Livro Segundo — Capítulo XXXII: O tigre
Livro Segundo - Capitulo XXXII: O tigre
Ai de mim! Por que estas coisas e nao outras?
BEAUMARCHAIS.
Um viajante ingles conta a intimidade em que vivia com um tigre; havia-o criado e o acariciava, mas sempre mantinha sobre a mesa uma pistola carregada.
Julien so se abandonava ao excesso de sua felicidade nos instantes em que Mathilde nao podia ler-lhe a expressao nos olhos. Cumpria com exatidao o dever de lhe dizer de tempos em tempos alguma palavra dura.
Quando a docura de Mathilde, que observava com espanto, e o excesso de seu devotamento estavam a ponto de lhe tirar todo dominio sobre si mesmo, tinha a coragem de deixa-la bruscamente.
Pela primeira vez, Mathilde amou.
A vida, que sempre se arrastara para ela a passos de tartaruga, agora voava.
Como era preciso, entretanto, que o orgulho se abrisse caminho de alguma forma, ela queria expor-se com temeridade a todos os perigos que seu amor podia faze-la correr.
Era Julien quem tinha prudencia, e somente quando se tratava de perigo ela nao cedia a sua vontade; mas, submissa e quase humilde com ele, mostrava ainda mais altivez para com tudo o que, na casa, se aproximava dela: parentes ou criados.
A noite, no salao, no meio de sessenta pessoas, chamava Julien para lhe falar em particular e longamente.
O pequeno Tanbeau, instalando-se certo dia ao lado deles, foi por ela encarregado de ir buscar na biblioteca o volume de Smollett onde se encontra a revolucao de 1682; e, como ele hesitasse:
- Nada o apresse, acrescentou ela, com uma expressao de insultante altivez que foi um balsamo para a alma de Julien.
- Notou o olhar desse pequeno monstro? disse-lhe ele.
- O tio dele tem dez ou doze anos de servico neste salao; sem isso eu o faria expulsar neste instante.
Sua conduta para com os srs. de Croisenois, de Luz, etc., perfeitamente polida na forma, nao era muito menos provocante no fundo. Mathilde censurava-se vivamente todas as confidencias feitas outrora a Julien, e tanto mais porque nao ousava confessar-lhe que exagerara as marcas de interesse quase inteiramente inocentes de que esses senhores haviam sido objeto.
Apesar das mais belas resolucoes, seu orgulho de mulher a impedia todos os dias de dizer a Julien:
- Era porque eu falava com voce que encontrava prazer em descrever a fraqueza que eu tinha de nao retirar minha mao quando o sr. de Croisenois, pondo a dele sobre uma mesa de marmore, vinha roça-la um pouco.
Hoje, mal um desses senhores lhe falava por alguns instantes, ela se via com uma pergunta a fazer a Julien, e isso era um pretexto para rete-lo perto dela.
Descobriu-se gravida e comunicou-o com alegria a Julien.
- Agora duvidara de mim? Nao e isso uma garantia? Sou sua esposa para sempre.
Esse anuncio causou em Julien um espanto profundo. Esteve a ponto de esquecer o principio de sua conduta. Como ser voluntariamente frio e ofensivo com essa pobre jovem que se perde por mim? Se ela tinha o ar um pouco sofrido, mesmo nos dias em que a sabedoria fazia ouvir sua voz terrivel, ele ja nao encontrava coragem para lhe dirigir uma daquelas palavras crueis tao indispensaveis, segundo sua experiencia, a duracao do amor dela.
- Quero escrever a meu pai, disse-lhe um dia Mathilde; ele e mais que um pai para mim, e um amigo: como tal, eu acharia indigno de voce e de mim tentar engana-lo, ainda que por um instante.
- Grande Deus! Que vai fazer? disse Julien, assustado.
- Meu dever, respondeu ela com os olhos brilhantes de alegria.
Achava-se mais magnanima que o amante.
- Mas ele me expulsara com ignominia!
- E direito dele; e preciso respeita-lo. Eu lhe darei o braco e sairemos pela porta cochere, em pleno meio-dia.
Julien, espantado, pediu-lhe que adiasse uma semana.
- Nao posso, respondeu ela; a honra fala, vi o dever, e preciso segui-lo, e imediatamente.
- Pois bem! eu lhe ordeno adiar, disse enfim Julien. Sua honra esta resguardada, sou seu esposo. Nossa situacao, a de nos dois, sera mudada por esse passo capital. Tambem estou no meu direito. Hoje e terca-feira; terca-feira proxima e o dia do duque de Retz; a noite, quando o sr. de La Mole voltar, o porteiro lhe entregara a carta fatal... Ele so pensa em faze-la duquesa, tenho certeza; julgue a dor dele!
- Quer dizer: julgue sua vinganca?
- Posso ter piedade de meu benfeitor, ficar dilacerado por prejudica-lo; mas nao temo e jamais temerei ninguem.
