Carta XXXVII
MARIA. Preparava-me eu hontem para o meu passeio das 5 horas, quando meu marido mandou chamar-me ao seu escritório. Tive um sobresalto. Apesar de toda a minha filosofia e sobretudo de toda a lucidez do meu espirito, que em todas as circumstancias vê mais ou menos as coisas como elas são, supuz tratar-se de algum caso grave. Pareceu-me mesmo notar uma certa palidez na face estúpida da criada que me trouxe o recado. A primeira idéa que me assaltou o espirito foi a de um desastre em meu filho, que anda agora pela Suécia estudando a organização das escolas e patinando furiosamente nos duros gelos daquele paiz. A impressão foi tão forte, apesar de absurda, que me fez cair das mãos o chapéu que exatamente nesse instante eu ia pôr na cabeça. Corri e galguei com tamanha precipitação os três degraus do escritório de meu marido, que ele volveu para mim um olhar espantado e inquieto. l46 — O telegrama. Eu quero vôr o telegrama... onde está?... que lhe sucoedeu? perguntei, aflita. « — Que telegrama, filha ? eu não tenho telegrama nenhum... Não compreendo a tua agitação... senta-te, explica-te. Que ha? » Não me sentei. Mesmo de pé, já um tanto vexada, contei-lhe o pensamento que me passara pela cabeça. Ele riu-se, concluindo um tanto desdenhosamente : — afinal és uma mulher como todas as outras... Percebi toda a vida que meu marido gostaria muito que eu tivesse um pouco menos de imaginação ; mas essa vontade é talvez a única que eu nunca lhe pude fazer ! Refeita do meu susto, sem o auxilio da água de flor de laranjeira com assucar, sentei-me e indaguei qual o motivo por que ele me mandara chamar. Ele explicou, revolvendo a papelada que sobe em pilhas quasi até o teto, de cada lado da sua secretária, que por me vêr tão interessada na organização da tua vida, queria mo strar-me uma pagina de certa revista, com que ele estava muito de acordo, sobre colonização estrangeira no Brazil. Após uns cinco minutos de procura por cima, por dentro, por baixo de pastas, e por entre os jornais es oarsos do terrível caus que l4? é essa secretária em que não me é dado sequer pôr as pontas dos dedos, ele sacou do fundo de uma gaveta um folheto cõr de rosa, em cuja capa li o nome da revista: Itália e Brazil. Já tranqüila, estendi a mão para o faciculo côr de rosa, como se em vez de agricultura ele me viesse falar de poesia e de musica, e mergulhei-me no marroquim verde do divan, disposta a lêl-o de uma assentada. E li, e ahi tio mando marcado a lápis nos seus tópicos principais. Receando, porém, o extravio do meu folheto no correio, o que infelizmente é agora freqüente, sempre te apontarei nesta carta, apressadamente e resumidamente, alguns parágrafos do relatório em questão. Diz meu marido que tenho a mania epistolar e que só eu gasto mais tinta na minha pequena secretária Luiz XV do que todo o pessoal de todas as secretarias publicas reunidas do Rio de Janeiro. O exagero deste senhor filosofo é tanto mais clamoroso, quanto ele sabe que a bem dizer eu não entretenho correspondência senão com vocês; em todo caso, para lhe dar um laivo de razão, alongarei esta carta, entretendo-te sobre o assunto da revista em questão. Como verás, trata-se do resumo de um relatório do Instituto Colonial de S. Paulo, muito interessado,* naturalmente, pela felicil48 dade do colono nestas terras da America. O relator, o engenheiro Sr. Eduardo Losehi, pergunta : — « é possível melhorar as condições dos colonos nas fazendas ? » A esta pergunta ele mesmo responde: — E' E passa, depois de varias considerações, a enumerar as condições imprescindíveis para a atração e estabilidade dos colonos europeus no interior c nos sertões do Brazil. A primeira de todas é, já se vê, a higiene. Devendo, para isso, ser as casas dos colonos construídas de modo que o ar e a luz penetrem nelas abundantemente, ao mesmo tempo que, pelo bom funcionamento das suas portas e janelas, possam resguardar os seus habitantes das intempéries. A água potável é um dos principais elementos de saúde de qualquer localidade. Haverá sempre cuidado em fornecer á colônia de qualquer fazenda água tão boa quanto possível ? Nem sempre... e, entretanto, não c obra dedispendio excessivo um reservatório cavado cm logar alto, na própria terra, sendo a parede de remate construída de pedra e areia grossa, para servir de filtro natural ás impurezas da água. Os córregos e os rios que atravessam as propriedades agrícolas onde não haja nacentes puras, não podem oferecer, a quem neles se desaltere, promessas de saúde e tranqüilidade. l4g Depois da habitação c da água, vem o parágrafo da assistência sanitária. Seria bom que em todas as colônias houvesse uma pequena farmácia em que não faltassem nunca os desinfetantes, algodão e gazes fenicadas, serum contra mordeduras de cobras, etc, a par