Carta XX
MINHA QUERIDA SENHORA. Imagine que esta noite não dormi, senão lá pelas tantas da madrugada, cogitando sobre o presente que deverei dar á minha Cecilia pelo seu noivado, e terá adivinhado o motivo desta carta! Quero que me elucide e tire de embaraços na questão da escolha. Está claro que os meus haveres de menina solteira não me permitem grande desafogo... Um colar de pérolas ou um medalhão de brilhantes assentariam divinamente na minha irmãzinha, mas nem por sombras posso gozar a idéa de tais liberalidades... De resto, para uma lavradeira, contente de o ser, não sei para que serviriam tais objetos. Quanto á roupa branca, coisa muito da sua predileção e da minha, e que constitui o luxo mais agradável das casas de campo, onde o conforto consiste principalmente na fartura e no asseio, já minha mãi organizou tudo com tal perfeição IOO e tamanha abundância, que não me vale a pena pensar nisso. Dos poucos objetos de que me lembrei durante a insonia a que aludi, e que foi a primeira de toda a minha vida, figura uma série de livros úteis á sua inexperiência de dona de casa: obras que ensinem a melhor maneira de tirar a ferrugem das lâminas das facas, ou as nodoas das roupas; que ensinem a cozinhar com perfeição ; a fazer conservas e a conservar as frutas ; a deitar galinhas ou a tosquiar carneiros ; obras sobre a pomologia, jardinagem, criação de coelhos, modo de fazer óleos ou sabão; obras emfim que se relacionem com a vida do campo, e que sejam feitas para a embelezar e tornal-a divertida. Deixo ao seu critério a escolha da coleção, tão completa quanto possível, pedindo-lhe que a mande encadernar a côr de morango, com letras e frizos brancos, luxuosamente, como se fosse de livros de versos! Se esta idéa lhe parecer ridícula, não sei o que ha de ser de mim; porque a outra ainda é menos brilhante! suponha que me lembrei de oferecer-lhe uma maquina de fazer manteiga! Adivinho que me lê com um sorriso de zombaria, lamentando a minha falta de imaginação e estranhando que eu não lhe encomende antes uma pulseira de ouro (já que não poderia comprar o tal colar de pérolas ou o medalhão de IOI diamantes), ou um leque de rendas, desses que não abanam nada, ou um bronze artístico, etc. Mas não lhe parece que tais objetos se sentiriam pouco á vontade na corbelha de uma noiva da roça, que vai principiar a vida da lavoura ao lado de um marido que, se não tem dividas e é de uma inteligência esclarecida e forte, também não tem uma grande fortuna? Note que nem por sombras me passa pelo espirito a idéa de querer que a minha Cecília oaleje os dedos no atrito da tesoura com a lã dos oarneiros, nem os chamusque no calor do fogão. Ela deve ser instruída nestes misteres, para verificar se os executam bem na sua propriedade, e nada mais. Estamos agora todas entretidas com o enxoval da noiva, e para guarnecerIhe o novo ninho tomei á minha conta os stores da sua saleta de estudo, bordados sobre Unho e filo grosso. Beija-lhe as mãos a sua CORDELIA.