Livro Segundo — Capítulo XLV O Vermelho e o Negro · Capítulo 75 de 77
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Livro Segundo — Capítulo XLV

Livro Segundo - Capitulo XLV

- Nao quero pregar ao pobre abade Chas-Bernard a peca de manda-lo chamar, disse ele a Fouque; ele ficaria tres dias sem jantar. Mas trata de me encontrar um jansenista, amigo do sr. Pirard e inacessivel a intriga.

Fouque esperava essa abertura com impaciencia. Julien cumpriu com decencia tudo quanto se deve a opiniao, na provincia. Gracas ao sr. abade de Frilair, e apesar da ma escolha de seu confessor, Julien era, em seu calabouco, o protegido da congregacao; com mais habilidade de conduta, teria podido escapar. Mas o ar mau do calabouco produzia seu efeito: sua razao diminuia. Ele so foi mais feliz por isso, quando voltou a sra. de Renal.

- Meu primeiro dever e para contigo, disse-lhe ela, abracando-o; fugi de Verrieres...

Julien nao tinha pequeno amor-proprio diante dela; contou-lhe todas as suas fraquezas. Ela foi boa e encantadora para ele.

Naquela noite, mal saiu da prisao, ela mandou vir a casa de sua tia o padre que se prendera a Julien como a uma presa. Como ele so queria ganhar credito junto das jovens mulheres da alta sociedade de Besancon, a sra. de Renal o convenceu facilmente a ir fazer uma novena na abadia de Bray-le-Haut.

Nenhuma palavra pode exprimir o excesso e a loucura do amor de Julien.

A forca de ouro, e usando e abusando do credito de sua tia, devota celebre e rica, a sra. de Renal obteve ve-lo duas vezes por dia.

Com essa noticia, o ciume de Mathilde exaltou-se ate o desvario. O sr. de Frilair lhe confessara que todo o seu credito nao chegava a desafiar todas as conveniencias ao ponto de permitir-lhe ver seu amigo mais de uma vez por dia. Mathilde mandou seguir a sra. de Renal para conhecer seus menores passos. O sr. de Frilair esgotava todos os recursos de um espirito muito habil para provar-lhe que Julien era indigno dela.

No meio de todos esses tormentos, ela so o amava mais e, quase todos os dias, fazia-lhe uma cena horrivel.

Julien queria a todo custo ser homem honesto ate o fim para com essa pobre jovem que comprometera tao estranhamente; mas, a cada instante, o amor desenfreado que tinha pela sra. de Renal vencia. Quando, por mas razoes, nao conseguia persuadir Mathilde da inocencia das visitas de sua rival, dizia consigo: Daqui por diante, o fim do drama deve estar bem proximo; isso me desculpa se nao sei dissimular melhor.

A senhorita de La Mole soube da morte do marques de Croisenois. O sr. de Thaler, aquele homem tao rico, permitira-se comentarios desagradaveis sobre o desaparecimento de Mathilde.

O sr. de Croisenois foi pedir-lhe que os desmentisse: o sr. de Thaler mostrou-lhe cartas anonimas que lhe haviam sido enviadas, cheias de detalhes aproximados com tanta arte que foi impossivel ao pobre marques deixar de entrever a verdade.

O sr. de Thaler permitiu-se zombarias sem finura. Ebrio de colera e de desventura, o sr. de Croisenois exigiu reparacoes tao fortes que o milionario preferiu um duelo. A tolice triunfou, e um dos homens de Paris mais dignos de serem amados encontrou a morte com menos de vinte e quatro anos.

Essa morte causou uma impressao estranha e doentia na alma enfraquecida de Julien.

- O pobre Croisenois, dizia ele a Mathilde, foi realmente muito razoavel e muito honesto para conosco; deveria ter-me odiado por causa de vossas imprudencias no salao de madame vossa mae, e procurar-me disputa; pois o odio que sucede ao desprezo e, ordinariamente, furioso...

A morte do sr. de Croisenois mudou todas as ideias de Julien sobre o futuro de Mathilde. Empregou varios dias em provar-lhe que ela devia aceitar a mao do sr. de Luz. E um homem timido, nao excessivamente jesuita, dizia-lhe, e sem duvida vai apresentar-se. De ambicao mais sombria e mais constante que a do pobre Croisenois, e sem ducado em sua familia, nao fara dificuldade alguma em desposar a viuva de Julien Sorel.

- E uma viuva que despreza as grandes paixoes, respondeu friamente Mathilde; pois viveu bastante para ver, depois de seis meses, seu amante preferir-lhe outra mulher, e uma mulher origem de todas as suas desventuras.

