Carta XXXVI Correio da Roça · Capítulo 35 de 54
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Carta XXXVI

MINHA FERNANDA. Chegou emfim o dia de ir ver as proezas da Tapera e posso afirmar-te que a impressão que esta visita me causou é completamente oposta àquela que te comuniquei na primeira vez que lá fui. Como as terras dessa fazendola (que é a bem dizer uma dependência do Remanso), por imprestáveis ou por cansaço não produzissem café de modo a compensar o trabalho e o tempo que se consumissem com a sua cultura, ficou resolvido que as meninas as aproveitassem como quizessem, começando por fazer nelas uma grande plantação de batatas, segundo o teu franco e salutar conselho. Concedi-lhes aquele prazo de terreno com o fito de estimular-lhes o gosto pelos trabalhos agrícolas e ainda mais com o propósito de as distrair, mas sem nenhuma esperança de ver realizado ali qualquer progresso, antes preparando-me para um prejuízo quasi certo. Era uma cartada. Como 8. i38 poderia eu dar responsabilidades ás minhas filhas sem correr os perigos eventuais da sua inexperiência ? E como poderiam elas assumir essas responsabilidades sem liberdade de ação ? Não me arrependo. Estou certa de que ha muita gente moça por ahi, imprestável pela falta do apoio moral que anima as iniciativas. Dei inteira liberdade de ação ás minhas filhas; fil-as ver quais os recursos materiais com que podiam contar. Eu não lhes daria nem mais um vintém fora da verba que nessa ocasião puz ás suas ordens para inicio dos trabalhos. Elas aceitaram o pacto com o ar alegre de quem empreende uma aventura inédita ! O amor da novidade sempre seduziu os espíritos moços, embora não deixe de tentar também aqueles que da mocidade já não têm senão a saudade... Pedi ás minhas filhas que me não consultassem. Fizessem o que entendessem. Pediram-me elas em resposta que eu não tornasse a ir á Tapera a não ser no dia em que elas me convidassem para isso. Cedi. Combinaram então que em cada dia da semana fosse uma delas observar os novos trabalhos e verificar o seu andamento. Como vês, não foi preciso irmos a nenhum cartório, nem gastar dinheiro com o tabelião ; fizemos e cumprimos os nossos tratos maravilhosamente. E assim se passou mais de um ano sem que a menor indiscreção por l3g parte do seu entusiasmo ou da minha curiosidade alterasse o nosso convênio. Foi um grande sacrifício para mim, essa forçada abstenção de uma parte da minha fazenda, mas nunca o dei a perceber a ninguém. Que diacho, o Remanso só por si é bastante grande e não me faltou nele com que entreter a minha atividade ! O interior da casa, para cujo serviço não podemos contar com a criadagem saída da colônia, sempre rústica e mal disposta, absorviame todo o tempo fora daquele em que diariamente inspecionava a minha lavoura e os meus animais. Porque, nota : quer chova ou faça sol, não ha dia em que esta tua amiga, á hora em que tu lês os teus romances russos ou passeias pelas avenidas, não vá dar uma volta pelos cafesais, entrando, de caminho, na oficina do Salustiano, na casa da maquina, na lavanderia, etc. Ao principio, julguei morrer de cansaço. A tarefa era superior ás minhas forças. Pouco a pouco, porém, veio-me o habito, e hoje, se por qualquer motivo deixo de executar o meu programa, o dia parece-me de quarenta e oito horas! Além das minhas preocupações de lavradora e dona de casa, distraía-me também, e muito intensamente, a — escola ao ar livre — mantida pelas minhas filhas. Não houve nem l4 ha dia nenhum em que eu não apareça nessa escola, ao menos por uns dez minutos. Interessa-me extraordinariamente acompanhar os progressos dos italianinhos da colônia, que vão adquirindo rápidos conhecimentos da lingua portuguesa, tornando-se, assim, sem esforço, verdadeiramente nacionais. Explicada a minha desatenção pela Tapera, volto a relatar-te o caso desta manhã. Quando hontem, á noite, fui para a cama, encontrei em cima do meu travesseiro um grande envelope e nele uma carta de convite, assinada pelas minhas filhas, para um almoço, hoje, na Tapera! Embora casada, Cecilia não deixou de associarse ás irmãs. O seu nome era o primeiro, pela ordem natural das idades. Estremeci, lias de crer ? Eu estava ainda longe de esperar pela realização de tal idéa. Que teriam elas feito '.' Que haveria de novo nessas velhas terras, ainda ha um