Carta II
MINHA MARIA. Queixas-te de que enviuvaste, ficando com poucos haveres e quatro filhas moças, educadas para a cidade e que te vês obrigada a confinar, por economia, dentro da tua velha fazenda do Remanso, a que adicionaste o sitio ainda mais velho da Tapera, agora herdado de teu pai. Acho que estás muito bem. E' com certeza por modéstia que te lamentas da escassez de meios, tendo a rodear-te quatro cabeças inteligentes, oito braços fortes e á tua disposição não sei quantos quilômetros de terras, planas umas, montanhosas outras e todas localizadas a não muito grande distancia da estrada de ferro. A tua vida nova interessa-me muito para que eu perca, e te faça a ti perder tempo, rei alarido te o que vi de maravilhoso e de banal nas terras estrangeiras onde meu filho permanece I I completando estudos da sua especialidade. O principal é que voltámos, meu marido e eu, com excelente saúde. Entremos agora no teu assunto : Vejo que as tuas filhas te preocupam, estiolando-se nesse clima magnífico pela mórbida cultura de saudades dos nossos saráus e das nossas avenidas... Antes cultivassem batatas, filha. Para que se não indignem, faze-lhes notar que esta opinião nada tem de ofensiva. As batatas nacionais, sobretudo as que no nosso mercado têm a denominação de — batatas rim — são incomparavelmente superiores a quaisquer das outras estrangeiras que importamos de França ou de Portugal, da Nova Zelândia ou do Chile. Por mim afirmo-te que os meus fornecedores têm ordem de não proverem com outras a minha despensa, anão ser quando elas em absoluto nos faltem na praça, o que é freqüente. E por que faltam? porque são cultivadas em pequena quantidade e todas se esgotam mal aparecem no mercado. Dizem que as batatas nacionais se estragam mais depressa do que as estrangeiras, porque os seus cultivadores ainda não as sabem resguardar convenientemente na sua remoção do campo para as cidades, nem procuram conserval-as em celeiro das estações de fartura para as de penúria. Não sei, nunca indaguei nada a tal i a CORREIO I>A ROÇA respeito; mas presto-te um serviço chamando para esse assunto a tua atenção e lembrandote que. se incumbisses uma das tuas filhas de estudar e fazer pôr em pratica sob a sua administração essa espécie de cultura nas terras abandonadas da Tapera, essa das tuas filhas não teria tempo de se estiolar, como uma monja num convento, com idéas inúteis, e pouco a pouco se interessaria pelo sitio em que vive e que a sua atividade tornará cada vez mais lindo e mais prospero. Assim, em vez de acoroçoar a melancolia das tuas pequenas, suspirando por alegrias extintas e assinando-lhes jornais de modas que elas não podem seguir nessas paragens benignas, assina de preferencia revistas agrícolas, instrutivas, alegres, que lhes dêem noções aproveitáveis de industrias campestres e as induzam a um trabalho propicio e benéfico em favor da sua linda propriedade, esse frondoso — Remanso — em que as águas cantam entre as lages brancas, as aves* voam em revoadas e os altos pinheiros nodosos estrelam de verde negro a limpidez azul do espaço imenso. Acredita que o campo brazileiro será eternamente triste, se a mulher educada que o habita não se interessar pela sua fartura, a sua poesia, dando ao pessoal inculto que a rodeia exemplos de carinho, de atividade, de amor á natureza l 3 levando-o assim na esteira da sua inteligência para um futuro melhor. As tuas quatro filhas, educadas no colégio de Sion só com destino ás salas ou ás sacristias, vêem-se dentro das grossas paredes desse velho casarão do Remanso, como freiras em um convento (expressão tua), em que apenas é permitida a entrada do folhetim-romance e nada mais. E' pouco. Estudam ainda o seu piano, bordam, ajudam-te nos misteres caseiros, revezam-se na confeção de doces e de biscoitos e suspiram pela rua do Ouvidor, que mal chegaram a gozar, entre a saída do colégio e a morte do papai. E