Mathilde submeteu-se. Desde que anunciara seu novo estado a Julien, era a primeira vez que ele lhe falava com autoridade; nunca o amara tanto. Era com felicidade que a parte terna de sua alma aproveitava o pretexto do estado em que Mathilde se encontrava para dispensar-se de lhe dirigir palavras crueis. A confissao ao sr. de La Mole o agitou profundamente. Seria separado de Mathilde? E por mais dor que ela sentisse ao ve-lo partir, um mes depois de sua partida pensaria nele?
Tinha horror quase igual aos justos censuras que o marques podia lhe dirigir.
A noite, confessou a Mathilde esse segundo motivo de tristeza e, em seguida, extraviado pelo amor, confessou o primeiro.
Ela mudou de cor.
- Realmente, disse-lhe, seis meses passados longe de mim seriam uma infelicidade para voce?
- Imensa, a unica no mundo que vejo com terror.
Mathilde ficou muito feliz. Julien seguira seu papel com tanta aplicacao que conseguira faze-la pensar que ela era, dos dois, quem tinha mais amor.
A terca-feira fatal chegou muito depressa. A meia-noite, ao voltar, o marques encontrou uma carta com o endereco necessario para que ele mesmo a abrisse, e somente quando estivesse sem testemunhas.
“Meu pai,
”Todos os laços sociais estao rompidos entre nos; restam apenas os da natureza. Depois de meu marido, o senhor e e sera sempre o ser que me sera mais caro. Meus olhos se enchem de lagrimas; penso na dor que lhe causo; mas, para que minha vergonha nao seja publica, para lhe deixar tempo de deliberar e agir, nao pude adiar por mais tempo a confissao que lhe devo. Se sua amizade, que sei ser extrema por mim, quiser conceder-me uma pequena pensao, irei estabelecer-me onde o senhor quiser, na Suica, por exemplo, com meu marido. Seu nome e tao obscuro que ninguem reconhecera sua filha na senhora Sorel, nora de um carpinteiro de Verrieres. Eis esse nome que me fez tanta pena escrever. Temo por Julien sua colera, tao justa em aparencia. Nao serei duquesa, meu pai; mas eu sabia disso ao ama-lo, pois fui eu quem o amou primeiro, fui eu quem o seduziu. Tenho do senhor e de nossos antepassados uma alma elevada demais para deter minha atencao no que e, ou me parece, vulgar. Em vao, com a intencao de agradar-lhe, pensei no sr. de Croisenois. Por que colocou o verdadeiro merito diante de meus olhos? O senhor mesmo me disse, ao meu retorno de Hyeres: esse jovem Sorel e o unico ser que me diverte; o pobre rapaz esta tao aflito quanto eu, se e possivel, pela dor que esta carta lhe causa. Nao posso impedir que o senhor se irrite como pai; mas ame-me sempre como amigo.
”Julien me respeitava. Se as vezes me falava, era unicamente por causa de sua profunda gratidao pelo senhor; pois a altivez natural de seu carater o leva a responder sempre apenas oficialmente a tudo o que esta tao acima dele. Tem um sentimento vivo e inato da diferenca das posicoes sociais. Fui eu, confesso, corando, ao meu melhor amigo, e jamais semelhante confissao sera feita a outro; fui eu quem, um dia no jardim, apertou-lhe o braco.
”Depois de vinte e quatro horas, por que o senhor se irritaria contra ele? Minha falta e irreparavel. Se o exigir, sera por mim que passarao as segurancas de seu profundo respeito e de seu desespero por desagradar-lhe. O senhor nunca o vera, mas irei juntar-me a ele onde ele quiser. E seu direito, e meu dever; ele e o pai de meu filho. Se sua bondade quiser nos conceder seis mil francos para viver, eu os receberei com gratidao; senao, Julien conta estabelecer-se em Besancon, onde comecara o oficio de professor de latim e literatura. Por mais baixo que seja o grau de onde parte, tenho certeza de que se elevara. Com ele nao temo a obscuridade. Se houver revolucao, estou certa de que ele tera um primeiro papel. Poderia dizer o mesmo de algum daqueles que pediram minha mao? Tem belas terras! Nao posso encontrar somente nessa circunstancia uma razao para admirar. Meu Julien alcancaria uma alta posicao mesmo sob o regime atual, se tivesse um milhao e a protecao de meu pai...”
Mathilde, que sabia que o marques era um homem todo de primeiro impulso, escrevera oito paginas.
Que fazer? dizia Julien consigo, passeando a meia-noite no jardim enquanto o sr. de La Mole lia essa carta; onde esta 1º meu dever, 2º meu interesse? O que devo a ele e imenso: sem ele eu teria sido um velhaco subalterno, e nao bastante velhaco para nao ser odiado e perseguido pelos outros. Ele fez de mim um homem do mundo. Minhas velhacarias necessarias serao 1º mais raras, 2º menos ignobeis. Isso e mais que se ele me tivesse dado um milhao. Devo-lhe esta cruz e a aparencia de servicos diplomaticos que me tiram do par.
Se ele segurasse a pena para prescrever minha conduta, que escreveria?...
Julien foi bruscamente interrompido pelo velho criado de quarto do sr. de La Mole.
- O marques o chama neste instante, vestido ou nao vestido.
O criado acrescentou em voz baixa, caminhando ao lado de Julien:
- O senhor marques esta fora de si; tome cuidado.