- Sois injusta; as visitas da sra. de Renal fornecerao frases singulares ao advogado de Paris encarregado do meu recurso de graca; ele pintara o assassino honrado pelos cuidados de sua vitima. Isso pode produzir efeito e, talvez, um dia, me vereis assunto de algum melodrama, etc., etc.

Um ciume furioso e impossivel de vingar, a continuidade de uma desventura sem esperanca, pois, mesmo supondo Julien salvo, como reconquistar seu coracao?, a vergonha e a dor de amar mais que nunca esse amante infiel tinham mergulhado a senhorita de La Mole num silencio sombrio, do qual nem os cuidados solícitos do sr. de Frilair, nem a rude franqueza de Fouque, podiam faze-la sair.

Quanto a Julien, exceto nos momentos usurpados pela presenca de Mathilde, vivia de amor e quase sem pensar no futuro. Por um estranho efeito dessa paixao, quando e extrema e sem fingimento algum, a sra. de Renal compartilhava quase sua despreocupacao e sua doce alegria.

- Outrora, dizia-lhe Julien, quando eu poderia ter sido tao feliz durante nossos passeios nos bosques de Vergy, uma ambicao fogosa arrastava minha alma para paises imaginarios. Em vez de apertar contra meu coracao este braco encantador que estava tao perto dos meus labios, o futuro me arrancava de ti; eu estava nos inumeraveis combates que teria de sustentar para construir uma fortuna colossal... Nao, eu teria morrido sem conhecer a felicidade se nao tivesses vindo ver-me nesta prisao.

Dois acontecimentos vieram perturbar essa vida tranquila. O confessor de Julien, por mais jansenista que fosse, nao ficou ao abrigo de uma intriga de jesuitas e, sem o saber, tornou-se instrumento deles.

Veio dizer-lhe um dia que, a menos de cair no horrivel pecado do suicidio, ele devia fazer todos os passos possiveis para obter sua graca. Ora, tendo o clero muita influencia no Ministerio da Justica em Paris, apresentava-se um meio facil: era preciso converter-se com brilho...

- Com brilho! repetiu Julien. Ah! pego-vos nisso, tambem vos, meu padre, representando a comedia como um missionario...

- Vossa idade, retomou gravemente o jansenista, a figura interessante que recebestes da Providencia, o proprio motivo de vosso crime, que permanece inexplicavel, os passos heroicos que a senhorita de La Mole prodigaliza em vosso favor, tudo, enfim, ate a surpreendente amizade que vossa vitima mostra por vos, tudo contribuiu para fazer de vos o heroi das jovens mulheres de Besancon. Elas esqueceram tudo por vos, ate a politica...

Vossa conversao ressoaria em seus coracoes e deixaria ali uma impressao profunda. Podeis ser de utilidade maior para a religiao, e eu hesitaria pela razao frivola de que os jesuitas seguiriam o mesmo caminho em semelhante ocasiao! Assim, mesmo neste caso particular que escapa a sua rapacidade, eles ainda prejudicariam! Que nao seja assim... As lagrimas que vossa conversao fara derramar anulam o efeito corrosivo de dez edicoes das obras impias de Voltaire.

- E que me restara, respondeu friamente Julien, se eu me desprezar a mim mesmo? Fui ambicioso, nao quero censurar-me; entao, agi segundo as conveniencias do tempo. Agora vivo dia a dia. Mas, pelo que vejo, eu me tornaria muito infeliz se me entregasse a alguma covardia...

O outro incidente, que foi bem mais sensivel a Julien, veio da sra. de Renal. Nao sei que amiga intrigante conseguira persuadir essa alma ingenua e tao timida de que era seu dever partir para Saint-Cloud e ir lancar-se aos joelhos do rei Carlos X.

Ela fizera o sacrificio de separar-se de Julien; e depois de tal esforco, o desagrado de se dar em espetaculo, que em outros tempos lhe teria parecido pior que a morte, ja nao era nada aos seus olhos.

- Irei ao rei, confessarei em voz alta que tu es meu amante; a vida de um homem, e de um homem como Julien, deve prevalecer sobre todas as consideracoes. Direi que foi por ciume que atentaste contra minha vida. Ha numerosos exemplos de pobres jovens salvos nesse caso pela humanidade do juri ou pela do rei...

- Deixo de ver-te, mando fechar-te minha prisao, exclamou Julien, e certamente no dia seguinte me mato de desespero se nao me jurares nao dar nenhum passo que nos entregue, a nos dois, em espetaculo ao publico. Essa ideia de ir a Paris nao e tua. Dize-me o nome da intrigante que a sugeriu...