tu consentes que tal programa de vida se realize, tu, que na plena maturação dos teus belos quarenta anos e em pleno gozo das tuas faculdades mentais, te lastimas de possuir muitas terras incultas e apenas o dinheiro suficiente para as manter,.. Mas, minha tontinha, escuta: já não digo para fazeres fortuna, porque não tenho pratica que me autorize a certos conselhos, ou antes ponderações: mas para higiene dessas queridas alminhas que te rodeiam tudo te indica a obrigação de mudar de tática. Impõe a cada uma das tuas filhas uma tarefa diferente, que a agite, que a obrigue a andar ao sol, ao vento, á chuva ; observa que elas entrem para o seu trabalho com o corpo e a alma; que tenham os seus l 4 CORRKIO HA ROÇA livros de assentos l>cin organizados, que saibam dirigir com energia e bondade os empregados que puzeres á sua disposição — e verás como no fim de alguns mezes se acendem rosas de saúde nas suas faces e como nas planícies da Tapera, agora cobertas de sapé e barba de bode, florirão alegremente os vastos campos dos cereais... Ainda ha bem poucos dias li uma noticia interessante a respeito da criação de galinhas c o negocio de ovos numa das mais alpestres regiões da Rússia, onde os meios de transporte para os mercados são ainda mais penosos do que os nossos. O lucro que a exportação de aves e ovos dá a essa localidade, antes miserável e agora florecente e risonha, é verdadeiramente fenomenal! Graças aos patos, marrecos, galinhas e perus e ás centenas de dúzias de ovos remetidos para Londres, esse recanto ignorado da santa Rússia, em que o abandono e a ignorância isolavam os seus raros habitantes em casinholas disseminadas de pedra rústica, se transmudou numa vila asseada, com escolas, com estradas de comunicação fácil, com as doçuras do conforto e da alegria. E tudo isso foi feito pelo influxo de um só espirito, o de um homem, alemão ou suisso, já não me lembro bem. Obriga as tuas filhas a lerem os jornais todos l 5 os dias, sem desprezo por certas noticias que se não relacionem com o nosso meio e perceberás que terão muito a lucrar com isso. Essa historia da criação das aves poderia entreter uma outra das tuas filhas, e entrctel-a com segurança de bom êxito. Sem ser proprietária rural, só pelo mero capricho da curiosidade, assino uma revista brazileira — « Chácaras e Quintaes » — que me dá algumas informações preciosas, as quaes, se aceitares o meu plano, te irei transmitindo nas minhas cartas, a pouco e pouco. E agora ainda te direi que para estimular o animo das tuas filhas não será máu teceres com elas planos de futuro, baseados nos lucros das suas novas culturas, feitas pouco a pouco, com a prudência dos que não dispõem de grandes capitais. Lembra a uma que as sacas das suas batatas poderão fazer-vos um dia construir um palácio no Flamengo, e a outra que as suas galinhas proporcionar-lhe-ão o prazer de freqüentar diariamente e de carro as grandes avenidas cariocas... A ambição do dinheiro é a manivela que, inconcientemente ou concientemente, nos faz dansar a todos; aproveita essa circumstancia em favor da outra, a de veres tuas filhas interessadas pelo progresso e a redemção das terras abandonadas em que vivem e pela civilizal 6 CORRF.IO PA ROÇA çâo dessa gente do povo que lhes rodeia a fazenda e que vegeta mais do que vive, sem proveito nem gloria para o Brazil nem para si, Espana as teias de aranha do cérebro das tuas filhas, obriga-as suavemente a amarem o campo, a natureza e o trabalho, e assim verás que dentro de poucos anos tanto o Remanso como a Tapera estarão ligados á estação da estrada de ferro do povoado por belos caminhos que os vossos automóveis de carga e de passeio transporão com rapidez, facilitando-vos o comercio com os grandes centros do paiz. E prevejo tudo isto porque sei de que milagres é capaz a inteligência e a energia das mulheres obrigadas a atuarem por si. Responde-me. Eu abraço-te. FERNANDA.