de medicamentos internos mais comuns. Sempre que um grupo de fazendas unidas conte mais de dois mil colonos deverá esse grupo manter um medico de partido. E o Estado completaria essa obra de interesse particular, fundando no município agrícola de maior importância um grande estabelecimento em que se reunissem um orfanato, para recolher e instruir as crianças pobres da colônia ás quais faltassem os pais; um hospital para curar os doentes que tenham perdido a saúde no serviço das fazendas, como os cegos ou ameaçados de cegueira pelo mal do tracoma, e um asilo para recolher colonos velhinhos, e cuja atividade e energia se tenham esgotado também nos labores agrícolas. Ao artigo da higiene, cujo teor descrevi ligeiramente, segue-se o da instrução. Vocês, que mantém ahi no Remanso uma escola em que, além de leitura, contas, escrita, historia natural e geografia, ainda ensinam a cantar e desenhar, demonstram pela pratica a convic15o ção da utilidade deste importantíssimo artigo. Segue-se a fiscalização. Os feitores ou encarregados, pelos fazendeiros, de fiscalizar o serviço dos colonos, em vez de abusarem das suas atribuições, como acontece eomummente, tratando os trabalhadores com brutalidade e tirania, deverão antes servir-lhes de conselheiros, conciliando as coisas de maneira a estarem todos contentes. (E, ora aqui está, minha Maria, um parágrafo que me parece de uma enorme dificuldade ! Quereis ver o vilão, melei-lhe a vara na mão. Os feitores serão, se não sempre, quasi sempre uns déspotas.) O trabalho. O rendimento do colono dependerá do trabalho produzido ; o contrato deve ser feito de modo a permitir-lhe fazer algumas economias. Contabilidade. O lavrador, além do registro geral da fazenda, terá um outro, reservado ao trabalho e contrato dos colonos, que fará fé em juizo e deverá ser escrupulosamente exato, a ponto de, seja qual fôr o dia em que o colono queira pôr em ordem a sua caderneta, o possa fazer com a máxima facilidade, obrigando-se ele, por sua vez, ao rigoroso cumprimento de todos os seus compromissos. Pagamento. « Os pagamentos devem ser feitos mensalmente. » l 5 l Deixo sem comentário este parágrafo e fico cismando em como poderá o lavrador pagar mensalmente a uma pessoa cujos lucros deverão corresponder ao trabalho apresentado geralmente em uma só época do ano. Tu me elucidarás, se quizeres, no que, de resto, não faço grande empenho, visto que estes assuntos só os estudo por amor de ti. Produtos agrícolas. O colono terá o direito de vender os seus produtos a quem quizer, sem se vêr obrigado a preferir o fazendeiro. Contrato de trabalho. O Congresso federal deverá fazer uma lei que effetivamente garanta o salário do colono, completando o decreto n.° 6437, de 27 de Março de 1907, e formular um contrato de trabalho que sirva igualmente ao interesse do fazendeiro e do colono nas fazendas. O fruto pendente formará a verdadeira garantia do salário e o credito do trabalhador será privilegiado, gozando o direito de precedência sobre qualquer outro credito penhoraticio da colheita. Justiça. No contrato de trabalho será consignada a instituição de um tribunal de justiça composto de homens probos, o qual, por processo sumario, se deverá pronunciar sobre as divergências entre patrões e empregados. O relator estende-se em considerações que não posso transcrever em uma simples carta e I.)2 que melhor lerás no original, se acaso o original te chegar ás mãos. Em todo o caso chamei para os tópicos principais do grande problema a tua atenção, e isso já foi alguma coisa. Ha aqui assimto para meditação. O lavrador moderno tem de ser um reformador de costumes e, para ser perfeito, terá muitas vezes de sacrificar os seus interesses pessoais ao cumprimento da justiça para com os seus inferiores. Alegrou-me, confesso-te, ver expendidas neste relatório idéas que vocês já tiveram, e ahi têm posto em pratica. A escola ao ar livre, por que tanto se interessam as tuas filhas, não é uma bela realidade desse artigo concernente á instrução ? O hospital e asilo para velhinhos c crianças não foi uma das primeiras instituições imaginadas pela tua Joaninha, que ideou até installal-o no pinheiral epie divide a tua fazenda com a de teu genro ? A contabilidade e ordem nos livros em que fiquem bem nítidas e bem expressas as obrigações entre fazendeiro e colonos, não foi uma das tuas mais impertinentes preocupações, tanto que me pediste em uma das tuas cartas que te elucidasse um pouco a tal respeito? A higiene na habitação dos empregados do Remanso e da Tapera não foi também o primeiro assunto da tua fiscalização? l 5 3 Todos estes cuidados estão documentados nas tuas cartas e sinto um grande prazer em reavival-os agora. Tens coração e espirito de justiça, e isso basta para encher de alegria a tua saudosa FERNANDA.