Carta XLIV Correio da Roça · Capítulo 42 de 54
Obra Menu

Carta XLIV

MARIA. Acaba de sair da minha casa um rapaz que eu conheci com ares de tuberculoso e pobremente trajado e que veio agora, rosado c esbelto, contar-me depois de muitos anos de ausência, que tendo conseguido á força de trabalho e de economia comprar uma fazendola, dedicou-se de todo o coração á industria dos laticínios. Segundo o que me disse, a sua fazenda é modelar e representa o ideal de toda a sua meninice. O bonito é saber-se porquê! Ouve lá : Era ainda rapazito de colcgio primário quando viu morrerem sucessivamente dois de seus irmãos. Chamado o medico, declarou este que o motivo da morte fora a infeção pelo leite de vaca mal acondicionado e oriundo, naturalmente, de animais de saúde suspeita. Foi tão profunda a impressão que ele então sentiu, que no fundo da sua alma de criança deliberou que trabalharia para poupar ao menos l65 a um lar a dôr cruel de que via agora preza o seu. Ter salvo ao menos uma criancinha de um envenenamento inconciente, mas nem por isso menos terrível, já seria para ele uma gloria melhor do que todas as outras. E pensando nos irmãos trabalhou, trabalhou calado, reunindo pequenos lucros até conseguir o seu sonho, que é o de fornecer aos hospitais, ás creches, aos asilos e a alguns particulares que o solicitam, leite absolutamente puro e sadio. Os vasilhames da sua leiteria são loiçados; as garrafas de vidro branco têm rolhas também de vidro envoltas por uma capa de borracha que não permitte violações. As suas vacas, nedias e lindas, são freqüentemente examinadas por um veterinário e alimentadas com abundância e com asseio. Por todas estas qualidades tem ele certeza de que esse leite não matará, mas dará alegria e vida ás criancinhas... » Não achas interessante o caso? ! Eeis ahi, minha querida, a felicidade : ter um ideal, trabalhar por ele e realizal-o. Essa gloria vocês a podem definir melhor do que eu, porque a sentem, cumprindo a obra mais bela que é dada á criatura humana cumprir : ensinar, transformar, criar. A carta em que me descreveste os progressos da Tapera, deu-me a idéa de uma resurreição. l 6 6 A terra morta, a terra safara, a terra da saudade e do abandono, rebentava em alegrias c promessas pelo influxo de grandes dedicações e do arrojo de mocidades inteligentes. A escola, cm que á sombra das jabotícabeiras de folhagem miudinha, como a folhagem das oliveiras que na sábia Grécia refrescava da fadiga do estudo os filósofos e os poetas que se abrigavam a seus pés, tuas filhas ensinam as crianças a ler nos livros e a amar os campos do Brazil, dá-me a impressão de algo de superior, que só por si baste para explicar uma existência. Li ha dias que a « estatística prova que o major contingente de delinqüentes é justamente fornecido pelos analfabetos ». Cada espirito que vocês tiram das trevas da ignorância é a probabilidade de um criminoso a menos. Assim, vocês vão sucessivamente cultivando para o bem, terras e almas. E' desses empenhos que os nossos sertões precisam : mulheres que vos imitem, espalhando ao redor de si idéas de beleza e idéas de bondade. Na cidade, cada indivíduo só se oecupa com a sua própria pessoa. Ele é como que o eixo da sociedade em que vive. As suas ambições, os seus projetos, só têm um fim : tornal-o mais rico, pol-o em maior evidencia. Está tudo feito, está tudo organizado; ele não tem senão que aproveitar-se e que especular com o trabalho alheio, modificando*» a seu modo, para o seu contento. Mas no campo, que diferença! Tudo tem de ser feito de um outro modo, desde o principio, no esforço ignorado de um criador pacifico e paciente. O nosso campo é triste. E porquê ? Porque a mulher ainda se não interessou pela sua alegria. Quando é de algum modo ilustrada, vai para ele a contragosto e olha-o com prevenção e desprezo; quando é ignorante, deixa-se envelhecer sem repartir com ele um pouco ao menos do seu idealismo ou da sua piedade. Q_ue lhe importa então, que as classes pobres, lá de fora, sofram misérias fáceis de remediar e ignorem até a existência do alfabeto no mundo? Que lhe importa que as fontes que rodeiam a sua propriedade sequem por falta de sombra, ou que as plantas dos seus pomares não dêem frutos ? Que lhe importa se ha sol, se ha vento ou se ha chuva, se ela tem um telhado a cobril-a e paredes a defendel-a? Ah, se a mulher quizesse trabalhar para a redemção dos sertões brazileiros, que maravilhoso paiz seria em pouco tempo o nosso! Mas trabalhar como? perguntaras. fi Esclarecendo, alegrando, fazendo aos indiferentes amar a natureza, e aligeirando ao trabalhador o cansaço do seu esforço pela compreensão de outros ideais compensadores. Fazendo o que vocês fazem, emfím. l 6 8 Não sei por que esta carta tomou este feilio, tanto mais que nem tu nem tuas filhas precisam que eu lhes diga estas coisas. São desabafos da hora; são transbordamentos do amor e do interesse que tenho por tudo que é brazileiro. E quando penso nisto, lamento não ter vigor nem idade para peregrinar difundindo, como vocês, os meus pensamentos de amor pela humanidade e os meus desejos de paz universal. Riste? Tens razão. Não são coisas novas, estas que te digo, a ti que me conheces tão bem. Não são coisas novas, mas sào amigas v sinceras e levam-te toda a admiração e todo o carinho da tua FERNANDA.

1/1
Menu

Fazer anotação