Sejamos felizes durante o pequeno numero de dias desta vida curta. Escondamos nossa existencia; meu crime ja e evidente demais. A senhorita de La Mole tem todo o credito em Paris; acredita que ela faz o que e humanamente possivel. Aqui na provincia, tenho contra mim todos os ricos e considerados. Teu passo irritaria ainda mais esses homens ricos e, sobretudo, moderados, para quem a vida e coisa tao facil... Nao preparemos motivo de riso para os Maslon, os Valenod e mil pessoas que valem mais.

O ar mau do calabouco tornava-se insuportavel a Julien. Por felicidade, no dia em que lhe anunciaram que era preciso morrer, um belo sol alegrava a natureza, e Julien estava em disposicao de coragem. Caminhar ao ar livre foi para ele uma sensacao deliciosa, como o passeio em terra para o navegador que por muito tempo esteve no mar. Vamos, tudo vai bem, disse consigo, nao me falta firmeza.

Jamais aquela cabeca fora tao poetica quanto no momento em que ia cair. Os mais doces momentos que outrora encontrara nos bosques de Vergy pintavam-se em massa em seu pensamento e com extrema energia.

Tudo se passou simplesmente, convenientemente, e de sua parte sem nenhuma afetacao.

Na vespera da vespera, dissera a Fouque:

- Quanto a emocao, nao posso responder por ela; este calabouco tao feio, tao umido, da-me momentos de febre em que nao me reconheco; mas medo, nao: nao me verao empalidecer.

Tomara de antemao suas providencias para que, na manha do ultimo dia, Fouque levasse Mathilde e a sra. de Renal.

- Leva-as na mesma carruagem, dissera-lhe. Arranja-te para que os cavalos de posta nao deixem o galope. Elas cairao nos bracos uma da outra, ou demonstrarao uma a outra um odio mortal. Nos dois casos, as pobres mulheres ficarao um pouco distraidas de sua horrivel dor.

Julien exigira da sra. de Renal o juramento de que ela viveria para cuidar do filho de Mathilde.

- Quem sabe? talvez ainda tenhamos sensacoes depois da morte, dizia ele um dia a Fouque. Eu gostaria bastante de repousar, se repousar e a palavra, naquela pequena gruta da grande montanha que domina Verrieres. Muitas vezes te contei: retirado a noite nessa gruta, e minha vista mergulhando ao longe sobre as mais ricas provincias da Franca, a ambicao inflamou meu coracao; entao, era essa a minha paixao... Enfim, essa gruta me e cara, e nao se pode negar que esteja situada de modo a fazer inveja a alma de um filosofo... Pois bem! esses bons congregacionistas de Besancon fazem dinheiro de tudo; se souberes agir, eles te venderao meus despojos mortais...

Fouque teve exito nessa triste negociacao. Passava a noite sozinho em seu quarto, junto ao corpo do amigo, quando, para sua grande surpresa, viu entrar Mathilde. Poucas horas antes, deixara-a a dez leguas de Besancon. Ela tinha o olhar e os olhos tresloucados.

- Quero ve-lo, disse-lhe ela.

Fouque nao teve coragem de falar nem de se levantar. Apontou-lhe com o dedo um grande manto azul sobre o assoalho; ali estava envolvido o que restava de Julien.

Ela caiu de joelhos. A lembranca de Boniface de La Mole e de Margarida de Navarra deu-lhe sem duvida uma coragem sobre-humana. Suas maos tremulas abriram o manto. Fouque desviou os olhos.

Ouviu Mathilde caminhar apressadamente pelo quarto. Ela acendia varias velas. Quando Fouque teve forca para olha-la, ela colocara sobre uma pequena mesa de marmore, diante de si, a cabeca de Julien, e beijava-lhe a fronte...

Mathilde seguiu seu amante ate o tumulo que ele escolhera. Grande numero de padres escoltava o esquife e, sem que ninguem soubesse, sozinha em sua carruagem drapeada, ela levou sobre os joelhos a cabeca do homem que tanto amara.

Chegados assim ao ponto mais elevado de uma das altas montanhas do Jura, no meio da noite, naquela pequena gruta magnificamente iluminada por um numero infinito de cirios, vinte padres celebraram o oficio dos mortos. Todos os habitantes dos pequenos povoados de montanha atravessados pelo cortejo o haviam seguido, atraidos pela singularidade daquela estranha cerimonia.

Mathilde apareceu no meio deles em longas vestes de luto e, ao fim do oficio, fez-lhes jogar varios milhares de moedas de cinco francos.

Ficando sozinha com Fouque, quis sepultar com as proprias maos a cabeca de seu amante. Fouque quase enlouqueceu de dor.

Pelos cuidados de Mathilde, essa gruta selvagem foi ornada de marmores esculpidos a grande custo, na Italia.

A sra. de Renal foi fiel a sua promessa. Nao procurou de maneira alguma atentar contra a propria vida; mas, tres dias depois de Julien, morreu abracando seus filhos.

FIM.

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