Carta XXXVIII
MINHA BOA AMIGA. Como não me fio no meu poder descritivo, pedi á Cecilia para tirar uma fotografia do meu moinho e ahi lha mando, minha querida senhora, com estas notas a lápis. O lápis é um recurso de que não me sei servir bem, mas que, entretanto, me acompanha por toda a parte onde eu vá, da Tapera ou do Remanso. Este habito facilita-me o serviço como não pôde imaginar, porque, assim, não confio só á memória falivel a intenção ou a necessidade de corrigir as coisas mal feitas com que vou topando no meu caminho. Quem tem uma carteira e um lápis não tem o direito de se esquecer; por tal razão, eu, que sou a distração em pessoa, considero este sistema de ordem verdadeiramente providencial. Creio mesmo que o lápis não foi inventado para outro fim. Graças a ele, escrevo-lhe hoje esta carta do meu moinho, aproveitando um portal 5 5 dor que vai a Pedrinhas com um carregamento de alfafa. Embora a fotografia altere a feição especial das coisas, acredito que esta do meu moinho dá bem a impressão do que ele é. Como poderá calcular, as suas dimensões não excedem os limites de uns vinte e cinco metros quadrados, e esse telhado em ponta, que se destaca sobre a colina e lhe dá um toque de pitoresco, foi, não sei por que milagre, imaginado pelo pedreiro que o fez. A rampa que sobe á esquerda e contorna o moinho para decer á direita, foi riscada e mandada executar por esta sua criada. As arvores que a margeiam são de quaresma, de opulentas flores roxas, que a senhora bem conhece. Por essa rampa suave poderá, se fôr preciso, subir e decer uma carroça para a carga e descarga das sacas de milho ou de farinha; mas o meu modesto moinho prescindirá desse luxo, contentando-se, mais pitorescamente, com fornecer carga para um ou outro colono, ou para um ou outro burrinho da Tapera. A trepadeira que reveste as paredes do moinho é a nossa amiga hera, verdadeiro manto piedoso de pardieiros e muros esboroados. Embaixo, entre as duas rampas, esse amontoado negro de incompreensíveis figuras geométricas l5G é constituído por pcdregulhos em que não qui/ bulir, e cujos interstícios reguei com água. cm que espalhei sementes finas de avencas, fetos c samambaias. Começam a nacer algumas. A parte posterior do moinho, de que mai> tarde mandarei também uma fotografia, dá sobre a cascatinha, que se dcspcnha em uma toalha de um metro de largura c uns cinco do altura aproximadamente, sobre uma bacia natural de rochas limosas e de seixos negros e polidos, serpeando depois em fio até o Pinheiral. Desse lado, em cima, junto á janela do meu moinho, fiz um alpendre de taboinhas para as minhas orquídeas. Meu cunhado classifica-as ;í proporção que eu as recebo do mato. Dentro de pouco tempo poderei assegurar quais as qualidades de orquídeas existentes por toda esta região que nos circumda, e procurarei, instruída pelo meu mestre, criar talvez novos tipos dessas plantas caprichosas e mesmo reproduzir muitas das principais. E' preciso aproveitar os ensinamentos dos bons espíritos e os elementos que as circunstancias nos põem diante dos olhos e ao alcance das mãos. Como vê, o meu moinho é um ponto de recreio, uma nota de poesia para descanso das horas de preocupação e de fadiga. Nem só dn pão vive o homem — disse-nos a senhora um dia, l5? cm uma das suas cartas, e tanta razão dou ao seu conceito, que aproveitei o velho pardieiro, meio arruinado, do monjolinho, para fixar nele um doce albergue para os meus sonhos de menina. O que me falta agora é arranjar lá dentro um cantinho para uma secretária, pois que, como vê, decididamente, não sei escrever a lápis! Recomendações a seu marido e muitas saudades ao Eduardo Jorge. Sua do coração JOANNINHA.