ano devastadas pelo sapé e a tiririca '.' Toda a tristeza desse lugar, mal feitorizado por um casal negligente de caboclos, voltou ao meu espirito, preocupando-o até á hora em que adormeci de cansada. Não sei se já te falei alguma vez de um pequeno muito esperto, neto desse morrinbento casal de velhos e que, trazido para o Remanso, tem revelado uma atividade e uma inteligência prodigiosas. Ao mesmo tempo que aprende l 4 l na eseola das Jabotícabeiras, é também aprendiz de carpinteiro, e sempre tão serviçal e tão alegre, que todos aqui lhe querem bem. Ele demonstra que é infundada a prevenção que geralmente temos com a gente da sua raça. Pobres caboclos, eles têm atrás do seu passado vastas gerações de ignorantes ! Aproveitados desde os tenros anos, bem guiados, bem nutridos, revelam uma elasticidade física e uma capacidade de trabalho verdadeiramente admiráveis. Quizeram as meninas que esse rapazinho nos acompanhasse hoje ao almoço da Tapera, para onde partimos ás 7 horas da manhã. Vinte e cinco minutos depois, o nosso troly penetrava no velho sitio de meus avós, remoçado agora pelos cuidados e a dedicação de minhas filhas. Mal transposta a divisa com o Remanso, vi ladeando o largo carreadouro por onde iamos, todo marginado por arvores frutíferas ainda jovens, bem estacadas, bem limpas, reluzindo de alegria nas suas folhas novas; extensos campos cobertos pelas ramas já amarelecidas das batatas. Adiante, no estreito riacho das pedras, onde o troly antigamente decia aos solavancos, havia agora uma pontesinha rústica, mas solida, refrescada nas extremidades por duas tousseiras de bambus, que a cobrirão em breve com um arco de verdura, servindo de 1^1 abrigo ás lavadeiras nas quentes manhãs de verão. Passada esta ponte, deparei com um novo caminho, á esquerda, ladeado por laranjeiras, ainda pequenas, cortando a estrada em cruz, e seguindo por entre batatais maduros até o sopé de uma colina arienta, coberta agora por um vinhedo novo. Eu não falava. Tinha um nó na garganta. Minhas filhas não me interrogavam, percebendo a minha comoção... Mais outra volta de caminho e vi-me em frente da velha e tosca moradia antiga, ha um ano ainda esburacada c suja e agora toda branquinha na sua vestimenta de cal nova, com as janelas abertas, os seus humbrais azuis muito alegres, e no patamar da varandinhade páu, a minha Cecilia e o meu genro, sorrindo alegremente, á minha espera. Terias resistido? Eu não. Chorei. Chorei como uma criança. Não sei como um coração esgotado pelo tempo ainda pôde destilar tal abundância de lagrimas! — Como se fez o milagre ? perguntei eu logo que pude falar. As meninas entreolharam-se. Foi meu genro quem falou. O milagre tinha-se feito pela fé no trabalho e pelo influxo do meu exemplo e dos teus conselhos. O milagre tinha-se feito, porque a terra brazileira não nega a quem a ame o que se lhe pedir. Ele fora testemunha dos esforços de minhas filhas. COHREIO DA ROÇA l43 Por sua vez elas apresentaram-me um italiano raivo, homem ativo e inteligente, casado com uma linda mulher e pai de meia dúzia de rapazinhos, e que é o feitor da Tapera. Quebrado o encanto, falavam agora todas ao mesmo tempo. A Tapera era um verdadeiro campo de experiências. Nunca ali faltaria o milho, nem o feijão, nem o gostoso mangarito, nem a mandioca, nem plantas forrageiras para o gado. Seria o canto da fartura, que dá saúde e alegria ! A mesa estava posta para o almoço, em que as batatas figuraram cozidas, com manteiga; fritas, com presunto; cobertas com ovos; em eroquettes, em salada, em bolos e em pudins! E eu comi de tudo e ainda no fim estava leve e contente. A caseira trouxe, á sobremesa, um delicioso requeijão feito por ela e um vaso de mel de abelhas, de colmeias mantidas por ela também, entre as figueiras do pomar. Tenho observado, nestes dois anos de campo, que a figueira é uma arvore a que nós ligamos pouca importância, e que é de fácil cultura e muito produtiva. Ha na Tapera para cima de quinhentas figueiras, que as meninas destinam ao comercio das frutas secas. Clara fundará, para isso, uma oficina na escola, para a fabricação de caixas de papelão, que serão feitas l44 pelos alumnos mais geitosos e mais adiantados. Findo o almoço, fomos vér o moinho, que a Joanninha enfeitou de heras e tinhorões,

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