tivesse errado ao fazer destituir o velho cura Chelan, pois esse procedimento vingativo o fizera ser visto por varias devotas de bom nascimento como um homem profundamente mau. Alem disso, esse servico prestado o colocara na dependencia absoluta do sr. grande vigario de Frilair, de quem recebia estranhas incumbencias. Sua politica estava nesse ponto quando cedeu ao prazer de escrever uma carta anonima. Para cumulo de embaraço, a mulher declarou que queria ter Julien em casa; sua vaidade se apegara a isso.

Nessa posicao, o sr. Valenod previa uma cena decisiva com seu antigo confederado, o sr. de Renal. Este lhe dirigiria palavras duras, o que lhe era bastante indiferente; mas podia escrever a Besancon e ate a Paris. Um primo de algum ministro podia cair de repente em Verrieres e tomar o deposito de mendicidade. O sr. Valenod pensou em aproximar-se dos liberais: foi por isso que varios foram convidados ao jantar em que Julien recitou. Teria sido poderosamente sustentado contra o prefeito. Mas eleicoes podiam sobrevir, e era evidente demais que o deposito e um mau voto eram incompativeis. O relato dessa politica, muito bem adivinhada pela sra. de Renal, fora feito a Julien enquanto ele lhe dava o braco para ir de uma loja a outra, e pouco a pouco os levara ao Cours de la Fidelite, onde passaram varias horas quase tao tranquilos quanto em Vergy.

Enquanto isso, o sr. Valenod tentava afastar uma cena decisiva com seu antigo patrono, tomando ele mesmo o ar audacioso diante dele. Naquele dia, esse sistema teve exito, mas aumentou o mau humor do prefeito.

Jamais a vaidade as voltas com tudo o que o pequeno amor ao dinheiro pode ter de mais acre e mesquinho puseram um homem em estado mais lamentavel do que aquele em que se encontrava o sr. de Renal ao entrar na hospedaria. Jamais, ao contrario, seus filhos tinham estado mais alegres e mais vivos. Esse contraste acabou de pica-lo.

-- Sou demais em minha familia, pelo que posso ver! -- disse ao entrar, num tom que quis tornar imponente.

Como unica resposta, a mulher o tomou a parte e lhe expressou a necessidade de afastar Julien. As horas de felicidade que acabara de encontrar lhe haviam devolvido a facilidade e a firmeza necessarias para seguir o plano de conduta que meditava havia quinze dias. O que acabava de perturbar de alto a baixo o pobre prefeito de Verrieres era saber que se brincava publicamente na cidade sobre seu apego a especie. O sr. Valenod era generoso como um ladrao, e ele se conduzira de maneira mais prudente que brilhante nas cinco ou dez ultimas coletas para a confraria de Sao Jose, para a congregacao da Virgem, para a congregacao do Santissimo Sacramento, etc., etc., etc.

Entre os fidalgotes de Verrieres e dos arredores, habilmente classificados no registro dos irmaos coletores segundo o montante de suas oferendas, vira-se mais de uma vez o nome do sr. de Renal ocupar a ultima linha. Em vao dizia que ele nao ganhava nada. O clero nao brinca nesse artigo.

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