Carta IV Correio da Roça · Capítulo 4 de 54
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Carta IV

MARIA. Eu não te escreveria esta semana se não tivesse lido num jornal alguma coisa que nos interessa a ambas. E não te escreveria, não só porque cada uma das tuas cartas comtém matéria para dez ou doze, obrigando-me a uma certa meditação antes de responder-te, o que não posso agora fazer, como também porque tenho uma data de assuntos a cuja atenção eu destinara hoje o meu dia. Emfim eles não perderão grande coisa em esperar que eu lhes consagre mais tarde os meus cuidados, e vou servir a minha impaciência escrevendo-te á ultima hora estas mal alinhavadas regras, conforme reza o velho estilo epistolar. Antes, porém, de entrar na verdadeira causa desta carta, responderei a alguns tópicos da tua, o que posso fazer de relance, porque aublinho U/J nas tuas cartas todas as frases que me sugerem uma resposta ou uma interrogação. Isto é uma questão de método, que me tem dado bons resultados. Respondendo ao meu conselho de interessar tuas filhas pela agricultura e avicultura, dizes tu: para se plantar batatas e criarem-se aves domesticas não é absolutamente necessária aprender-se Jrancez, inglez, piano c desenho... Confesso que nunca imaginei poder ouvir irromper do teu peito educado um grito de tão mesquinha significação. Em caso nenhum da vida os pais se devem arrepender de terem gasto com a educação dos filhos o melhor dos seus bens; assim como não ha profissão nenhuma que não possa ser exercida tão melhormente quão melhormente é instruída a pessoa que a exerce. O que te deve entristecer é que ás matérias citadas não juntasses a nomenclatura das sciencias naturais, por exemplo. Crê, entretanto, na minha palavra: tuas filhas teriam menos necessidade de instrução se vivessem de valsa em valsa nos salões da nossa capital, do que morando num meio inculto, e onde a influencia da sua instrução se pôde fazer sentir de um modo radical e perfeito. Do que aprenderam nada fica inútil. O inglez e o francez servir-lhes-ão para leituras de revistas, livros, jornais e para se entenderem com os colonos a5 ^ , Í W V W W ^ A Í » i A r f V S í * A A A A / W V - . dessas línguas, se por acaso alguns forem ter a essas paragens; a musica fal-as-á compreender com redobrado sentimento toda a doçura dos sons, dispersos mas concordantes, na harmonia da natureza; o desenho habilital-as-á á apreciação visual das coisas e á execução dos planos e mapas de que tenham necessidade para a formação dos seus campos de cultura, dos seus pomares ou dos seus jardins. Estou certa de que tuas filhas não aprenderam de mais, antes de menos, para o cumprimento da tarefa que têm diante de si. O segundo tópico sublinhado na tua carta é o referente ao péssimo estado das estradas, em uma das quais as molas rijas do teu troly estalaram como cordas de viola nas mãos de um tocador inhabil. E' mais uma despeza com que não contavas, ficando ainda por cima por alguns dias privada de condução. Conheço essa tragédia e o que ela me inspira não pôde ser dito em meia dúzia de linhas. Prometo-te uma longa palestra a respeito das estradas, precisando ouvir antes disso a opinião de alguns amigos, tais como o Clemente, que é fazendeiro em S. Paulo, e o Dalmacio, que o é no Estado do Rio. Ha outras frases sublinhadas na tua carta, a que não posso responder já, porque estou anciosa por beijar os lindos olhos de Joanninha, que se abriam ? 6 meditativos, segundo me informas, ás minhas observações, emquanto que os das suas irmãs se cerravam ao peso do aborrecimento. Está escrito desde Almeida Garrett que n&o ha olhos como os de Joanninha, e com certeza o poeta adivinhou os da tua filha quando descreveu os da sua menina dos rouxinóis, embora os dela fossem verdes e os da tua morena sejam castanhos, trespassados de mel e de sol. Pois aos lindos olhos de Joanninha envio por este mesmo correio, cem pés de roseiras, quatro pés de kakis edoze laranjeiras da melhor qualidade. Lembrei-me que o velho Thomaz, o negro cabinda de carapinha branca, de quem teu marido me falou tanta vez, poderá ajudal-a a fazer um jardim ao lado da casa, ao nascente, entre as águas do córrego e o bosque das joboticabeiras, que mais de uma vez me descreveram também, nos antigos tempos de Botafogo. Quem desdenha a cultura das batatas e a criação das galinhas, desdenhará, pelos mesmos motivos, o plantio da laranjeira, arvore simbólica da castidade e do amor ? Eu preferiria ter desmanchado a minha gratidão aos olhos de Joanninha, enviando-lhes umas cincoenta arvores frutíferas de diferentes espécies, que lhes permitissem fazer um pequeno ensaio de pomologia; mas o artigo do Jornal a que aludi UJ no principio desta carta, e a que tão suavemente cheguei agora, me fez mudar de resolução, pelo modo porque se refere aos lucros que teem dado á America do Norte os laranjais da Califórnia. Só no ano de 1907 esses benéficos laranjais mandaram para mercados estrangeiros nada menos de 4i3.6g6 toneladas de frutas, que encheram 81.640 vagões das vias férreas! E' alguma coisa. Mas não só a Califórnia cultiva laranjais para comercio. Também a Itália o faz e o fazem com lucro Portugal e Hespanha. Sem vaidade, comtudo, deixem-me perguntar : em que parte do mundo a laranja será melhor que a nossa? Posso afirmar que em nenhuma. Nem tão boa. Essas mesmas da Califórnia, que se desmancham em dolars para os seus donos e que são filhas das nossas, sou capaz de jurar que não conservaram no paiz de adoção a doçura nativa. Como talvez ainda não tivesses lido, deixame dizer-te que as primeiras laranjeiras da Califórnia são de origem bahiana. Mandadas do Brazil algumas mudas em i83o, por um americano inteligente, foram nos primeiros anos cultivadas na estufa de um jardim publico da America do Norte, até que uma mulher (repara nesta circumstancia), a Sra. Tibbetts, conseguiu •i8 obter duas dessas plantas, que levou para uma vila da Califórnia, onde morava. E' provável que essa senhora fosse instruída, que pelo menos soubesse, como as tuas filhas, francez, musica e desenho... Estas curiosidades e este interesse só os têm pessoas de certo gosto e educação. Acredita que se a Sra. Tibbetts fosse analfabeta nem visitaria a estufa do Capitólio, onde estavam as laranjeiras brazileiras, nem, se o fizesse, se importaria com elas. Assim, que aconteceu ? tratadas com mimo, essas arvores creceram, frutificaram e multiplicaram-se tão assombrosamente que constituem hoje uma riqueza do paiz. E' triste pensar que se a Bahia tivesse querido, essa fortuna seria dela. Mas a Bahia preferiu e prefere engolfar-se no seio mole e pérfido da política, mecher panelas de eleições, entregar-se de corpo e alma ao palavreado dos seus homens de Estado, a baixar o olhar para a terra prometedora e fértil em que os seus filhos põem os pés... Tanto peor para ela — e para todos nós. Ha ainda uma concurrencia mais tenebrosa a ensombrar o nosso futuro : a dos plantadores da arvore da borracha nas ilhas Malasias, que, instruídos por companhias inglezas, cultivam em grandes extensões de terra plantas 2 9 idas do Brazil, e que ali se desenvolvem maravilhosamente... Não fossem esses ínglezes instruídos e perspicazes, e essa enorme fortuna seria só nossa... Nós, entretanto, nem sequer cultivamos a planta da borracha, nacida ao acaso, para a escravidão de milhares de almas que vivem sob o jugo de uma tirania indigna e estúpida, nas trágicas regiões do Inferno Verde! Emquanto no Brazil toda a gente pensar como tu, isto é, que o lavrador não precisa de inteligência nem de educação, o nosso campo servirá apenas de fonte de riquezas — para os outros. E nada de invejas; não podemos ter senão elogios, não só para os cultivadores dos laranjais californianos, como também para ps plantadores inglezes da nossa borracha nas Malasias... Devo parecer-te hoje soberanamente enfadonha. Voltemos ao nosso interesse: por certo não pensarás que envio doze laranjeiras á nossa Joanninha para que ela comece a atirar para os boulevards de Paris e para os squares de Londres os seus frutos magníficos; tanto mais que eles ainda tardarão um pouco a vir... Acredita apenas que essa dádiva é feita como a celebração de uma data feliz... para a terra brasileira. Eu adoro os laranjais. O perfume da sua dor evoca não sei que horas da minha mocidade, que revivem no meu peito sempre que o sinto. Ha certas noites de luar que me 3 o produzem o mesmo efeito, e quando estas duas circumstancias se reúnem, o poder da ilusão é completo. Dize, pois, á tua Joanninha que não plante unicamente essas doze laranjeiras, que espero se desmancharão em flores para o seu noivado, mas que semeie muitas mais, muitíssimas mais, sem a preocupação de o fazer só em terreno cercado e para uso exclusivo da família. Do Remanso á Tapera, pelos zig-zags dos carreadores, aqui e acolá, que a sua mão generosa e moça plante a arvore que mais do que todas saberá atrair á hora do poente os sabiás cantadores e dará um dia frutos á pequenada pobre dos colonos, que tanto mais se prenderão á terra em que estiverem quanto mais a acharem abundante e maternal. Trata de engrandecer e poetizar por todos os modos a tua propriedade agrícola e não penses nos can-cans da nossa sociedade, cada vez mais enredadora e maligna. Para que desejarás saber se o Rocha se divorciou e se a Lemos casa ou não casa, se, afinal, se o Rocha se divorciar é para tornar a casar-se, embora com outra, e se a Lemos se casar será para se divorciar pouco tempo depois ? Deixa-nos sufocar nas cinzas deste borralho imenso — e tu respira, respira livremente esse bom ar da serra !... FERNANDA.

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